preguiça espaçosa

Consegui duas sonoras palavras para me descrever. Lenta e preguiçosa. Não dentro de casa, não para o fazer doméstico: faço. Limpo sento levanto, brinco. Carrego coisas de lá para cá: engraçada figura. Subo e desço as escadas, vou ao gramado, e me penduro na janela. Pano no vidro. Espio. Volto para a cadeira. Penso. Sinto frio, depois calor. Aqueço a casa, depois…, pois é, (não fico quieta). Bom que sou eu comigo. A preguiça toma/engole/mastiga, engorda. Leio mais, mas é preciso escrever, fico/estou a me recriminar. Escrever, escrever. Cavar palavras, enterrar outras. É preciso escrever. Remexer, consertar o texto. Reler. Reescrever. No teclado a energia se multiplica, ou deveria se multiplicar. E não se trata de imaginação. O mecanismo não pode parar. Gostei da resposta de uma primo a perguntas formais: como estás? ( perguntei), o que andas fazendo? Bem foi a resposta. Escrevendo…, gerúndio, ação continuada. E a conversa terminou. Correto. Escrever antes de ler, ou depois de ler. Engraçado. Quando mergulho nos livros, escrever pode ser apenas um espelho de citações. A escada. Um processo diferente. Enfim! Consegui… Falar, falar não é possível. Se afundar em conversas não é possível. A cada um seu método. Preciso de silêncio, e empenho. Beth Mattos – julho de 2020. Voltou o frio. Chuva molhada e prazer enlouquecido.  Uma foto? Pois uma foto pode ser mesmo uma conversa. Conversa longa, eloquente, reticente. (risos) Nada substitui nada, mas pode ser um abraço. Uma foto.

Le DÉSERT DE L'AMOUR capa laranja

Jean-Paul Sartre /o tempo

Nunca tive aventuras. Aconteceram-me histórias, fatos, incidentes, tudo o que se quiser. Não é uma questão de palavras, começo a entender.[…] As aventuras estão nos livros […] Eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, basta que nos ponhamos a narrá – lo. E é isso o que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pela histórias de outrem, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver sua vida como se a narrasse. Mas é preciso escolher:viver ou narrar. […] Como se pudesse haver histórias verdadeiras; os acontecimentos ocorrem num sentido e nós os narramos em sentido inverso.” (p. 64-65 e 66) Jean-Paul Sartre – A náusea

Na aventura o tempo passa/voa, “na aventura sentimos o tempo passar – quase tocamos a possibilidade de fazê – lo parar pois tudo está preparado para acontecer a seu tempo, a sua hora como nos casos amorosos. Se eu me esconder num lugar pequeno, mas meu -, acho que pode dar certo.”  [p.190]

Caderno azul: cheio de recortes. Ano 2004

A vida é muito importante para ser levada a sério.

Se soubéssemos como nossas palavras são mal interpretadas ficaríamos mais tempo em silêncio“.

Uma noite acordada, uma foto a girar, um recorte de jornal, a história a ser contada, aos pedaços, e toda agitação amorosa se desloca, inquietação estúpida, onde está minha lucidez? E o céu está igual, o inverno rigoroso (como eu gosto), o verão vai ser quente. Os livros estão aqui, as leituras interrompidas. Os velhos diários trocam de lugar. Eu volto nos anos, depois fico te olhando…e te espero. Faz sentido?

A coerência é a verdade dos imbecis.”

“Não deixes de perdoar teus inimigos, nada os aborrece mais. Nenhum homem é suficientemente rico para comprar seu passado.”

Foi uma noite de migalhas, uma noite encolhida, mas o dia passou cheio e iluminado. Estou forte. Estás forte. Conseguimos, ainda é julho! Beth Mattos (troco teu olhar pelas dúvidas, e as certezas por uma fotografia.) 2020

feira-livre – sábado

Sábado ventoso, temperatura voltou  para o inverno. Os livros seguem espalhados. O tempo amarrado no sono, estou salva! A cozinha ainda me assusta. Vou/preciso reagir, aos poucos: fantasia e fazer. Uma coroa de flores, tão, tão, tão bonitas, as flores! Engenhoso enfeite. Beth Mattos

Lamento nunca termos conversado de verdade. Depois, logo em seguida, fico feliz por estarmos vivos, tu e eu. Depois, lamento não tomarmos café. Logo em seguida, feliz: ainda podemos beber um café juntos. Fico feliz quando lembro dos teus braços. Fico triste porque perdi teus beijos. Lamento que te atrasas no tempo, feliz porque te aproximas. Julho de 2020 – Torres

Vontade de voltar…voltar. Voltar para 1967

Johann Wolfgang von Goethe

Die liebende abermals / Sempre a amada

Por que já te envio de novo outra carta? / Tal pergunta, amor, não se faz assim./ Nada tenho, afinal, para falar – te, que tudo acaba nas tuas mãos enfim.

Se não posso ir, urge que algo te mande,/ Seja o coração toda a te ofertar,/ E o que sofra, me aflige, alegre, encante, / Já que o início ou fim nunca aí se há de achar.

De hoje, não queria nada te confiar,/ Do que aspiro, fantasio, quero, sinto./ De como te busca um coração reto.

Assim estive outrora a te admirar,/ Emudecida. E o que podia eu ter dito? o meu ser achava -se então repleto.

(p.55) Seleção e tradução de Flávio Meurer /Amor, Paixão e Ironia –  Ed. Civilização Brasileira – 1995

IMG_20200404_164453 eu.jpg

  Ana Luiza Job – Elizabeth M.B. Mattos – Heloísa Pegas e Marta Luiza Aranha

– Catálago de Brotos – Cotillion Club – 1961 – Porto Alegre / RS

autobiografia / apenas palavras

As  grafias se espalham a pensar autobiografia/histórias do passado mescladas ao presente desordenado, diz uma amiga ao estimular, com elogio e presteza, a cada novo lote de revelações, eu explico: não são novas. As citações, flores. Flores colhidas, novo jeito… O desejo que tenho/ mas também este, camuflado, mentiroso seria me esconder sem conexão. As vozes desapareceriam, os dias se esconderiam em noite. Noites corajosas. Seriam? Não sei. Às vezes quero o tempo acelerado, outras que fosse infinito. E Este balanço carece do amor, dos amigos, das vozes, do sorriso: este segredo guardado dentro de ti, da tua vontade assustada de viver atropelando o mundo, e os amores, vorazes que pontuaram tua inquietação. Como eu, ainda sonhas. E, fugimos dos fantasmas. Se fantasmas se tornam amistosos e menores? Amistosos sim, menores não sei, tenho/guardo um fantasma que cresce em amor amado  como se possuísse, não apenas o meu corpo, mas a casa inteira, eu repito… Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2020 – Torres

“A Aventura humana jamais é original e exclusiva mas um conjunto de simetrias espaço infinito, contínuo. Mesmice porém estimulante. Repetição com alento.Não existem seres especiais. Abundam sósias, cópias e também caricaturas, […] O que pesa e diferencia é a narrativa da personalidade, as situações criadas ao longo de uma jornada.” (p.18)

Morte no Paraíso – A tragédia de Stefan Zueig –  Alberto Dinis / Morte no paraíso é a biografia de Stefan Zueig, também biógrafo. A reconstituição dos conflitos existenciais de Stefan Zueig e do pano – de – fundo histórico contra o qual eles se desenrolam torna este livro um exemplo perfeito do que certa vez disse o romancista Bernard Malamud: A biografia é uma forma de aprender com a vida. Editora Nova Fronteira -1981

sem título

No mármore quebrado da mesa de ferro eu me inclino para escrever. Sala limpa, silenciosa. Paradoxalmente, o silêncio não chega: o ruído na cabeça e o som dos carros. Ordem, luz adequada: limpeza. As outras peças da casa, tomadas pela desordem. Disponho-me organizar/arrumar a cabeça: equaciono possibilidades. Não, nada farei sem autorização.

Cabelo comprido de menina esfogueada. A leitura adolescente, velhos romances: para sempre felizes, sem rebeldia. Dentro, as velhas injustiças se remexem: o namorado olhou para o lado. Olhar que não olhou. Silêncio. O beijo, as dúvidas se esqueceram/afundam na gravidez. E o cimento cobre madeiras e pedras. A terra se mistura. E a casa surge…

Beth Mattos – Porto Alegre – 2008

insatisfeita

Não sei se posso, mas quero dizer da insatisfação, e do abominável; não compreendo o motivo/o porquê de não ter/ser mordaz e cruel. Estou enjoada com este arrumadinho e engomadinho jeito de ser feliz, ou capa de revista,céus! As palavras podem me envergonhar, chega logo para me explicar tudo outra vez… Beth Mattos – julho de 2020