quase me compreendeu

“ Num minuto, houvera uma mulher bondosa dando-lhe atenção, enquanto ele corria ao quarto dos fundos para buscar suas lembranças, e no minuto seguinte, enquanto ele as estava desenrolando diante da ouvinte, ela tinha ido embora. Imaginei a mágoa que ele deve ter sentido ao ver como historias tão esenciais para a pessoa que ele era devessem exigir um ato de caridade de uma jovem enfermeira para serem ouvidas. Ele não tinha nenhum biógrafo para recolher suas palavras, para mapear seus movimentos, para organizar suas lembranças; ele estava vazando para o interior de inúmeros receptores, que o ouviam por um momento, e então lhe davam uma pancadinha no ombro, e partiam para suas próprias vidas. A empatia dos outros era limitada às exigências do dia de trabalho, e assim ele morreu deixando fragmentos de si dispersos casualmente em meio a uma caixa de cartas esmaecidas, fotografias sem legenda reunidas em álbuns de família e histórias contadas a seus dois filhos e a um punhado de amigos que marcaram presença no funeral em cadeiras de rodas” sobre Wittgenstein no livro de Alain de Botton

 

E “ […] o filósofo Cioran escreveu uma vez sobre a impossibilidade de uma pessoa estar verdadeiramente interessada por outra por mais que um quarto de hora (não caçoe, faça a experiência). E até mesmo Freud, de quem se poderia esperar que acalentasse esperanças pela compreensão e comunicação humanas, disse a um entrevistador no fim de sua vida que ele não tinha nada realmente nada do que se queixar;

            –Vivi mais de setenta anos. Tive o suficiente para comer. Tive prazer em muitas coisas. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso pedir? ” (p.16, Alain de Botton, no livro Mínimos Detalhes)

 

insone

Uma noite inteira acordada. Coisa de menina. Reli escritos selecionei. Esperei um bilhete de Francisco. Não chegou. Afetos escondidos. Importa a necessidade de alguém por outro alguém? Se posso chorar, tudo é possível. Chorar largo. Chorar cansada, cansada porque insone. Liguei a TV e vi um filme: Razão para Viver. História de uma história. Difícil escolher palavras. Ou dizer/explicar o que vejo/ sinto. Se eu pudesse dizer o que sinto de verdade e como vejo/olho. Se soubesse das palavras escreveria. ElizaBeth  M.B. Mattos – maio de 2018 – Porto Alegre

P.S. Lise me deixou um livro pra ler: Assédio Moral, Violência perversa no cotidiano – editora Bertrand Brasil de Marie-France Hirigoyen. Encontrou resposta para dor. Dores brotam e se repetem pelo perverso. Só a bondade salva. Vou ler o livro. Se chover o dia inteiro, sei que será um bom dia. Sono revirado da noite vai me seguir hoje.

palavra

Palavra é aparência e o mundo é cinza porque o queremos cinza. Palavra é uma máscara que raramente expressa de maneira correta o que está por trás, antes encobre. A inteligência não é o que importa, mas sim a imaginação. Beth Mattos

ISADORA DUCAN e RODIN

Abro a última gaveta daquela cômoda grande da sala de jantar. Agora no canto direito. Cartas, fichas, rascunhos. Passados tantos anos sem te escrever, retomo a conversa, transcrevo parágrafo. Reconheço vida sentimento. Inexperiência impossibilidade desencontro de Rodin com Isadora.

Rodin era baixo, troncudo, vigoroso, com o cabelo aparado curto, e umas barbas patriarcais.  Mostrou-me as suas obras com a simplicidade dos grandes homens. Por vezes, murmurava um nome diante das suas estatuas, mas percebia-se que esse nome, qualquer que fosse, não tinha a menor importância para ele. Depois, corria a mão pelas formas da sua criação, como que a afagá-las. Vinha-me a impressão de que sob estas carícias, o mármore se amolecia, igual ao chumbo derretido. Finalmente, pegou num bocado de argila dúctil e passou a afeiçoá-la entre as palmas musculosas. Enquanto isto resfolegava com força. Todo ele era uma forja em trabalho, crepitando fogo. Num instante tinha moldado um seio de mulher, que lhe palpitava entre os dedos. Tomou-me pela mão, chamou um fiacre e fomos até o meu atelier. Vesti rapidamente a túnica e dancei para ele um idílio de Theocrito, que André Beaunier havia traduzido especialmente para mim: 

 Pan aimait la nymphe Echo,

 Echo aimait Satyre, etc. 

A seguir parei para explicar-lhe minhas novas teorias sobre a dança, mas não foi difícil certificar-me que ele não dava nenhuma atenção às minhas palavras. Sob as pálpebras caídas, fixava-me com olhar brilhante. Depois, com aquela mesma expressão fisionômica que adquiria diante de seus trabalhos, aproximou-se de mim. Passou-me a mão pelo pescoço, pelo peito, acariciou-me os braços, correu-me os dedos pelos quadris, pelas pernas nuas, pelos pés também nus. Pôs-se a modelar-me o corpo, como se estivesse diante de um barro mole. Enquanto isso se desprendia dele um bafo ardente, que me queimava, enlanguescia …. Por todo o desejo gostaria de abandonar-me entre os seus braços, e o teria feito, se não fosse a absurda educação por mim recebida, e que me levou a recuar num gesto de pavor. Então, sem mais pensar, enfiei, às pressas, o meu vestido, mesmo por cima da túnica, e conduzi-o precipitadamente até a porta. Que pena! Quantas vezes não lamentei, depois, aquela incompreensão pueril que me privara de oferecer a virgindade ao grande deus Pan, ao poderoso Rodin![1]

Escolhas erradas! Importante insignificante insegurança que não permite sonhar com estrelas, apenas com margaridas. Beleza equivocada simplicidade. Somos ceifados. O encontro de Isadora com Rodin evidência de amor no desencontro de amar. Lamento o que já não posso desfazer. Penso no que poderia ter sido. A vida se repete.

Encontrei o poema que inspirou Drummond: eco e ressonância. Pedro ama Maria que ama José que ama Luiza que ama o João que casou com Valentina. Maria morreu e Pedro foi para o convento. Beth saiu de casa e colheu fores no jardim de Joana. Curiosa conversa entre homens de diferentes tempos.

FOTO linda

Tu não és Rodin, não sou Isadora, apenas lamento …  Elizabeth M.B. Mattos

 

[1] Ducan,Isadora -Minha Vida – Ed.Livraria José Olympio, Rio de janeiro,1938, p.104/105.

segredo

Se os segredos existissem … ah! Existem para serem revelados aos sussurros. Não existem. Ou o Vaticano ainda nos reserva surpresas? Os porões da ditadura sussuram. Gostaria de escrever/dizer e não guardar mentiras cavadas. Vamos aos fatos. Teu telefonema matutino me deixou alegre livre e solta. Das leituras te conto. Gostei do  livro de John Banville O Mar :

O meu pai trabalhava em Meganagh e voltava para casa de trem, numa fúria calada (gosto desta fúria calada) carregando as frustrações do dia como se fosse uma bagagem pesada que pendesse de seus punhos cerrados. […] O que será que a minha mãe fez da vida depois que ele se foi, e que eu não estava mais lá? […] como é estranho pensar nisso, …  Todos parecem mais jovens do que eu, até mesmo os mortos. Posso vê–los ali, meus pobres pais, brincando de casinha, cheios de rancores, na infância do mundo […] Só que eles estavam no meu caminho, encobrindo a minha visão do futuro. Com o tempo eu ia acabar aprendendo a ver através deles, os meus pais transparentes. (p.34)

Nossos pais deixam um rastro, e mesmo transparentes interferem aqui e ali …, deixo de fazer, como se estivesse sendo vigiada, alertada. Droga! De que vale a experiência do outro, a coragem do outro, a incerteza. Onde eu estou nesta história? Sigo a leitura mergulhada neste nada poder nada fazer. Respiro.

Obrigava –me a pensar nela; fazia isso como uma espécie de exercício. Ela está alojada em mim como uma faca e, mesmo assim, estou começando a esquecê-la. A imagem de Anna que tenho no coração já está se desgastando; pedacinhos da tinta, partes da folha de ouro estão descascando. Será que a tela inteira vai estar vazia qualquer dia desses? Cheguei à conclusão que a conhecia pouquíssimo, isto é, de que só a conhecia preguiçoso demais. (Constato perplexa que somos mesmo preguiçosos em relação ao outro, a todos!) Acho que sim, fui tudo isso, mas, mesmo assim, não creio que esse esquecimento, esse não-ter-conhecido seja motivo para eu me culpar. Na verdade, fico pensando se minhas expectativas não foram excessivas com relação a essa história de conhecer. Sei tão pouco a meu respeito, como poderia pretender conhecer outra pessoa? […] Mais uma vez, tenho que me explicar melhor. Não é que não gostasse do que eu era, quero dizer, do meu essencial, singular – embora admita que a própria noção de um eu essencial, singular, seja problemática -, mas dos agregados de afetos, tendências, ideias adquiridas, tiques de classes, coisas que a minha origem e a minha criação me confeririam à guisa de personalidade. ” (p.183-184)

E o mar, a presença constante do mar ao longo da novela, … a plástica de cada descrição. Movimento, cor. A presença de pintores: cada tela mencionada, um mergulho.  Referência a Bonnard, particularmente, chamou minha atenção. Trouxe um pequeno livro da vida e obra dele quando estive na França, gosto muito da pintura impressionista dele. O autor coloca música nas páginas, e a literatura acontece num desdobramento onírico. Jogo complicado, quebra-cabeça. O leitor se envolve escreve ouve, e então, respira com as palavras de Banville num único ritmo. Sinalizadora leitura. Depois de terminar procurei Demian  de Herman Hesse  como se houvesse a resposta às inquietudes devaneios necessidades. Como é complicado difícil viver! Estou a te escrever com dores nas costas, uma pontada na costela esquerda: limitada e egoísta porque não consigo desdobrar o possível. E, de repente, é impossível. Tanto tempo tive para fazer as coisas pelo lado certo; firme chegaria dentro de mim mesma, mas nada, … vejo apenas esta distância enorme! E medo da vontade. Medo descontrole dependência. Fico por aí a perder o tempo desperdiçando a hora deixo correr o que não retomarei. Chupar laranja o sorriso do pai  e os olhos brilhantes da mãe. Voltar. E o tempo danado morde aperta. Eu não sou possível. Tão rápido e atropelado. Não respondes. Saudade miúda grande enorme. Não vou mais repetir. Chuva frio que entra nos ossos. O passado … “ O passado, o passado de verdade, tem muito menos importância do que acreditamos. ” Escreve Banville. Beth Mattos – maio de 2018 – Torres

O MAR texto LEITURA

O MAR LIVRO CAPA

 

achada no mar

Quando penso saudade atravesso a memória. Sou Torres sou Rio de Janeiro sou Porto Alegre e me transformo. Estranho movimento de ir ficar voltar e sair.  Esquecida  distraída alegre. No meio do deserto. Achada no mar. Beth Mattos – maio de 2018

caminho

Nenhum caminho…, todo o caminho tem encruzilhada. Nenhuma voz, todas as vozes soam ao/no mesmo tempo. Eu me ilumino para que possas me ver. O frio já conversa. E o sono invade.  Beth Mattos – maio de 2018

“[…] o amor é o dom de tornar visível o invisível e o desejo de sempre sentir o invisível próximo de si.” (p.158) Orhan Pamuk  – Meu Nome é Vermelho

O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo.

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Perdidos nós nos achamos. São muitos tantos os caminhos…, preciso me perder para voltar, e nos reencontrar noutro caminho. Encontro, abraço, beijo, agora. Depois preciso partir. Felicidade chega e vai, como o prazer. Vida de alegria chega e vai. Há que se ter o leme e a força de seguir. Resiliência. O novo surge num momento de surpresa.

uma carta

Conheci Iberê Camargo. Uma correspondência de trinta anos. Aqui transcrevo carta de 1986.

“Porto Alegre, 12. 1. 86.

Querida Beth

[ …] É difícil sair de uma crise apenas com as próprias forças. Penso que se te ocupares com um trabalho criativo – escrever, por exemplo – te aliviará as tensões. A criação nos liberta sempre. Continuo trabalhando muito, adoidado. Não raro atravesso a noite, pintando, pintando. Agora pinto manequins, manequins da rua da Praia, como os chamo. Eles me dão toda a dimensão da vacuidade em que vivemos nesta sociedade de consumo. Eles são vazios, ocos, apenas vestem. Entretanto significam porque são simulacros, modelos de uma vida irreal que coexiste com o real, como um mundo paralelo. É por isto, querida Beth, que há tantas mulheres andando por aí com tope de fita no cocuruto. Elas se identificam com uma certa personagem da novela. Estou de boa saúde. Terça-feira faço o último exame de revisão. Espero me sair bem. A exposição Trajetórias e Encontros vai para São Paulo, depois para Brasília. Talvez eu também vá a São Paulo para assistir uma inauguração no MASP. Aqui o calor também está insuportável. E tenho pena é dos bichos que nunca fizeram mal à natureza. Beth, com muito carinho e abraços IBERÊ” 

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TRABALHANDO AUTOBIOGRAFIA – dados iniciais e recorte das CÔNEGAS de SANTO AGOSTINHO

Eu me chamo Elizabeth Mattos. Nasci em Porto Alegre no dia 9 de setembro de 1946. Meu pai, Roberto Menna Barreto Mattos, minha mãe, Anita de Athayde Mattos. Moravam na rua Vitor Hugo 229, em Petrópolis. Tenho duas irmãs. Estudei na Escola Estadual Rio Branco, na Avenida Protásio Alves, depois no Colégio Santa Inês, também na Avenida Protásio Alves.  Por um descuido, perdi a matrícula: a mãe sofreu terrível acidente de carro nesta ocasião, o que justificaria a confusão. O pai conseguiu vaga no Instituto Nossa Senhora das Graças, Beco do Carvalho – Cônegas de Santo Agostinho.

“Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, nasceu na pequena cidade de Mattaincourt (França), na noite de Natal de 1597, com Alix Le Clerc, a quem se juntaram quatro companheiras, sob as bênçãos do padre Pedro Fourier. O contexto sócio-político-religioso-cultural da época era desfavorável: guerra pela independência do Ducado da Lorena (ao qual pertencia a cidade dos nossos fundadores), empobrecimento, reforma na Igreja Católica, corrupção de costumes, injustiças sociais, ignorância.

Abrindo-se às necessidades das cidades bem como às dos burgos e aldeias, as jovens Irmãs visitavam os doentes e necessitados. Perceberam, assim, quanto a mulher era desprezada pela sociedade, não tendo direito sequer à instrução. Corajosas, decidiram enfrentar o desafio de se dedicar especialmente à educação das meninas, pensando em formá-las para participar da vida em sociedade, colaborando para mudá-la. Fundaram, então, a primeira escola da Congregação, em 1598, em Poussay, próxima de Mattaincourt.

Uma escola que acolhia pobres e ricos, católicos e protestantes, todos tratados com o mesmo respeito pelas suas mestras. As alunas que se destacavam eram formadas, por sua vez, para ensinar. Alix Le Clerc realizava, dessa forma, sua vocação de fazer uma nova casa de religiosas para praticarem todo o bem possível.

Nascida em Remiremont, na Lorena, em 1576, a bem-aventurada Alix Le Clerc tinha 23 anos, quando, junto com outras quatro companheiras, fundou a Congregação de Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho. Alix morreu aos 46 anos, em Nancy, França, e foi beatificada em 1947.

O fundador da Congregação de Nossa Senhora (CSA), São Pedro Fourier, nasceu em Mirecourt, outra pequena cidade próxima a Mattaincourt, em 1565. Cursou a Universidade de Pont-à-Mousson, fundada pelos jesuítas.

A espiritualidade de Santo Agostinho, com sua ênfase no amor e na liberdade, foi a inspiração de toda a sua vida e de sua ação apostólica. Seu lema era: “Fazer o bem a todos e mal a ninguém”. Morreu em 1640 e foi canonizado em 1897.” 

Conclui o ginásio. E o segundo grau. Com problemas em inglês, fui reprovada. Irritada comigo (punitivamente) não fiz a prova de segunda chamada (não sabia nada de nada).  Teimosa reprovação. Ironia. Como a lei de diretrizes e base alterava ainda uma vez o currículo, esdruxulamente, não repeti a matéria. Matriculada no Colégio Bom Conselho, optei, naturalmente, pelo francês. Ano feliz. Excelentes amigas e amigos, boas histórias. E um malogrado e famigerado noivo. Logo a ida definitiva para o Rio de Janeiro. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres