invisível

Não quero dizer/escrever que ele desapareceu. Apenas passou a estar menos presente do que até então, muito menos presente, e, é certo que o essencial da recordação está confinado ao pequeno mundo da minha imaginação.

Um jogo/brinquedo que a memória faz com pessoas mais velhas, ou mais distraídas, ou cansadas. Brinquedo de esconde-esconde. Aquilo que estou a procurar desaparece. Se é livro, acho normal, nada mais invisível que um livro no meio de outros. Na gaveta a blusa, penso, dei para alguém, lavando não está. Amanhã arrumo o armário outra vez. Se é a latinha de Coca-Cola, ué, eu já bebi, e não me lembrava. Maçãs? Fico intrigada, será que eu fiz o suco com limão? A blusa pendurada no varal, o livro na pilha daqueles da cabeceira, as maçãs na gaveta da geladeira. E a pá do lixo, exatamente, no mesmo lugar, a escada escondeu um pouco. Então comprei outra. Que surpresa! Lá está ela, junto aos baldes! E eu me olho ao espelho. Impressionante as rugas, as pálpebras pesam, e a boca esticada. Envelhecer é um fenômeno. De repente, de um dia para o outro … Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018

distraída desavisada

Se senti medo, foi inútil. Se dei dois passos e não ousei, sou covarde. Se estremeci ao teu contato, teu olha… O medo ameaça amor paixão, ou qualquer sentimento de entrega, qualquer encontro. Justifico. Aos dezessete anos eu me sentia, ainda, confortável. Sentimentos em aberto. Aos dezoito anos caminhei muito, muito. Aos dezenove um susto. Aos vinte anos casada. Aos vinte quatro três filhos. E a vida me atropelou de tão intensa foi! Aos quarenta, minha filhota bebê, a Luiza. Tu nunca te aproximaste, mas eu lembro teu olhar. Se o teu passo, se o teu sorriso, teus olhos tivessem me abraçado… Fico imaginando. Tenho certeza: eu te beijaria. Imagino, sonho. Teu corpo, meu corpo. Apagaste outras lembranças amorosas. Queixume e choramingo. Seria apenas começar. Eu te conheci neste hoje turbulento, intenso. Passamos um ano estremecido, conturbado, indeciso. Essencialmente amoroso. Cerejeiras de todas as cores. Desavisada, distraída. Se penso intimidade, penso entrega. Amorosa, lenta. Como se o tempo, bem, nada importa. Apenas os segredos. Uma enrascada, compreendo. Lamento. E não sei como sair. Eu te penso todos os dias. E todos os dias… Não significam / não mudam o que podia ser. Irremediavelmente longe! Eu vou te chamar, ouvir tua voz, e como menina desligar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018. O que fizemos com o possível?

perfumadas 2perfumadas

GRIFFIN fotografia

muitas flores nas cerejeiras

VALENTINA em outubro de 2018

BELA TODO DE COSTAS de LUiza MODELO

para sempre

Cheguei a planejar uma alameda de cerejeiras de jardim aqui. 

Incrível intimidade que nunca existiu e parece que nunca acabará …

cropped-cerejeira-flor-florida.jpg

…, gosto de pensar que nunca acabará. Intimidade de alma que se esparramou numa alameda de cerejeiras. Eu estou sempre voltando pelo mesmo caminho. E quero que o tempo nos imobilize, e não seja tarde. Tarde demais … Beth Mattos -novembro de 2018

tristeza fresca

“[…] tentativa de fuga não se fazem acompanhar de paixão verdadeira nem de entrega, refugiam – se em ocupações, em tarefas artificiais

Você sabe, no interior de certos modos de vida e de certas normas sociais a solidão a solidão apropriada a cada idade se manifesta como a doença dos organismos desgastados.”

E ficamos sós porque somos orgulhosos e não temos coragem de aceitar o dom um pouco aterrorizante do amor. Porque temos um papel que nos parece mais importante que a vivência do amor. Porque somos vaidosos.”

(p.176-177) Sándor Marái (Autor de As Brasas) De Verdade

Pensei em tudo isso. E fui limpar a casa, organizar a roupa. Dar uma volta com a Ônix.

É verdade que escolhi esta vida, não sei se nela me escondi, ou se comecei a respirar.

Aos dezoito anos fui fazer/trabalhar na televisão com Célia Ribeiro, e um pouco do que chamo jornalismo na revista Globo (quatro edições -, entrevistas com pintores). Logo me casei. Três filhos. Fiz a faculdade no Rio de Janeiro -, Anos de Chumbo, podia se andar de ônibus a qualquer hora da noite.  Comecei a trabalhar no Colégio Da Providência. De repente fui obrigada a voltar para o Rio Grande do Sul, e já era 1980. Conheci o Jorge na casa de minha irmã, e casamos. Dois anos em Porto Alegre, no Sul. Tempo de ser princesa. Santa Cruz do Sul, gosto daquela cidade. Mais um filho, veio a Luiza, minha bebê. Toda uma história boa. A separação me trouxe para Torres. E surpreendentemente fui, outra vez,  muito, muito, muito feliz.

Porque os corpos se lembram, você sabe, para sempre, como o mar e a terra, de que pertenceram um dia.” (p.244)

Abro um livro todo cheio de anotações, um autor que gosto muito, a ser relido. A memória caminha distraída pela vida. Um dia tão azul hoje! Elizabeth M.B.Mattos – 2018 – Torres

Tristeza fresca é do Marái …, que delícia de expressão.

foto minha novembro de 2018 tempo passsando

Alegria prazer encontro, até as lágrimas são boas. Amigos e amigas. Sim, preciso emagrecer, preciso caminhar mais, preciso …, mas empurro. A vida me salva.

 

colheradas

Dia difuso, tomado de saudade… Ora! Ora, ora! Não vivi  isso / não sei onde estás:  imaginação / alucinação… Não faz parte / não pertence / não é a minha vida.  Loucura desta desenhada e colorida imaginação. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 – Torres

Paul Auster em Diário de Inverno – memórias : Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas o tempo está – se a esgotar. Talvez não seja pior poderes de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo dede o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais.”

Foto do Maurício de cotas caminhando na água

Esses livros são as colheradas com que tenho medido a minha existência.” Ian McEwan

dolorido esquisito

Histórias de amor suado, esquecido, naufragado ou findo … Termina antes, antes  de começar: dolorido esquisito. Se não amo desespero, se amo eu me atormento. Quero e não sei. Fujo e entristeço. Se é azul, ou castanho, verde ou …, pois é sempre naufragado. … ou apenas isso, dolorido esquecido, largado, o amor. Como é mesmo amar e se apaixonar? Que droga! É desespero ou vazio? Elizabeth M.B.Mattos – Torres

Santa Cruz do Sul

Santa Cruz do Sul

A leitura se completa na memória dos livros lidos. Cada idade uma foto-história. Santa Cruz do Sul. Vida generosa. E.M.B. Mattos

Tinha a impressão de encontrar-se num lugar que conhecia, mas não sabia conhecer; ou percorrendo um livro que já lera mas relia com a mesma emoção, porque não tinha memória de tê – lo lido. ”  Orphan Pamuk

encaixotando saudade

Livros em caixas. Louças nas cestas. Engradados. Abre outra garrafa de vinho. Escolhe um dos cálices de vinho que se alinham aos de conhaque, as bolhas. Ainda tem três pacotes de biscoitos, damascos, um pouco de café, uma lata de leite condensado, e uma de sardinha. Bananas e laranjas. Meia dúzia de ovos. Duas garrafas d’água, e nenhuma fome. Precisa terminar de embalar o que falta. Senta no banco de três pés perto do fogo. Coloca um nó de pinho na lareira. Gelado este agosto. As venezianas entreabertas.

Isabel boceja! Deita no pequeno sofá, puxa  até ao pescoço aquela coberta de lã de ovelha. E onde fica o esvaziar, limpar, classificar, selecionar, eliminar? Precisa reagir. A estante de livros ainda abarrotada. A mesa retangular em desordem: lápis, régua, estilete, esferográficas, pincel atômico. Fichas, uma pilha de papel A4, duas canetas tinteiro, um caderno quadriculado, capa verde, aberto. Um peso de papel. Livros em torre, por autor.  Não dorme, volta aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo. Os objetos transitam, se movimentam pelo chão. O mundo de dentro estripado no tapete. Ou mesmo grudado nas portas, em lembretes. Estas sucessivas mudanças adoecem o espírito e o corpo. Choveu e ventou a noite inteira. Vasos em caixas de plástico. Manhã escura! A chuva e o movimento sacudido das samambaias arrastam sombras verdes. Abre a caixa que deixou na cadeira azul… Ajoelha no tapete e começa a tirar as fotos dos sacos plásticos. Visita cuidadosa ao passado catalogado: 1936, 1946, 1956, depois 1970, 1980.1999. O telefone? Não. É a campainha. Enfia os pés na pantufa, pego a chalé amarelo da mãe, passa as mãos no cabelo. Parece ser ainda mais miúda, as franjas sacodem nas pernas do pijama de flanela. Desce os degraus para chegar à porta. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2013 – Porto Alegre