domingo de sol

Manhã gelada iluminada pelo sol que não aquece, festeja emocionado e pensa nos festejos reais do sábado. Estende a alegria da festa. Não por serem nobres e…, mas pela juventude do noivo inglês e da noiva americana. Iluminados, os jovens. O bom cheiro da juventude, pensa o sol. E se são anjos parecem mais belos ainda (mesmo na ilusão). Celebração do amor. Olhar terno de um para o outro. Disposição das pessoas que os cercavam, – e era um dia de sol. Mãos juntas. Amor de amar. E o sol comunga. Minha amiga: acho que esta conversa interminável pelo caminho de amar nos foi ensinada na escola, no exemplo. Sei lá! Acho que foi assim que o amor começou. O exercício de amor está em abrir as janelas, arrumar a cama, fazer a comida, ouvir música, escutar o silêncio: comunhão alegre com a vida. Sai de dentro deste fazer cotidiano o amor. Nesta oração direta com a vida ele nasce ele vive e ele morre um dia. Adoro flores no vaso, o sono demorado nos lençóis perfumados, no cheiro de limpeza, na grama cortada. O amor está no teu olhar. No café preto, no cálice de vinho, no chá, na comida, no gosto no cheiro, no toque. Todos sabem do amor muito mais do que imaginam. Estás um pouco distraída ou triste ou infeliz ou perdida, mas, logo, logo mesmo, acordas e eles os amados acordam também e amam. Irmãos são mais fáceis de amar explica uma amiga que me consola. Não, os irmãos são competitivos confusos nesta questão de posse e poder. Tropeço. As pernas ficam escalavradas os joelhos ardidos quando corro em direção ao amor. É tão fácil brigar jogar os pratos no chão gritar e bater as portas com raiva. Isso acontece num teatro mal-humorado. Amadurecer passa por um caminho de espinhos. No final eu termino/acabo por me enternecer (abraço inesperado, explica/ diz, um amigo amoroso: dá um abraço e surpreende) com o gesto malogrado com cheiro de desamor de uma amizade malograda. É tentativa, amiga. As pedras são jogadas com raiva, mas se dignificam em outro momento, antes de chegarem ao alvo. Sei lá. Há que aprender a perdoar. Perdão e amor caminham juntos. Como vamos mudar o mundo? Ou…,confusa estou, amiga, a procurar palavras certas, adequadas. Difícil tarefa me propões. O lugar mais seguro do mundo é/será/deveria ser entre irmãos, em família, mas quase sempre houve guerra/mal-entendidos/discórdia interna, brigas violentas, rupturas. É preciso costurar com a tal amorosidade necessária e terminar o desencontro, mesmo exausta, com as pazes do abraço. Perdoar parece ser a resposta certa, insiste André. Nada simples. Tudo confuso e complicado. Não sei o que te dizer. Amar o amor parece/ou pode ser o bom caminho. A flor o verde o mundo. O mar areia gente pessoas que se movimentam, ou se escondem, ou se lamentam…, tudo tem cheiro de amor. Se mergulho eu me dou conta que ali se esconde gentileza sorriso boa vontade doçura e liberdade. O amor tem que ser livre solto sem amarras ou exigências, apenas amor. Tenho a sensação que cada vez que abro a mão e o pássaro voa sinto amor. Amo a jornada o vento e a certeza de que sem prender sem exigir sem aparente sofreguidão sigo em estado de amor. Esta continuidade esta certeza aprisiona e liberta ao mesmo tempo. Está diluída a liberdade que aprisiona. O desejo de amor é instante, um átimo, uma pequena generosidade, um alento e pronto, fica para sempre.  Mesmo no mergulho na nostalgia (na perda). A gaiola com porta aberta…, mas me deixo ficar escrava, eu sei, mesmo com janelas e portas abertas. É exigente o amor. Às vezes pesado, difícil e … amar me parece complicado, mas eu tento. Tento todos os dias. Acho que até sufoco porque estou sempre carente querendo mais e mais e não respiro. É preciso respirar. Não existe regras exercícios nem respostas. Sabes o que eu acho? Penso na essência do amor e encontro alegria. Alegria, alegria espalhada por tudo. Estou a te escrever sem pensar, mas tenho quase certeza que é na alegria/da alegria. Colado nela, o amor, a gentileza, a voz, o corpo e o sexo (quando amor entre amados). A carta não respondeu a pergunta, e me inquietou. Volto a te escrever. Vou pensar. Vamos para o sol deste domingo gelado, mas amoroso. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

[…] o amor é o dom de tornar visível o invisível e o desejo de sempre sentir o invisível próximo de si.” (p.158)  Orphan Pamuk – Meu Nome é Vermelho

“[…] Aquele olhar doloroso queria dizer uma só coisa, que todos os aprendizes sabem: o tempo não passa, se você não sonha“. (p.492)  Orphan Pamuk –  Meu  Nome é Vermelho

Então eu sonho. A cada amanhecer abençoo o sonho de sonhar com você. Aquele você adormecido dentro de mim. E penso nos passos silenciosos da tua visita noturna. Sinto o beijo roubado e a tua mão no meu corpo. E a doçura do teu olhar no meu olhar. Então eu sonho. Elizabeth M. B. Mattos

caminho aberto

Carta: caminho aberto. Gosto. Deveríamos escrever ao menos uma carta por dia ao amado, também para amiga, para o irmão, para a tia, outra para a mãe, ou para o vizinho. Algumas vão para o correio, outras ficam na gaveta ou em baixo da pedra com outros papéis. Escrever significa que pensamos no amor. Hoje vou responder as cartas que chegaram ontem e antes de ontem. Claro! Também vou contar da Elizabeth Bishop que gosta de poemas e também de cartas. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

Elizabeth: “Tenho pena das pessoas que não conseguem escrever cartas. Mas desconfio também que eu e você, Ilse, adoramos escrever cartas porque é como trabalhar sem estar de fato trabalhando. ”

Quem se dedica ou é profissional da palavra fica nesta ciranda de letras. Normalmente temos reações esquisitas: calar/ desaparecer/ inquietar/choramingar/ sonhar desejar/ brigar/ desamar e a tudo reagimos por escrito. Um vício. Como beber em excesso e todos os dias. Um vício. Assim é escrever. E.M.

“11 de dezembro de 1957

Caríssimo Cal: Não sei por que não consegui lhe escrever antes. Não é comum eu não conseguir escrever cartas, principalmente quando se trata dos meus correspondentes prediletos. Durante toda a viagem de navio, elaborei uma infinidade de cartas a você, cheia de ideias novas e profundas, mas elas se dissiparam no ar marítimo. Então, quando por fim chegamos (somente em 4 de novembro), foram tantas as complicações que não pude escrever cartas durante duas ou três semanas – quer dizer, cartas de verdade. Vivíamos indo ao Rio para tirar as coisas presas na alfândega – aliás, metade de nossa bagagem ainda está lá […] “

Cartas são pontes.  Atravesso a distância e mergulho nas letras para sair da solidão. Atravesso o silêncio escrevo cartas. Para o imaginário para o real para a saudade para a presença, para mim mesma senão sufoco. Eu respiro pelas cartas. E.M.B. Mattos –

“Quais são suas fontes de inspiração Elizabeth Bishop:

Inspiração é uma palavra muito curiosa. Quando eu morava no   Brasil, tinha um escritório no alto da encosta de uma montanha com vista para uma cachoeira e a pequena piscina que se formava abaixo dela, cercada por um alto bambuzal. Quando eu receba visitas, algumas das quais tinham lido uma linha do que escrevi, elas olhavam para os bambus e diziam: ‘ Então é dali que vem sua inspiração! ’ Cheguei a pensar em pregar uma placa no bambuzal dizendo’ Inspiração’. Esse mistério que chamamos inspiração nem sempre pode ser localizado com precisão. Mas é isso que há de estranho e maravilhoso na poesia – você nunca pode prever quando, onde ou mesmo por que algo irá motivá – la a escrever um poema. Quando digo que um poema se apresenta de várias formas, é a isso que me refiro. Um poema pode ser inspirado por algo que aconteceu há vinte anos, mas até escreve – lo talvez eu não tivesse percebido como aquilo tinha me emocionado à época. Acredito que é preciso confiar que os olhos e a mente estão constantemente registrando tudo, e é preciso ter paciência suficiente para que o resultado dessa observação se revele.

Livros: Uma Arte As cartas de Elizabeth BishopPoemas Escolhidos de Elizabeth Bishop e Conversas com Elizabeth Bishop

a te pensar

Lareira vinho tinto meias de lã e o violão. Deitada no tapete enrolada no amor tua imagem colorida de paixão. Deitada no sofá enrolada no inverno a sombra da tua mão. Enrolada na lembrança teu olhar no meu olhar. Cerejeiras da alameda. Laranjeiras carregadas. Sou eu a te pensar. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2018

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EXCESSOS

Desconforto da idade do poder. Sem comunicação: desastre distraído, ou ensimesmado, suscetível. Observação pontua o jeito de ser/dizer, e incomoda. Desaparece a tolerância.

 

Jogam cartas o pai e os três filhos. Os mais velhos em parceria, o pai com o mais novo. Pipocas risadas empolgação. Cartas trapaceadas cumplicidade explica o pai. E o pequeno ganha pelo truque. Roubo na brincadeira. Não aprende a perder. Jogos de faz – de – conta no comando de tirar vantagem/proveito.

 

Roubam doações aos flagelados de Santa Catarina, tão naturalmente! Aconteceu neste ano de 2008. Doações do Brasil inteiro aos que perderam casa ameaçados por doenças. Assaltados. Que venham caixas com surpresas. Fita e música brinde ao esperto! Ao descuidado personagem atento a vantagem … Só uma lágrima, o desalento.

 

&

 

Adormece envelhecido este corpo. Cabelos ralos a velha se remexe na cama atrás do sono. Uma palavra puxa outra. Um fazer outro desfazer trocar ficar ou ir… segue o fluxo no excesso. Desconforto da idade do poder. Criança desastrada distraída. Ou ensimesmada, suscetível. Cópia fiel. Observação pontua incomoda. Desaparece a tolerância. O fazer/ver a vida no filho de nove sete anos, igual ao de trinta anos. Quieto, amoroso, expansivo. Manhoso. Rouba beleza e quietude. Desalento.

Moça bonita caminha entre estantes do grande bazar. EM.B. Mattos/ Beth Mattos

espiando 2011 pelas cartas

VERDADE verdadeira: não nos damos conta do efêmero. Vivemos como se fôssemos viver para sempre, e acreditamos que as estradas estarão sempre abertas. Um equívoco.

  1. Do Rio de Janeiro abraçando corpo coração. Já antes de chegar sinto saudade. Estou, graças! Cada vez mais disposta integrada ajustada a vida nova. E assim pude acompanhar o ritmo eletrizante da Joana. Já na chegada mágica com mimos e presentes! Uma blusa incrível, camisola (que adoro), livros … Enfim! Incluiu uma dúzia e meia de rosas de chocolate. Carinho de filha! No sábado tomar sorvete (goiabada e queijo, uma delícia!), almoçar em Copacabana. De noite bebemos vinho, e que vinho! 2002 Margot Chateau Palmer Medoc – appelation Margot contrôlée -, preparei a comida e conversamos, conversamos, conversamos até muito tarde. No outro dia, domingo, amanhecemos nas confidências. Café especial ao jeito único de Joana! Depois, nos paramentamos para caminhar ao longo do calçadão: chapéu e sol. De repente nos desviamos, e fomos ao cinema, no Roxy, ver Uma Manhã Gloriosa, gostei: romance tipo O diabo veste Prada. Com direito a pipocas.  Filha, torço por ti. Teu Pós Graduação será sucesso. Pelo que descreveste a professora de português está com medo de te ter por aluna! A surpresa grande! Melhor! E o professor Longo na direção! Fico já pensando em fazer algum curso por lá!  Adorei as fotos dos meninos e a história das férias de vocês. Estou feliz por estar aqui. Não sei se conseguirei ver o Pedro! O Léo chegou hoje, viaja na sexta-feira “o jeito Lattog de ser”. Vi tuas fotos no fim de semana, achei a Cláudia charmosa e a Marina tão menina!
  2. Segue um relato da minha vida carioca. Puro luxo! Cervejinhas salada de frutas chocolates. Fomos ao teatro ver As Centenárias com Marieta Severo e a Beltrão. Ótimo trabalho baseado na obra de João Cabral de Mello Neto, lá no teatro João Caetano. Outra super, maravilhosa pizza, no Estravaganza em Botafogo. Hoje vou tentar ver o ‘filhão’ que está indo para umas férias na Baia. Telefonei paro o Roberto, que certo verei também meu amigo de Itaipava. Tudo rápido porque a ideia é estar muito, e muito com a Joana. O filme Cópia Fiel – adorei! Discute a relação e sendo na Toscana, … vale a viagem! Vontade de ser italiana outra vez. Eu te imaginei festeando o Rio. Não posso ir à praia para proteger minha cicatriz. Assim curto a temperatura pendurada na janela carioca, ou caminho em Copacabana. Mas preciso ir a Ipanema ver o Pedro. Vamos ver! Beijo

2. Roberto: desculpa estar te encaminhando a carta do meu sobrinho neto preferido. É que tudo nele me leva a vontade renovada de ler e ler e ler. Encontrei um artigo na ZERO Hora sobre Lobo Antunes, e fiquei curiosa para ler os livros: Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar e O Meu Nome é Legião. Títulos ótimos! Arquipélago da Insônia. Segue a tortura do calor! Que coisa! Hoje o dia parece mais quieto. Gosto. Estou com saudade da minha cama em Porto Alegre, mas penso nos barulhos/ruídos, e no calor! Que coisa chata ser chata! Tenho dormido bem cedo, acordado mais cedo ainda. No contra fluxo das pessoas. Detesto Torres neste período do verão. E não cheguei nem perto do mar. Formigueiro. Como se as ruas tivessem vida própria. Respiram gritam. Se agitam transbordam. Praias lotadas. Aquele tempo de veranear na SAPT terminou: não mais cabritos barracas silêncio amigos Guarita. Um povo avança disputando um pedaço de areia. Bom quando isso tudo terminar e o verão se aplacar vou ver o mar.

3. Maravilha amiga! A possibilidade de ser livre destes chatos compromissos familiares! Eu detestava/detesto. Não nasci para ser casada nem para fazer social. Detesto amarras não importa de que tipo. Ler sobre teus agitos me encanta. É como poder voar, voar. E ganhar o teu dinheiro, maravilha! Aqui faz muito calor, muito calor. O mar segue verde. Acreditas que ainda não fui até a beira da praia? Devo ter adquirido uma doença qualquer quanto a conviver ou estar com grandes grupos. Tanta gente na rua! E pessoas feias. (desculpa, mas a beleza importa) O balneário do nosso tempo morreu.  Não existe mais a praia grande com barracas. O farol francês do cemitério de 1800, do golfe no alto do morro da Guarita, nem a SAPT. Desapareceu a Torres daqueles verões. Uma gente muito estranha tomou posse. Qualquer lugar é desagradável. E eu, minha amiga, sonho com um apartamento como o teu em Porto Alegre. Um lugar só meu, na justa medida. Ainda me sinto exposta, não gosto. Estes dias, arrumando velhas fotos encontrei sonhei desejei outra vez a casa de Santa Cruz do Sul e a casa da fazenda: passei em revista o tempo de construir, tu salvaste minha cozinha. Lembras? Lembras quando não tínhamos luz na fazenda? Era um galpão com terra batida. E os verões de seca? Molhávamos o arvoredo com baldes num ir e vir de trator. E a casa lá de cima com seu verde exuberante me aquecia. Gostava dela. E também de estar fechada a imaginar a vida lá fora. Receber os amigos com a sofisticação do improviso. Fechar os portões. Disto tenho saudade. Na época eu tinha energia redobrada com esperança de existir um para sempre. Seguia trabalhando quarenta horas, mas assim mesmo rodeada de livros. Explico: o ato de ler como norma, nunca apenas conduta. Estranhos nomes! Norma! (já o F. me assombra). Conseguia administrar adolescentes. Lembras que Maurício estava conosco? E naquele ir e vir da fazenda fui feliz. Claro que tinha bastante tempo apenas meu, J. não ficava/parava em casa. Funcionava nas oficinas de carro (q. mania!) antiquários e construção. Eu podia usufruir do tempo quando não me arrastava junto. Incoerências da vida. Dá um beijo na Vanda. De repente nos encontramos numa esquina, escreve. Beijo

Reli, li outra vez tua carta. Que movimentação!Tu estás super bem adaptada a roda dos filhos, isto é ótimo. Eu sempre me queixo quando fico sem tempo para escrever, ou ler. Sou viciada nos meus retiros… E, sempre minuciosa para algumas coisas de limpeza. O Natal foi tranqüilo com muita alegria dos meninos…. Bom a festa em casa, mesmo simples, na tua casa tem espaço para reunir mais pessoas.

4.Não foi exatamente assim que pensei passar o verão. A casa tomada e o calor fervendo na pele. Preciso de um banho de mar, mas ainda não fui… Sempre envolvida com os dois cães: indo vindo limpando. Sensação de sujeira pó e pelos. Não posso convidar ninguém abrir a porta, nem escrever. Tenho lido muito o que me acalma um pouco. E limpo, limpo e caminho. Faço exercício, mas exaspero-me também. Que sufoco! Não fui treinada para isso. A vida prometia ser apenas glamour. Era pra ser limpa e linda! Onde ficou este filme? Estou atrelada a outros sentimentos. Escolhas erradas? Como foi que tudo começou, e como terminou? A cada um o seu cálice. Eu sempre meio esquerda, mas preciso te dizer: tua coluna sobre o escritor argentino, Ernesto Sábado, me deixou inquieta. Não achaste demais teres te citado, vaidoso!? Colocar-se tão sem cerimônia entre os grandes me pareceu demais, mesmo sendo palavras do generoso Sábato. A coluna ficou toda direcionada a Memórias do Esquecimento, não te parece? Sigo me exercitando (caminhando) com os cães da Luiza. CAMINHO todos os dias, umas três vezes. Fico logo morta. Assim durmo mais cedo, e acordo muito cedo. Estou sem conexão, mas hoje consegui abrir os exames que estou te encaminhando. Foi o João que fez… Graças ao neto! Que coisa. Espero que consigas abrir. Encontrei aqui em Torres um livro do Cees Nooteboom RITUAIS. Lido, mas vou dar uma relida. Inacreditável como esqueço. Edição Nova Fronteira, antigo. Sei que li porque está cheio de anotações, mas não consigo lembrar se foi este que tu me indicaste, ou se tem outros livros do autor traduzidos. Luiza está em Garopaba com o pai, feliz da vida! Se passares por Torres, e puderes me procurar, vou gostar. Eu, a Beth Mattos te espera. E.M.B.Mattos  –  outros tempos e tanta energia!

e sorrimos

…, um aperto. Se  o pão  se esfarela na mesa  chamo os pássaros que revoam e gritam. Ouço o sorriso na tua voz. Eu te beijo. Bebes o vinho. Da lareira o fogo de amar: estremeço. Soletro distraída leio teu nome nas páginas abertas do  azul. Sorrimos. E.M.muitas flores nas cerejeirasCEREJEIRAS de TÓQUIO – fevereiro de 2018 –

 

Para quem sabe inspirar amor apesar do medo de amar

O meu corpo despertou inteiro. Devo te escrever uma longa e demorada carta de amor. Exausta insone o desejo borbulha retalhado. Imagino/quero teu corpo. O beijo. Emoção. Necessidade premente: bênção. Pecado. Desejo e pecado. Inferno cego. Sinto na pele tua voz a dizer explicar agarrar. Estou em ti sem nada saber. Que seja possível real apenas estar em ti. Eu não te sei eu te sinto. Todo o meu dia gira em polir e perfumar cada canto da casa na esperança de que possas, sem avisar, entrar e derrubar/terminar com a fantasia louca de te amar em ausência. Eu te quero em mim, e eu me quero no abraço. Possuindo possuída. Todas as cartas de amor são ridículas já escreveu Fernando Pessoa, e não seriam de amor se não fossem ridículas. Noite da noite. Teus braços. Da minha transformação o melhor. Do teu desejo o assombro. Eu te concebo eu te descrevo. Cheiro e suor. No pedaço humano amoroso de amar. Sou tu és o meu Eu. Na água dos meus teus banhos. No cheiro/perfume: nós dois. Nas passadas do dia. Na alegria nas repetidas inquietudes transparentes. Perguntas/questões, as nossas. Grito voz sussurro. Dor desespero prazer. Assim como chegas vais sair devagar quieto manso meu. Quero tempestade chuva vento trovão. Quero o vinho seco gelado: embebedar-me no teu prazer. Tocar o corpo. Amar devagar sem medo. Noites que amanhecem. Teu meu teu meu marcado corpo. Apertado acarinhado. Não meu querido amado, vou apenas te escrever uma carta cheia de ponderações lógicas. Segurar o medo e derramar a voz. Sussurrar. Não posso nada. Não sou nada. E se te parece louco desvairado sentir, …eu te digo, impróprio é viver. Sinto a força do silêncio no corpo. E eu te beijo devagar cansada devagar voraz devagar inquieta devagar sinto. Não importa amanhã. Nem quero saber se gosto ou não gosto do jogo de futebol que não vou mesmo assistir. Esqueci o que sabia, não sei. Quero a preguiça de estar e de te esperar. Quero o silêncio apertado. Corpo colado no meu corpo. Desperto alerta deste sono sonho, sono. Revivo viva e te gosto. Não durmo. Droga! Não estás aqui e os reis não trouxeram nem ouro mirra ou incenso. Saíste tão rápido como entraste. Estás outra vez voltando já saindo. Som velado das minhas tuas atropeladas palavras. O trabalho consome a família rasga. Sonho guardado. Agoniza acomoda a tristeza real. Não…,não fecho o círculo. Vou deixar minha mão na tua mão. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Chuva forte e frio e tu e nós.ESTOU DE COSTAS OLHANDO UMA ESCULTURA LINDA foto

uma carta de 2005 para PHFilho

7/10/2005 PORTO ALEGRE, cinzenta outra vez, como eu gosto.

Li a crítica ilustrada, pois consegui participar dO 12 PORTO ALEGRE EM CENA.

Obrigada. Hoje mesmo farei seguir o texto ao Tavares. Da minha parte, enterro a cabeça no que chamo “minha ignorância” e a tendência a nada escrever. Releio o teu bilhete: “diz se funcionou”. Funcionou.

Dia 9. Os Negros:inovadores e caprichados, já um impacto”, “ amplo elenco dá o recado” depois o que diz GENET ”isso basta”. A crítica? Um “roteiro mais lógico” formar e apresentar a dificuldade de deixar redonda a fala/idéia de Genet: gostei do resultado que tu apresentaste: “Tá bonito, mas onde vamos chegar? Não chegaremos, é isso aí”. Concluíste com o importante: “Peça de Genet é assim, um derrubar de ídolos, idéias, criaturas. Pode-se achar que para que o próximo passo, no teatro e na vida, seja mais verdadeiro, superadas as ilusões”. Genet precisa ser conhecido do público. Que a água/gente atravesse o esgoto e que as pessoas saiam limpas, úteis do outro lado do cano. E eu me pergunto, será que ele pretendia isto? (Coisa esquisita eu escrevi aqui.) Ler e ficar mesmo entre o dito e o não dito. Reler e ver é passar pela “coisa” outra vez e reescrever só para nós mesmos. Estamos em “as pessoas se entredevoram”. Entenderão? Ou apenas se sentirão fedidos e indignados? Colocaste o PONTO DE INTERROGAÇÃO.

 

Adorei o poema El tiempo de um silencio.

 

O tempo de um silêncio pode ser tudo, não tem fundo.

Dou-me o tempo de um silêncio e sou mais eu. Ou menos?

Até que ele me diz, ou eu me digo, fim, e zero a zero.

 

Isto é PHF “… trata-se do horror após a separação de um casal. E não é que atingem mesmo esse horror com arte! ” É isto: “E soberbo”. Lamentei não ter assistindo. Estou sempre presa nas minhas próprias separações e fechada ao mundo. Ler PHF é ouvir, ver, sentir sem sair do quarto. Bom mesmo é estar a ler o que escreves. Repetir o que escreveste: “A fotografia, excelente, respira em belas imagens rurais…”. Exílios, o filme francês. E ou então sobre o que escreves sobre

Howard consegue transmitir a vibração do boxe, um esporte que, a sério, torna praticamente direta a luta pessoal pela vida” Este filme eu vi, maravilha, e lutei com ele no ringue: menina. E tu estás em Beckett abrindo os livros, o autor, o teatro, resumes o texto e ainda diz: “estamos todos nos afogando, ninguém pode ajudar ninguém. Beckett não faz por menos e no entanto não há só a vida humana, há uma civilização, onde é verdade não conta pouco a poesia que ele encontra na angústia do vazio”. Deveria eu seguir um por um os dias todos dos espetáculos e comentar. Passar por eles em palavras, mesmo que citando o já dito. Meu limite. Que bobagem! Sempre que te colocas, “tornando intensa a sua própria personalidade” O. Wilde, a tua voz é ouvida no contexto texto. Exato o que pretendes.  Funcionou. E com gentileza escreves: “Você é poesia sem esquecer a mulher” para Tutikian. E eu, curiosa, fico pensando e querendo ler a carta toda que não é para mim. A frase já diz. O quê? Houve precisão e participação. Do último espetáculo saíste agraciado por mais um eterno amor. “E antes que o tempo morra nos meus braços, volto à seleção de filmes franceses QUARTAS LOUCAS, de Pascal Thomas. Uma glória. ”. Meu querido, vou tentar encaminhar para o Tavares e ver se ele escreve, – se é que deseja entrar mesmo em contato, às vezes, palavras são apenas palavras. A vaidade, seguidamente, corta fios. Vamos ver!!!! Sou amarga e seca. Eu sei. Gostei de receber notícias do mundo inteiro através de PORTO ALEGRE EM CENA. E, tens razão quanto às perdas do espanhol, castelhano ou sei lá como nomeiam estas línguas todas nossas parentas distantes, ou próximas. Línguas difíceis, justamente, pelas semelhanças e a ideia falsa de que podem ser compreendidas sem estudar. Como? Sequer compreendem o português. Ora!!!  Ver “os ataques à tevê, professores e críticos”.

Se ninguém ainda aprendeu a nadar por falta de professores, informações e críticos, morreremos todos na santa ignorância da benta água, incompreendida, como a mesma santa água que misturam na farinha, e cozinham em forno à lenha as pizzas desta nossa boa política. Assim seja! Foi publicado? Onde este teu trabalho? Sigo pousada num bom lugar. Como aquela pomba do poema do Carlos D. De Andrade. Coisa de egocêntrica e preguiçosa: nada faço, espero. Espero que o tempo passe. DURMO e não repouso. Vou ao correio agora. AH! Adorei teres adotado o Xavier Marques: vou contar para o Roberto que faz ou já fez um trabalho sobre estes autores de 1800. E tudo em ti é vida e trabalho. Terei outra vida? Um beijo com saudade. Beth

Arthur Schopenhauer

“ O amor é o objetivo último de quase toda preocupação humana; por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta cabeças geniais” (1788 – 1860) Arthur Schopenhauer