não vá incendiar o bife

Escrevo e conto, todos os dias:  o gato, a rua, aquela caminhada preguiçosa. O sono, o livro que terminou, o copo de vinho.

…penso, penso penso e…

Durmo imagino acordo penso outra vez, e me escandalizo: palavras. O bife flambado, o fogo. Estabanada (uma colher de sopa a medida, por favor, não vá incendiar o bife).  O país pegando fogo, a desaparecer enlouquecendo e eu. Eu no rompante a namorar. Beijo e tempestade. Medo estremecimento de loucura. Intenso pequeno e avassalador. Por isso nos abraçamos e somos tão ligados um no outro. A gente não ama do mesmo jeito, desesperador, eu digo. Sempre a pensar que vamos amar mais e melhor, ou que não é ainda amor, medida estranha! Eu te gosto: dizer não significa nada. E respondes: para mim significa… E eu te amo porque acreditas. Elizabeth M. B. Mattos – outubro 2027 – Porto Alegre

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Pierre Bonnard

não se explica

… cartas se amontoam … não consigo dizer o que pretendo, ou penso confessar. Sem importância a palavra … não, tens razão, importante, verdadeiro. Confissão amorosa tem espelho.  Vidro mágico que reflete/guarda e anuncia … o que se esconde está visível. Presente/junto/escondido, e transparente … invisível. A coerência é incoerente, com certeza. Digo nego afirmo, e desespero … a cada encontro. Agitas remexes dominas … transcrevo o que sentes, ou és tu a repetir o que sinto. E sou tu: nós dois ao mesmo tempo. Estás aqui ao meu lado, olhando tocando. Não compreendo. Não entendo. Não se explica. É louco e impossível. Somos dois. Não somos.

astrid

astrid meu retrato

impaciência do amor

Esta coisa de escrever e amar e apaixonar e ferver sendo levada de roldão enlouquece. Nunca estou pronta, e de repente já aconteceu, estou apaixonada. Não esqueci nada: sofrimento ausência perda encontro. Mas, quebro barreiras, acordo insone, durmo apressada para ser amanhã: amanhã estarás comigo.

Já no final do livro de Karl Ove …,apego pela escrita deste norueguês que gosto tanto! Desgovernada saudade, encontro o recado para essa audácia do desvio de se contar… Escrever amassar o papel seguir insistir, e de repente… o texto. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres

“O sentimento que eu tinha era incrível. Eu tinha passado mais de dez anos sem conseguir nada, e de repente, do nada, bastava escrever. E o que eu escrevia era de uma qualidade que, em comparação com o o que eu havia feio antes, me surpreendia todas as tardes, quando eu relia o que tinha escrito durante a noite anterior. Era como uma embriaguez, ou como o andar de um sonâmbulo, uma situação em que eu estava fora de mim mesmo, porém o mais estranho neste caso foi que a sensação era contínua.”(p.578) Karl Ove Knausgard Minha Luta 5 – A Descoberta da Escrita

eu outubro ainda

desafio

trilha de cogumelos

A mesma coisa já foi escrita. Exercício contínuo de acompanhar letra palavra pensamento…, quase nulo! Escrever o que vivi, aquilo que passou. Escrever mentalmente: revisito/ percorro os anos. Não sei contar, – tanta coisa esquecida! Confundida! O tracejado de textos lidos, de livros sublinhados, anotados. Corro na memória, atravesso amados amores. Paixões inquietas. Olhar de buscar/ver/ enxergar. Nunca me aquieto.

É preciso serenidade. Aplacar saciar a menina. Investigo. Há que buscar a linha certa que desarma arma descobre o amor.

O dia se estende manso, lento. Não estás comigo! Ausência prolongadaaaaaaa. Insaciável desejo de presença, a tua. Rasgo a tarde a te procurar num não sei onde. Escurece e volta a chover, mas o sol espiou o mar.

Estás no mesmo lugar. Estás a rir do esconde-esconde. Não importa. Ah!  Já de volta!.

…eu te abraço, escutamos Mozart outra vez, sempre. Durmo enfiada nos teus braços. Esqueço de beber o vinho, embriagada. Como vou descrever a vida? Presente nesta ausência. Já digo/conto do sonho com minha mãe. Colorido, detalhado: eu a tomei nos braços e dançamos. Ela sorrindo… E na valsa rodopiamos. Espreguiças. Atropelo teu olhar falando falando falando, interminavelmente… Explico das pedras, dos cogumelos fotografados…  Sorrindo. Sorrindo estás.  Infindável discurso da Liza, tu pensas, mas segues a escutar. Procuro o livro que lia ainda ontem: eles se movem pulam de uma mesa para outra. Esperas. Então leio em voz alta: “Nossos desejos são ilimitados, porém sua realização é estritamente cerceada. O ‘ se pudesse’ esbarra a cada momento no ‘não pode ser’. A vida nos obriga a nos contentarmos sobriamente com o que podemos obter. Umas poucas coisas nos sãos outorgadas, muitas nos são negadas: a esperança de que algum dia ser-nos-ão concedidas é e sempre será um sonho. Um sonho paradisíaco, bem entendido: pois no paraíso, certamente aquilo que é proibido e aquilo que é permitido, tão opostos nesse mundo, não serão mais que uma coisa só. ” (p.136) Thomas Mann As Cabeças Trocadas  Edição da Livraria do Globo -1945 -,

E o texto se mistura à conversa enquanto bebemos café preto amargo o meu, doce o teu. Digo sorrindo: não sabes/conheces o gosto do café…

Já estás atrasado.

Elizabeth M.B. Mattos – Torres, 14 de outubro de 2017 –

cogumelos na beira da lagoa bonito

cogumelos no gramado

Seu rosto, que devia ter sido belo, conservara-se inteligente. Era um rosto oval com traços fortemente marcados. Os olhos eram de um azul muito profundo e resolutos. Seu olhar começava com uma nota de desafio, mas abrandava -se no que parecia um deliberado desfalecer da pupila na íris, revelando, por um instante, um temperamento de grande sensibilidade. A pupila recompunha – se rapidamente e aquela natureza, apenas revelada, recolhia -se de novo ao reino da prudência.” (p.107)  James Joyce – Dublinenses

tempo para pensar

…. diante de um cruzamento o susto, a dúvida. O que parece essencial não é. Eu me descuido do importante, escorrego … Confusa errada, ou atrapalhada? Transito no meio de quem pode, de quem sabe, e de quem tem. Não posso, não tenho.

Preciso começar do/no começo. Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2017 – Torres

pedras calçamento

 

 

 

imagem conversa

gramado

Se a palavra confunde, a imagem explica, …

sentimento transborda depois encolhe.

…quero música, dança, …

Se choro não é dor nem pesar, nem raiva, nem desespero (desespero imobiliza) … a lágrima chega em/na emoção pequena, perfeita.

Não posso tocar, sinto e transbordo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres

poça

 

 

presença

mae e objetos

tua presença ausente se estica … teu olhar teu traço teu rastro na história de contar … sinto  falta sinto saudade durante a manhã que abre o dia, a tarde  e ao anoitecer também sinto tua falta. Volta logo! Te apressa! Não me deixa sozinha! Eu me estranho neste medo. A saudade espeta, sangra, aperta …és tu que te aproximas no sorriso! Sou eu que carrego tua voz, tuas cartas, teu amado amor que se derrama … Elizabeth Beth Mattos, Torres – outubro de 2017 –

brejeirice de um beijo

 … aroma cheiro e presença humana! … libertar sentimento e voz.  Brejeirice  jovem. Mesmo assim não  fomos tu e eu. A chuva reinventa o segredo. Corremos para o mar. Trovões e raios gritam o perigo. É preciso andar de volta no tempo.  Reencontrar  a diferença de quinze anos, ou já passaram vinte e cinco? … Querer voltar para trinta ou quarenta anos atrás … quando ainda não eras tu, nem eu era eu.  A certeza dos teus olhos presos no meu olhar. Invisíveis nós dois. Vamos desnudar, inventar, fantasiar … Amarrada, enfeitiçada … Suspensa pela fragilidade do encanto, assim eu estou a tua espera presa nos meus dezessete anos .

No piano a canção. Três casais dançam, nós apenas nos olhamos … A casa da avó, o silêncio da rua Vitor Hugo, a certeza do para sempre … afinal, nos encontramos. Elizabeth Beth Mattos  – Outubro de 2017 – Torres

[…] “o assoalho e a mobília estalavam no silêncio, e de algum modo a peça dava sempre a impressão de uma presença humana. A despensa era o lugar que ele tinha mais prazer em visitar, o que raramente acontecia. A mão da avó girava a chave numa porta pintada de vermelho vivo e libertava uma lufada de aromas: os cheiros de salames e presuntos defumados […] p.11 Czeslaw MILOSZ  – O Vale dos Demônios – 

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reclama

Reclamas dos meus 17 anos nos meus 71 anos, desta risada, desta irreverencia de amar o amor, amar saindo, voltando. Rodopiando. Ainda hoje mencionastes o saudosismo, a nostalgia, esta coisa de não estar aqui e agora … correr/ visitar histórias já passadas. Fechei tua boca com um beijo … ELIZALisaBETH M.B.Mattos – Outubro de 2017 – Torres

Tudo envolto em memórias, tudo colorido pelo temperamento. E assim através dos casulos que são nossas vidas, o tempo corre. Uma vez tínhamos dezessete anos, uma vez tínhamos trinta e cinco anos, uma vez tínhamos cinquenta e quatro anos. Será que ainda recordamos aquele dia? O dia 9 de janeiro de 1997 […]” (p.561) Karl Ove Knausgard – A descoberta da Escrita – Companhia das Letras – 2017

imagem

O estranho de viver vida! A surpresa. Posso, num repente, deixar de ser/existir/respirar/pensar… Milagre do tempo: tempo sem tempo: a vida . Posso me transformar em palavra/letra e imagem. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – TORRES

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