tua palavra

Sem palavra, tua voz me acolhe. Gosto. Galhos do pessegueiro, da goiabeira. Eu me transporto. Avanço com passos apertados pelos corredores do mosteiro direto ao ponto mais alto.  Verei os pinheiros e a extensão da floresta.

Eu não podia expor -me à falta de amor”  ou

” Um tremor de prazer  desceu-me do coração até  o estômago.” ou

Apaixonei -me perdidamente. Por ela e por seu vestido de flores, seu pano à cabeça, seu avental, familiares, amáveis, limpos, contrastando ali com os trajes sebentos e berrantes das ciganas ricas e muito más.”

Vou citando desgovernada passagens do livro O Ritual dos Pastores de Fernando Cacciatore de Garcia, o texto…, a palavra, o perfeito se define e se universaliza, eu mergulho.

Tenho a impressão de que o que escrevo não é em nada amargo, apesar das amargas verdades que venho expondo. Senão, não poderia ter a cordura com que penso estar narrando meu passado, a leveza com que encaro meu presente e a esperança com que antevejo meu futuro. Terei deixado claro que até o momento não culpei ninguém? Apenas desculpei. Nem vou culpar.”(p.141)

Ao ler estas memórias, fictícias ou não, eu me acovardo. Tantas vezes sem mencionar culpei. E ao confessar perdão senti rancor. Ser abandonada pode ser catastrófico, fatídico, eterno, e tão dolorido que toda ruptura sangra  para sempre.  Que a vida se encarregue de perfumar com rosas, cravos, ou colorir com anêmonas o caminho, eu me perco nas memórias, e lembranças catastróficas embora algumas vezes amorosas… A maternidade me salvou, não sei. O fim da guerra libertou Günter Grass, o amor salvou F. C. de Gracia, não posso ter certeza. Os textos se cruzam. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019 – Torres

codigo livro velho

batalha perdida

…este cansaço de viver não está nos sessenta, setenta ou oitenta, nem noventa anos, antes no medo, na covardia, no pudor. Dar passagem sem vontade. Alguns livros sugam a alma, arrancam a coragem. Como escreve Günter Grass nestas memórias que atravessam a minha precária lembrança comum. ” O medo foi a bagagem da qual não consegui me livrar. Eu, que saíra de casa para aprender o temor, tive lições cotidianas. Encolher – se, desviar – se, adequar – se, humilhar – se, essas eram as técnicas lapidares da sobrevivência, que tinham de ser praticadas sem treinamento preparatório. Ai de quem não quisesse aprender. […] Mais tarde, chamei à recordação algumas situações às quais pude escapar apenas com a ajuda de acasos afortunados, e as chamei por tanto tempo até se arredondarem e tomarem a forma de histórias que no decorrer dos anos ficavam cada vez mais palpáveis ao fazerem questão de se tornar críveis até o mínimo detalhe. Mas tudo que se conservou na condição de perigo  sobrepujado na guerra tem de ser posto em dúvida, mesmo que fanfarroneie com detalhes concretos em histórias que querem valer como histórias verdadeiras e fazem de conta que podem ser mostradas e demonstradas como o mosquito no âmbar.”(p.115-116) Nas peles da Cebola

E o medo tem corpo, sentimento, e se sacode incompetente num dia de tanto calor. Não tenho história, não tenho palavras, nem ânimo, tenho medo. Por um momento encontrei uma pessoa que poderia ser o abraço e o aconchego. Equívoco. Ninguém está em condições de estender a mão, atrapalhados com o acerto, o erro político. A cruz do calvário seguinte, o grito, o silêncio. Todos sabem  o que deverá ser correto, quem abandonará o barca. Formigas e camondongos, incerteza. Preciso  correr para o que chamo minha casa, minha caverna…,vou pintar as paredes, e os cupins serão vencidos, e as venezianas me protegerão. Elizabeth M.B. Mattos – ainda Torres de 2019 – quem sabe me mudo para Gravataí?Esqueço o mar e os amores amados. E leio:

“Era a imagem de uma camponesa linda, no seu vestido simples, de pequenas flores amarelas, vermelhas, azuis, laranja e verdes sobre um fundo branco. Além disso ela estava apenas sorrisos, divertindo – se com o que fazia, fazendo – me participar, dizendo que segurasse os saquinhos, que pedisse mais deles à babá. Os pêssegos iam ser muitos […] Apaixonei-me por ela, pela cena, por seu vestido, pelo seu lenço branco, pelo avental, por sua beleza,por sua infinita dedicação com os pêssegos. Senti que, como àquelas frutas, ela me cuidava e me queria. Não resisti a tamanha atração. Tinha de fazer alguma coisa.”(p.59)Fernando C.de Garcia O Ritual dos Pastores

Alguém escreve um livro, mas quem lê se derrama. Viaja, e se transporta. Sente os equívocos, as rejeições, e alucinações…  A vida não tem o limite da terra. Beth Mattos

Afonsinho meu peixe vermelho

A memória gosta de invocar lacunas. O que permanece fixo se reapresenta sem ser chamado, com nomes sempre diferentes, e ama o disfarce. Também a recordação muitas vezes fornece informações apenas vagas e arbitrariamente interpretáveis. Ela às vezes usa a peneira grossa, às vezes a fina. Sentimentos, migalhas de pensamentos acabam caindo pelas beiradas. ” (p.146) Günter Grass – Nas peles da cebola Memórias

O que for possível trazer ou levar, lavar ou esticar, passar distraída deixando para trás… A cada memória ou lembrança um esvaziamento. Lacunas importam mais do que qualquer detalhado e preenchido relatório. Arranco a dor. Estou vacinada. Distraída e saturada, transbordo… Todos os registros da casa estão devidamente apertados, fechados, nenhuma gota sai pela torneira, e na bacia cheia com água salgada os peixes pequenos, aflitos, ansiosos esperam como eu. Coloquei um pouco de areia no fundo, e algas, conchas.

Devo comprar um aquário. Gosto do pequeno peixinho vermelho, mas também dos  listados. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2019

 

terrível tormenta

Se  tormentas e temporais e chuvaradas e queimadas me descrevem, não sei. Texto, livro, palavras, a literatura me pertence, ofereço. Gosto do dia, verdade ou mentira. Não importa. Esta maldição abençoada das letras me consome. Beth Mattos

[…] uma terrível tormenta. Os trovões pareciam estar rasgando o mundo com estrondo e não paravam, agudos, intensos, ensurdecedores, […] amplificados por seres malignos que queriam aniquilar – nos. Os raios faziam vibrar os vidros das vidraças, com uma luminosidade ora azul, ora vermelha, ora púrpura, as cores acentuadas pelas cortinas transparentes de voile. […] lembro – me com perfeição, foram os sentimentos conflitantes de amor por minha tia e por minha mãe, a culpa por afastar – me desta e a rejeição que via na permissão que me dera para que eu me aproximasse de sua rival, que, em meu pequeno mas intenso coração, se misturaram com a tormenta, […] (.45) Fernando Cacciatore de Garcia O Ritual dos Pastores – Memórias de um homossexual na infância. Sulina 2011. Porto Alegre

 

presságio

Pode ser problema pessoal refletido no outro, no fato, no jeito peculiar de ver as coisas, e nesta neurastenia sem fim, embutida na palavra. Há que considerar, perdoar e seguir esperando a cura. Parece escuso, mal focado, amargo, seco, torto, esquizofrenicamente pontuado. Intolerante. Que estranheza! Acreditei que o mês de janeiro, e fevereiro teriam colorido de  carnaval, leveza, silêncio, música e canto, orquestra. Segue o temporal: raios e trovões. Sem sorriso. Cobrança, pedra e cascalho, poeira e ventania. O fim, ou término, o ponto, o desencanto. Estou exausta. Reviro a terra. Enfim! Cansaço,  desânimo! Ainda ouço gritos! Talvez dormir por mais um ano, ou dois.  Será difícil acertar,  o presságio  da desgraça agrada, enfeitiça a desgraça nesta cozinha de maledicência aberta. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019 – Torres

cozinha pode ser alma

O medo foi a bagagem da qual não consegui me livrar. Eu que saíra de casa para aprender o temor, tive lições cotidianas. Encolher  -se, desviar – se, adequar – se. humilhar – se, essas eram as técnicas lapidares da sobrevivência, que tinham de ser praticadas sem treinamento preparatório. Ai de quem não quisesse aprender. Ás vezes o que ajudava ao final das contas era apenas a criança chamada fortuna, gerada pela esperteza em conúbio com o acaso.”(p.115) Günter Grass – Nas Peles da Cebola – Memórias

Por que sigo lendo! Tanta dificuldade tenho com o vocabulário, com o tema. Engasgo. Eu sigo, teimosa. De certo, amanhã será um dia ensolarado, não sombrio como este. Beth Mattos

tempo ausente

“Maja 

Sim, tu, que estiveste muito mais tempo ausente de caso do que eu… Estás realmente contente por teres voltado?

Rubeck

Para falar a verdade… não… não estou.

Maya  ( com vivacidade)

Vês?! E eu já sabia que ia ser assim.

Rubeck

Talvez seja por ter estado tanto tempo ausente. Tornei – me estranho a tudo o que aqui me cerca… estranho ao meu ambiente natal.“(p.29)  Henrik Ibsen  Quando despertamos de entre os MORTOS

Há qualquer coisa de cruel quando se vive de lugar em lugar, de cidade em cidade, de estado em estado, de país em país, cruel ou dolorido.  Este estar e não estar, contínuo ajuste e reajuste. Paisagem nova, sensação nova, relacionamento novo. Armar tenda cigana e respirar, sorrir, e dançar. Alegria descontínua, paradoxalmente, constante que pode  despedaçar por dentro. Despedaçar seria nunca saber quem realmente somos por dentro, no coração. Constantemente holofotes. Elizabeth M.B. Mattos – 2019 – Torres

resvalar, não entender

Guerra evidente. O sentido pode ser outro. Compreender, teórico, escrever um vício. Conversar, monólogo. Enquanto ouço o som pausado da tua reclamação escuto o piano. Sinto a respiração do tempo. Construo a resposta. E caio no precipício. Quer dar um presente? Uma oferenda? Que seja o possível, não o excesso. Quer olhar…  Olhe. Não sei se o dinheiro faz a diferença, o poder, tenho certeza. Enquanto os filhos fazem as malas, os netos caminham, os irmãos se aquietam, os tios desaparecem, os sobrinhos se estranham, a família se renova. A energia desaparece. Não deveria ficar a pensar no envelhecer, mas eu penso. Este calor anuncia um gélido e longo inverno. Nada me impressiona, assim mesmo não quero ir, então o silêncio. As decisões estão certas. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019. Também em Torres faz calor. Faz bastante calor. E o tempo de esquecer, insignificante. Tudo é agora, este minuto de aspirar, lavar, secar, resolver, abrir a geladeira e beber água, passar o café, escolher a maçã, comer uma fatia de mamão, escolher as uvas. Ter saudade do pai e da mãe. Energia de recomeçar, reorganizar, dizer e olhar. Depois exaustão. Nada do que se pode fazer ou dizer importa. E a coragem se esconde na fuga. O vazamento aumenta, a água segue correndo, infiltração, descaso. Não, eu espero.  E fico desejando desfazer – me de todos os excessos. Dois pratos, três copos, dois jogos de lençóis, três travesseiros. Dez livros. Duas toalhas de banho. Um novo aparelho de som, uns toca discos, um rádio, oitenta memórias, dois vestidos, duas gavetas, uma coberta de penas para o inverno, uma janela, dois degraus, um cálice de vinho, uma saudade, nenhuma lembrança, nenhum excesso, um abraço. Odeio somas, subtrações necessárias. Divisões. Multiplicações? Um sorriso. Poucas palavras. Uma amiga.

scsul a saudade no portão

sustos

A perna dói por dentro, como um grito desgovernado:sinto. As costas, os calcanhares. E não durmo. O pescoço, e os sustos do corpo se apertam malcriados. Para ordenar, limpar e prazeirar preciso de energia e paz. Beth Mattos – Porto Alegre Quero um lugar que exista…, não mais minha folclórica vida de faz de conta.

limões florescem

Não esquecido. Lembro, penso, e não escrevo. Sem energia, fica para depois. Sem fogos, sem dançar, sem folia, completo silêncio. Vontade de parar, e depois fazer, mas sem ânimo. Esvaziada. Desanimada. Escrever faz acontecer, mas agora parece diferente. Faltam palavras. Leio sem voracidade. Escrevo aos pedaços.  Nas peles da cebola, Günter Grass escreve: ‘países sulinos, lá onde os limões florecem’. Pondero: já é tarde, está tão e, absolutamente, decidido que não irei nem ao sul, nem ao norte, mas eu penso neste lugar onde os limões florescem… Metas curtas e mínimas. Pequenas distâncias entre o mar e a calçada, ou comprar um flamboyant parece a extravagância certa. Atravesso, convencida de que os livros lidos definem/desenham a pessoa, e todas as leituras travadas, não feitas, empurradas, também possuem carne e osso, um EU atrapalhado, tenha ou não feito terapia, dormido boas noites, ou viajado pelo mundo. Esta geografia interior é mais clara quando me olho no texto. As descrições da casa da Vitor Hugo em Petrópolis, os cheiros peculiares das frutas. O olhar esverdeado, um grande lago, do meu pai, os cigarros e o café preto da minha mãe, sua elegância. A voz enérgica da minha tia Joana, e os cães, o quintal tem som. Os bailes dançados. Os sentimentos blindados. A leitura paralela: “Um ambiente varrido sob um telhado são e salvo à espera das coisas que viriam. Por isso havia baldes de água dispostos em fila e além de espanadores à mão para apagar o fogo e mais uma pipa cheia de areia para cobrir as chamas. Mas o que é que eu lia sob a lacuna do sótão? Provavelmente O Retrato de Dorian Gray, pasto ruminado de leitura que, encadernado em corda e com lombada de couro, pertencia ao tesouro livresco de minha mãe. A oferta abundante de Oscar Wilde em vícios, que sobrepujam uns aos outros em pecado, se adapta para olhar meu interior através de um espelho. Foi por certo naquele tempo, também, que tomei emprestado a alguém o Leonardo da Vinci de Mereschhowski, para em seguida devorá – lo no sótão. Sentado sobre um balde de apagar o fogo virado de ponta-cabeça, eu lia mais do que conseguia guardar. […] encontrei o romance de Erich Maria Remarque no armário de livros do irmão mais novo do meu pai. […] Suponho que meu tio não soubesse que Nada de novo de front estava na lista dos livros proibidos, assim como também eu li a história da morte miserável dos jovens voluntários da Primeira Guerra Mundial sem ter ouvido que esse romance fizera parte dos livros queimados. Até hoje o efeito retardatário de experiências de leitura pretéritas não me abandona. Como o par de botas muda de dono… Como todos se calam, um após o outro… Sempre de novo autor e livro me fazem lembrar minha ignorância juvenil e ao mesmo tempo o efeito sobriamente limitado da literatura.” ”(p.86-89) Continuar lendo

embotamento desapontado

E o verão foi seco, quente, ventoso. Por todo lado havia areia, que cobria muita coisa, também os pensamentos, que porventura tivessem me coçando um pouco a consciência. Mas além de toda a ação paralela e para ir direto ao ponto, eu me vejo se não contente, pelo menos aliviado desde que o rapaz havia desaparecido. As mordidas da dúvida em relação a tudo que se fazia crença empedernida diminuíram. E a ausência do vento em minha cabeça por certo não permitiu que nenhum pensamento levantasse voo. Só o embotamento é que se espraiava dentro dela. Estou satisfeito comigo mesmo e saciado. Um auto-retrato imaginativo daqueles dias me mostraria bem alimentado.” (p.82) Günter Grass Nas peles da cebola Memórias

Trabalho permeia sentimento. O exercício necessário para lembrar, a memória ela mesma, não chega leve nem solta, atrás do tempo, a justificativa. Se eu pudesse construir uma caixa-apartamento isolaria paredes de todos os aparelhos, gosto do silencio ruidoso da natureza. Terrível não poder ajudar, não ter a palavra, não conseguir mudar o incerto. Sentimento inculcado a força, sob pressão, transforma o simples num rendilhado de incógnitas. Prazeres se alternam. Açudes, ovelhas e charolês, o campo e certezas. Não apenas uma memória, tantas lembranças! O querer sem saber se pensa amor… Como explicar? Se os tempos voltassem!  Somos nós, sou eu querendo ser uma Eu que perdi naqueles livros, naquelas certezas tranquilas porque futuras. Hoje repasso as estantes nostálgica. Quanta força! E agora, tão lenta! Se aquilo tudo que foi ainda fosse. Se o cheiro da colheita, ou as porteiras abertas deixassem a risada entrar… As crianças não teriam crescido, e a expectativa corajosa estaria toda aberta a desdobrar do amanhecer os abraços e os beijos pequenos, o cheiro suado de cada um, e o zelo. E as pessoas. Envelhecer tem um gosto desarrumado. Nada importa. E a minha menina brinca com bonecas, faz ginástica, aprende inglês, judô, dança. Céus! Ser criança/menina passa tão depressa! Amanhã vou fazer uma carne de panela, cozinhar batatas. Salada verde vermelha, e o pão e o vinho e a manteiga… Preciso perfumar a casa, colocar as margaridas com as rosas. E me desfazer dos livos que não serão lidos. Belicosa e desatenta é a vida. Elizabeth M.B.Mattos Torres – janeiro de 2019