do direito de sonhar

O DIREITO DE SONHAR (Fragmento de um diário do homem)

Uma folha que cai dentro da noite é uma recordação que quer o esquecimento? Querer o esquecimento é a maneira mais aguda de se recordar. Um pequeno sofrimento que destacamos como uma folha murcha é realmente prova de que o coração se acalma? Um pequeno sofrimento que destacamos como uma folha murcha é realmente prova de que o coração se acalma? […] Estou feliz por estar sozinho no outono de minha vida? A solidão no mundo é de imediato uma velhice na idade.

Assim, na paz, em qualquer idade, aparece muito regularmente uma referência ao passado, que torna o velho a ser mais jovem. Começa então um surdo diálogo de vozes amortecidas entre tranquilidade e solidão.” (p. 194- 195) Gaston Bachelar O Direito de Sonhar

Volto ao que AINDA precisa acontecer. Em tempo…livros 2 ótima.jpg

 

 

 

 

para chegar mais depressa ao futuro, agarra minha mão…

E não fiques a me dizer que estou deprimida, ou triste! Sabes bem, a energia da vida está numa alegria lá de dentro que alimento com amoras, biscoitos e leite…

“Eu fiquei pensando que as dores se separam em beliches, e se concentram, e quase se escondem, como se fossem conspirações, porque os homens entre si se separam; e os homens entre si se separam porque cada um de si mesmo se separa.” (p.48)


“A mim o que mais fere, o que mais dói são os equívocos que vejo no mundo. essa é a minha tristeza dominante: uma exasperação do senso do ridículo. E só quem já viveu essa experiência é capaz de avaliar a dor aguda, penetrante, glacial, que permanentemente me faz companhia. Falam de um inferno de fogo; eu penso às vezes num inferno de gelo.” (p.49)

É bom ter ponte entre o que penso e o que outro alguém pensa / escreve e expõe: “estou visitando o passado, para chegar mais depressa no futuro”, embalo tuas palavras, estremeço, e eu quero que me cuides para te esperar… Oxalá prestes atenção! Escuta com atenção, por favor, estou a te dizer o quanto te gosto, meu amigo. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

“- Se alguém nos perguntar ‘aonde vão?’ nós nos calaremos. Querem que eu diga, com voz de menino, que vou correndo em busca da felicidade? Essa ideia de criança ficou enterrada no último buraco que fizemos no fundo do quintal.” (p.79) Gustavo CorçãoLições de Abismo

abismo

Não abismo, mas poço.

Acidente incompreensível.

Estou a pensar, e agora?

Por que me fiz/deixei/sou isso?

Penso no que não tenho: nenhum direto, nada.

Teu silêncio cheio de palavras.

E som atordoante!

Tanto! …, hoje voltei a conversa.

Estupefata com a timidez cruel de tudo que te escrevi, e já te perdi outra vez.

Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

rua vitor hugo 3

 

Guido Piovene

cartas

[…] “A moral fanática da clareza interior não é útil à arte ao combater e destruir o mundo dos sentimentos, que quando ela intervém parecem todos fictícios, não porque o sejam, mas porque julgados segundo uma norma estranha que os fez parecer ilusões. Mas aquilo que escrevo tem motivos até mais graves que as razões da arte.

Nós homens modernos, não podemos aspiras à estupenda ignorância de algumas zonas perigosas do ânimo, que garantia a vida dos nossos antepassados. Somos obrigados à agudeza. Exatamente por isso, é necessário moderá – la continuamente com um piedade cautelosa, com um caridade voluntária, que impeça a agudeza de nos dominar totalmente e se tornar uma paixão e um vício.” (p.10) Guido Piovene Cartas de uma noviça

Cartas/missivas ou epístolas, ou bilhetes, importam. História ou confissão. Poucas, ou duas palavras apressadas. Penso em ti, ininterruptamente, sem parar, sem parar desde…, o que importa? Não estares nos bailes não impediu de termos dançado por/em lugares inusitados. Sempre e tão  perto um do outro! Tua história se colou de tal forma na minha não-história que se prolonga… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

 

prisão

Complicado chegar perto de ti! Maluca esta prisão! E tão estranho eu não poder ter certeza, ou… Não sei o que quero dizer, tens razão. Os recursos e os muros e as dúvidas, e as palavras aprisionam. Agora o vírus se alastrou… Tenho febre ao acordar e ao adormecer. Não posso dizer ou falar. Assim sentir/pensar ou adoecer, um veneno. Penso em ti, não consigo me livrar… E não tem vacina, ou modo / ou jeito de expelir, jogar fora, ou esquecer. Nada modifica a sensação premente, a carência, a loucura. Tu entendes meu corpo, apenas tu sabes o que digo sem dizer. A experiência foi avassaladora. Eu te pergunto: fomos nós que nos excedemos ou a idade nos transtorna, limita ou enlouquece? Coloquei no plural, mas talvez seja eu, apenas eu a te querer e te chamar… Eu quero te dizer tanto e tudo! Não querias / não podias ouvir. Tanta pressa! Urgências e tuas prisões, ou eram certezas. Tua resiliência! Eu compreendo sem compreender. Perigoso ultrapassar o limite. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

” […], cada ‘amanhã’ parecia um futuro suficientemente distante e completo em si mesmo, era por assim dizer como se ela entesourasse os dias da infância, não querendo perder a riqueza individual de cada um.” (p.173) Aquele dia Inesquecível  James Hilton

Rua Vitor Hugo, 220 Petrópolis – Porto Alegre – rio Grande do Sul – 1940

A HERDEIRA

O cuidado excessivo é tão prejudicial quanto um grande descuido.” (p.76)

Primoroso desenho do caráter e da convicção. Reli com a mesma avidez de 1984. Fatiados desencontros. Amores amados.

Odeia – me, disse Morris, que desejava imensamente arrancar a Catherine um gesto de paixão que lhe permitisse ter esperanças.

Não, não o odeio. O ódio não dura tantos anos, há contudo outras impressões que perduram, quando são fortes. Porém não quero falar mais.” (p.208) Henry James  A Herdeira

Cada livro/leitura possui um impacto recorrente, e diferente. Lembrei do noivo Antunes. Quanta mágoa, por tanto tempo! Bobagem! Quanta vida vivi depois, maior/melhor ou pior / outra! Quanta lágrima, e depois boa risada e alívio! Nunca voltou para explicar a loucura daquele noivado festejado, foi levado pela mão pelo pai Leocádio como um menino desobediente. Tanta coisa ridícula e teatral nesta história montada com pedido formal de casamento e outra, mais formal ainda de rompimento: o pai do noivo  protagonizando a cena. Céus! Palmas ao senhor  repelente Leocádio Antunes. E aconteceu em 1967. Noivos ou noivas, simplesmente, desaparecem. Este romance de Henry James foi escrito em 1881. As cenas se repetem… Eu que não sei escrever histórias. Ler sempre, caminho de voltas iguais. O bom da vida? Os encontros agora / hoje. Café na rodoviária. Sonhos e pastéis. O vinho. Risadas sem epidemia. Céus! Envelhecer significa tanto e tanto!! Precisa ser diário / agora. Viver, mais do que nunca respirar e voltar, mas ficar! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres (retomo velhas histórias nesta terapia)

[…] ” o famoso stream of consciousnes (corrente da consciência), mais tarde levado a extremos por James Joyce em seu Ulisses, é constante: os indivíduos nunca deixam de discutir detalhadamente o que acontece em torno deles, até os acontecimentos mais banais.” Coleção Grandes Romances da Abril Cultural

branco e preto na mesa

anêmonas / “Esboço de um Passado”

Penso memória / lembro / imagino anêmonas: coloridas, frágeis e sem perfume: amarelas roxas vermelhas azuis. Na pequena leiteira inglesa, ou naquele bojudo vaso miniatura: efêmera, preciosa reminiscência.

É de flores vermelhas e roxas num fundo preto – o vestido de minha mãe: ela estava sentada num trem ou num ônibus, e eu estava no seu colo. Eu via, portanto, as flores do vestido que ela estava usando bem de perto; e ainda vejo o roxo, o vermelho e o azul, creio, contra  o fundo preto; acho que eram anêmonas. Talvez estivéssemos indo para St. Ives; mais provavelmente – pois, pela luz, devia ser noite -,estávamos voltando para Londres. Mas é mais conveniente, sob o ponto de vista artístico, supor que estávamos indo para ST. Ives, pois isso conduzirá minha outra recordação, e na verdade é a mais importante de todas as minhas recordações.” (p.76)

Já tínhamos nos mudado para a rua André Poente. Tânia e Renato já estavam vivendo em Paris. E a mãe tinha quebrado o braço. Suzana se ocupava da limpeza, e eu das refeições, o pai se orgulhava: tudo funcionava.

Uma das esquisitices deste envelhecer: tropeçar em autoras / autores (os preferidos, é claro) que trazem de volta lembranças espalhadas no prazer de ler/escrever/pensar e respirar. A leitura com mágica, e a escrita no picadeiro iluminado. Gosto.

Se a vida possui uma base na qual se apoia, se é uma vasilha que se enche, se enche e se enche – então minha vasilha sem dúvida alguma está  boiando sobre esta recordação. A de estar deitada, semiacordada, semiadormecida, na cama de nosso quarto em St Ives.” (p.76) Virgínia Woolf Momentos de Vida – Um mergulho no passado e na emoção

Se a vida tem memória, posso voltar até a casa da rua Vitor Hugo 229, em Petrópolis. Magda, Ana Maria e Nádia estarão comigo. Correr. Subir nos muros, ou arrastar as bonecas, depois largar tudo, e, pegar as bicicletas, mesmo sem freios e pedalar pelas calçadas, vamos para o clube Petrópolis Tênis Club explorar as piscinas. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

P.S. Bonecas se misturam nas correrias. Gostava delas tanto quanto de dançar.

Morosidade

Morosidade inquietante. Morosidade interna que invade o corpo / derruba o ânimo, e a rotina. Perigo encaixotado. E a loucura força, insiste, depois derruba. Não consigo segurar a intenção, nem a voz, nem a dor do corpo, e a certeza escorrega pegajosa.

Nem a leitura, nem a luz, muito menos o silêncio, acalma. Um pouco o desenho porque nunca quero acertar, o lápis vai sozinho… Então, o desenho me afronta, e me acalma.

Não quero escutar as vozes, não quero ver a luz, nem cantar/falar, muito menos murmurar, mas eu ouço e sussurro. Elizabeth M.B. Mattos – 2020 – março – Torres.

o segredo

Um segredo muito simples: o amor. Tudo o que nos fascina no mundo inanimado, os bosques, as planícies, os rios, as montanhas, os mares, os vales, as estepes, e mais e mais, as cidades, os edifícios, as pedras, ainda mais, o céu, o pôr-do-sol, as tempestades, e muito mais, a neve, a noite, as estrelas, o  vento, todas essas coisas, em si vazias e indiferentes, enchem -se de significado humano porque, sem que o suspeitemos, contêm um pressentimento de amor.” (p.127)

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Compadeçam – se: é exatamente isso. Sem que saibam, o chamado subsiste mesmo naquelas carcaças ainda cheias de vida; elas tem sessenta, setenta, oitenta anos, são senhoras honestas e respeitáveis, morreriam de vergonha se pudessem imaginar o que as leva de cá para lá no mundo. No entanto, se nas viagens não houvesse aquele vislumbre romanesco e inverosímel, jamais se animariam sair de casa. Perambular de fronteira em fronteira, de hotel em hotel, tornar – se ia um verdadeiro suplício.“(p.129)

Dino Buzatti Um amor