Fora do Corpo

FORA DO CORPO: fragmento

Tenho aquela ideia de que todos estão perfeitamente perfeitos nos lugares onde estão: alimentados, sem sono, aquecidos, sorrindo. Não quero ser necessária, quero ser transparente, mas no fundo, lá dentro a questão é mais séria: gostaria de poder me enxergar no centro, mas não sou o eixo, sou o galho que começa a vergar porque não consigo seguir o fluxo. Perde-se o hábito de querer o amor. Desisto de desistir para desviar, terminar para encontrar, recomeçar, a solidão chega como o fim do papel, com a ponta do lápis quebrada, o livro com ponto final, o copo vazio. A solidão pesa com o próprio peso do corpo. Fica tudo invertido. Nem um cálice de vinho, depois outro, pode resolver. Nem o banho de mar, nem o sol. Nem ressuscitar o amigo, a coragem, nada modifica este estranho vazio. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Torres

MAGDA FRANCIOSI –  “E com o passar dos anos esquece de dizer que as mulheres, principalmente, se tornam invisíveis para os olhares masculinos e até aos femininos também… Isso no começo, incomoda, depois se acomoda…”

Eu:  – Será? As pessoas não ficaram invisíveis aos olhares, não. Os olhares, cansados, deixaram/esqueceram de se olhar, não só para as mulheres, ou das mulheres, ou dos homens… Acho / penso que desapareceu este tempo / tempo de parar no olhar, ver passar. Nem mesmo para ler! Ou pensar. Quem está na janela vendo o tempo passar? Chico Buarque? As pessoas perdem tempo ao espelho… O Império da BELEZA é exigente. E as meninas todas se parecem, e os jovens todos se parecem, e os velhos, os velhos que agora vivem mais se esquecem de ser velhos. Não há doçura em nenhum olhar. E.M.B. Mattos

maio 2016 – Paulo Hecker Filho

A XÍCARA

“ Segure a xícara, que eu não estou me sentindo bem. ” Últimas palavras de Mário de Andrade

Vivo não te encontrei, mas foi em ti que mais eu dei por mim no livro brasileiro. As tuas opções me anteciparam, ouvi tua fala como se a soubesse, elegi tua razão como juiz. Não importa se fui digno, eu quis.

Do esforço e da alegria de estar vivo, do amor que os dois tivemos pelo mundo e o resgate do mundo pela arte, da recusa do erro e da injustiça, da dor pela miséria brasileira, minha mão se estende e pega a tua xícara.

 

CÉU LÚCIDO

Viver é chegar ao céu. O resto é esperar por ele. E nunca vem, nos aguarda. Não é fácil dar com a meta de tudo o que viveu, saber porque se nasceu. Aponto o céu na amizade, mas isso às vezes não passa de outro grito de socorro. Hoje, particularmente, entrei no céu mais à mão com dois artigos inéditos do nosso Mário de Andrade. Paulo Hecker Filho

Poemas se somam prazerosos, ganchos em ganchos. Correntes sustentam o pensamento do poeta, do escritor. Conversa que não termina. Água que salva. Alívio! Livro nas mãos. Minha memória. Beth Mattos

“coisas” de 2009

“Escrever já é um desvio favorável ao esconderijo” escreve Patrícia Galvão. Também penoso, difícil, perigoso! Palavra deslocada, desfocada.

Pelas janelas abertas a Lagoa do Violão cheia de luz. Chuva miúda. Antes, e depois da descoberta? Referência esquecida. A história antes, e depois, agora tua presença escondida, mas não imaginas o quanto te quero, penso!

O que verdadeiramente importa? Afetos. Mesmo escondidos, apenas eles importam. Chorar importa. A alma se esvazia na lágrima. Escorre dor, e medo. A chuva continua. ElizaBETH M.B. Mattos – 13/05/2009 00:32 – Porto Alegre –

depois: MEMÓRIA (29/04/2009)

Música recupera sentimento. A alma segue a luz da melodia. No silêncio, escuto com o olhar… A memória agarrou uma xícara, este livro, aquela cadeira, depois a tela com tintas escorridas de Jean Lehmens. A carta, este caderno. A caixa das fitas, as pérolas descascadas. O bule branco. Objetos. Não sinto o cheiro dos eucaliptos, nem das magnólias. Dos jasmins. Esqueci o jardim dos jacarandás. Vou construindo a memória com fitas, vidros, caixas, cartões e fotos. Guardados escondidos no porão. Elas caminham, estas coisas. Não ficam a espera… Elizabet M.B. Mattos – agosto de 2019 – revendo/mergulhando nos velhos textos, talvez já enfiados no Amoras, não sei mais. O que aconteceu / o que era / como foi, não sei. E a pensar! Tudo muito igual! Os círculos, as dúvidas, e as completas e perfeitas certezas estão amarradas neste hoje: estás às voltas das panelas, gostas de cozinhar / inventar. A vida é assim mesmo, invenção, e o mesmo. Roubar a namorada, faz parte! Encontrar um amor também. Elizabeth M.B. Mattos outra vez

aventura suficiente

Dia de vento e chuva. Tranca-se a porta, fecha-se a janela. Abre-se ao sol, ao suor. As horas gargalham, acham graça delas mesmas. Os fenômenos exageram nos ventos furiosos. Granito. Destelham, afogam, e hoje, o dito tempo, se abre ensolarado, irônico. O mundo gigante de nuvens como me contou a pequena: enormes, entre cores, brancas, brancas, e o preto, o azul, azul…  Ausência e presença. O livro é igual. Qual é a guerra mais eficiente? A cada boa linha, ideia, nova suspeita. Debate intenso que nos violenta. Acorda. Esmurra. Entristece, não vitaliza. Adormeço. O Jantar Herman Koch: incompreensível como o dia. Como a insistência de correr, de parar, de estar perto e longe. Amar um dia, desprezar no outro. Apaixonar-se pela luz de um olhar, modificar-se, apaziguar-se. Adoecer. Adoecer porque dói a dor de não ser tudo. Ser inteiro! Não o mundo está ao contrário, ao teu contrário, ao teu avesso. Vamos costurar estes livros. Lançamentos perdidos, esgotados, uns sobre os outros, a se contradizerem! Guerra de futilidades, de exigências, cicatrizes, internas. E risadas de escárnio! Bolsos recheados de injúrias! Afirmar o que sou assim, aquilo, exijo isso ou aquilo? Não leiam O Jantar de Herman Koch. Aliás! Parem de ler! Não leiam nada, olhem as fotos. As fotos. Ou fiquem apenas olhando, pela janela, o tempo acaba passando mesmo. E olhar já é aventura suficiente. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres texto escrito em Porto Alegre, retomo, o mesmo. O livro se perdeu. Quero reler. Escrever e ler. Obsessão!

amorosidade generosa

Mundo e vida, revoada boa. Dia azul. O frio gelado, beira mar no arvoredo verde da lagoa: maresia gaúcha. Chocolates Praliné depuis 1845 presente festivo / delicado / mimoso. Amorosidade generosa da amiga. Tanto a dizer e a lembrar como rosário: pérola, cristal, ametistas redondas. Perfeito: “ajuntamento das palavras por quem sabe conduzir por meandros mal-acostumados…” E eu já fico a pensar que acostumar dizer e saborear tem gosto de agora no gosto doce chocolate do chocolate. Penso vinho e revoadas. Sinto o gosto gasoso da água. Escorrego feliz…  Deixo sentada, na melhor poltrona, aquela angustia aflita de ontem! Sigo limpando os livros e revirando o passado, gostando deste hoje ventoso. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

LINÉIA no Jardim de Monet : Texto de Christina Bjõrk – Ilustrações de Lena Anderson e Tradução de Ana Maria Machado

 

LINEIA

Aqui te amo

[…] “Às vezes amanheço e minha alma está úmida.

Soa, ressoa o mar distante.

Isto é um porto.

Aqui eu te amo.

 

Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.

Estou a amar – te ainda entre estas frias coisas.

Às vezes vão meus beijos nesses pesados barcos

que correm pelo mar rumo a onde não chegam”(p.59)

CARIBÉ

Pablo Neruda  20 POEMAS de AMOR e Uma canção desesperada / om texto original e a tradução de Domingos Carvalho da Silva e ilustrações de CARIBÉ

A veces amanezco, y hasta mi alma está húmeda.

Suena, resuena el mar lejano.

Este es un puerto.

Aquí te amo.

 

Aquí te amo y en vano te oculta el horizonte.

Te estoy amando aún entre estas frías cosas.

A veces van mis besos em essos barcos graves,

que corren por el mar hacia donde no llegan.

O LIVROOOOOOOO

 

 

“A tensão se afrouxou”

Tentativa. Domingo dedicado a festejar os pais. Nostalgia bem própria do mês de agosto. Eu gosto: frio, inusitadamente, dentro de mim mesma, festa.

Escrever e ler, ler e escrever: um caldo. Ferve. Esta explosão se completa: larva de vulcão. Então eu me apaixono pela italiana que escala pequena/gigante aventura.

“Havia um cheiro forte de terra enxugando ao sol.” (p.68)

“[…] era o invisível que nos excitava. ” ou “ Não podia acreditar que ele fosse uma pessoa comum, um tanto baixo, um tanto calvo, um tanto desproporcionado, mas comum.”(p.59)

A enxurrada desce pelo meu corpo e o prazer assume sorriso louco de momento. Há que parar, respirar. Largo o livro dou dois passos e me entrego, ainda uma vez, outra, e a manhã não terminou. Repetidas vezes o mesmo sentir. Não basta olhar pela janela, atentar aos ruídos do edifício ou pensar na fome, outra vez. Inquieta recolho a roupa seca do varal. Penso no ferro de passar. Coloco a macaxeira / o aipim para cozinhar, lembro da cerveja que não comprei. Abro o vinho, e vou festejar o gosto da leitura. Esquecida do tempo, das confidencias, desaparecimentos, rupturas e encontros… O dia de hoje, aquele ontem festivo, a lacuna, a viuvez, os casamentos e as separações, a orfandade e o encontro, amigos, amigas. Ser criança = peso avassalador da de alegria feliz. Não importa o como. Somos a possibilidade de. Lembro da Magda, da  Ana Maria, da Nádia, dos chineses que moravam na casa ao lado, dos barrancos na rua Vitor Hugo, da Marlene, dos guris, do Ping-Pong, dos muros e dos telhados, das bicicletas e das bonecas despenteadas. Das aulas de piano, de estar sempre apaixonada! Sem lógica.  Escuta isso e  me diz se não estou certa, se Lúcia e Mabel não estão nadando de lucidez e razão!

“ Avançamos muito tensas. Depois Lila deu um grito e riu de como o som explodia violento. Desde aquele momento só fizemos gritar, juntas e separadamente, risadas e gritos, gritos e risadas, pelo prazer de ouvi – los amplificados. A tensão se afrouxou. Começou a viagem. ” (p.68) Elena Ferrante – A Amiga genial – série napolitana – Primeiro Romance

Impressionada, agarrada no jeito de escrever solto e detalhado da FERRANTE.

Cortei conexões, voltei para me achar sabendo que não serei inteira, exposta e certa ou explícita, como gostaria de ser. Ninguém consegue ser/ ninguém é curiosamente aquilo que pensar ser: uma representação peculiar de sobrevivência e vida: vivência/experiência/ resolução/ atuação o que cabe/ou se prende dentro da idade: adorei tuas palavras Luisa! (Almoço maravilhoso deste sábado!Eu te disse que ia registrar tua conversa.)

Tempo de respirar pesado. Afinal, descosturo / rasgo o vestido para apreender a precisão. Eu me dou conta das respostas dengosas ou incertas. Até me perdoo. Das agulhas de tricô a me fazerem doer os dedos. Inteiro o sentimento e fatiado. Se confesso amor logo alguém me atropela e pergunta o porquê de dar certo ou errado, ou mais ou menos vivido, esquecido, perdoado, ou cheirosamente lembrado. Deve existir a resposta atenta certa. Hesito e penso e já vou estou com olhar vago e incrédulo para trazer/ o prazer lúcido do porquê, a explicação. Será que os grandes e perfeitos e quentes e cálidos amores terão que, necessariamente, serem para sempre? Não são. Sequer se explicam. Os amores se cortam, são podados. E se estranham e se entreolham no susto e no gozo. E se prometeram / prometem, juraram para sempre, e já não é mais nem o sempre , nem a tal da danada direção de olhar para o mesmo jardim. Aquele com rosas é o mesmo das hortênsias! Exceções. Abnegação. Aquele prazer enorme e completo, espaço aberto, um em direção ao outro, êxtase absoluto? Não. Lampejos. Comunhão? Parcial de bens de mente, ou separação total para que cada um mantenha sua individualidade no dito casamento (viver juntos ou separados por paredes e valas). Estranho dissecar o cadáver. Coisas de amor! Esta escritora italiana (ou escritor), ele ou ela, atrás de pseudônimo remexe a palavra, a infância. O começo particular sem estar na pieguice de beijos e abraços, mas no susto de viver / sobreviver. Hoje importa o esconde-esconde, o leitor se derrama na foto ou na vida particular, nas peripécias de quem escreve, não no texto, pseudônimo resolve. Aquele espiar, vislumbrar, desvendar na letra a pessoa, o indivíduo igual ao vizinho do andar de cima, ao passante daquela calçada. Complicado jogo de fazer e desfazer. E somos todos tão absurdamente iguais, dentro de um caso de visom Yves Henri Saint Laurent, legítimo, ou de uma lã escocesa, legítima. Ou jaqueta jeans, ou até sem casaco, ou nestes casacos americanos / japoneses legítimos. Os mesmos. Como os mesmos perfumes! Os odores. O certo / perfeito e instigante cheiro gente, cheiro pessoa. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

várias boas numa só

RAUL SEIXAS e Paulo Coelho

voltas da vida

Raul Seixas – o máximo! deu uma daquelas saudades que afogam, e se espalham.

Escutar tudo outra vez : com certeza, nenhuma certeza.

Tudo————-música

verdades inverídicas apenas poesia / luz: somos tantos, um exército de afirmações

…e logo dúvidas

verdades individuais: quero saber o que pensas

importa / faz sentido uma dupla, uma voz que se oponha! Difícil viver!

Hoje foi um dia de festa e festa e festa! bomboms Lindt mini praunés SUISSE

obrigada Luiza! Delícia! Elizabeth M.B. Mattos 2019 – Torres

  

linha do conforto

voltar para Porto Alegre

hoje me ocorreu…

caminhar pelo apartamento vazio,

e preencher a volta: sensação de para sempre

as voltas e reviravoltas da vida, eu gosto.

 

Torres me escolheu. A Lagoa do Violão o detalhe. Sigo a sonhar com mar, com  infinito, com a rua José Picoral 117 – mas, eu me acomodo olhando a Serra do Mar. Liberdade e eterno veraneio desenhado… Torres se veste de surpresa. O pai e a mãe adoravam esticar o veraneio até março, abril! Sinto saudade dos olhos alagados de verde do Roberto e daquele olhar lúcido de Anita. Desbravadores de amar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres