Ah! Que inveja tenho do intenso, atrapalhado e perfumado jeito de amar! Explicação com ou sem juízo. Descabelado e perfumado: intenso e amado! Rosas cor de rosa, as amarelas e as despetaladas margaridas. Quero violetas! E tu me trazes… Beth M.B. Mattos – janeiro de 2020 ainda, definitivo, em Torres, mas amanhã vou para São Paulo, e não volto mais.
Emily Elizabeth Dickinson
Livros voltam como memórias de construção/ ou reconstrução. Por que morar em Rio Pardo ou Santa Cruz do Sul. E Torres? Recomeçar em Porto Alegre. Quanto tempo!? Petrópolis outra vez, depois Independência, e Moinhos de Vento. Jardins floridos. O caminho, o tempo de seguir em frente / ou tirar tudo do lugar para brincar de azul, depois o amarelo se transforma em verde. O contorno com carvão fecha o branco em/com riscas cinzas… Uma experiência. E o definitivo. Voltar a trabalhar nas escolas, no tempo mesmo de trabalhar. Esperança de conseguir desenhar outra vez. E volto a desejar Porto Alegre como se fosse uma saudade amorosa. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres

Moro na possibilidade,
Idwel in Possibility –
Casa mais bela que a prosa,
A faire House than Prose –
Com muito mais janelas
More numerous of Windows –
E bem melhor, pelas portas
Superior – for Doors –
De aposentos inacessíveis,
Of Chambers as the Cedars –
Como são, para o olhar os cedros,
Impregnable of Eye –
E tendo por forro perene
And for an Everlasting Roof
Os telhados do céu.
The Gambrels of the Sky –
Visitantes, só os melhores;
Of Visitors – the fairest
Por ocupação, só isto:
For Occupation – This –
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
The spreading wide my narrow Hands
Para agarrar o paraíso.
The gather Paradise. (p.45-46-47)
Poemas Escolhidos
LPM Pocket Plus Seleção, tradução, introdução e notas e Ivo Bender

escrever uma ou duas palavras
O dia termina, anoitece devagar, e as palavras se atravessavam… O livro volta/ voltou ou retorna para o posto de ser livro a ser texto… Estou presa ainda esta vez: “As cidades se reconhecem pelo andar, como as pessoas.[…] Ainda que fosse só imaginação, não importa. A supervalorização da pergunta: onde estou? vem do tempo dos nômades, em que era preciso registrar os locais de pastagem. Seria importante saber o porquê […]
Como todas as cidades grandes, era feita de irregularidade, mudança, avanço, passo desigual, choque de coisas e descaminhos, de um grande pulsar rítmico e do eterno desencontro e dissonância de todos os ritmos, como uma bolha fervente pousada num recipiente feito de substância duradoura das casas, leis e ordens e tradições históricas.” (p.9-10) Robert Musil “O homem sem qualidades”
Oitocentas e sessenta e uma páginas: assustador. E eu volto. Eu interrompo o tempo e pergunto: onde estou? Em lugar nenhum. Nas referências de ser eu, e ser ninguém no arredondado da rua, perto e longe da calçada volteada. De gramados domados, lagoa esvaziada e tanto céu! Aonde estou? Dentro de mim mesma, excluída ou domada. Por que escrever e soltar e recomeçar porque o livro sacode a alma. A tua palavra, o teu pensamento despido, o teu, importa. Então escreve meu amigo. Eu te leio voraz e lenta. Contraditória e louca conversa de ser eu. No espelho envelheço, mas aos teus olhos eu sou eu. Elizabeth M.B. Mattos, aneiro de 2020 – Torres
vidros
Vidros, janelas, não consigo. Limpar nem encontrar o ritmo perfeito para voltar. O agora, a volta, o giro deste hoje: resmungo, exagero. Eu sei. Não importa. Retomo a mesma conversa de sempre, exausta. Revidamos o isso ou o aquilo, repassamos. Terapia de todo o dia… Com vinho, sem vinho, mineral ou chá gelado. Não és tu, não sou eu. Somos nós a esgrimar. Faço um plano: escrever ler e ordenar. Começo pela cozinha, mas o começo já se espreguiça, acho que desta vez preciso mesmo comprar: toalhas, colônias, sabonetes, espinafre, tomates, batatas, e vestidos. Aos quilos as camisetas. Preciso comprar. Gastar energias e comprar. Vou ver se encontro vermelho e laranja quando tem amarelo, ou azul no verde também gosto, um pouco do branco se terminando cinza. Ah! Como posso escolher se está tudo assim, tão dividido! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020
P.S. Tua voz me acalma. Diz/fala, e me explica outra vez, por que não vieste a Torres comer empadas, pastel e sonhos?
4 carta apressada
Não encontro a ponta certa. Sufoco, não respiro.
Sinto os dedos endurecidos. Cabelos cortados/picotados. Os fios desacertam atrapalhados mesmo escovados. A tinta, cor indefinida de cinza, e já não sei… Dizes que eu sou eu de qualquer jeito sou eu, não sou. Quero fotografar e te mostrar. Fotografar! Estou sem palavra, amarrada. Sou voltar. Vais chegar. Eu sei. Amanhã abrirei as janelas sem medo do vento nem do sol nem da chuva. Quero voltar para casa e respirar. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020
azedo
Dominar e empurrar sem o desanimo doente. Afofar a terra, e fazer a chuva descer cuidadosa. Olhar e dizer e compreender. Voltar a cozinhar a passar a roupa e revirar o virado, perfumar. Perfumar tudo com sol. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020
três horas
De repente tu acordas às três horas da manhã, agora, já quatro. Ônix movimenta/exige: qualquer hora pode ser hora. Depois o leite quente, o aconchego do livro, a revisão. Depois eu me questiono, e até me inquieto. Por que dizes que me amas se sabes que estremeço? Beth Mattos – janeiro de 2020 – quase perfeito o tempo: ordem, acomodações, e ainda tenho um pouco de verão na reserva. Gosto de felicidade alegre. Claro! Apenas uma hora certa/ justa, o agora. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres
acordar sempre
Acordar, parte melhor do dia. Fico dividida entre este dormir e acordar a fatiar o tempo pra me enganar. E a M. não veio, eu não fui. Sem mar nem piscina. Verão. O verão se agranda entre quente, e tanto vento venta o tempo. Torres assobia. O amor se remexe arredio, arrepiado e espraiado, solto. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020
França – Limoges – Porto Alegre Rio Grande do Sul – Rio de Janeiro – Santa Crus do Sul – Rio Pardo – Brasil
Inexplicável! Não. Banal! O amor pelo francês e todo o envolvimento visceral, descoberta. Quando abro um livro tenho a rua Vitor Hugo, a casa, o jardim, o pai e a mãe de volta. Detalhes mínimos da vida. Na onda. Sufoco no mergulho salgado de prazer e loucura e… Areia sol sal e juventude-menina. Tempo livre e solto, arregalado. Vida praiana de verão. O balanço das férias transforma a rua Vitor Hugo, a casa 229, os jacarandás, e os cães em puro prazer. Tens razão, meu amigo, quando lembras o verão: cumplicidade, depois blindagem e hoje… Esquisitos sentimentos. Viver e estar e passar tantos anos em Torres me surpreende. Mencionaste o encantamento do pai, e aquelas alegrias todas do veraneio. Verdade. A mãe gostava de cariocar, mas se misturavam. Torres prevaleceu. Fiquei a pensar o que eu teria escolhido para mim se fosse livre e independente. Não sei. Ter casado e ter sido feliz na Porto Alegre onde eu nasci. Estar na casa de Petrópolis, para sempre. Não sei. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres

Ela
Journal 1 (1931-1934) de Anaïs Nin
A literatura é um exagero, uma dramatização, e quem se alimenta dela corre o risco, o grande perigo de tentar / querer viver do mesmo jeito ou como ela. Um ritmo impossível de seguir. Não é possível seguir/nem sentir a intensidade de Dostoiévski ou a extravagância de tantos outros escritores… Vou atrás dos livros, mas me desencontro com as pessoas, os não personagens. Estas marcantes eficientes alucinadas leituras são o conflito…O estrago está feito, o estrago/ o mal profundo. Não há cura, não tem retorno. É uma doença progressiva e dolorida.
“La littérature est une exageration, une dramatisation, et ceux qui s´en nourrissent (comme moi) courent le grand danger déssayer de suivre un rythme impossible.”(p.43)
“Ne jouez pas à des jeux que ne vous sont pas natureles[…](p.166) Parece banalidade ou obviedade um conselho simples como este. Não tentar ser/não desejar ser/ não representar o que não se domina conscientemente. Não obedecer as regras impostas, mas ser, por inteiro, apenas quem a gente É. Do jeito especial ou surpreendente ou bobo mesmo, ou genial, ou obscuro, mas o jeito íntimo de ser você mesmo (o tu, ou Eu). De repente sinto saudade de você… E as surpresas evidentes, EQUIVOCADAS, assim mesmo presas. Decidi não amar ninguém, não entrar no mundo, não sofrer, não ter confronto, nem presença, nem ausência porque logo cedo, antes de começar eu já tinha sofrido a rejeição, a traição, o equívoco e a dor de perder antes mesmo de ter. Amar necessariamente leva a separação, logo, lenta, ou indefinida, assim mesmo, uma separação que faz muito muito muito mal. Beth Mattos – janeiro de 2020
“ J´ai decidé qu´il vaut mieux n´aimer personne, parce que lorsqu´on aime, il faut ensuite se séparer, et cela fait trop mal.” (p.172-180)