Orgia boa palavra: com ela me aventuro por/em viagens incríveis e me embebo com beleza: mares, picos, prados e monumentais monumentos. Comidas exóticas e palavras, palavras em diferentes línguas. Intermediada por trens, aviões: máquinas maravilhosas que transportam…, balões. Intoxicar olhos e gestos em abraços e olhares: sentimentos. Agarro o tempo enquanto, atrapalhada, quero te escrever. Responder se faz sol ou venta, se transforma, no engasgo das reticências. E não me perguntes o porquê. Tropeço. Simples assim. E não sei mais se dancei no mesmo baile que dançaste. Chega logo. Beth Mattos – julho de 2020 – Torres
fusão
Se falas comigo, me confundes. Levantas/abres o passado (hoje). Turbulento. Remexes/ acendes inquietações. Anulas decisões, tuas e minhas. A cada tempo seu tempo! Beth – julho de 2020 – Torres com sol e calor num dia verão, morno.
primeira sessão – com desvio
Porto Alegre e Torres se misturavam/misturam no meu imaginário. Eu acabava de sair, definitivamente, da casa da minha irmã. Chorosas as duas, assustadas também. Quantas mudanças fiz, definitivamente. Quando morei no Rio de janeiro, nunca/jamais pensei no temporário. Era para sempre. Quando fui para Santa Cruz do Sul, ou Rio Pardo eu me encontrei comigo mesma. Era para sempre. Açudes, curva de nível, pomar, galinhas, gansos sinaleiros, cães, ovelhas, porteiras, cinamomos. Outro mundo. Para sempre. Não foi assim. Temporário. Perdendo os pedaços. Colando memória. De repente, arrasto malas, encaixoto ou deixo para trás, reduzo seleciono/reduzo. Aperto as roupas, esqueço. A cada mudança enterro um pedaço de vida, uma memória, um passado. Ou a cada mudança um vendaval, um incêndio, uma fumaça tóxica. E deixo para trás tanta coisa, tanto eu, tanto nada… Eu me dou conta do ciclone pelos livros comprados, salvos. Pelos abandonados, e pelos perdidos (lembrei que na biblioteca de Cambará do Sul deve estar o volume 4 do Diário de Anais Ninn, doei muitos livros). E o esforço para reconstruir… Nestas decisões de ir, de arrancar dor e lágrima, de correr a transformar: malas diminuem de tamanho, essencial desaparece, perdi meu rosto de Beth. E também a Elizabeth / a Lisa. O espelho me surpreende. A viagem altera importância, o jogo muda de regras. E Fernando Pessoa tem razão: quantos Eus ! E recomeço. O mesmo tabuleiro, outros ensaiados lances. E não consigo repetir, voltar e fazer certo. Ganhar. Estou sempre a perder. Já não sei se importa ou não importa. Tanta coisa me abafa nestes tempos apertados de cuidar, prestar atenção para não morrer! Estou a contar o dia, a noite, a morte como se estivesse numa partida de futebol, ou numa quadra de vôlei a contar os pontos, numa partida de tênis, um jogo. Qualquer jogo. Uma aposta. Eu sou a finalidade, mas não sou nada… O jogo perde o sentido. A cancha vazia. Não deveria ser. Mas eu não quero ir…, tenho um encontro marcado na rodoviária de Porto Alegre. Quero voltar a Belo Horizonte, voltar às cidades histórias e esquecer/lembrar, abrir um café com estantes de livros. Preciso voltar a Pernambuco, – esquecer o que aconteceu aqui quando Gustavo morreu. Voltar ao mundo mágico de Francisco Brennand, e, chorar um pouco, vou estar feliz em Recife. Os tempos são outros. Celso está feliz com a vida alegre de amar o amor e sua gigantesca biblioteca. Estar em São Paulo que adoro. E ficar no Rio de Janeiro com Valentina… Eu preciso ir a Viamão visitar a Mabel. Também a Florianópolis ver a Marina, e os meninos, que estão adultos: comer bolo feito em casa e tomar chá. Preciso voltar para o mar, e caminhar entre as canchas espiando o jogo, jogar frescobol, quebrar as ondas. E ficar cheia de sol. Comprar um pacote de chocolates no Max, em Porto Alegre, e visitar a Elaine. Não ter medo. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2020 – Torres – talvez vá até Brasília visitar a Beatriz e a Carmem Lícia: os ipês floridos/ coloridos. As espatódeas. Não posso esquecer que Nilton e eu marcamos um encontro na rua Vitor Hugo, 229 – Petrópolis.
frio que ficou…
Frio gelado, a rua, nas curtas caminhadas, nem acho tanto, porque estou super agasalhada, porque pode ser pouco tempo, porque está apinhado de estrelas… Etão viro a quadra em direção ao mar…, céus! Gelado. Do mar vem o frio! Naquele momento respirei o mar inteiro, sim, gelado. Beth Mattos – esqueço de escrever enquanto o inverno caminha: demoro na cama, demoro a cada passo, até nas leituras, demoro: releitura de foto, de bilhete, de longa carta, da saudade
o que não é mais…
O tempo revirou tudo, não, não foi o tempo, nem foi o tudo. O sentimento se fez nó. Ferrolho, stop! Na ponta o limite, e…, depois, outro nó apertado, daqueles que levam anos para se desfazer, ou paciência. Perdi coragem e paciência, ou fui sempre assim mesmo apressada e distraída. Não sei. Com medo. Hoje tão fácil ter medo! Pertinente, adequado o medo. Um jeito de brincar de Estátua, Quantos passos? A delícia de cair na cama e dormir antes de fechar os joelhos. Estava a vida à frente/diante da expectativa. O anos demoravam tanto, e tanto para o importante/ o justo/ o adequado o limite. E agora pergunto, timidamente, como estás? Com medo de receber a resposta. Estamos na vitrine, confundidos com os manequins (reler Cecília Meireles), ah! Nossos poetas! Deu saudade. Que loucura voltar no tempo! Beth Mattos – julho de 2020 – Torres
peste e guerra
Nunca estive na guerra, ou campo de batalha. O sangue a escorrer dos olhos… Mesmo cegos atiraram. Atiraram sem parar. Virulência absurda, parece ficção, mas não é. Querem a guilhotina… Foi promessa. Céus!E.M.B. Mattos – Os ratos saíram das tocas, vorazes. É a peste. julho de 2020
frio frio frio e silêncio
O estranho nesta reclusão é o gigantesco, enorme silêncio. Ele se prolonga: há todas as possibilidade de linhas telefônicas, videos, vozes e risadas, mas o silêncio é/fica/está maior, – fantasma grandão. Casado com o desânimo. Aquele entusiasmo de limpar, ordenar para o depois/um amanhã de alívio desaparece, e se esconde. Cozinhar perdeu a graça, e esvaziar as prateleiras, cuidar da casa uma monotonia silenciosa. Namorar não faz sentido / sonhar? Imaginar, ter ou ser ou possuir: remoto. Agora a chuva. A chuva esperada, necessária…, uma barreira. O vento sacode tudo, mas a água faz música nas calçadas. A janela é o posto. Amolecemos a imaginação em baixo das cobertas. Beth Mattos – julho de 2020 – INVERNO
Dinah Silveira de Queirós e Jorge Amado
Por que citar e nunca dizer? Porque as palavras escapam: tudo dito/escrito ou pensado. Claro! Não esta pandemia a sufocar, interferir, apertar a cabeça. Tortura premeditada (a surpreender), uma gota d’água a pingar. A solitária. Punição de crime que desconheço. Não aprendo a ver nem a pensar o principal/essencial. Este ter desmedido, obsessivo se dissolve em tocar, beijar, abraçar. Estar / não estás. Tanto demoras a chegar! A decidir. Parecia simples e perfeito: rir juntos. Por que não vieste? Beth Mattos – julho de 2020 – Torres – prisioneiros, os dois.
“Ia bem descuidada pelo braço de João Maria, subindo e descendo encostas, vencendo distâncias, de maneira a bem conhecer da natureza da ilha. Na parte oposta àquela em que desembarcamos havia alguns montes, todos com seus cimos de rocha; variavam as cores. Eram uns cinzentos, outros lembravam a ferrugem, e outros muito vermelhos se mostravam, embora todos no alto possuíssem uma touca de neve, brilhante e limpa.
– Logo que fique melhor desta maldita ferida, subirei a um desses cimos, para ver toda a ilha e maus além dela! falou João Maria.” Dinah Silveira de Queirós Margarida la Roque

“Com o seu corpo cobriu o pudor, ela cerrou os olhos. Rompeu a aleluia sobre o mar de Itapoã, a brisa veio pelos ais de amor,e, num silêncio de peixes e sereias, a voz estrangulada de Flor em aleluia, no céu e no inferno aleluia!” Jorge Amado –Dona Flor e Seus Dois Maridos
Escuto a tua voz a ler em voz alta, retomas o ritmo do amor nas leituras que já foram, mas voltam. Tu te escondes. Eu me escondo. Que importa? Eu ainda te escuto.
loucamente
O terreno proibido, a terra demarcada, o sinal de alerta. E interrompo o processo. Criar, ou viver. O talento de dizer: poder. Sou prisioneira do sentimento. Apaixonada. Perdida com a perfeição de Nabokov. Investigo o texto nos detalhes. Chegou a edição L O L I T A, pela Alfaguara, vi o filme, depois nada. Leio devagar, retomo encabula, entendo o porque deste volume não estar nas estantes possíveis. Claro! Tudo me surpreende! O escritor encontra o caminho da transgressão.: “Alguém me contou mais tarde que ela fora apaixonada por meu pai, e que se dera à leviandade de aproveitar – se dela num dia de chuva e esquecer – se de udo assim que o tempo melhorou”. O livro é escrito na primeira pessoa, uma narrativa confessional:” Cresci, menino satisfeito e sudável, num mundo muito claro de livros ilustrados, areia limpa, laranjeiras, cães amigos, vista para o mar e rostos sorridentes.” Alguém resiste a simplicidade, esta precisão e já o verbo crescente. Maravilha! Páginas iniciais. E chego a de número dezesseis:” De uma hora para outro, descobrimo – nos loucamente, desajeitadamente, desavergonhadamente, torturantemente apaixonados um pelo outro; e inutilmente, devo acrescentar, porque aquele frenesi de posse mutua só poderia ter sido mitigado com o efetivo consumo recíproco e a assimilação de cada partícula da alma e da carne do outro; mas lá estávamos nós, incapazes sequer de nos acasalarmos como as crianças dos cortiços logo teriam encontrado uma oportunidade de fazer.[…] Ali, na areia macia, a poucos metros dos adultos, passávamos as manhãs inteiras esparramados num paroxismo petrificado de desejo, aproveitando cada bendito desviou no espaço e no tempo para tocar – nos; a mão dela, semioculta na areia, arrastava – se lenta na minha direção, seus dedos finos e morenos num avanço de sonâmbulo cada vez mais próximo; então, seu joelho […] E o texto avança para a página dezessete assim, segue a desnudar alguma coisa proibida sentida, escondida. E segue: “Folheio e torno a folhear estas memórias desoladas […] Sei também que o choque da morte de Annabel, consolidando a frustração daquele verão de pesadelo, transformou – o num obstáculo permanente a qualquer outro romance por todos os frios anos da minha juventude.” (p.18) Vadimir Nobokov Lolita

panqueca obsessiva
Céus! Café da manhã orgia. Depois, o que posso fazer? Caminhar no chuvisco, dar prazer ao prazer. Tenho a calçada de manhã, de tarde também, antes de dormir, rápido, para olhar o céu… Bom que acordei cedo. Luzes acordam. A chuva se movimenta forte e faz música. Beth Mattos
