Três filmes…

Três filmes, dois dias. O novo se esconde em velhos temas… Tudo mais o menos o mesmo, ou não conseguimos ver/olhar. Fico/estou estacionada. Bom! O cinema chegou, e o dia se esconde num jeito bom de passar… Beth Mattos. Não quero mudar o rumo. Seguirei: eu comigo, tu contigo. Não sei se corto os cabelos. Se corro ao teu encontro, ou se me deixo ficar. Preciso escrever mais e mais depressa, e ir mais e mais longe. Descreves personagem, derramas tua fantasia: gosto. Sinto saudade do cheiro e do abraço.

 

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O que fazer com a beleza? Você a admira, a elogia, a embeleza (ou pelo menos tenta), a exibe; ou então a esconde.

Será possível ser dono de algo supremamente belo e não querer  mostrá-lo aos outros? É possível, se você tema a inveja deles, se você teme que alguém virá tomá-lo e levá-lo embora. Alguém que rouba uma pintura de um museu ou um manuscrito medieval de uma igreja tem que mantê-lo escondido. Como o ladrão deve se sentir despossuído.[…] Você sorri. Sim. Ela é absolutamente maravilhosa. Maravilhosa? Ela é muito mais do que isso. O que é a beleza sem um coro, sem os sussurros, os suspiros, os murmúrios?” (p.138-139) Susan Sotang  O Amante do Vulcão

Escrever e dizer e ou pensar, gritar tem este efeito do espetáculo. Uma mulher / um homem são belos ou perfeitos, ou essenciais na medida / proporção em que outros homens, outras mulheres também concordam e vejam/digam e sejam essenciais.  Tanto já foi exibido! Muito a ser reservado. E nos escondemos nos mosteiros, nos jardins para entender o outro lado. Este invisível também é / ou pode ser o belo. As vestes dos sacerdotes, as cabeças raspadas dos monges, a roupa ou a nudez são representativos. O poder pode ser o não dizer, não manifestar, não estar. Gosto. Elizabeth M.B. Mattos –

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Alberto Giacometti

Escreve  Jean Genet: ” A propósito dos quatro grandes desenhos da mesa. Em certas telas (Monet, Bonnard…) o ar circula. Nos desenhos de que falo, como dizer… o espaço é que circula. A luz também. Sem nenhuma das oposições de valores convencionais

– sombra – luz -, a luz irradia e alguns traços a esculpem.” (p.64) 

Leio e vejo  Alberto  Giacometti, o escultor. Penso no fazer de amor, de doar, e  no de querer se encontrar. E também penso nas pequenas parcelas… Penso na voz. Quero tanto! E preciso e desejo, mas tudo me escapa. Sabes o que eu gostaria mesmo de ter de volta? Aquela energia toda de empilhar livros necessários/não lidos. Alimentar crianças, e rir toda/qualquer hora. Sorrir desta felicidade cheia de beiradas fluídas e soltas. A se desmanchar… Já se escreveu sobre isso. Já se escreveu sobre tudo. Já fotografamos tudo, respiramos. O calor se desmancha no vento desta chuva prazerosa. As queixas se foram…, engraçado! A calçada está molhada, fresca e silenciosa.  Porque já começa o segundo dia de janeiro. Ontem os foguetes a pipocarem no ar, hoje silencio. Necessário e grande silêncio. Não sei como te explicar. De amar, de amar muito e tanto porque pode ser inúmeras e repetidas vezes, a mesma pessoa, o mesmo, e também o desconhecido, aquele que veio depois, e ainda, preciso te dizer, amar aquele que não chegou. Quero que sintas.

Marcou comigo na rodoviária, íamos nos encontrar, mas não foi, ou não fui, não aconteceu. Não nos tocamos, não não nos vimos, mas eu te digo, minha filha, nos amamos… E porque temos vida e dores e desencontros amamos descabelados, desavisados assim mesmo, quase sem pensar. Oxalá tenhamos mais vida! Para toda a vida! Hoje! Mais vida. O que será toda vida? Dependência? Calor, certeza? Não. Somos passagens. Como disse meu amigo, há que comparar os tempos de agora com o agora, o primeiro baile só na memória, como o primeiro amor… Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 no silêncio, tanto silêncio de Torres. E frescor.

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Jean Genet

São estes fragmentos de vida que importam, não a vida inteira. O meu soluço importa e o desespero também. Tua energia. Foi tão rápido, tão perfeito, tão intenso! Chegaste! Acompanhaste as caixas.  Lembras? Eu transplantada. A viagem, e a volta. Empilhada, agastada, incoerentemente, triste e feliz. Agora não tinha/não tem outra volta. Estou. Empilhadas tantas e muitas caixas! Sabias do definitivo, da desordem e da libertação. Tenho certeza que estavas a me sentir. E sabias deste novo amor.  O nosso amor um pelo outro, escondido, atrapalhado, mas nosso. Os dois atados ao passado consequente de ser quem éramos, não quem somos hoje. Havia uma perda / um alguém que não começou, apenas terminou na minha voz, mas estávamos os dois presos / ancorados um no outro. E tu falaste / falaste… Mas não quiseste me ouvir. Resiliência. E o que eu faço? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres sem histórias para contar, ainda enxugo as lágrimas com o gosto certo de que agora, já é tão tarde! Todas as partidas são/podem ser festivas se eu pensar nas muitas/tantas chegadas! Quem sabe nós ainda nos espiaremos gulosos?!

O ateliê de Giacometti

“Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, se não terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não só recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando – se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente.[…] É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo anda mais insuportável, pois parece que esse artista soube afastar o que perturbava seu olhar para descobrir o que restará do homem quando as máscaras forem retiradas.[…]”

20200101_003837Retirar a máscara e ser,  exatamente, como eu sou. Não será possível? Sou as escolhas imperfeitas, os avanços inúteis a carregar a timidez mentirosa? Ou apenas caminho às cegas? Equívocos e outros equívocos. Medo e tanto medo! Um dia afirmaste que foste reduzido a uma frase. No entanto a minha lembrança tem sensualidade e perfeição e, certamente, paixão.

Despreparados, não assumimos nada, nem mesmo a rebeldia. Eu já tinha três crianças. Era este o “mundo visível” e a nossa juventude. Perdoa / desculpa. O amor numa bolha. Dei as costas e desapareci. Como se, em algum momento,  fosse possível desaparecer da vida de alguém! Submergir. No mergulho me arvorei o direito de ser outra… Outra história. Outra graça.

Este ano será cheio de pares e olhares, e mãos a se tocarem, sim. Tu não vieste me ver em Torres em 2019. Terminou. Por que eu perguntaria ou correria a te buscar/ insistir ou ou desejar te ver 2020? Um enorme vazio se caracterizou / avultou.

Uma pequena escultura de bronze. Talvez eu pudesse pintar um quadro, moldar argila, pudesse ser artista em todo o meu tempo. E tu poetar, ou esculpir. Tímido te aproximarias, sem compromisso, mas todo envolvido… Eu posaria despida / sem pudor. Farias uma escultura. Ou tela com aquarela,  um óleo, ou apenas um desenho. E tu me reconstruirias, tu me reconstruirias…

“A beleza tem apenas uma origem: a ferida, singular, diferente para cada um, oculta ou visível, que o indivíduo preserva e para onde se retira quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda.” (p.12)

Um rosto vivo não se entrega com tanta facilidade, no entanto não é preciso muito esforço para descobrir seu significado. Creio – estou arriscando -, creio que o importante é isolá – lo.“(p.21)

É, portanto, a solidão da pessoa ou do objeto representado que nos é restituída, e nós, que olhamos, para percebê -la e sermos tocados por ela, devemos ter uma experiência não da continuidade, mas da descontinuidade do espaço.” (p.22)

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…perder a referência do sonho, ou desanimar, fraquejar. Começo do processo de suicídio. Não posso tudo. Os sonhos se reviram. Desmaios! Desfeitos, desaparecem! Cansaço pesado. Não vou esperar. Não quero. Se eu morri, tu também desapareceste… Não vai acontecer nada no mundo. Apenas não estaremos mais lá. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 20202017-05-24 11.41.05 (2)

sem nome / sem título

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“A pintura de Pierre Bonnard é limitada ao leste pelo impressionismo, a oeste pelo nabis e a arte japonesa, ao norte por Toulouse-Lautrec e ao sul por Henri Matisse […] Ele pinta fragmentando os planos em pinceladas que lembram os impressionistas […] Bonnard é, de todos os modos e sobretudo, um pintor da cor e da luz. Mas a sua cor e a sua luz não são as que entram por nossa janela matinal. São uma invenção da pintura que, nesse caso, tem o nome de Piere Bonnard.” Ferreira Gullard  Relâmpagos

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Deveria ter começado a escrever mais cedo. Vida de fazer  num ir e vir ranzinza; quase compulsão, quase alguma coisa que não sei explicar, mas me impede / barra / interrompe o fluxo / o verdadeiro trabalho. Os afazeres domésticos se colocam em prontidão. E não posso dizer perfeito, fica do jeito possível. Perfeito no limite justo do possível.

Dias preguiçosos, ensolarados, os teus. Também os meus, são povoados. Arquiteto, penso, volto, refaço: cuidar da casa, do corpo preenche o tempo. Os músculos se movem e me entendem. Penso na xícara de chá, biscoitos e gentilezas gulosas. Penso nos netos, esqueço de te pensar.

A confessar! Estar/desenhar/ imaginar e me plantar nesta vida praiana foi querer bem meu… A moça carioca com gosto de decepção se armou livre, alegre, disposta e feliz, em direção ao litoral. Ao trabalho! Por que não usaria a palavra feliz?

Agora este jeito de ler entre preguiçoso e minucioso se instala na madrugada. A cada livro uma vivência vida. Redundante escrever, repetir a mesma coisa. Viajo. Posso ir a qualquer lugar, e estar com quem bem entenda… Se a vida exige, flutuo. Obedeço. Suporto a magia.Engraçado! Não sei o que pretendo escrever. Saiu diferente. Não eram livros, nem memórias, eram outras coisas… Envelhecer causa espanto.

Está quente e azul e claro e até fresco. Se eu abrir todas as janelas… Abrir as janelas e me deixar levar… É o tempo de antes que me agarra, e surpreende hoje. Contigo eu volto para mim: teu cheiro e tua mão me transformam. Eu me entrego.

O vento traz poeira, janelas abertas, sem venezianas atraem o sol. Quero abrir espaço mesmo, entrar no disco voador, ir a Marte, até a Lua e voltar. Tu / você entra no poder de ser você, ou tu mesma com aquela mágica. Funciona / está em cada pessoa. A força transborda / exala / salta do objeto, a matéria se espiritualiza. Posso carregar / ter / estar no mais perfeito dos mundos. Aventura e compreensão, deleite se empilham.  Respiro a terra no céu azul. Marrom e vermelho do fundo da terra me surpreendem verdes e se amarelam devagar. A transparência da luz no ouro brilha. Elizabeth M. B. Mattos – 2019 – Torres

Terezinha Lanzini

Quero agradecer! E nem sempre sai do jeito bom. Quero agradecer carinho e palavras. Transcrevo o escrito para repetir / dizer / sublinhar: estamos a usufruir da mesma, e abençoada, melancolia. Felizes nesta magia, juntas. Faço registro do teu texto:

“Ainda pouco, sentada na varanda, sentindo o vento voltando do mar senti um fio de dor brotar do fundo da alma ao ler: “eu era tão menina”. Aquela menina que fomos um dia… Com suas tranças brilhando ao sol, correndo pelos campos bordados de flores amarelas, quando ainda era primavera. Aquela menina que sorria para a manhã que nascia, acreditando ser cheia de promessas e adormecia com um sorriso angelical, à espera de mais alegrias e descobertas. Não conhecia tristeza porque não tinha tempo a desperdiçar. Só o tempo fez com que aprendêssemos muito sobre o que é essa tal “melancolia”… Melancolia ainda maior quando sentimos nosso envelhecer. Porém, amanhã será outro dia. Quero voltar a ser aquela menina que fui um dia, e correr às  cinco horas da manhã para ver mais uma vez o sol raiar, na beira da praia. Beth, cada minuto é precioso. Pra nós, basta olhar uma flor para nos darmos conta de que precisamos viver. Com urgência. Te quero bem.” Terezinha Lanzini  dezembro de 2019

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eu era tão menina…

Envelhecer, perder pedaços e não encontrar bordas! E perder referências… O filtro. Memória apertada. Lapsos e estranhezas! Envelhecer surpreende. Reconheço o corpo, cada músculo. Os ossos conversam. E o tempo grita! Não sei responder. Pensar exagero. Olhar/ver assusta. O que nunca enxerguei aparece, e reconheço. O nunca imaginado existe e se exibe. Dois anos, três anos e eu era tão menina! Beth Elizabeth M. B. Mattos ainda em Torres 2019

A Leste do Sol e a Oeste da Lua

Este lugar existe, estou acomodada nele. Acordo com o sol deslumbrado. Eu me vejo no espelho deste tempo longo, esticado… E me dou conta que não existe ninguém, nem mesmo na sombra da minha imaginação, não importa. Fico invisível! Se arrumo os cabelos, se o vestido se ajusta, e ou as unhas perfeitas feitas, igual desapareço. Não existe ninguém, imaginar não faz sentido,  imaginar é fugir. Longa e ajustada despedida do que foi… A música! Existem os contos / histórias… Esta sou eu. Beth Mattos em dezembro de 2019, em Torres.

A leste do sol e a oeste da lua. A localização geográfica sugere um reino sobrenatural, uma região misteriosa distinta da realidade cotidiana, especialmente porque o sol nasce no leste. “Era uma vez um camponês muito pobre. Seus filhos eram tantos que ele não tinham nem roupa bastante para lhes dar. Todos eram crianças bonitas, mas a mais bonita era a filha caçula, que era de uma beleza infinita. Em muitos contos de fadas a beleza de uma das filhas encerra a promessa de atenuar a situação econômica angustiante de uma família.”

E o peso da urgência pode ser desesperador. A beleza pode ser a marca de uma gorda infelicidade que se espalha preguiçosa, e depois, inútil. Não é assim?

“Numa noite de quinta-feira, quando o outona já ia tarde, o tempo estava tempestuoso e uma escuridão pavorosa reinava lá fora. Apartada do mundo, trancada nesta escuridão, os sonhos nos acordam e a surpresa da vida me agarra. A chuva caía com tanta força e o vento soprava tão furiosamente que as paredes da cabana tremiam. Todos estavam sentados ao pé do fogo, ocupados com uma coisa ou outra. Foi então que, de repente, ouviram – se três pancadinhas na janela. Assim como o sete, o três é um número privilegiado nos contos de fadas: três porquinhos, três ursos, três tarefas e, neste caso, três pancadinhas na vidraça. […] Quer me dar sua filha mais nova em casamento? Se o fizer, torná – lo – ei tão rico quanto agora é pobre,…Ogros e pretendentes animais sempre almejam a caçula das três filhas, talvez porque, num tempo passado, a mais jovem numa família era, com toda probabilidade, a mais atraente, já que as irmãs mais velhas disponíveis geralmente não tinham conseguido se casar, por uma razão ou por outra.”

E o estranhamente destas narrativas dos contos repetem a vida / indicam a trilha. Estes malfadados e desastrosos casamentos que roubam as possibilidades de aventurar-se na vida. Velha, desesperançada deste / neste tempo de envelhecer dou -me conta que esta tal desperança sempre existiu, dentro ou fora. Casamentos e fazer audaciosos. Construir e produzir me atropelou do mesmo jeito. Queremos no sonho o impossível do querer.  Estou a ler contos de fadas. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – ainda em Torres

Este conto norueguês foi publicado pela primeira vez em inglês em 1849. Uma variante de A Bela e a Fera, foi inspirado  por Eros e Psique. Longo e cheio de voltas não poderia transcrevê – lo. Apenas deixar a vontade de viajar nos detalhes e percalços do amor. A Leste do Sol e a Oeste da Lua  foi escrito por Peter Christen Asbjornsen e Jorgen Moe2019-04-27 20.13.01.jpgcapa das histórias