Propaganda do bom e do melhor numa esteira de horror, arranca cabeça, e mexe remexe o corpo do boneco marionete. Jovem radical e vociferante e pleno. Pensar a descansar, tão fácil apenas seguir… Beth Mattos – janeiro de 2020
“O amor, já de si, é algum arrependimento.”
“Mas o mal de de mim, doendo e vindo, é que eu tive de compensar, numa mão e noutra, amor com amor. Se pode? Vem horas, digo: se um aquele amor veio de Deus, como veio, então — o outro?… Todo tormento. Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ôntem amanhã: é sempre. Tormentos. Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O senhor por hora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (p.188) João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas
voltar amanhã
Se eu te explico a fantasia/ o sonho ou alguma coisa do outro lado… Acredito/penso/imagino na justificativa para correr/ ou mudar/ ou inventar outra vida. Nós dois. (tão bom poder pensar / ter esta alegria de resolver…, acreditar que eu posso/ que eu consigo, tu me perturbas!). Mudar de casa pode ser, ainda, ainda uma vez, reinventar o caminho/viajar/procurar. Esta inquietude fantasiosa não se explica com palavra, melhor seria soltar balões coloridos ou todos brancos, ou todos vermelhos. Soltar balões pela janela. E se o vento conversa com balões a minha vontade se desgrudaria e iria junto pelo céu. Voltar a Porto Alegre, morar em Porto Alegre! Porto – chegada, Alegre – feliz! Estou ainda, outra vez, a divagar. Do porto saio / embarco, e posso voltar, ou não voltar. Quando este calor viajar, voltar pro lugar dele, sair por aí… Irei caminhar. E Torres deve me abraçar outra vez. Tens razão! Estou melhor em casa. Vais gostar do apartamento com este jardim iluminado, envidraçado, quase farol! Ou…Todas as histórias se prendem no ir e voltar. Eu sei que vais / estás a entender. E nós dois deitados, no sonho, contaríamos outras/ muitas histórias proibidas, e de meninos, de jovens vestidos de gala dançado, ou na areia, no jogo, no mar. E rir e lembrar enganaria a blindagem de ser como é/do jeito feito, acabado. Sim, tu tinhas uma casa em Torres. Como ia ser bom voltar! Beth Mattos (amanhã faço correções)
eu acho
Puxo a noite! Demora a chegar.
Pesado! Faço força.
Logo o dia volta inteiro, esparramado e longo.
Coisas de envelhecer, eu acho. Beth Mattos 
passos
Confusão ao abrir a porta Carta Três (3)
Este tempo aberto, meu, possessivo. Sempre tempo. Droga! Aquilo que adquiro se desfaz, quero mais, quero outro, quero tudo. Droga! Materializa. O tempo de querer resultou numa infinidade de contratempos, desencontros e equívocos. Já nesta carta voltaria… Alguém mencionou Messalina! Fiquei quieta. Não escorreguei na casca de banana da calçada. Nem fiz tanta coisa que pensei querer fazer, reservei tudo para os cadernos pra depois… Ninguém entende nada. A vida tem que correr nos trilhos que estão ali, desvios não….Claro! Sim. Desvios que estejam em trilhos! Putz! Difícil pensar. Ler também confunde. Atrasa o processo, escurece por dentro e, paradoxalmente, estou numa clareira evidente, aberta. Esqueci de te contar do livro de J. M. Coetzee (ainda). Leio aos solavancos. Já te contei da precisão e deste jeito perfeito, adequado de escrever o essencial sem adjetivar e se pavonear. Dizer. Esta aula não termina. Estou quase a desesperar no tempo. Escrever sem ler, ler para escrever. Ficar e sair andando a fazer. Difícil! Por que volto sempre ao que eu leio? Porque não aprendi a nadar, nem andar de bicicleta, nem caminhar, muito menos sei usar o patinete. Estou sempre sentada esperando para nascer. E nascer não chega. Quanta preparação! Não desisto. Voltei para te contar de Robert Walser e da loucura dele. Elias Canetti escreve: “Eu me pergunto, se entre todos os que constroem uma vida acadêmica confortável, segura e regular a partir da existência de um escritor que viveu na miséria e no desespero, existe um único que sinta vergonha de si mesmo.” Mecanismos internos é o nome do livro de Coetzee. Sei que estás a me achar confusa, irritante, aleatória ou dispersiva. Aiiii! Ai! Sou tudo isso. É a tal da bolha! Não sei arquitetar porque não sou arquiteta, advogar, o mesmo. Construir, não fiz engenharia. Administrar! Ufa! Não conheço os números. E a vida passando. E não li. E não conheço a Suiça nem Walser. Beth Mattos – janeiro de 2020 – desculpa! Esta carta se perdeu nela mesma. Amanhã eu te conto o que me aconteceu quando abri a porta.
Carta dois(2)
2.
O mar enfrenta, desafia. Ele se impõe. Mar lavrado, azul, verde, turbulento, calmo, transparente, com renda sem renda. Perigoso ou amigo. A voz do mar enlouquece, acalanta, conversa. Sem se interromper vai dizendo, sublinhando, e o sol responde. Quando escrevo ou te conto/digo deste verão escorrega inquietude, ou solidão, ou exagero, ou fantasia. Não sei. Escorrega.. Por mais que tenha procurado, não encontrei o tal caminho… Areia queima, apaga e… Ontem os cães latiram durante a noite. Eles escutam o que não ouço. Eu já disse. Enlouqueço, depois esqueço de ser louca e volto a cozinhar, lavar, passar e dobrar. Tirar o pó. Aspirar. Estas coisas todas evidentes e corriqueiras. Normais. Escolhi o feijão. Coloquei de molho. Molhei as plantas. Troquei os lençóis. E perfumei a casa. Como te escrevo todos os dias, às vezes, nem sempre, o assunto esclarece, mas morre porque esqueci. Esta coisa de morrer assusta, não consigo aceitar o natural, o simples, esbarro na prepotência. Quero a realeza e a liberdade. Esta coisa de ter que escolher me aborrece. Sou rainha, sou mulher, e sou gente entre gente, comum, sem palácio, nem obrigações, sou eu ora! Ora, ora nunca sei me explicar. Tenho casa é verdade. Boas roupas, também é verdade. Empregados. Carro/ automóvel, prata, cristal, boneca, fantasia, ideia. E tenho amante, marido, filho, irmão, tios, mãe e pai. Madrasta e padrasto. E muitas, muitas, muitas respostas! Hoje estou louca. Amanhã eu volta tranquila. É o calor de verão. Não se mexe, brinca de estátua, dá risada. Beth Mattos em janeiro de 2020
Carta um(1)
Carta 1
Se estou na praia, determino, mentalmente, que o ideal/perfeito seria a montanha. Quando as vozes me atropelam quero a angustia do silêncio vazio. Ou seja, esta danada idade de setentar é uma tentativa audaciosa e covarde ao mesmo tempo. Não me proponho a enfrentar. Sabes bem que antes eu me enfeitava de fazer, de limpar, de arrumar e comprar flores na feira de sábado, picar frutas e comer espinafre. De um certo modo bastava isso. Se alguém telefonava para contar do calor, do frio, do excesso de trabalho, ou da falta de dinheiro, eu podia/posso/poderia acolher. Mas o que pretendo te dizer hoje nesta primeira carta, a número um deste ano. Não me satisfaz, não me aquieta, não melhora meu sono. Ou melhor, estou péssima. Indiferença mortal definitiva fez/faz um círculo a minha volta, estou prisioneira. Gostaria/deveria ter podido estudar e entender a matemática e seu número infinito, ou a lógica, e as certezas. Ao contrário… Desaprendi com o passar dos anos a escrever e a ler. Assim, a fragilidade dos desenhos são meu único refúgio. Sim, seguirei a te escrever em áudio. Terás a minha voz a te contar o que importa. De manhã, altiva. A tarde já querendo te segurar. De noite a voz estará/será escura. Um beijo com saudade e aquelas despedidas todas que se fazem necessárias ao escrever. Beth Mattos, reduzida ou Elizabeth M.B. Mattos, como preferes. Janeiro de 2020
Tereza
A sala menor, embora todas as janelas estejam abertas o sentimento de apertado, estreito, sufocante se faz maior. A sala grande é o olhar arregalado de Tereza. A sala em desordem. As vozes apertadas nas cadeiras, as mesas cheias de sussurros, e as estantes lotadas de livros e de saudade. Saudade: palavra gasta, sem sentido algum, usada de alavanca para os mais variados sentimentos.
Sem mobilidade. As pernas inchadas pelo calor, os braços pesados e a voz. Bem, a voz treme, ou soa como trovão, e de repente se derrete esvaziada. Depois os gatos e o cachorro se encarregam de se fazer entender, também eles agitados, e, paradoxalmente, passivos. É o calor. Excesso de verão. A grama seca, as árvores silenciosas, sem flores no canteiro. O muro pequeno deixa passantes espiarem indiscretos o mobiliário, a cama em desordem. Exposição.
O quadro não termina na moldura, como se o infinito pintado, desenhado não existisse, o marrom se acinzenta e fica branco, com manchas amarelas. Aquele sofá vermelho e as poltronas floridas conversam. A mesa retangular com as seis cadeiras em ordem. As frutas, uvas, melões e abacaxi apoiado nas bananas perfumam a casa. E M.B. Mattos – janeiro de 2020, o começo /início e gorda ideia
devagar
O espaço da casa e o tempo e… Porto Alegre volta, ou as escolhas. Esta noite sonhei com o pai, sonho bom. Homem pacífico e amoroso. Beth Mattos