mimada = amada

Não fui mimada, de certo, em algum momento amada. Antes livre / solta / nem vigiada, mas integrada / pertencente. Dócil. Gentil. Quem conviveu comigo ou repartiu deve saber da menina – criança que eu fui / sou. A escola, as madres, as professoras, quem saberia descrever as franjas e aquele cabelo escorrido? Fico a pensar na música, a mesma. Se tenho filhos e tenho quatro, foram eles mimados, amados? De que jeito especial se sentem desejados, amorosamente aconchegados e  queridos (do verbo querer)? Que sintam! Filhos eu desejei. Eu quis. Livres, empurrados para viver, livres para agarrar galhos floridos,  frutos e defender o fazer de correr brincar aprender, eu os queria corajosos. Na batalha eles e eu, nós. Cada um deve ter ser o seu UM – livre, ou menos livre, dependente e ou independente. Ele mesmo. Se a minha dita geração era assim ou assado, sei lá como desenhar, começo a colorir. Penso em mães presentes ou ausentes. Elas nos definiram, deram o rascunho, fizemos a história. A verdade? Somos todos sobreviventes, uns mais viventes / vivos, outros mais ou menos agentes. Seguro ou inseguro, bonito ou feio, simpático e  ou antipático, eficiente! Sorridente, aborrecido. Com impulso sem impulso. Quem se deixou ficar no costume ou era daquele jeito, igual / ficou. Ou seguiu com o alfinete de fralda preso na saia da mãe, da tia, na fralda da camisa do pai, do tio, do irmão ou da irmã, da tia emprestada, da madrinha, da madrasta. Ah! Que tanta vida a ser contada! Quanta calçada! Misterioso quintal! E as escolas em manhãs enormes e tardes estudiosas, ou mal humoradas! Sim! Mimada fui, ou não fui? Não sei. Numa casa cheia de adultos, poucos brinquedos e tantos afazeres, tanta liberdade! Acho que a lição era mesmo a liberdade! Ou casar. Ter marido importava, estudar também era coisa séria. Apreendi olhando! Casei cedo / mas separei cedo / trabalhei cedo / dancei e dancei! Fui mimada pelos amigos e pelos verões em Torres. Quem não foi? FOMOS! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

limpo, lindo

Consegui esvazia a xícara, a caixa, a memória inteira: esquecer o caminho de voltar / estar / ou me deixar ficar. Hoje (enquanto me explicavas) desejei tudo outra vez, e o peso de ser eu comigo ficou enorme! Preciso de outras vidas, tantas vidas para ser apenas a mulher certa para o teu abraço! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres o frio está caminhando, indo e voltando, as janelas estão abertas e o mundo limpo, lindo!

quanto sol!

A receita era/ é boa, quase perfeita: exata, sem surpresas, previsível. O lugar mais seguro  do mundo no meu caso foi a maternidade. Não desafiei nem testei meus limites. Acho que a resposta seria esta. E quando o sol é tanto eu acho mais fácil dizer cantar dançar e ser mulher! Se o abraço não chega e a voz não alcança, o olhar se assusta com o tato. O que faço para te reter? Nada. Eu me afasto. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019

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lendo e relendo:  ler e ler e a envelhecer, não é escolha, mas a vida como ela é…

invisível

O invisível esclarece e tonteia. Faz o caminho. Difícil entender a guerra que esperneia e se faz necessária. Não importa o sol, no meio do sol eles querem decidir o lado negro e abusivo. Evidente: eu não quero, eu não sei, eu não posso, eu explico eu digo eu me escondo, mas a bomba cai nas minhas mãos, eu preciso gritar! Viver não me deixa descansar. Outra vez na frente da batalha. Afinal fazer tudo errado deve ser mesmo o certo… Quem precisa aprender? E.M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

não

A leitura pesou. Engasguei. Não gostei da italiana… Num momento, o texto, o jeito de dizer agradou, depois o tema, nem sei dizer agora, a forma como  se agarrou a descrever e a fazer sofrer! Não gostei da Elena Ferrante.

o mínimo

Bastante frio, tanto frio! Muito e muito frio. Contar história ou inventar. Procuro na margem, na dobra, da textura raiada, naquela foto. Encontro canções nos borrões. Não especial nem instigante, o único no igual.  Fatos notícias. Vozes, reclamações e tanta indignação! Antes o silencio murmurando… Vozes soavam crianças, novas. Surpreendente! Surpreendente! Estou na onda. Uma atrás da outra não me deixa voltar a margem. Afogo – me neste mar. Nadar e atravessar sem surfar. O jogo interno:  competir comigo mesma. Escolher a equipe e planejar adestrar, o jogo. Isolar importa, alienar não. A caverna por mais escura / diferente com sete letras misteriosas. História galopante. Os mesmos contos infantis. Particularidades?  Na infância o excepcional: borrão e semente. Depois, segue – se a corrente. O mínimo: o ponto. E lá estou… Elizabeth M.B. Mattos – 2019 – Torres

bolsa vermelha

O luxo escandaliza. Vertiginosa corrida. Não penso. Nem  perco tempo. Esqueço o estar ou não estar. Tenho.

Vestígio evidente: sou planta, enraizada.  Terreno difere / altera floração, perfume. Dar ou não dar frutos? Detalhe. Sem terra vou morrer, devagar, todos os dias um pouquinho. Murcho. Cuidar importa. Podar alimentar e pacientar, nunca descuidar. O fruto pode ser o prazer máximo: sou eu e me recolho / ou encolho, sinto. Gosto de maçã, bergamotas, pêssegos e tâmaras, bergamotas, bananas, maracujás. Gosto do movimento inquieto do vento, do sol a secar e colorir. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres: brilho cinzento do inverno e o frio atravessa o vidro.

linda na cadeira bolsa vermelha

Fora do Corpo

FORA DO CORPO: fragmento

Tenho aquela ideia de que todos estão perfeitamente perfeitos nos lugares onde estão: alimentados, sem sono, aquecidos, sorrindo. Não quero ser necessária, quero ser transparente, mas no fundo, lá dentro a questão é mais séria: gostaria de poder me enxergar no centro, mas não sou o eixo, sou o galho que começa a vergar porque não consigo seguir o fluxo. Perde-se o hábito de querer o amor. Desisto de desistir para desviar, terminar para encontrar, recomeçar, a solidão chega como o fim do papel, com a ponta do lápis quebrada, o livro com ponto final, o copo vazio. A solidão pesa com o próprio peso do corpo. Fica tudo invertido. Nem um cálice de vinho, depois outro, pode resolver. Nem o banho de mar, nem o sol. Nem ressuscitar o amigo, a coragem, nada modifica este estranho vazio. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Torres

MAGDA FRANCIOSI –  “E com o passar dos anos esquece de dizer que as mulheres, principalmente, se tornam invisíveis para os olhares masculinos e até aos femininos também… Isso no começo, incomoda, depois se acomoda…”

Eu:  – Será? As pessoas não ficaram invisíveis aos olhares, não. Os olhares, cansados, deixaram/esqueceram de se olhar, não só para as mulheres, ou das mulheres, ou dos homens… Acho / penso que desapareceu este tempo / tempo de parar no olhar, ver passar. Nem mesmo para ler! Ou pensar. Quem está na janela vendo o tempo passar? Chico Buarque? As pessoas perdem tempo ao espelho… O Império da BELEZA é exigente. E as meninas todas se parecem, e os jovens todos se parecem, e os velhos, os velhos que agora vivem mais se esquecem de ser velhos. Não há doçura em nenhum olhar. E.M.B. Mattos

maio 2016 – Paulo Hecker Filho

A XÍCARA

Segure a xícara, que eu não estou me sentindo bem. ” Últimas palavras de Mário de Andrade

Vivo não te encontrei, mas foi em ti que mais eu dei por mim no livro brasileiro. As tuas opções me anteciparam, ouvi tua fala como se a soubesse, elegi tua razão como juiz. Não importa se fui digno, eu quis.

Do esforço e da alegria de estar vivo, do amor que os dois tivemos pelo mundo e o resgate do mundo pela arte, da recusa do erro e da injustiça, da dor pela miséria brasileira, minha mão se estende e pega a tua xícara.

 

CÉU LÚCIDO

Viver é chegar ao céu. O resto é esperar por ele. E nunca vem, nos aguarda. Não é fácil dar com a meta de tudo o que viveu, saber porque se nasceu. Aponto o céu na amizade, mas isso às vezes não passa de outro grito de socorro. Hoje, particularmente, entrei no céu mais à mão com dois artigos inéditos do nosso Mário de Andrade. Paulo Hecker Filho

Poemas se somam prazerosos, ganchos em ganchos. Correntes sustentam o pensamento do poeta, do escritor. Conversa que não termina. Água que salva. Alívio! Livro nas mãos. Minha memória. Beth Mattos

“coisas” de 2009

Escrever já é um desvio favorável ao esconderijo” escreve Patrícia Galvão. Também penoso, difícil, perigoso! Palavra deslocada, desfocada.

Pelas janelas abertas a Lagoa do Violão cheia de luz. Chuva miúda. Antes, e depois da descoberta? Referência esquecida. A história antes, e depois, agora tua presença escondida, mas não imaginas o quanto te quero, penso!

O que verdadeiramente importa? Afetos. Mesmo escondidos, apenas eles importam. Chorar importa. A alma se esvazia na lágrima. Escorre dor, e medo. A chuva continua. ElizaBETH M.B. Mattos – 13/05/2009 00:32 – Porto Alegre –

depois: MEMÓRIA (29/04/2009)

Música recupera sentimento. A alma segue a luz da melodia. No silêncio, escuto com o olhar… A memória agarrou uma xícara, este livro, aquela cadeira, depois a tela com tintas escorridas de Jean Lehmens. A carta, este caderno. A caixa das fitas, as pérolas descascadas. O bule branco. Objetos. Não sinto o cheiro dos eucaliptos, nem das magnólias. Dos jasmins. Esqueci o jardim dos jacarandás. Vou construindo a memória com fitas, vidros, caixas, cartões e fotos. Guardados escondidos no porão. Elas caminham, estas coisas. Não ficam a espera… Elizabet M.B. Mattos – agosto de 2019 – revendo/mergulhando nos velhos textos, talvez já enfiados no Amoras, não sei mais. O que aconteceu / o que era / como foi, não sei. E a pensar! Tudo muito igual! Os círculos, as dúvidas, e as completas e perfeitas certezas estão amarradas neste hoje: estás às voltas das panelas, gostas de cozinhar / inventar. A vida é assim mesmo, invenção, e o mesmo. Roubar a namorada, faz parte! Encontrar um amor também. Elizabeth M.B. Mattos outra vez