junto

Se existe olhar, palavra, risada, ou uma flor no meio do caminho… Estar contigo importa. O que mobiliza encanta. Chama. Fazer acontecer é pensar que podes estar comigo. Estar junto…, tão bom! Muito perto! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018 – Torres

 

perigo na fantasia

“Quando fantasiamos algo, podemos nos deparar com uma situação que além de não colocarmos em prática, nem sequer temos a intenção de realizar. […]” (p.115)

“[…] o fato de não cogitar em levá – lo à realização, apesar da motivação animal que nos faz fantasiar, é uma espontaneidade do indivíduo.

O que importa numa relação, o que propicia rixas ou apreço, diz respeito a intenção do individuo e não a intenção animal. O tolo as confunde e enxerga, à luz das reações e do comportamento humano, apenas o ietser ha-rá (o impulso animal), puro e indiferenciado. Este, no entanto, nada nos diz sobre o indivíduo, mas sim sobre todos nós coletivamente. Julgar alguém por sua espontaneidade animal é tecer julgamento sobre si mesmo.

Ao perceber que o outro inicia movimentos no sentido de se relacionar conosco tendo que lidar com seus impulsos animais (originados num universo autocentrado e exclusivamente voltado para a própria sobrevivência), nos permitimos apreciar as verdadeiras intenções e atitudes deste outro. […] (p.115-116) Nilton Bonder A Cabala da Inveja

Seguidamente tiro do contexto leituras para criar o meu contexto tendencioso e inseguro.  Tenho vontade de dizer, ou atacar, mas sinto medo, não quero ser injusta nem comigo nem com o outro, então recuo cautelosa. Procuro aleatoriamente a resposta num livro / numa leitura de baú.

Na realidade sinto uma frustração lá dentro porque o que desejo não acontece. Vou ao limite de propor, acenar, mas percebo rejeição, ou não vejo reação, ou …, não sei enxergar. Fica esboço não pintura nem desenho. Não sei lidar com o desejo  da voz da pele, nem a intenção velada descarada de minhas intenções ocultas / evidentes. Então sinto ciúmes. ” Não seja afoito” escreve  Nilton Bender.

Premência de viver o agora neste agora / hoje me exaspera. Por que não aceito o não dito como dito. Espero. Encolho, mas sinto ciúmes. Eu me pergunto como posso ter ciúme de um sentimento de um olhar que não é meu …, ciúme do possível / imaginável outro que preenche / compartilha com outro que não sou eu. Se estivesse livre, aberto, ou perdido ou …, não posso pensar assim, eu sei. Então escrevo, exorcizo para esquecer e reagir. Elizabeth M.B. Mattos / começou a chover e caiu a temperatura, gosto. Torres 2018

 

E me penitencio aturdida e inquieta. Está tudo errado.

 

quatro quadras

…, sigo nas caminhadas volteando a Lagoa do Violão. Confesso desejo de mar. Quatro quadras, ou cinco quadras estou com ele. Quero morar aberta inteira para o mar. Tenho Lagoa Serra do Mar, bonito bonito, também. Tens razão, quero mais mar-mar bem perto. Pés na areia, o sonho. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018

AS BALEIAS estavam PERTO

exercício, ou não é

É também o tempo lento ao passar da chuva. Saudade do vagar presa assim mesmo nele presa. É o lento do dia saindo de dentro de mim. Escuto a dança. Entre carros o cavalinho no galope. Iberê na memória. Inacabado tempo, o mesmo. Dia longo sono vazio. Cidade silenciosa caminha agitada barulhenta. Inacabada associação. Música. O que escrevo é real, ou passagem apenas de tempo … Desuso. Uso? Quieta e inquieta. Bobagem! Escrever escrever escrever readaptar. Voltar para ficar e depois ir. Silêncio outra vez, vou me aquietar esperar.

Choveu tanto hoje! Choveu ontem. Amanhã. Estou imobilizada. Preciso querer querendo, agitada. Não escrevo nada contradigo brinco escondo. Oxalá guiada sacudida  atrasada no tempo que, …droga de tempo, tempo. Sempre é tempo no abraço no beijo na vontade. Agora estou aqui, e desta vez, fora de mim mesma. Na rua na calçada: sol chuva vento, Porto Alegre. De volta 1980 1999 Rio de Janeiro de mar e mar. Olho no olho. Telas das telas nas tintas. Se desenrolam carretéis fantasmagóricos.  Pedra ferro bronze e madeira: outro tempo de via lisa. Lisa saudade de Liza Beth Lizabeth Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2001 – Porto Alegre

os lápis do museu lindosss

Camargo_Ibere_Signos I

escondido silêncio

espero a palavra medida comedida escondida

perdida para rimar (rir e mar)

depois furiosa curiosa ansiosa

tempestade sem vento sem chuva sem voz

devagar

espero

amanhã depois de amanhã 

olho/vejo surpreendo a idade da minha idade

já passou pronto, já passou: respira

claro! já passou … não sabes não sei,  passou

Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018

 

 

aceitar

“Temos que aceitar a nossa existência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso, e do inexplicável que se nos pode defrontar. Por se terem os homens revelado covardes neste sentido, foi a vida prejudicada imensamente. As experiências a que dá o nome de ‘aparecimento’, todo o pretenso mundo ‘sobrenatural’, a morte, todas essas coisas tão próximas de nós têm sido tão excluídas da vida, por uma defensiva cotidiana, que os sentidos com os quais as poderíamos aferrar se atrofiam. Nem falo em Deus. Mas a ânsia em face do inesclarecível não empobreceu apenas a existência do indivíduo, como também as relações de homem para homem, que por assim dizer foram retiradas do leito de um rio de possibilidades infindas para ficarem num ermo lugar de praia, fora dos acontecimentos. Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. Se imaginarmos a existência do indivíduo como um quarto mais ou menos amplo, veremos que a maioria não conhece senão um canto do seu quarto, um vão de janela, uma lista por onde passeiam o tempo todo, para assim possuir certa segurança.” (p.66-67) Rainer Maria Rilke Cartas a um jovem poeta – tradução de Paulo Rónai – Nona Edição – Editora Globo

 

vida por escrito

“ uma distração da memória repleta até a borda de bobagens, de felicidades insignificantes“

Jorge Semprun – A ESCRITA OU A VIDA

A beleza atrapalhou. Exigências e vagares. Não me permitiram chegar …, e a docilidade foi me abafando.  A vida tem ritmo próprio. Desejo fervente agitado e transgressor. O outro lado outra margem, mais bonita. Tantas vezes o mesmo tema. Engolida pelo hábito metódico da quietude. A melhor e a mais solitária das posições.

Não posso nada. Não posso mudar nada; nem posso te tocar. Aquieta coração. Varre a vida desta ventania, aceita a sanção. Castigo ou recompensa, não sei bem ao certo. Tempestade.

Subo os degraus. Na mansarda, o contador. Ambição disfarçada. Menino achado, homem poderoso. Exige atento o meu silêncio.

Árvores pássaros. Magia na água do lago. Portões fechados escurecem o verde que preciso / quero / desejo. Estórias: menino pobre virou rei, menina pobre princesa. Não mais menino, nem menina. As condições primeiras parecem coladas na alma. Escrever é o espelho. Seguramente enxergo/vejo por nebulosidade meteorológica. Não tenho certeza de poder ficar sem te escrever (confesso), ou deixar de te pensar sem ver – te. Não tenho em mim teu corpo, nem o cheiro. Nas mãos o som da voz. Enxergo teu corpo pesado caminhando nu pela casa. Vejo risadas. Xícaras sem pires, manchas de café na toalha. Tua piada amassada no bolo com chocolate, no pão doce recheado de passas e frutas secas. Os dedos melados. Busco os nexos. Estou a escavar para acordar à vida. Dizer/explicar que um amor não anula outro amor. Volto a ladainha do tempo: a história toda de tempo e o tempo das estórias que não sei contar. Cronometro lucidez. A linearidade dos fatos não se ajusta na minha atenção. Internamente tenho tudo em desordem. Caminho por fragmentos. Constato que és tu o meu espelho, com tempo, sem tempo. Estás perto, ao alcance, preso neste jogo.

Talvez eu não compreenda o que me faz procurar / buscar, por anos e anos o nome/ alguém que ficou para trás. Nunca estarei pronta para resgatar os vinte anos, tanto o desejo! Lamento o medo paralisante / ou a audácia. Vejo/ sei do abismo do desejo. Do medo de sair de dentro de mim mesma (tens razão ao dizer que as respostas estão comigo). Ter 50 anos ou ter 70 anos não é tão terrível, nem 80 há de ser, mas estar longe distante longe mesmo do que importa, um enigma. Elizabeth M.B. Mattos / Beth Mattos ainda. Abril de 2018 – Torres

RETORNANDO A ELIZABETH

BIZARRO

Fragmento de uma vida também escrita, também vivida.

Como a tua.

mimo ou, pequena alegria

Do tempo que estive no internato ter um quarto (cela) perfeito; o exclusivo num enorme dormitório onde as vinte e quatro, ou eram vinte e cinco internas, dormiam. Muito pouco nos separava. Penso que esta questão do particular e da independência se fecha com o exclusivo interior de ser eu para mim mesma. Era obediente (ainda sou embora transgredir possa ser uma tentação contínua), seguia regras. Aceitava limites: eu era eu com o que imaginava ser eu. Fiz amizade com Madre Maris Stella que, pouca adaptada ao Rio Grande do Sul, colava em mim a identidade paulista. As cartas reafirmam esta origem cosmopolita que ela me emprestava. E cúmplices, muitas vezes, passei as horas do chamado Recreio Grande enfiada no meu quartinho a ler e a escrever infindável diário. Na contramão do permitido. O recreio da noite com música, e quase sempre festivo, eu gostava. E nós dançávamos. Gostava do café da manhã, das missas gregorianas que não eram obrigatórias. Para mim o ritual fortificava meu dia: arrumar a cama e descer para o culto. Sempre gostei de acordar cedo. Janela aberta inverno e verão. Natureza e temperança. Eu me sentia integrada. Estremece o prazer desta memória o enxoval: aventais vestidos, blusas comportadas, fitas que nos identificavam por série/ nível de estudo. Comecei usando a fita azul. Ginásio. O grande encantamento, as camisolas de cambraia ou linho com rendas inglesas: mimo da minha mãe. O meu pequeno luxo de menina. Viver tinha o sabor da liberdade. Não entendo bem, ou não tenho a resposta certa para tanta harmonia. Eu sentia. Gostava das caminhadas entre os pavilhões, da jardinagem, detestava a costura, mas as aulas de culinária me ensinaram o básico. E as aulas de piano intermináveis, inúteis. Apenas sei solfejar.  Nem o violão, nem o piano corrigiram o desafinado, mesmo assim o prazer da música se acomodou no melhor lugar dentro de mim. Os livros também. Escrever era oficio ingrato, nunca fui boa aluna. E as capas coloridas de caderno -diário começaram a ter número.  Fico a imaginar o que me atraia para pensamentos intimistas e confidenciais. Não sei. Somos tão iguais como seres humanos, uma história que se altera agarrada numa audácia ou numa tristeza, mas quase sempre a mesma com algum nenhum ou pouco evento a destacar. Herói heroína se veste com particularidade de sonho espevitado. O meu era singular singelo: encontrar grande amor e filhos e jardim e quintal.  Naquele tempo desconhecia a magia de morar perto do mar. Na escola os retiros com Frei Celso, ainda lembro. Confissão comunhão. Convicção e alegria. Também fazíamos trabalho social. Voluntário. As aulas matinais do currículo eram obrigatórias, mas todas as outras atividades, opção. Escolher, mesmo no melhor dos mundos possíveis [1], um exercício diário.

Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018 – Torres

Referência a novela de Voltaire. “Até ser expulso de um lindo castelo na Westfália, o jovem Cândido convivia com sua amada, a bela Cunegunda, e tinha a felicidade de ouvir diariamente os ensinamentos de mestre Pangloss, para quem “todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis”. Google

  1. Apesar da crença absoluta na doutrina panglossiana, do primeiro ao último capítulo, Cândido sofre um sem-fim de desgraças: é expulso do castelo; perde seu amor; é torturado por búlgaros; sobrevive a um naufrágio para em seguida quase perecer em um terremoto; vê seu querido mestre ser enforcado em um auto da fé; é roubado e enganado sucessivas vezes.
    Cândido só começa a desconfiar do otimismo exacerbado de seu mestre quando ele próprio e todos os que cruzam seu caminho dão provas concretas que o melhor dos mundos possíveis vai, na verdade, muito mal.
    Cândido ou o Otimismo é um retrato satírico de seu tempo. Escrito em 1758, situa o leitor entre fatos históricos como o terremoto que arrasou Lisboa em 1755 e a Guerra dos Sete Anos (1756-63), enquanto critica com bom-humor as regalias da nobreza, a intolerância religiosa e os absurdos da Santa Inquisição. Já o caricato mestre Pangloss é uma representação sarcástica da filosofia otimista do pensador alemão Gottfried Leibniz (1646-1716).
    Antecipando o sucesso desbragado e a carreira de escândalo do livro, Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet, assinou a obra com o enigmático Sr. Doutor Ralph.
    P.S. Este abril com características de verão desdobra o tempo de ser eu comigo outra vez, esta coisa de rir e sonhar/ ou acreditar. E lá estou a ordenar, rever/ reler e voltar ou antecipar o amor amado. Não é saudade, porque ele sempre é nas suas tantas faces uma volta e uma ida. Ilustro:
    “Escrevo-te de pé, no correio, num fim de manhã de sábado e com pressa por 3 razões: 1) para que seja despachada hoje mesmo esta carta;2) para que chegue às tuas mãos; 3) para que te alegres e essa alegria ponha a prova o que me dizes sempre: ‘tuas cartas me alegram’. Como vês, escrevo –te só para te pôr à prova. Nosso amor não necessita desses exames periódicos, muito menos via postal. Mas a tua alegria sim. Temo que minha presença em tua vida tenha decepado (em parte) a alegria inata que extravasavas quando te conheci em agosto de 1994. São quase dois anos de desprendimento do otimismo quase Dr. Pangloss típico da Beth. Comigo, comigo ao teu lado, em parte perdeste a ingenuidade de te sentires feliz em tudo, até na desgraça. OU principalmente na desgraça. Mais que ‘ingenuidade’, devia ter escrito ‘inocência’, que é um estado de pureza absoluta […] comigo deixaste de ser a Beth e viraste Elizabeth […] ” 

    CONECTADOS DOIS SEMPRE DOISCONECTADOS sempre

    Uma velha carta que cruza uma ideia pensada hoje num rodopio de lembranças da Beth/ Elizabeth do tempo do internato do nosso ginásio …, esta alegria visceral mora comigo apesar dos pesares.