memória estranha

Esta memória espanta o amanhã. Apaga tua voz. E eu te gosto tanto!

Confesso: minha cabeça/ memória está cheia de furos/ buracos brancos, mas eu me esforço para voltar no ontem, no antes de ontem para encontrar o que perdi. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018

Palavras soltas

1.

“Para Beth

Há outras coisas boas e lindas a ver na cidade neste sábado ventoso de setembro de 1962. O jovem pintor Iberê Camargo pintando carretéis e anda por aí expondo suas cores. É um sujeito engraçado. Gostamos um do outro à primeira vista. Deu – me um quadro. Diz que é suprema honra, pois ele não costuma doar quadro algum, segundo sua mulher, Maria Couseirat. Mas desde já tenho pressentimentos maus. Não com o Iberê. Comigo mesmo. Vejo o quadro despedaçado, os carretéis desfeitos, a moldura cortada na sala de torturas no quartel do Exército, no Rio de Janeiro, na rua Barão de Mesquita. Premonição. Sonho. Fantasia ou êxtase, vejo meu quadro roubado, desfeito por gente que me odeia. Ainda não sei que me odeias, e hoje, neste sábado só sei do vento ventoso quase tipo ventania junto ao qual leio de vindas pelo correio de longe. Todas trazem deste futuro distante de 1994, que visto e sentido desde 1962, perdoe – me, inatingível.

Afinal, a que cinema vamos? Olha o programa no Cacique. Prefiro igualdade de condições. Mas venta um filme francês ou italiano. Ou o sueco Igmar Bergman. Aquele japonês que vi no Clube de Cinema, o Kurosawa não anda em cartaz? Saímos para ir ao cinema, dizem que no futuro, talvez após o ano 2000 as pessoas estarão permanentemente em casa fazendo amor e vendo filmes num aparelho que está por ser inventado, em que o cinema se leve debaixo do braço, ou compra ou se aluga no botequim ou armazém da esquina. Se vê e se devolve. Se inventarem esta coisa será o cinema sem graça, pois não vamos poder tu e eu marcar encontro à porta do Ritz ou do Cacique. Até lá beijos neste post escriptum” F.H.T.

2.

“Gorda amada, [ …] ao correr da máquina espalho minha saudade pra te pedir que me esperes com a paciência que talvez já não tenhas. Dia a dia sou forçado a adiar a partida para a manhã seguinte. Mas nada por desídia ou desleixo, mas só porque o quotidiano é feito de ínfimas bobagens ditadas pela burocracia que me amarra aqui. Sinto-te comigo, ao meu lado. Até o frio do apartamento da José Picoral me passa e perpassa pelo corpo. Gélido abraço nele recebi na primeira vez que cheguei, ainda que fosse o aperto mais aquecido de minha vida. A culpa é da falta de uma salamandra que esperava te levar pessoalmente no começo deste inverno e fazer instalá – la aí para dar um toque campônio ao apartamento. Chegarei ainda, em tempo, e, desde já, poderias ver com algum especialista aí como instalar a salamandra, por onde sair a chaminé, qual o material da tubulação, além de todos os etecéteres possíveis e necessários para que esse aparelho com nome que lembra bicho do mato aí funcione e nos aqueça. Sugiro que tentes ver aquele assunto do passaporte, que tempos atrás, anunciava – se que se poderia pedir e receber pelo correio (sim, pelo correio). Para evitar eventuais demoras no caso de que te convidem a viajar, tenta pelo menos ver qual a documentação exigida, como tramitá – la, onde e qual prazo para tudo solucionar – se. Sei que esperavas uma cartinha fac-símile e amorosa nesta estreia do aparelho. Mas não há nada mais poético do que as coisas reais e concretas. Adoro a poesia de um abraço, de um beijo amoroso e apaixonado, ou a paixão de um prato bem servido ou o perfume da boa cozinha. Poesia concreta mesmo. Não aquela que assim foi chamada, mas nada concretizou e tão só “concretou”. Aquela era poesia “ de concreto”. A nossa, poesia concreta. A do abraço, do aperto, do afago. A poesia que tuas cartas descrevem com nitidez, profundidade e extrema beleza. A poesia irreprodutível numa cartinha fac-símile quase pública. Acho que só conseguirei chegar aí no final do mês, ou início de julho. Irei de carro. Aviso-te com exatidão nos próximos dias.” F.H.T.

Em arrumações, encontros. Abril de 2018 – E.M.B.Mattos

beber o café

Textos emocionados, agarrados nas palavras. Troco de pele, de sentimento, rejuvenesço. Envelheço. Surpreendo meu desejo com novo amor sacudido por um vento que sopra tão perto, e tão medroso. A minha audácia se esconde inquieta. O meu pecado é cair na amorosidade. No desejo contínuo de me encontrar, no outro. Não faz sentido. Infantil de menina. Estranho amadurecer … Arruíno o tempo/ a hora de te encontrar. Elizabeth M.B.Mattos – abril 2018 – Torres

 

Palavras sobre Palavras

Luís Carlos Carpim

As palavras têm poder. No princípio era o verbo, diziam os hebreus. Por esta indicação, vê-se que o verbum era imaterial, mas gerava matéria. Popularizado, o verbum seria parabola e derivaria em palavra, uma realidade capaz de atuar tanto sobre a luz quanto sobre as sombras. Dito de outra forma, a palavra tanto produziria uma declaração de amor quanto uma proclamação de guerra.

Humanas, demasiadamente humanas, as palavras dizem o que querem, mas também querem o que não dizem. Há, portanto, palavras para todas as ocasiões.

Em Elizabeth Menna Barreto Mattos, as palavras constituem um bailado. Não necessariamente, e não apenas, aquele movimento ritmado, que dá forma ao silêncio ou se eleva com a música. Não, trata-se também do pállõ com que os gregos agitavam, meneavam, oscilavam, saltavam ou conduziam.

Desapego da coisa pode ser fácil, mas da palavra, do sentimento, não consigo (2012), diz a autora do blog Amoras Azuis. Aqui, feixes de palavras, por vezes lentamente, por vezes impetuosamente, saltam da amorosidade à angústia, do tédio à euforia, da dúvida à afirmação, do fim ao começo, como se devessem cumprir um ritual: anunciar.

Mas Elizabeth não se desvenda num feixe de palavras. Revela-se um pouco mais no outro, no outro e no outro, fazendo das palavras essências surpreendentes, ambíguas como o enigma, que por ironia desaparece no exato momento em que, ilusoriamente, pensa-se dado ao conhecimento. Totalidades com som e significado, até mesmo quando surgem em frases curtas podem ser tão eloquentes quanto um solene e prolongado discurso.

Ela sabe que palavras podem atrair, seduzir ou fascinar. E as usa de forma sincera e transparente, com a engenhosidade de quem sabe que continua dúbia e incerta.

Em Elizabeth Menna Barreto Mattos, as palavras estão onde devem estar e onde já não podem fazer quase nada, pois ela deixa quase latente que também existe palavra para conceituar o que é fatal e que, exatamente por esta razão, não pode ser detido por nenhuma palavra. São humanas, enfim. Demasiadamente humanas. (Maio, 2017)

insegura

Hora minuto dia, e súbito, insegurança. Penso questiono, ou me surpreendo. Tomada pelo sentimento oscilo. Um passo a frente, cinco passos de recuo. Não é apenas o outro, mas eu mesma no balanço … Como se viver ou ser, ou seguir precisasse aprovação aplauso ou certeza. Medo da caminhada eu comigo. Escorrego. Espero/quero o todo/ o inteiro, mas são fatias … Também sou assim aos pedaços, inusitada …  Igual te mando um beijo. Elizabeth M.B.Mattos – abril de 2018 – Torreso cartão amoroso em tons de azul

Cartonado:  Carmélio Cruz

o jogo

Desci num planeta populoso. Música sol vozes imagens, gente entusiasmada.

Ninguém se importa / questiona viagem ou ausência. Relação de gentileza inusitada. Afinidade obscura interior mesmo sendo iluminada com palavras. A cada ser humano uma costura diferente: ponto cruz aberto. Fenda, bolso, prega. Violão piano violino.

Cinzento o céu. O vento destelha minha casa. Tropeço na ideia – fantasia de voar.

Arranco os panos que me cobrem, deixo cair a vergonha. Fecho a porta, a janela amanhece escancarada. Meninas cinzas espiam. Não pode ser sempre tecnicolor. Há um fio azul a segurar o céu e outro cheio de vermelho e amarelo. Não sei com qual cor amarro meu desejo? Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018

 

GRIFFIN and SABINE

“Estou convencido de que temos que seguir em frente, até descobrirmos por que isso está acontecendo conosco.”

“ Você acha que estamos separados para o resto da vida, cada um impossibilitado de existir na presença do outro?” Griffin

“Se resolvermos nosso problema, ganharemos um ao outro como recompensa.”Sabine

luminoso farol

[…] “Lendo-te, te amo. É certo que, também, me dás trabalho e exiges que a paciência de preso em cela solitária venha outra vez à tona: a carta rasgada em dezenas de pedacinhos brotou pelo envelope, como água se esvaindo entre os dedos da mão e, logo, me obrigou a um longo trabalho de reconstituição. Um trabalho de chinês. Pedacinho a pedacinho, cantinho por cantinho. Quando tudo está quase pronto, as peças enfileiradas, o rasgo colando – se pela conexão das ideias e das palavras, veio o vento que leva a chuva e tudo (quase tudo) esvoaçou varanda afora. O piso é de sarrafos grossos com espaços entre si e os pedacinhos da carta rasgada pela minha adorável e adorada Gorda  amada desapareceram pelo chão, sumindo como num sorvedouro. (Diz-se ‘sorvedouro’ aí ou isto é, ainda, reminiscência dos meus anos lisboetas?)

A paciência é, talvez, o maior que tenho, além da ternura e da necessidade de amar e de que entendam que eu amo o amor e o ser amado. Em espanhol diz-se ‘crucigrama’, uma espécie, talvez de via-crucis de juntar pedacinhos perdidos e esparsos, pelo vento esparramados na barranca da casa de Búzios.’Crucigrama’ é ‘quebra-cabeça’, literalmente, mas soa como Calvário que pelo sacrifício, nos salva. Recolhi um a um, outra vez, e ei-los aqui, todos os pedacinhos, todinhos, refazendo tua carta rasgada. Doméstica carta, mas só em parte. ‘reli as várias cartas que te escrevi, a primeira jogo fora / é doméstica demais. Já sabes tudo que está escrito ali.’ Nem era doméstica demais, nem a jogaste fora, apenas rasgaste. Dos pedacinhos refeitos tirei a tua frase de não saber namorar por telefone. Talvez tenha sido tua melhor carta, pois foi -pelo menos-  a que me deu maior ansiedade. Estarei contigo buscando a ansiedade que não tenho? A depressão, em mim, sucedeu a ansiedade. Agora, neste momento, sinto-me ansioso, quisera estar contigo, tocando – te, sentindo tuas dobras gordas, apalpando -te,apertando – te.  Mas quase só nisso se resume a minha ansiedade, minha pobre ansiedade de hoje, aos sessenta anos de uma  vida desfeita, que eu anseio refazer a cada momento mas que a depressão impede, corta, evita.” […] Volto a reler tua carta rasgada: talvez por ter sido a carta maltratada, é a que mais leio, gosto, entendo. Começa com ‘estou feliz’ termina (depois de nossa conversa telefônica) com ‘estou pronta. Pintei os olhos, a boca. O cabelo de guri. Perfume.’ ” […] F.Tavares

Um fragmento. Cheiro de amor. Transcreveria tudo, talvez o faça, assim, aos pedaços, num dizer sem contar: derramo sentimento. Jogo sério amar amor.  De repente escrever dizer cuidar fazer, e desmanchar, um/o presente … Vem com ele passado futuro. Ou apenas o retrato de dois intensos ansiosos despedaçados abençoados. Deletar tudo (ou quase tudo) e jogar ao vento sentimento. Volto ao Paulo Hecker Filho (amigo de missivas) raivosas nuas furiosas cartas eu lhe escrevia a dizer o que me passava na cabeça.  A contar de ciúme, de amor-saudade, ou era só nostalgia? Quando se ama de amar tanto! Engolida pela inconsciência. Cartas do acervo. Sinto vergonha grande de ter enviado, mas não de ter vivido. Rabanadas surtos de ternura: contraponto amoroso. ‘Crucigrama’, não desgoverno. A pressão vem com vento chuva trovoada, sol forte. Junto o tal mencionado amor.

Volto para ordenar limpar refletir! Em que lugar do farol vejo mar pedra onda céu azul cinza verde negro e horizonte. Retomo os anos de ser carioca. Inconsequência feliz. Metodologia consciência e trabalho produtivo. Eu te gosto meu amigo, se não vens eu irei. Estou a te contar aos poucos, devagar, a vida que sendo minha também é tua. Eu já te expliquei, se te amo, metade de mim metade de ti somos nós, então cuida da metade que me pertence. Eu cuido de ti. Nada pode ser melhor que abraçar o teu beijo.

Elizabeth M.B.Mattos – abril de 2018 – Torres te espera. Não fica pensando tanto, apenas chega porque aqui tem rio montanha falésia lagoa vento areia silêncio e nós dois. Histórias que sabemos contar.

o cartão amoroso em tons de azul

Cartão de Carmélio Cruz -, 1965.

Aceita a pessoa como ela é. Aceita invasão necessidade de tocar. Passa pelo amor, agarra o luxo de ser dois. Atravessa o limite do vento. O luminoso é ser você no outro e poder deixar o outro ser em você. Albertina d’Assupção Cardoso (…, um pseudônimo que usei em alguns Escritos).

P.S. Acabo de encontrar carta manuscrita, seis páginas. Percebo ao reler que ele “toma emprestado” algumas imagens. Estivemos incendiados um pelo outro. Agora compreendo porque pediu emprestado o meu texto-ideia, um empréstimo amoroso? Se passaram vinte anos. A ideia o jeito o grito é meu. O amor é nosso. Todos os escritos têm um fluxo de outros escritos. Os livros já estão nas folhas de outros livros. Ora, se tantas cartas foram e vieram, se as conversas intensas contínuas se misturaram, … se meu ensaio do Esquizofrênico Amor tinha sido lido, como separar estas junções? “Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, […] Tornei-me um esquizofrênico  da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. […] Quando te amo, este amor enfurecido de beijos e abraços ocupa todo o espaço da memória e, só então, vivo tranquilo e em paz. Sim, minha amada, […] E por não esquecer te conto, minha amada. Como um grito te conto. Ouve e lê.”

Nesta carta de 1995/1996 duas datas porque começada e retomada escrevo:  reclamo resmungo critico, uma enjoada mesmo, mas adoro ir ao teu encontro e passar de um canto para outro a me sentir viva ao teu lado. […] pouco me importam as pessoas, ou o mundo, quero ficar ao teu lado. Pouco importa por onde andes quem amas mais ou por quem chores, eu te amo, e sou melhor porque te amo. Não existe uma única verdade, existem fatos. Dias que seguem outros dias. Vive meu querido, eu estou aqui, ao teu lado, e feliz. Os amores se completam. E.M.B. Mattos –  abril de 2018 – Torres

objetividade não alcançada

P.Alegre, 20 de outubro 2000.

Beth,

         que temperamento. Com tanta carta e problema, envolves o homem. Quero ver ele achar saída. Belo Horizonte não é o problema, ótimo clima. Já as cartas revelam uma incomum fluência de redigir. Mas insisto; para a literatura essa fonte deveria ser ordenada, por exemplo em contos, num diário moral como os bons diários, num romance. Para isso terias de achar um modo de te distanciar dos teus problemas e entrar na objetividade do nível literário. Quem sabe consegues fixando este projeto. Ele pede alguma estabilidade cotidiana e psicológica. Terias de saber renunciar, mas é em nome da arte,a tua querida. Ela merece, é o que o teu computador e dias não cansam de reconhecer. Se o puseres à frente, isso pode não estar tão distante como hoje soa. Um voto

        Paulo

18 anos se passaram. Sigo escrevendo escrevendo, mas  nenhuma objetividade, sem foco. Perco energia. Os papéis se colam uns aos outros. Eu me perco a espera do milagre. Imagino que vai se criar ordem, tranquilidade trabalho e paz. Um mergulho dentro de mim mesma. Que eu escreva a carta e responda, ou o diário. Tantos cadernos azuis vermelhos amarelos, anárquicos eles também. Antônio Carlos Resende conseguiu que tua correspondência/ acervo fosse armazenado na biblioteca da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Outra memória engraçada: café com leite do Carlos Lyra (nada de chopp, não importa a hora, sempre café com leite), e interminável conversa de ver o dia nascer. Velhas e maravilhosas canções. Foi na casa da Aldinha que conheci Carlinhos (e, pegar o mesmo táxi esticou o tempo). Todo conectado com a astrologia, acho que ainda tenho o livro que escreveu (vou procurar). Ideias novas liberdades amarradas. Aliança Francesa de Ipanema, e neste fio a memória do Rio de Janeiro adormecido/ cochilando durante a Ditadura Militar. Onde como andará a bossa nova? Tudo te contei em cartas meu amigo. Paulo, guardei o teu estímulo. Não parar de escrever …, não deixar de ir ao cinema, ler ao menos duas horas por dia, e principalmente não deixar de ser feliz. Tudo armazenado/ registrado. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018

CARTA PAULO URGENTE É SER FELIZ

FLAUBERTtttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttt

Cartas Exemplas  Gustave Flaubert  – (1821 – 1851)

Na primeira foto: Olívia (lenço azul no pescoço), Aldinha e eu, Aliança Francesa de Ipanema com Willy, o professor belga. Na outra, Aliança Francesa de Copacabana, Patrick Durrand Lasserve. Festas de aniversário.

…contento -me em fazer planos, criar cenas, sonhar com situações descosturadas, imaginárias e ser convencional …, não sei o alcance que a palavra convencional adquire neste momento, nem como posso afastar/ impedir que te aproximes sendo  eu

C O N V E N C I O N A L ou o inverso, respondes: compreendo como pode parecer / ser desmedido, maluco ou duro. Mas preciso que me escutes. Não por mim, mas por ti, para encontrares o caminho. Respondo: aonde aonde aonde o atalho para este caminho iluminado? Esperando que digas. Sigo nestes longes gaúchos a ter amigos amigos daquele tempo adolescente de estar em Torres. Sempre Torres.

bonito

22 de agosto de 1978

…, gostaria muito de visitá -la. Rever sua mãe, as crianças. O tempo foge e as oportunidades se escondem nos múltiplos e cansativos quefazeres que me cercam os dias horizontais.

INTERVALO

Nossos caminhos são desiguais: você anda (ainda) por onde quer e faz (ainda) o que deseja; eu não estou (ainda) onde gostaria, nem faço (ainda) o que me agrada. Isso soa demasiadamente dramático; desconfio que seja falso … O que na realidade quero dizer é que faço quase nada do que gosto. Dramático de novo. Falso outra vez? …

EPÍLOGO

Tenho receio (algum) de me estar tornando mórbido. Tanta inverdade (na minha vida) aliada à exígua, ou inexpressiva liberdade estariam a afetar – me o temperamento (outrora) alegre.

Acho que não vou enviar-lhe esta carta …

Helio

P.S. É bom saber que gostas de ti.

FIM

 

Helio:

Guardei bilhetes e desenhos, seria bom conversar outra vez. Não sei onde estás. Desapareceste na tua história feliz, suponho. Lembro das risadas, tenho fotos do grupo: Laila Miguel e Roberto, da Suzy (esteve no Rio Grande do Sul quando morei em Santa Cruz do Sul) …, sim acho que sempre gostei de mim mesma, atualmente nostálgica embora livre/inteira. Não podes acreditar que passei a usar o tu no lugar do você, mas o Rio de Janeiro o nosso Rio de Janeiro está intacto. Os filhos tão pequenos naquela época já mais velhos do que nós (tínhamos tanta juventude!). Não estou com as fotos em mãos. Assim que encontrar acrescento. Tenho cartas manuscritas tuas, um desenho que fizeste, sentavas atrás de mim, uma figura, acho que também escrevi bilhetes. Ainda tenho contato com Roberto que casou teve dois filhos, e segue o professor/monstro/ intelectual que sempre foi. Lembras do Zé Luis? Da Olga. Estamos todos juntos nestas fotos, tenho certeza.

Na época eu assinava Elizabeth Menna Barreto Moog / grande confusão este nome! Quando me casei aqui no Sul (com o pai da minha quarta filha) deixei de ser Moog. Esta confusão de trocar nome. Agora sou Elizabeth M.B. Mattos e ponto. Outro casamento, nem pensar.

Fico te devendo as fotos na sala de aula. Perco umas, encontro outras. Estão num álbum … estás dando um abraço na Sofia, e o professor Miguel está conosco. Aparece a Laila e também a Suzy.

FOTO PARA HÉLIO daquele tempo