é assim mesmo

“Torna -se difícil desvendar significados de objetos exteriores a nós, quando tudo se encontra e se esconde dentro de nós mesmos. O mundo somos nós e a paisagem, que passa, só serve para retratar as mudanças, que sentimos.”

E segue, farei recorte, porque posso pensar e dizer  …, sem explicar nada.

“Discretamente gostaria de me encontrar com algumas pessoas […] Já outras, não gostaria de  encontrar nem em catálogo telefônico. Mas cidade pequena é assim mesmo. Tudo é oculto. Tudo se sabe. Ama-se avassaladoramente, detesta -se visceralmente. Todos sabem de todos. Todos opinam sobre todos. Ninguém conhece  ninguém.”

“Que venha vida! Deixarei acontecer tudo aquilo que, pela experiência dos que já passaram e existiram, sei que vai acontecer mesmo. Pois nada muda. O que antecede é sempre o melhor. quem arou, colha!

Última curva.

É aqui …” (p.82-83)  Marco Aurélio Barroso  …ela mora em Botafogo20140801_134947

fui me afeiçoando

“fui me afeiçoando […]

fui me emocionando […]

fui me afeiçoando […]”

“Assim somos nós, um em vários.”

“Eis aí, talvez, razão de só se sonhar com o que não se possui.”

“Ao se descobrir quem nos completa, algo que não conseguimos evitar, estamos a dois passos da insegurança e a um do infortúnio. Equilíbrio interior desloca -se. Passamos a necessitar de um outro ser que o mundo nos faz conhecer e sentir mas que a vida nem sempre endossa e acata.”(p.47) Marco A. Barroso  “…ela mora em Botafogo …”

ela mora em Botafogo

…, não explico nada, sinto, e o sentir não se explica nem se escreve. Tropeço no degrau …, sigo sem olhar para trás. Faz frio em novembro. Durmo de tarde, durmo cedo, durmo … Não é para esquecer, mas deixar escorrer. Beth Mattos dezembro – 2018 – Torres

 

sou duas, e tua

Duas caras, duas versões, dois olhares, duas vozes. Sou tua: dupla. De todas as formas sou tua. Sem te aperceberes, querido, és meu. Não fujas. Eu te vejo e escuto no silêncio da tua respiração. E.M.B.Mattos – dezembro de 2018 – Torres

“Toda confissão é história, corajosa, e … perigosa. Toda! Mas o que sera da vida, sem a saudade de tudo aquilo que passou para sempre? Não seria o passado, o que de melhor nos traz o presente? Esta fatal noção de só possuir o que já se foi.” (p.14)  Marco Aurélio Barroso – …ela mora em Botafogo …ou, esqueça seus dramas, para entender o meu.

…, vou contar a história. Não importa teu sono.

Entre beijos, afagos vigília e sono, … a escutar.

…, não importa. Invento ao dizer/escrever, confesso.

amamos excesso

Dias contados. Vou devagar, não resisto. Sento e leio. Tenho medo de dizer perfeito/a. Essência, sem excesso. “Amamos excesso“. Transcrevo. Não é equívoco, sou eu a me explicar: pode ser espelho, e nesse me deixo ficar…  Sempre sou eu a te dizer, e não me ouves. Não me importo. Teu mundo, no limite da terra, do prazer.  Eu gosto. Eu sou o que és, não quem imaginas que sou.  Beth Mattos – dezembro de 2018 – Torres

“Nessa vida em que tudo passa mas nada passa, realmente, somos semelhantes. A igual de velhos teatros que, hoje, tão atônitos quanto incrédulos, legados ao próprio destino, não fazem mais do que assistir, sem necessidade de ingresso, ao espetáculo que vida, por si mesma, apresenta: nós na rua.

Fluxo eterno e infindável. Eterna ilusão do leva e traz que nos leva de encontro à felicidade que sonhamos estar sempre na primeira esquina. Incansável ir e vir, descer, subir, que não elucida, não esclarece a que destino compensador prende -se condição humana. Cercado de heroínas, não fazemos que sofrer. E isso é nós na rua. É estar sempre esperando encontrar, em dobrar de esquino, reluzente futuro. Somos é personagens de nós mesmos, cuja platéia somos nós próprios. Amamos excesso. Saímos dum, caímos noutro.” (p.11-12) Marco Aurélio Barroso – …ela mora em Botafogo … 2006

Torres

Foto de Ana Moog – 2018- Torres

 

desastre e acerto

Entre desastre e acerto. Panelas e janelas. Hidráulicos eletricistas e …, certo desespero desdobrado neste eterno consertar. E Torres? Nas praças estruturas para cantos natalinos e  grandes eventos. …, que seja! A cada um seu espelho. A Prainha ainda guardava corajosa o genuíno com areia pedras e grama, mar …, agora tem uma estrutura de cimento T O R R E S. Obviedade do excesso de mau gosto.   …, e não me arrisco a fotografar, onde estão as dunas, …?! Sou passado. Qualquer natureza natural também é passado. Americanizamos. Novo PLANO DIRETOR … aberto aos construtores investidores, e lá vamos nós nos pendurar em arranha céus milionários e visionários. Praia de sombras, em …, mas ainda temos Santa Catarina! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2018 – Torres

cinamomo florido

 Fotos de Torres : Ana Maria Moog

Sucesso aos eventos esportivos.

busca meu rosto

Quando eu te procuro vejo e sinto tuas mãos. No escuro. O cego tateando. Este sentido assume a energia do corpo. Então, tu me beijas. Amor transformado. Estamos a viver anos conturbados, estranhados e longe um do outro. Não temos tempo azul, mas tempestades e acasos. Beth Mattos – 2018 dezembro em Torres

“Como disse Nietzsche ‘A verdade é feia’ Ele disse: ‘Temos a arte para que a verdade não nos mate. A única virtude que nos resta nestes tempos modernos é a coragem diante da falta de esperança. A única arte é aquela em que os símbolos apreendam (guardem protejam)a verdade fundamental da vida, a tragédia da vida. A arte primitiva é mágica porque é moldada pelo terror. O homem moderno tem seu próprio terror, e nós …” […] O sonho é só uma parafunda, refugo cerebral. O importante não é a psiquê, e sim a metafísica. É penetrar no mistério do mundo; para isso, a mente do pintor deve ser tão pura quanto a do cientista e a do filósofo. Eu chamo esse processo plásmico: o objetivo da arte abstrata é converter cor e forma em plasma mental.“(p.60) John Updike BUSCA MEU ROSTO

 

 

contagem regressiva

Ao longo da vida …, depois dos primeiros encontrões e sustos, eu me protegi, cuidei para não sair do quintal. Espiava por cima da cerca. E por longos compridos e tranquilos anos, tudo deu certo. Neste envelhecer, nesta contagem regressiva …, desavisada despreparada, a tua sedução explode. Que voltes ao início, ao começo, ao princípio …, tudo bem, eu entendo teu cuidado. Eu te peço, outra vez, que voltes ao fim, para repetir o que já sei …, mas eu te vejo, eu te escuto. …, a última vez, depois será para sempre. Não volto mais. Beth Mattos – dezembro de 2018 – ainda em Torres

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PARÊNTESE

Prometi carta e  fotos. Faz calor, calor sem sol, com chuviscos. O verão chega barulhento, mole. Ócio, vagar. Não, nada disto. Por aqui não se dorme. As horas se embaralham confusas na rotina sem sono, ruidosa, inquieta e trabalha-se o tempo todo. Toda a programação interna se modifica. Oxalá pudesse fechar a casa. Paz de serra, ou de mar com areia e rede, sem gente. Os sonhos se misturam com a vida ela mesma em pesadelo. Entender o ritmo? Não consigo. Continuo recuperando memória. Não parece tão simples.

 

Olho meu menino: olhos luminosos: porcelana transparente entre azul e verde. Tardes concentradas na risada com banhos, engatinhadas, bananas, maçãs, mingau. Às vezes vou caminhar: vejo o mar.

Volto a ler devagar: releio o capítulo anterior cada vez que retomo o livro. As histórias se misturam no cotidiano, discuto com personagens.  Não lendo eu olho. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 1999

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PAULO HECKER FILHO de Celestina…

Com paixão de apaixonado abro o pacote. Amontoada na cama começo a ler. Quero engolir o livro. O prazer  atordoa. Leio, leio rápido. Cisnes selvagens pela metade. Homem sem qualidades iniciado: indisciplina. Ansiosa para falar contigo. Pegar o telefone e perguntar. As respostas já tenho. Delírio meu.  Paulo apenas mandou um presente, e não se fez presente.  Abraço risonho. Estou a te escrever. Boa tradução de Celestina, devolves alma ao livro. Quero o mundo, quero sol. Calor da chuva. Choramingo desilusões desencontros.  Quero dizer tantas coisas! Quero remexer neste baú, misturar tudo, acordar tudo, e  viver.

“[…] porque viver vai além da cultura e é o que temos de fazer imediatamente. Há Deus no céu, conceda-se, mas por aqui cada um anda atrás de seus interesses, sem maiores contemplações com conceitos ou com os outros. ” (p.39)

Três horas da manhã. Risada, avidez, desordem ou ordem. Na cama  um telefone, embaixo do travesseiro. Lápis bloco, meu caderno vermelho, um prospecto. Livros em leitura.  Casaco com furo,  guardei do meu pai. Travesseiros, controles de televisão: tudo na cama, e eu. Desordem. Do espírito zeloso, amigo, eu recebo num golpe só — de volta –, num impacto a pieguice. Loucura ingênua de paixão obstinada que me obceca, imbeciliza: vou sair deste lugar. A leitura prossegue fácil, revela. Irônica verdadeira,  e simples. Louca eu sou. Continuo lendo metida no livro. Enxergo mais do que vejo: desperto. No susto amadureço. Sucumbo ao feitiço: quero de volta a juventude: conversar e comprar uma Celestina, a mágica. Quero tudo de volta. Sinto raiva de mim mesma, de todos, do mundo, droga! O ópio de chineses.

Droga! Leio em voz alta, decoro. Estudo e repasso os ditos populares, sábios: “Bem, Palermo, deixa para outra ocasião. Avisaste e eu te agradeço. ” [4] Vou ler, vou tentar dormir, vou escrever. Vou pensar. Obrigada meu querido, amanhã te escrevo mais. Elizabeth M.B. Mattos

[1] Chang, Jung. Cisnes selvagens: três filhas da China. São Paulo: Companhia das Letras.1994.

[2] Robert Musil. O Homem sem Qualidade

[3] A Celestina, Fernando de Rojas. Tradução Paulo Hecker Filho.

[4]  A Celestina, Fernando de Rojas

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Paulo Hecker Filho Vitóio Gheno  Nádia e eu