sem memória / última página

Esforço desmedido de nada ajuda: idealizo. Alguém virá ao meu socorro e terei ordem, não apenas nas inúmeras caixas, mas em prateleiras, dentro haverá a tal ordem. Terei o prazer visual / visão / maravilhamento de passado presente e futuro como conjugação verbal em bom funcionamento: todas as anotações estarão por data, o inútil  estará no lixo, o embrião guardado, e terei dez horas ou apenas oito horas de trabalho contínuo na produção possível, deixando a ideia correr e o passo solto, chegarei ao começo do fim e terei os pequenos volumes ordenados. Seguirei lendo lendo lendo autores que gosto, conheço ou descubro. Relendo pequenos / grandes livros anotados. Lerei lembranças coerentes. E os personagens assumirão papéis definidos: mãe, tio, pai, irmã irmão, filhos netos avós e ninguém, ou o alguém que estará batendo na minha porta. Amados amores terão poeticamente suas cores definidas. Os azuis se acomodarão na cesta das frutas, e os vermelhos serão malha tricotada, e os verdes estarão no arraiolo dos tapetes. As almofadas serão amarelas e castanhas. Tudo iluminado. Perfume e luz. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019 – Torres por ordem cronológica.

Não posso mais confiar em minha memória. Já há algum tempo surgem subitamente em minha imaginação cidades, corpos, coisas que penso conhecer muito bem, sem contudo saber em que situação concreta de mina vida encaixá – las […] Aflitivas projeções de uma imaginação enfraquecida pela idade, confusos encadeamentos, não mais sujeitos a qualquer cronologia[…] Por alguns momentos, minha memória perde consistência. Ela produz acontecimentos que vejo com grande nitidez, sem que eu seja capaz de vislumbrar a mim mesmo nessas cenas. Não apareço mais, extingui – me numa vida que – é de supor – eu mesma levei.” (p.2–25) Michael Krüger – A Última Página

sonho meu e de Verlaine aussi

Seguido eu faço / construo / tenho este sonho estranho e profundo / penetrante / intenso, tão meu! De um homem desconhecido que eu amo e que me ama. Conhecido e desconhecido ao mesmo tempo: eu amo e ele me ama. Ele não é sempre o mesmo, e não é outro, és tu, e tu sabes, mas te assustas, recuas. E sou eu, a mesma pessoa que lembras. Não me amas,  ou amas o medo de me querer. O querer no medo… Como o meu de ter e não ter de sentir não sentindo, nem tocando, e assim, neste ir e não ir, neste sonho que chega e desaparece tu ficas preso, para sempre no meu/ no teu imaginário de te querer, sem querer, porque não és. E não sou mais. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

ANTOLOGIA francês.jpg

Je fais souvent ce rêve étrage et pénétrant

D’une femme inconnue, et que j ‘aime, et qui m’ aime,

Et qui n’ est, chaque fois, ni tout à fait la même

Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend. […] Verlaine

fragmento 1

Estou, faz já uns dois dias, a conversar contigo, agora, embalada com a chuva forte, com os trovões. Desabou o céu, como o noticioso (como diria nosso pai) anuncia desde ontem, ou antes de ontem. Penso no João que deve atravessar tudo isso (a chuvarada forte) valente nas pedaladas (tem uma bicicleta possante) saindo do emprego que insiste segurar! Mas esta é outra história. Abri bem as cortinas (precárias, esfarrapadas) para ver o céu, acompanhar as riscas fortes desta chuva pesada. Clarões. Enquanto escrevo escurece. As batidas da chuva diminuíram… Posso te adiantar que a lagoa e a rua se misturam em alagados inacreditáveis. Nem tanto! Nos nossos verões também chovia, e as ruas transbordavam para as calçadas. Lembras? Feito a Nilo Peçanha lá da Luiza que fica rio com correnteza…Penso nela, no Recife, quadro típico Heitor dos Prazeres. Vou lendo os poemas que escreve, contidos, corretos, como devem ser. Intimidades e rasgos tenho eu. Tão viciada em me descrever que estou tropeçando nas crônicas de uma oficina com Walter Galvani. Não sei. Não consigo escrever, dizer, e explicar. Estou aqui a pensar! Não consigo me colocar de frente como seria preciso, estou sempre meio saindo, não chegando, nem entrando. Voltando a Torres. Lembras quando o pai alugou aquele apartamento térreo de janelas marrons? Uma aventura chegar na SAPT quando chovia. Bons verões! No entanto agora só tenho presente esta Torres de morar. De olhar pela janela, voltear a lagoa. Pensar em buganvílias, silêncio sem mar. Engraçado! Estou na cidade apertada, mas com vida própria. Hoje na tempestade das águas de março, já outonais. Tanta coisa quero contar! Telefone não vale depois de tanto tempo sem conversar. Tem que ser o susto de escrever. Conversar vai ser bastante. Escrever é nossa voz. Quando te penso escuto tua risada, ouço bem o jeito maroto de dizeres o imponderável. Humor, ironia! E aquelas anedotas indizíveis que estão lá pra escandalizar mesmo.

Fragmento (1 )de carta enorme para Suzana, já faz dez anos –

Elizabeth M.B. Mattos – 2019 – Torres

brincadeira sem graça

Convulsão, ou verdade ou ilusão, ou brincadeira sem graça. Vida de envelhecer, de esquecer ou entristecer. Fui ver o mar, lindo! Aberto! Perfumado, inquieto! Barulhento. Colorido. Meu. O frio não permite chegar mais perto, venta. Volto para dento de casa, aproveito o calor e o fogo forte das lareiras e do fogão à lenha que a casa da Ana tem. Cozinhamos o pinhão e o feijão do jeito que tem que ser feito. Faltaram os pães e as geleias açucaradas da Maria. Mais acalmada na paz caminhei pela cidade. Sem mar é feio, ou melhor, desfeito. Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel. O mar lá estava, no fundo, e as pedras. O bonito. Ilha dos Lobos. Lagoa do Violão, coitada! Poluída! Rio Mampituba mágico. Daquele lado eu gosto. O cheiro, outro e os barcos bonitos / lindos. Pescadores genuínos. Magia à margem do rio, encantamento. Posso me deixar ficar até o entardecer olhando o rio que desemboca no mar, ou o mar festivo em conversa de explodir risos. Se ainda pudesse fazer grandes caminhadas viria outras manhãs visitar o rio, e me despedir das dunas, e olhar, olhar o namoro do rio com o mar.  Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

teu sorriso explica

Aprendo, tens razão

terror do homem deve ser apenas ser homem. O mundo / a natureza  conversa, ninguém escuta…

Vejo teu sorriso! Envolvida / embrulhada neste apressado fazer sem fazer, desejo de presença na imaginação do outro…

Somos o que não somos – fingimos ser ou não sentimos. Se eu fosse eu, se tu fosses tu e se ele fosse apenas ele, estaríamos na ciranda da boa política / do bom fazer.

Uma ideia / Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

argila

Presa na argila, ao molde da tua mão: meu corpo a te pensar inquieto. Sedução sem rosto… Desenhas teus desejos, não sou eu, mas ela… Elizabeth M.B. Mattos – vês, sigo a te pensar e o fogo dança! Agosto de 2019 – Torres

modelar sem tocar

Não será / nem seria amor, mas luxo quente de vida. Desta maturidade não me faço presente / não te alcanço.  Eu me escondo exposta. Claro e escuro. Como o dia de hoje. São os anos… A responsabilidade pesada de ser eu comigo mesma nos meus limites acanhados, impostos. Preciso me apressar. Depois de conversar contigo… O cinzento do céu e a ventania morna e gelada segura o corpo. Uma chuva de conversa. Agora este desvio. Desejo o teu desejo e acendo, embora apertada nesta caixa. E tu abres a tampa sem pejo, espias, passas o dedo, a mão inteira acarinhas e segues…

Esta agonia sacode as lágrimas secas de tanto tempo represadas. Sinto pena de mim mesma, depois fecho os olhos para dormir outra vez na preguiça do domingo. A pele úmida, e o tempo volta a pedir perdão.

Se o barro se transforma em carne, se o desejo te sacode, e tuas mulheres lânguidas te cercam… Sinto ciúmes.  Eu te prendo, alucinas. É teu corpo, teu poder, tua força teu desejo. Sensual vigor. Luz deste cinzento frio e quente domingo de agosto.

Sou pequena, acanhada. Tu és solar, intenso. Juntos derrubaremos barreiras e nos surpreenderemos velhos nos braços um do outro, e loucamente, absolutamente e insanamente jovens: alquimia. Vou passar o café, sorrir para nós.

Comemos morangos, ameixas e …, sem pressa, usufruiremos da tarde cinzenta. Revezamento. Temos direitos adquiridos, mas não podemos destruir: há que ser igual, tu no teu amor, eu na minha escolha, intocáveis, a desejar o desejo humano de ser quem somos. Ensandecido esvaziamento. Pimenta, óleo das nossas oliveiras, e vento do mesmo mar, vamos nos reconhecer, velhos, mas nem tanto…Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres. Ao escultor, ao pintor, ao homem inquieto. Ao artista.

sacolas e caixas

Aonde seriam depositados quando chegasse… Sacolas, caixas, embalar, selecionar, cuidar. O vapor dos bules de chá, dos biscoitos recheados, e do jejum: mudanças! De casa, de rua, de vida. De estado civil! Tenho idas e vindas excessivas como se volteasse o planeta, ou voasse de um lugar para outro. Não. Não fiz nada disso. Mulher obediente submissa e companheira. Eu ia e vinha com uma facilidade estonteante, e as crianças (sempre tive filhos) testemunhas e parceiros se movimentavam no mesmo ritmo. Penso: primeiro casamento, de 1968 a 1972, grávido subia a serra, descia da serra, e volteava… Tão curto tempo, tão movimentado! Fiquei craque no vamos / ficamos. Iremos, não iremos. Oito anos depois  voltei a ir e vir freneticamente. Trabalhava numa cidade  morava na outra, e ainda as idas a Porto Alegre! Esquecer o Rio de Janeiro! O mar… Eu fiz isso.  Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres a costurar o mapa.

Quando uma mudança é  iminente, o mobiliário torna – se ridículo.  Nesse momento Margaret acordava às noites, perguntando – se onde, onde neste mundo de Deus, elas e todos os seus pertences seriam depositados quando chegasse setembro. Cadeiras, mesas, quadros, livros, que haviam se acumulado sobre elas teriam que rolar novamente para fora como uma avalanche de lixo na qual ela queria dar o empurrão final e enviar, cascateando, mar adentro. Mas havia todos aqueles livros do pai – não os liam nunca, mas haviam pertencido ao pai e tinham que ser guardados. Havia o ‘chiffonier’ de tampo de mármore – a mãe gostara muito dele, embora não pudesse se lembrar por quê. Em torno de cada maçaneta e almofada da casa reuniam – se sentimentos, um sentimento às vezes pessoal, mas com mais frequência uma leve pena pelos mortos, um prolongamento de ritos que bem que poderiam ter terminado na sepultura. Era absurdo quando se pensava nisso. […] Estamos voltando a civilização da bagagem.” (p.160)  E.M. Forster – Hawards End

Não exagero quando digo que durante infindáveis anos eu vivi dentro de caixas.

alma dançando

“Sai de Torres com a alma dançando. Há muito tempo não conversava com esta amiga querida. Mesma sintonia, empatia total. Falamos de ex-amores, filhos, solidão bendita. Vivências corajosas. Tempos duros. Decisões tomadas. Rimos. Nos emocionamos. Rugas e cabelos brancos felizes, lindas as duas, que lemos alguns mesmos livros, ela muitos mais.
Política sem censura, dando o nome aos bois! Nossa memória está viva! Quase dançamos na sala, que não é exatamente uma sala, senão uma biblioteca completamente ativa!! Enfim como ela disse, lavamos a alma! Com água e sabão. Aquele sem aditivo, nem contra indicações!
Conversamos sem cuidados, sem correção e sem pausa para pensar.
Quando me dei conta estava cantarolando as músicas do rádio coisa que não faço há anos!!” Luiza Silla – 10 de agosto de 2019 – Porto Alegre – sábado

Encontro bom! Amizade sem data: o melhor nas reviradas lembranças abraçadas. Tão absolutamente nosso o encontro / visita, e com direito a almoço tarde e entardecer! Sempre escreve assim certeira! Agradeço muito! Especial!

Procurei procurei uma foto que tiramos na festa da Ana Cristina, não encontrei agora, então, coloquei os bombons…

bombommmmmmm

grande enorme Cecília Meireles

IX

“Os teus ouvidos estão enganados.

E os teus olhos.

E as tuas mãos.

E a tua boca mentindo

Enganada pelos teus sentidos.

Faze silêncio no teu corpo.

E escuta – te.

Há uma verdade silenciosa dentro de ti.

A verdade sem palavras.

Que procuras inutilmente,

Há tanto tempo,

Pelo teu corpo, que enlouqueceu.”

Cânticos

O que eu te digo? Nada. Silêncio no teu silêncio, eu te compreendo. Beth Mattos