É cansativo espiar sem ser visto ou procurando não ser descoberto, como é cansativo guardar um segredo ou ter um mistério, como cansa fadiga a clandestinidade e a permanente consciência de que nem todos os nossos próximos podem saber o mesmo, …, uma corrente que não termina. E cansativo pegar avião, descer do avião, atravessar o aeroporto, e mais ainda a rodoviária … e pedir, e deixar para trás …, e voltar. Depois vira pânico, medo, … e a pessoa não quer se mover, sair do lugar. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2018 – Torres
nunca te vai acontecer
…,talvez deva ser apenas isso mesmo, um vazio. É a terceira vez que escrevo e desaparece tudo. Não sei o que aperto.
…,mas não foi embora a saudade, nem a lembrança. Está tudo dentro de mim a transbordar, a me fazer chorar. Acordei com esta sensação de ausência. De tempo perdido, da história que não aconteceu, desapareceu desapareceu desapareceu, enquanto eu pergunto por ti… Sorriso, olhos apertados. Calçada, cidade, o março e o fevereiro se abraçando. Que saudade sinto de ti neste momento! De nós dois! “Pensas que nunca vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer – te, como acontecem a toda a gente.” Ah! que saudade tenho de nós dois! que droga! Assim como abriste a porta escancarastes desejo. Janelas se abriram… Que vontade tão grande de chorar e chorar: por que tinhas que morrer? Tão de repente! Tão estúpido! Tão manso! Tão sem explicação. Tínhamos acabado de desligar o telefone, tinha acabado de desejar tanta coisa, tinha acabado de te pensar perto: quando voltei a discar teu número já não atendeste. Estou com uma louca saudade de ti, meu querido! Tanta saudade! Eu não compreendo eu não compreendo. Que saudade eu sinto de ti e de nós dois! Elizabeth M.B.Mattos – terminado fevereiro de 2018 – Torres citação Paul Auster em Diário de Inverno memórias – tradução do inglês por Francisco Agarez – Primeira edição, agosto de 2012


Camile Claudel – bronze
guerra loucura e amor
…, liguei a televisão: bombas e bombas, e … o mundo escandaliza, acho que fiquei com vergonha de estar/ser eu. Amar amor, apaixonar. Esperar, esquecer, beijar, abraçar …, tudo fora do lugar. E.M.B.Mattos 2018
como eu gosto
…, vontade de caminhar sem rumo sem hora (como eu gosto), abraçar (como eu gosto), e não dizer nada, exatamente como faço quando te encontro … Vem logo, e nós não diremos nada, como eu gosto … Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2018

LUL LUL LUL LUL LUL -, apenas um nome.
cerejeiras de Yugawara

…,alameda de cerejeiras alameda de camélias alameda de saudade alameda caminho… Segue os jasmins, encontrarás buganvílias, não esquece as cerejeiras. Sinto braços beijo trejeito. Não tenho nada para dizer, falar ou pensar, nem respiro! Represada explosão.
…por todas elas correndo/ ou caminhando chegaremos ao pote de ouro. Suados, exauridos, nunca saciados… Não paramos porque não tem fim. É para sempre o cheiro e o gosto. Preciso precisas e estamos nas mãos um do outro: sinto teus dedos apertando os meus. Entra pela mão, pela pele, pelos cabelos pelos olhos. Um dentro do outro. Cerejeiras do Japão, as nossas. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2018 – Torres sem verão, com ventania


Fotos: Japão 2018 – Julho in Yugawara – Nanique KOK / Instagram: naniinnihon
paixão transborda
– A paixão não se explica pelas leis da razão, e não dá nenhuma importância ao que receberá em troca. Ela se revira dentro da própria força, do combustão da entrega, da loucura. Quer se expressar até o fundo, impor sua vontade, embora só obtenha em contrapartida sentimentos suaves, amizade e indulgência.
– Toda paixão verdadeira é sem esperança ( …, mas ela tem força própria ), do contrário não seria uma paixão, mas um simples pacto, um acordo sensato, uma troca de interesses banais. Estou transbordando …, talvez não sejas como imagino …, estou com febre. Enfim, quem não aceita nada de parcial provavelmente quer tudo, rigorosamente tudo: o olhar a palavra, o corpo, o gesto não basta.
– Tenho que recomeçar e reconstruir … construir. Espero que … espero que entendas! Sei que me dirás distraído: “…, eu não te pedi nada, estava apenas olhando, … e queres tudo em nome da paixão … Não sabes o que dizes!” Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2018 – Torres com bastante vento.

guardião do irmão
” Creia – me, até para os árabes – e você me acusa em sua carta de querer o mal deles -, mesmo a eles auguro de todo o coração que vivam em paz segundo a sua religião e hábitos, e que possam em breve voltar para sua pátria assim como nós voltamos para a nossa. Só que deixamos as nossas terras nus, desprovidos de tudo, humilhados, enquanto a eles eu sugiro que saiam daqui cm dignidade e saúde, sem que nós toquemos em um fio de cabelo ou cordão de sapato deles. Mesmo pelos bens que tomaram em nossa terra pela força da espada, sugiro que sejam bem pagos. Um homem como eu sonha em não tocar em um fio de cabelo de cabeça judaica, mesmo que seja o maior pecador. Então por que você está vociferando contra mim? E ainda tem o descaramento de pedir que não lhe dê lição de moral, e proclamar orgulhosamente que ‘é errado modificar as pessoas‘ Que novidade! O que você quer dizer? As pessoas são perfeitas? Você próprio é perfeito? Pegue até o povo eleito: não há o que modificar? Não há o que corrigir? Bobagens, Boaz! Nós todos devemos tentar influenciar uns aos outros para o bem. Dar -nos as mãos para não sairmos do caminho. Toda a pessoa é definitivamente o guardião do seu irmão.” (p.176) Amós Oz A caixa preta – tradução de Nancy Rozenchan: São Paulo, Companhia das Letras 1993.
exaustão
Meu querido:
Escrevo às pressas, desculpa. E nem te conto do dia, da casa, das pequenas tarefas domésticas porque tudo se mistura com a saudade que sinto de ti. Fico, como te expliquei: exausta. Exausta no sentido matemático. Mas, redimida de um fazer repetido e contínuo. Paixão exaustão vem/chega no alívio. Entregue ao que estou sentindo … Não é preciso dar nenhum passo, fazer gesto, ou mesmo …, estupefata. Conquistada, ou vencida. Encerro o verão e o vento. Fecho janela, cortina. Escureço sala, quarto cozinha. Embora faça sol na calçada, na lagoa, na praia, no horizonte, … aqui a sombra. Pequenas buganvílias florescem floridas e se espreguiçam. Nós dois entre um degrau e o outro: livros pelo chão, desordem, descaso: sou eu, és tu. Estupefatos. Pequeno lotado aberto este nosso lugar. Embora janela cortina fechada paredes de vidros surpreendem a nudez. O mapa do teu corpo se estende no manuscrito do meu corpo: línguas estrangeiras, curiosos textos datilografados e digitados. Levaremos cem anos para entender o que acontece. Não teremos paz, meu amado. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2018 – Torres

Definição ou significado de exaustão:
https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/exaustão
exaustão. e.xaus.tão. izawʃˈtɐ̃w̃, nome feminino. 1. esgotamento; cansaço. 2. MATEMÁTICA método matemático de análise que consiste em esgotar a dificuldade, aproximando-se indefinidamente de um limite. Do latim exhaustiōne-, «ação de esgotar» …

confidência pequena
Já não importa a tua pequena confidência, nem a grande pesada que saltou da minha voz, importa o desnudar. No primeiro encontro, no primeiro verdadeiro e único olhar …, no escuro das cortinas e janelas fechadas, da luz apagada, dos murmúrios beijados, estamos tu e eu, sem roupa, sem pejo. Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2018
“O princípio residia em dizer o mínimo possível. Se as pessoas nunca soubessem a verdade a respeito do meu pai, não poderiam voltar – se depois e usar isso contra ele. A mentira era um modo de comprar a proteção […] O que os outros viam quando meu pai se apresentava diante deles, portanto, não era o meu pai, na verdade, mas uma pessoa que ele tinha inventado uma criatura artificial que ele podia manipular, para manipular os outros. Ele mesmo permanecia invisível, um titereiro que operava os cordões de seu alter ego, a partir de um local escuro e solitário, atrás das cortinas. […]
Solitário. Mas não no sentido de estar sozinho. Solitário não no jeito que era Thoreau, por exemplo, que se exilou para descobrir onde estava; solitário não como Jonas, que rezava pela redenção dentro da barriga da baleia. Solitário no sentido de recolhimento. No sentido de não ter de ver a si mesmo, de não ter de ver a si mesmo sendo visto por outra pessoa.“(23-24) Paul Auster – A INVENÇÃO DA SOLIDÃO – tradução de Rubens Figueiredo – Companhia das Letras 1999.
“ A língua escrita exime a pessoa de lembrar muita coisa do mundo, pois as lembranças ficam armazenadas nas palavras.”(p.184)
tirar a roupa devagar
Talvez não seja possível, talvez seja apenas isso: tirar a roupa devagar, distraída. Não apenas um braço uma perna, mas uma estória. Como será colocar meias, calçar sapatos, e andar, caminhar para que me olhes/vejas. Depois vou tirar a roupa, devagar? Esqueci como seria/ou é. Estou a pensar! Loucura!
Faço tudo apressada. Impossível. Eu compreendo. Quero descobrir o beijo, apenas um beijo…, outro beijo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2018 – Torres