caderno 1

Não existe entrega definitiva, sem volta: curva e tropeço. O mais ou menos claro/ ou nebuloso, que eu possa ter de quem eu sou atravessa a cruel incerteza de amar para sempre. Se eu me submeto, já enterro o meu sonho, e começo, inadvertidamente, a ser parte do outro…, e, logo / imediatamente eu me pergunto onde estou (geograficamente ou fantasiosamente), numa viagem de muitas chegadas / e tantas despedidas. É justo na NÃO entrega que se pendura o amor. Eu te espero. Não há passivo / ativo, quando o mapa do Eu fica indefinido, vou me transformando em sombra…, sombra aprisionada. Se eu o feri ao me afastar, ao te abandonar, também não deixei de me ferir e sangrar. Eu não me reservei a pior parte, mas, inquestionavelmente, faço parte deste abandono deste poema. Se eu te abandonei hoje, posso voltar amanhã, mas não tenho certeza… Não reservei o melhor para mim, nem o pior: somos parte deste desencontro. Se fracassei em lhe dar apenas felicidade, fracassei comigo mesma no grande amor para sempre (não li os contos de fada, fiquei no pedagógico e mágico momento do beijo). Ao te abandonar eu me senti infeliz com a possibilidade do rancor. E infeliz. A minha ansiedade te atormenta. E te seguir me parece tão pouco! Impasse.

Há um peso no ar, uma dor aguada que o vento leva porque é primavera. Como será ter apenas certezas? Transfiro dores e inseguranças e as palavras se enterram para florir. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2020 – Torres

A vida pode ser adiar… É tanto depois, depois. E o tempo se esgota. Foi assim te amar. Foi para ser depois…

escrevo, tento entender

[…] “vi livros destinados destinados a equilibrar a perna manca de uma mesa; conheci – os transformados ]em mesa – de – cabeceira; dispostos em forma de torre e com pano por cima; muitos dicionários aplainaram e prensaram mais objetos do que as oportunidades em que foram abertos, e não poucos livros guardam, dissimulados nas prateleiras, cartas, dinheiro, segredos. As pessoas também mudam o destino dos livros. […] muita gente queimou livro […]. Haviam- se tornado notoriamente perigosos. Entre eles e a própria vida, as pessoas escolhiam, transformadas em seu próprio verdugo. Livros que haviam sido longamente estudados, discutidos, livros que tinham despertado paixões, compromissos irrenunciáveis, e distanciado velhos amigos, subiam ao céu transformados em cinzas de carvão que se dissipavam no ar. […] As relações da humanidade com esses objetos resistentes, capazes de atravessar um século, dois, vinte, vencer se se quiser, a areia do tempo, nunca foram inocentes.”(p.75-76) Carlos María Domínguez A casa de papel

Assim fazer a tal necessária seleção quando estantes não tem mais espaço e o espaço empoeirado enlouquece se torna o inferno do prazer, não se quer parar, interromper, nem entender. A cada volume o arrepio do tempo, da página lida, e daqueles que ainda, pacientes, nos esperam: hora de reclamar a finitude. Esta doente e incrível e mágica e intensa relação desespera. Não sei onde começa nem termina a relação. É, definitivamente A Linha de Sombra como bem descreve Joseph Conrad. A loucura da leitura e da releitura. Como viajar, passear, na mesma rua, na mesma cidade, no mesmo sentimento. Inacreditável contínua sensação: prazer e gozo. Um beijo se segue ao outro, colado, intenso, lento, e violento, eu me entrego, sem reservas. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres

Je est un autre (Eu sou outra)

La formule de Rimbaud, quel que soit le sens qu’on lui donne, jette le trouble dans l’esprit de chacun, par l’ apparent dérèglement de l’enonciation que’elle produit. Non pas banalement: je suis un autre. Ni, ‘ incorrectement’, je est un autre. Mais Je est un autre. Quel Je? Et un autre qui? […]

L’ inspiration est chose rare. Moins rare l’angoisse qui nous prend devant notre identité, notre nom, ce ‘je’ que je fais mien (et qui me fait moi) dès que je le prononce, et qui me tire provisoirement du n’importe quoi.” (p.7) Avant-propos Philippe Lejeune Je est un autre

ordem desesperada

Ada não tinha livre aceso à biblioteca. […] Nas suas próprias estantes, é claro, Ada mantinha obras de taxonomia botânica e entomologia […] Depois disso, Van punha à disposição de Ada em diversos esconderijos seguros tudo o que ela desejava ler, ou poderia ter desejado ler.” (p.106)

Biblioteca e leituras com sabor, cheiro, gozo: libidinoso pictórico. Não se trata de leitura com letras, mas pintura sonora: o milagre e Nabokov.

Depois que o pobre bibliotecário pediu sua ‘démission éploré’ em 1 de agosto de 1884, romances e poemas, bem como obras científicas e filosóficas, começaram a vagar sem rumo e sem que ninguém o notasse. Atravessavam gramados e passeavam ao longo das cercas-vivas à semelhança dos objetos carregados pelo Homem Invisível na deliciosa narrativa de Wells, aterrissando no colo de Ada onde quer que eles tivessem marcado seus encontros amorosos. Ambos buscavam nos livros o máximo de excitação intelectual, como o fazem os melhores leitores, ambos encontraram em muitas obras famosas nada mais do que pretensão, tédio e falsas informações. Ao ler pela primeira vez aos nove ou dez anos um conto de Chateaubriand sobre dois irmãos amorosos, Ada não entendera bem a frase ‘as duas crianças podiam, por isso, se abandonar ao prazer sem nenhum receio‘. (p.108) Vladimir Nabokov ADA OU ARDOR

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Quando falava muito alto, ela o fazia calar colando a boca na dele,[…] como se ela de há muito fizesse amor em todos os nossos sonhos.” (p.99)

“A ternura arredonda o verdadeiro triunfo, a gentileza lubrifica a libertação genuína: essas emoções não se identificam com a glória ou a paixão nos sonhos. […] Suas vibrações suscitavam o pensamento de que, ao final de vinte e seis passos, ele reencontraria sua jovem cúmplice, cujo delicado odor de almíscar estava ainda preservado na palma da mão – afetando Van com uma espécie de pasmo radioso: será que aquilo aconteceu mesmo?” (p.101)

Ao voltar para nós penso nestas leituras… Enquanto te sentavas concentrado abrindo os livros riscados com minha letra escabelada, rias/lias/concentrado e amoroso, amavas. Biblioteca desesperada por ordem. Conchas e cheiro de maresia, e /mas/ em seguida/ logo o mar nos abraçava, nós nos derramávamos nos olhos um do outro. Ias para as canchas e eu caminhava até a beira do rio Mampituba salgando os pés. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres

importante

O que acontece no mundo importa, e ao mesmo tempo nada, absolutamente, nada altera de fato, alguma coisa interna, nossa; ou enxergamos/vemos ou cegos seguimos Eu/Tu Ele sem alcançar o nós nem o eles. As narrativas se empilham insignificantes. E tanto seria dito em conjunto! As peças estão fora do lugar… Será que antes eu não percebia? Ou será que estamos, permanentemente, cercados/ isolados do real.

Sí nos encerramos en nosotros mismos, hacemos más profunda y exacerbada la conciencia de odo lo que nos sepra, nos aísla o nos distingue.”(p.17) Octavio Paz El labirinto de la Soledad

Para todos, em algum momento, a existência se revela como qualquer coisa, algo bem particular / único, intransferível e precioso. O incrível desta visão segue sendo a impossibilidade que se tem de ajustar ao real/ revelar esta humanidade, este uno/ único que sou Eu para mim mesma. Deixar um rastro. Ou testemunho. Esta conversa da realidade com o uno/ comigo mesma atravessa o outro, o outro será sempre um precipício, um impedimento para ser EU. Incrível dificuldade! Com toda a lucidez nós não nos revelamos, e tudo o que não sabemos de nós mesmos, por mais evidente que possa ser a percepção, a rejeição / a dificuldade, o Inferno como popularizou Sartre segue sendo O OUTRO. O amor ainda é o único precipício possível para um mediano entendimento: somos/ficamos/ estamos cegos no amor. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

Octavio Paz ventilando secretas raízes esclarecedoras e filosóficas.

Preciso pular no abismo para entender o perigo e a loucura, mas não posso ser reticente, a coragem de dizer, de questionar, de impor a visão do agora deve devolver a trajetória. Não de volta ao passado, mas o encontro honesto comigo mesma. Devolver a ideia, colar os pedaços e acertar a imagem segundo meus sentimentos, temerária ou não. Terei coragem de traçar / dizer da memória, resfolegar ou inventar porque apenas dois dias, um momento, uma semana pode dizer/cobrir/recontar certezas certas apenas para mim mesma. Cotejar, reavaliar no que de fato aconteceu…, e o medo domina toda a verdade de dentro e traz para o sol um arco íris, possibilidades. Encontro uma carta perdida/achada, ou guardada num livro. E ponto/pronto/feito ali está a costura daquele sentimento inexplicável.

nas mãos

Horário e rotina, tempo do relógio: um fazer depois do outro a seguir o sol. E a noite salvação / sem culpa. Pílulas multicoloridas, cardápio: televisão (amaldiçoada e necessária), caviar e champagne: fantasia nos pijamas e nas camisolas estreladas, imaginação derramada pelo quarto. Uma volta a cronologia. Os anos 1946 1949, depois 1950 – a tragédia com o voo 099 – Constelation sa Panair – e o luto se estica pelos anos, e não podemos esquecer. O mapa descreve o caminho das dores, das perdas. Posso ver a boneca com a capa vermelha do Chapeuzinho Vermelho, e tenho os olhos bem abertos, sem sono. Se voltamos para a idade. Em setembro de 1949 eu tinha três anos. E a vida se agarra no horário, na rotina, e logo, tão logo na escola. Infância -, lugar sagrado / intocável / definitivo de todas as memórias elásticas da imaginação. A noite, o sono e o sonho depois de arrastar a rotina salvadora, heroica. Escrever fica por conta da transgressão. Hoje começam os debates americanos, ainda quero descobrir que veneno circula, ou qual o pássaro voa tão alto passa pelo céu…Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

achegamentos clandestinos

Quando nos lembramos do que fomos, sempre vemos aquela aquela pequena figura e sua sombra, tal qual um visitante atrasado e inseguro parado na soleira iluminada, ao fundo de um corredor que vai se estreitando por força de uma impecável perspectiva.”(p.91) Vladimir Nabokov ADA ou ARDOR – CRÔNICA de uma FAMÍLIA

Quando nos lembramos do que fomos misturamos alegrias, esquecemos dores maiores. Descrevemos uma ideia precisa de como os pessoas nos viam/avaliavam e lembramos da ternura descompromissada do tempo: deformamos…Beth Mattos – setembro de 2020 – Torres

No curto tempo que fiquei casada com G. tivemos três apartamentos, nos mudamos muitas vezes, e ainda escolhes o sítio Arapiranga para morar, escapando da cidade. Levamos nos bolsos os mapas do que deveria ser felicidade. As conversas eram longas e imprecisas e o tempo foi apressado, a galope nos convenceu: são felizes. De certo somos mesmo felizes a cada pequena etapa, somos felizes um dia e uma semana, choramos uma semana inteira, mas reagimos e recomeçamos a tecer o bom tempo colorido.

As primeiras e frenéticas carícias foram precedidas de um breve breve período de estranhos embustes, de torpes dissimulações.” (p.81)

diário virtual

tu te divertes com teu pequeno diário virtual, eu construo uma obra com meus cadernos, (um sorriso) inédita

detesto este lugar apinhado de fantasmas…e, livros não lidos

estás com medo do remoto presente

desaparecerás no esquecimento do nada: somos um jogo de sombras

como vais conseguir um caramanchão de lilases persas?

escuta as vozes caminhando pela escada, elas acarinham a mãe o irmão o neto e o poder de ter = comunidade adquirida (nova família no edifício)

ao manteres estes escritos esparsos, sem sentido, entregas a alma

ao oriente

esvazias a magia, o sonho, o relógio anda para trás / sentido contrário a te enganar, e se desmancha…

desanimas e murchas quando te dás conta que se esfarela/termina o jogo e não conseguiste tocar na bola

não haverá pirâmide, e nada será enterrado contigo, não haverá depois, e tu segues a me ignorar, e eu te amo, sou real…

em todos os lugares do mundo, os mais remotos, estás presa, acorrentada, carregas pedras, e pensas flores. Não há distante, nem inferno, nem céu…, o que esperas? A migalha que um pássaro esqueceu.

um cavalo selvagem corre de uma colina para outra, resfolegante, feliz, livre e forte, embora saiba que existam apenas aquelas duas colinas… e o danado do tempo / da vida será este ir e vir

sentado na varanda imaginada / encerada tocas o violão, avanças nos acordes, introduzes versos /letras a tua melodia, e ninguém escuta, os festivais terminaram… os anos sessenta e setenta, os teus anos e os meus anos sobem e descem escadas apertadas a imaginar,

impotentes

não adianta o sorriso: sabemos, tu e eu, e temos apenas isso, ou seja nada. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

e se amontoam…

Espiam, mas não dizem nada, conversam (tanto!), e se amontoam: família eletiva! Tudo dito sadio (Deve ser saúde! Doente sou eu a me surpreender.) Eleições americanas, espanto: discursam, escutam UAIIII! E para o senado aquela moça! Voltam no tempo, conservadores…(conserva de pepinos!) Credo! Votar não é obrigatório / saber escolher deveria ser sério, um acaso. As abóboras se acomodam ao andar da carroça… Ainda existem carroças? Ministro da Educação, cego, ou surdo? Ou alienado, ou do time nada importa, não sei, não vi, não julgo. E no cinema, filme de verdade velha: estamos mesmo nus sem mostrar as vergonhas, claro!

1984 – romancista britânico George Orwell – e damos voltas e voltas para dizer o mesmo, a repetir, sem entender nada. Cada vez menos vontade, menos tudo, menos paciência, menos fala, menos palavras, e nada. Estou diminuindo, aquela vontade de ser criança! Ter jardim, muros, bonecas e imaginação! Perdi tudo. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres (já invadida), mas pode ser ônibus, Capina Azul, ou qualquer coisa.

Livro bem escrito / história: agarra a vontade. Incoerente negação: a história do outro, muito melhor… Espio e vejo. Não digo nada, penso tudo. E sigo. Não tomo posição, o que acerto hoje, erro amanhã. Céus!

desordem

Uma palavra explica: desordem… Preciso de vocabulário, e certeza para reorganizar tua expressão, e redefinir. A lógica do distanciamento. Caminho pelos desvios -, incerteza esquisita. Por que acreditei em desenfreado desejo?

A casa perfeita. Escolheste a certa. Pintei as venezianos de cinza, e a porta azul escuro. A varanda, suficientemente larga para as redes, vais gostar. Os cães se acomodaram na fresca dos cinamomos. E as hortênsias começam a florir. Encerei as taboas. Lustrei, numa dança arrastada, toda a madeira. Gosto do cheiro/perfume. Os livro, nas caixas, organizados. As estantes, prontas amanhã. Desta vez, no quarto maior, a biblioteca. Eu te contei da escada de quatro degraus?

Na sala a mesa grande já te espera: papel, lápis, tintas, pincéis E vários recipientes para água, como se fosse um laboratório. Uma porcelana chinesa.

Eu mesma cortei a grama. Podes imaginar o exercício. Não sei por que escrevo estas coisas, suponho que a tua curiosidade transita pela distração, (não pensas em mim como eu penso em ti) Não tens planos.

As fotos chegaram? Estou com os cabelos brancos, sorridente. Encontrei o bom ângulo da alegria. Se aproximares verás o tempo! Sabes o que penso? Uma bobagem este modismo de encher os bolsos do tempo com queixas, exclamações, mas eu não escapo. Fico aquarelando nuvens e vento. Estou a marchar, cega em direção da tal esquisita felicidade. Ontem eu chorei. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres