voltar

esquecer, sair da realidade real

a chuva chegou forte, boa

e o frio, e o vento, e o cheiro: diferente…

preciso voltar para dentro de mim,

correr atrás de quem sou,

com pressa e decisão.

Escutar escutar escutar, atordoa (epidemia, reviravoltas, e o mesmo).

Quero ser eu outra vez, apenas ser eu. Estou tão cansada!

Beth Mattos – abril de 2020 – Torres

intrigada e triste

intrigado

Sentou na poltrona em frente a janela…, ficou a me olhar intrigado: não era quem esperava que fosse, afinal, era apenas eu. Estendi o livro de Pamuk, O Livro Negro. Abriu aleatoriamente, eu lhe disse: “O amor é uma procura”. Página 109. Nem te amo nem deixo de te amar. Estamos a pensar e a procurar, e no meio deste caminho, igual, preciso do teu beijo abraço, abraço com beijo, e tu precisas do meu beijo abraço. E sussurrando continuei: tu vais me perdoar, eu apenas me apaixonei, e é tão tarde! ElizaBeth Liza Eliza Liz  Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2018 – Torres

jasminssssssssssssssssssssssssssss

Confidência de 2012 a 2020

Estranheza, inquietude. Movimento. Angústia agitada da saudade! A melodia trabalha nas entranhas. Longas cartas! E eu te sento tão meu! Depois perco o jeito, o coração  aperta. Sigo. Ao seguir o jeito de olhar reflete desgaste, empobrecimento, desencanto. Em nenhum lugar estás.

Revisitação! Onde está o meu amado?

Emprestamos a vida este tom confidencial dos amores! Fica-se a contar o desejo, um querer isto e aquilo em lista interminável! Amar-te, Como exigias por escrito num português correto. Projetos possíveis, tão impossíveis! O reconhecimento desaparece: não sei quem és. Desconhecido neste mundo banal que habito: resta uma nesga de luz daquele olhar manhoso. Estrangeiros.

A queixa, o cheiro indesejável, o movimento de ir e vir das pessoas que afinal nos rodeiam parecem tão inútil! Eu te pressinto enquanto vemos um filme de horrores, naquele cinema acanhado, numa cidade deserta. Ansioso! Dar lugar aos que devem por direito ocupar o banco em que estás sentada… Este é o exercício final. O corpo dói. Costas, pernas, pé, mão, até os dedos doem. Já não podemos mais fazer de conta que teremos tempo, ou fechar os olhos e deixar de lamentar. Qualquer movimento seja pedalar, andar, dançar, nadar, experimentar parece tão sem sentido! Porque as pessoas que importam não estão mais aqui, não existem. Este sentimento é a insônia permanente que assoma. Sem fome, sem sede, mas despertos noite e dia. Despertos. Atentos. Nada que não se resolva com um comprimido, mas nada que possa desaparecer, porque amanhã de manhã, ou de tarde, ou perto da outra noite estarei com estes mesmos sentimentos ativados.  Na angústia de ter afinal me esquecido de te amar! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres, não quero brincar de esconde-esconde, quero comer pizza, cachorro quente beber coca-cola, encontres as flores acidentais, num jardim planejado , num lugar descuidado.

 

bang-bang

Dia sem data, sem enfeite, sem bastão. História abarrotada de estórias…Fantasia colorida, enorme e poderosa. Estou a me estranhar na lembrança embaçada. Irritação sem borda, um mar muito maior, muito maior. Sem margem. Estorias amontoadas: os quadrinhos, as nossas revistinhas, e a água quente, aquecimento, refrigeração e excesso de informação! Poder americano familiar…, vamos lembrar. A pensar em tardes de matinée com filmes de faroeste. Se eu pudesse definir o volume do meu grito! ElizaBeth Mattos, ainda abril de 2020 – Torres

 

atrasado, este azul

Acorda manso, o domingo.

Atrasado para o azul,

assustado pela inquietude atordoada de tanto sono.

Sono pesado, agotado e turbulento deste sábado,

sexta-feira surpreendida e definitiva,

com cores do Brasil.

Não pode ficar assim,

não pode ser café com leite,

nem varrer e varrer, nem lavar com tanto sabão.

Suco das amarelas laranjas,

manga a escorrer de prazer, colorido com vermelho e riscas…

Limão. Gosto definido do limão! Muito verde.

Quero cerejas.

A receita das panquecas não é nova, nem as luzes destas lamparinas.

O domingo escorrega, esfola joelhos, sacode braços agitado.

Elizabeth M.B. Mattos – abril – Torres

anais 2

 

DES MORO NOU…

Água pedras ventania e loucura, desvario. Terminou. Terminou antes de começar. Loucura total. Loucura! O que vai sobrar?  Um dia que o Brasil se quebrou como uma janela estilhaçada… Somos nós as testemunhas do grito de guerra! Elizabeth M.B. Mattos – 24 de agosto de 2020 – sexta-feira – Torres – Porto Alegre – Brasília – Rio de Janeiro – São Paulo (…,todos os torpedos atingiram o alvo, estupefata! estarrecida!)

desmoronar – VERBO
  1. transitivo direto e intransitivo e pronominal
    pôr ou vir abaixo, fazer ruir ou ruir; desmantelar(-se).
    “d. uma fortificação”
Semelhantes :

abater

aluir

arruinar

cair

ceder

derrocar

derruir

desabar

tu

je sais que tu es là, je sais qu’ il est trop tard

o terror de ser homem. de ser eu como eu sou passa por estar envolvida, embrulhada no conceito de vida, no conceito da vida do outro, na imaginação do outro, e neste afã de agradar/participar nos corrompemos / e fazemos até o que não sentimos, no fingimento de ainda amar/ te amar/ te amar tanto!.

a única coisa que não muda em mim é o meu passado. o passado costuma ser estável, está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre. Tu, Tu como tu és no meu sonho, como tu foste na minha vida é ficção, não existe. Tu, tu como te sonho é sonho…………………………….., sonho / sono pontilhado e insone. Não compreendo. Um amontoado de pequenas mentiras, não tuas contigo, minhas comigo e também nossas. Afinal, não existimos. Estás na tua vida, estou na minha vida, e não temos mais tempo para esta bobice toda de apaixonar. As marcas.

Lembro quando Jorge me comprou um Santana em 1988 / carro lindo com um pouco de verde na cor, como meus olhos, tirou da loja/zero. Pobre Jorge! Adorava carros! Eram prazer e inferno e nós tínhamos os seis filhos (os dele, os meus e a nossa) em casa, e todos exuberantes na alegria e disposição. Em muito pouco tempo o carro bateu quatro vezes! Uma na minha mão. Que loucura! Numa das vezes Marcelo Coufal estava em Santa Cruz do Sul para disputar um campeonato de golfe (tirou terceiro lugar), e  pode me ajudou a encaminhar as coisas/ resolver com mecânicos. Com tantos filhos a vida poderia dar/ter estes giros e sair toda do lugar em acasos desastrados. Jorge tinha ido para Rio Pardo passar um tempo…, como se não acompanhar estas travessuras do/com o carro pudessem ser “não acontecer”. Como  tudo se mistura numa confusão de referências. Onde estavas nesta ocasião? Não no campeonato de golfe. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

perto

desenho

Estou perto, bem perto da serenidade. Como aconteceu o impossível? Horas extras de sono, almoço organizado, tarde escondida num filme qualquer, numa ideia. A japonesa  ensina arrumar, especial… Ainda não terminei, mas dei dois passos: as roupas, eu gosto, não gosto, importa, não importa, e tudo muito perto da limpeza do olhar um para outro, do fazer juntos. O amor se arruma assim, juntos. Escolhas são futuro. Caminhei muito pouco. Não liguei notícias, não sei se o mundo melhorou, sei que vai mudar, muito, tanto! Um registro pequeno. Decidi (por agora, agora, um pouco, talvez…, decidir difícil!) que preciso voltar, e voltar precisa de letras. Beth Mattos – abril de 2020 – Torres

Ninguém mais recolhe pedras, ou já levaram todas, não sei.  Nem existem coloridas, mas formas, texturas, bonitas e… Devem existir. Sou do tempo de colecionar tampinhas, botões, caixas de fósforos, vidros de perfume. E agora este descartar urgente. Céus! E ninguém me escolheu, ou eu não vi…Quanta estranheza se amontoa!

esbarrando

Estas últimas cartas: memória saltando das páginas, das letras. O esbarrão na juventude de ser eu e tu, tu e eu a caminhar até o Farol naquela Torres mansa de 1964. Tudo ainda poderia ser diferente / outro futuro / outro hoje. Não lamento, não lamentas, fantasiamos  agora / nos esbarramos / e pensamos em outras vidas, outros poderes, outra música, outras cartas, outro jeito de amar. Outro eu, outro tu. Quem sabe um nós dois? Beth Mattos – abril de 2020 – um beijo meu querido – ainda em Torres

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a casa

Costumo pensar nesta casa como sendo um barco. Um velho navio a vapor cortando a custo o rio lamacento. A floresta imensa. A noite em volta. E os livros…, estão cheios de vozes. Eu espero uma carta, um tempo de ancorar. Há de conter teu amor, revelações, e sustos, talvez o medo que por estes dias as pessoas transpiram, respiram. Abro tua carta, e logo vou para casa. E lembro o passado. o nosso. Tão carentes de um bom passado andamos nós todos, e em particular aqueles que por esta triste pátria nos desgovernam, governando – se. Obrigada por estares comigo na lembrança da rua Vitor Hugo, 229 – Petrópolis da infância e juventude. Beth Mattos – abril de 2020