Por quê?

Envelhecer. Paramos para pensar, articular, mapear e pensamos, ‘não vai dar tempo‘. Curiosidade. Não fazemos, mas imaginamos o tempo sem tempo. Juventude. Não fazemos nada, e deixamos tempo hora, e, a imaginação corre. E o tempo passa igual. O mesmo. Seja velho, seja jovem: fazer e fazer fazer sem pensar na hora, fazer. Por que não faço? Por quê? Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2018

“Estar cheio de ser é viver como corpo-alma. Nosso nome para a experiência de ser pleno é alegria.” (p.89)  Elizabeth Costello de J.M. Coetzee

KARL OVE Knausgård

 

“Não vivemos nossa vida sozinhos, mas isso não quer dizer que vejamos as pessoas com quem vivemos. Quando meu pai se mudou para o norte da Noruega e deixou de ser para mim uma pessoa física, com um corpo e uma voz, um temperamento, e um olhar, de certo modo ele sumiu da minha vida, no sentido de que foi reduzido a uma espécie de desconforto com o qual eu por vezes me defrontava, por exemplo quando ele me ligava ou alguma coisa me fazia pensar nele, uma espécie de campo em mim que podia ser ativado, e nesse campo estavam todos os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas não ele próprio. Tempos depois eu li nos cadernos de anotações dele a respeito do Natal que ele havia ligado das Ilha Canárias e das semanas que se seguiram. Nesses cadernos aparece como ele próprio, no meio da própria vida, e por isso essa leitura seja tão dolorosa para mim, porque ele não apenas ele é muito mais do que os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas infinitamente mais, uma pessoa viva e completa no meio da vida. ” (p.292)

Minha Luta, volume 4 – Uma temporada no Escuro de Karl Ove Knausgård

Ainda um trecho do livro, as anotações do pai de Karl Ove encontradas após a morte:

“Sábado 10 de janeiro. Dormi até tarde. Quebrei uma garrafa de xerez na cozinha. Passei a tarde na companhia de uma Smirnoff azul! Domingo 11 de janeiro. Quando acordei senti que o dia seria mais uma vez doloroso. E eu tinha razão! Segunda-feira 12 de janeiro. Dormi mal na noite de domingo para segunda. Fiquei me revirando na cama, ouvindo ’vozes’. Fui trabalhar. Comecei com uma aula de inglês. É difícil quando estou fora de forma. E ainda mais estressante com as aulas ao entardecer. Terça-feira 13 de janeiro. Mais uma noite em claro. Parece que o corpo não aceita ficar sem álcool. Fui trabalhar. ” (p.294)

Não voltar

Não posso esquecer de contar. As pitangueiras estão floridas, as amoreiras carregadas. Amoras azuis apontam nos galhos esticados. O pomar da lagoa se manifesta. E faz cinza na beira da Lagoa do Violão.

“ Eu podia ir à Dinamarca no verão. E eu não precisava mais voltar. ‘ Eu não precisava mais voltar’. Eu nunca tinha pensado nisso antes, mas essa possibilidade mudava tudo. Com a luz fria e clara no rosto, sob o céu cinzento de outono, no meio da floresta à beira do rio, foi como se o futuro se abrisse diante de mim. Não a maneira esperada, como todos faziam, prestar serviço militar no norte da Noruega, depois cursar uma universidade em Bergen ou em Oslo, viver por seis anos numa dessas cidades e passar as férias em casa para então arranjar um emprego, se casar e ter filhos que seriam os netos dos pais. Mas simplesmente ir embora e desaparecer. Se afastar de todo mundo. Nem ao menos ‘daqui uns anos’, mas naquele exato momento. Dizer para minha mãe naquele verão: estou indo embora para nunca mais voltar. Ela não podia me impedir. Eu era livre. Eu era uma pessoa independente. O futuro se abriu como uma porta. As faias da Dinamarca. As pequenas casas de alvenaria. Lisbeh. Ninguém saberia quem eu era, eu seria apenas um recém-chegado, que logo iria embora. Eu não precisava voltar! Ninguém jamais precisaria saber qualquer coisa a meu respeito, eu podia simplesmente desaparecer, me afastar do mundo. Era uma possibilidade real.” (p.221) 

– Minha Luta 4  – UMA TEMPORADA NO ESCURO,  KARL OVE KNAUSGÅRD

Pode ser esta a biografia. Autobiografia? Recorte de leituras. Um dia meu filho disse: estou indo embora para nunca mais voltar. O feito no desfeito que possa ter sido …, foi. Tantas decisões descabeladas tomadas na juventude dos 16, dos 17 anos. Ou justas, e ou precisas decisões. Ou sonhos realizados. Filhos corajosos. Não fui a Dinamarca, nem a Noruega, e a França se concretizou tantos anos depois do meu estou indo embora. Os filhos saíram para morar na Alemanha, na Itália, Estados Unidos ou para serem, apenas, livres. Revisitação a leitura dos livros do norueguês Karl Ove. Biografias convergem, retalham, aproximam: uma viagem. Elizabeth M. B. Mattos

Coração desocupado

Valor questionado. A vida na virada. Susto e abandono, depois reencontro. O que muda? Novo olhar. Sem mérito. Diferente. Posso abrir qualquer livro lido: Canetti, Kafka, Camus, Proust, Manuel Bandeira. Lispector. Sábato.  Diferente. O amor se traslada também, o que importa? O sentimento. Os animais são de natureza pacífica. Onde se encontra a revolta? No coração desocupado.

 

A foto conta a história toda.20140707_203838

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A desordem do afeto. Ônix.

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Política no lago

Há qualquer coisa de macabro no ar, na terra, nos mares. Somos reféns de Monteiro Lobato. Todos os animais nos ameaçam, avançam conversando, sorrindo.  O mundo do faz de conta assusta. O sítio do  Pica-pau Amarelo, o da nossa infância, encantava. O verbo aprender estava no contexto. Agora, vamos ser apreendidos, apanhados … Campo minado sem guerra declarada. Que horror! Monteiro Lobato sabia das coisas… Quem vai nos explicar que mundo é este? História do Brasil, ou apenas mais uma estória de faz de conta?

Setenta anos

Estes setenta anos apontam estranhados. Será que vou crescer? E já me visto de princesa, remexo nos velhos discos de vinil: Jacques Brel, Gainsbour, Ferrat, Sacha Distel , Catherine Sauvage,  Georges Brassens, Léo Ferré, Françoise Hardy,  e a voz de Aznavour, Piaf. E todos os que esqueci. Já estou no teclado a escrever, escrevendo, escrevendo, e escrevendo. Ouço o meu francês, e penso no meu norueguês. Levanto a cabeça. Não sei por onde começar. A leitura de Karl Ove me desafia, alucina, e já vai terminar. Fico então uma semana, dez dias para ler oito páginas…

Adormeço no sonho de escrever. E os pincéis, a tela em branco, ou o desenho rabiscado no caderno… A fotografia. Atrás de tudo está o olhar. Depois cheiro, tato, ouvido, gosto e a vontade. Atmosfera. A vontade é que precisa dominar. Existe um trilho amigo, existe a inquietude esquisita. Aquela alegria quente desta primavera, quase verão que se anuncia em agosto… Logo será setembro. Vontade tímida. tropeço. Vamos escutar os chansonniers. Tento voltar para a terra e aquietar. Estende tua mão. Hoje, Ônix e eu completamos duas lagoas ainda de manhã bem cedo. Pode não te parecer muito, mas para nós! caminhar, ler, escrever, ouvir música, caminhar e te escrever: o dia, a viagem. Elizabeth M.B. Mattos – agosto 2016 – Torres

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Ônix – Foto de Joana Vianna Moog

Fazer coisas é escrever?

Um sábado com feira livre do outro lado da lagoa. Estou com o verde da salada, espinafre, brócolis, feijão. As mãos com aquele cheiro doce das mexericas, bergamotas, tangerinas. Não comprei flores. Tenho os olhos molhados de expectativa… Quero dizer, mas não digo. Escrever pode ser confessar, ou é só conversa de dizer? Acho que a chuva chega hoje. Esquentou. Parece verão nesta primavera, ou ainda é inverno: estações misturadas.

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Não terminei de te escrever, já é domingo. Do sol, o dia se acinzenta, quente. Será que ainda chove?

Sigo lendo o norueguês, não é apenas o texto, tampouco o que ele conta/diz/explica que importa, mas o rastro das leituras. Tão nórdicas! Impossíveis para mim! A mágica prende. Como conseguiu “agarrar” a narrativa, esta autobiografia criança que adolesce, e se joga numa paternidade festiva no meio de amor tempestuoso… Noutro tema, outro livro, não sei se teria me posto nesta agitação. Este último volume, aliás, o quarto (ainda faltam dois, e não li Proust inteiro, e não li Musil, nem Broch)), ele descreve como foi ser professor aos dezoito anos. (E já me encontrei no mote: por que fui ser professora, foi em sala de aula que eu me fiz inteira? Vou escrever sobre isso.)  Aqueles vilarejos, montanhas, fiordes, mar!  E a febre da idade. E eu aqui na beira da minha lagoa, sentindo o cheiro do mar, querendo estar comigo mesma, e neste turbilhão. Os meus fiordes, as minhas montanhas, o meu tédio, a minha solidão, as minhas angustias, onde estão plantadas? Como posso ficar assim tanto tempo exposta ao vento, ao perfume, aos desejos sem conseguir escrever? Sonhos. Passos hesitantes. Não é o autor que importa, mas a narrativa, não é a narrativa, mas a vontade que fico de escrever. Prazer completo, sensual. E o tempo me afoga, mas liberta porque agora posso, tenho todas as horas, o dia inteiro. Se digo qualquer coisa, não importa, apenas escrevo. Vou logo fechando as janelas, desligando os telefones. Interrompo a música, e me concentro no dia. Mas o dia está cheio de ruídos, latidos, vozes, sombras. Como é complicado se isolar! Uma buzina, o alarme daquela casa… A fome, a sede. E logo um certo cansaço pesado. Uma curiosidade idiota guardada naquela caixa. Estou velha! Que chato! E estas questões de quanto mais obrigações mais energia voltam a me impacientar. Lembro do meu quarto no Rio de Janeiro. O chão cheio de livros para serem lidos, e eram lidos. Insônia do prazer. Os chansonniers. Os meus discos. Estudar e ser mãe. Audácia e entusiasmo. As crianças? Sempre estive com os filhos a minha volta. Risadas, brincadeiras, conversas preguiçosas neste mundo silencioso e confortável, cariocando. Reverencio a vida e a sorte. Muito estranho quando o último filho saiu de casa para casar, viajar, ou viver a própria vida. Estar completamente sozinha aconteceu tarde. A primeira caixa materna, a caixa família, outra caixa paterna, outra caixa de dependência, a caixa dos estudos, a caixa da obediência, não esquecer a caixa dos maridos, dos namorados. Das escolas, como professora. A caixa dos amigos, a mais confortável. Desejei sair destas caixas todas para ter a minha própria solidão criativa, de gente grande. Este desejo de eu comigo desde que me entendo como gente, mas só aconteceu agora, tão tarde, mas deve ser cedo…. Não vou contar anos, nem horas, mas me debruçar nos livros possíveis, muitos ao mesmo tempo. Em olhares, no silêncio. E recomeço. Começo e respiro agitada. Medo do tempo, da doença, da morte, e deste cheiro de vida que todos os dias escapa, pode escapar…, mas está aqui nas minhas mãos. Tenho que aproveitar. Elizabeth M. B. Mattos –  agosto de 2016 – Torres

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Vou terminar de pensar

Penso que és menina porque temos quarenta anos de diferença. Quarenta anos! Tanto! É a metade da vida.  É tanto e sendo assim um nada. Estás distante, do outro lado do mundo, na outra história. São tantas para se contar! Não aquela que te deixei sozinha, e fiquei sozinha no hospital. Nem a do arroz integral. Não aquela em que tapavas a boca, os olhos e ficávamos apertadas uma na outra. Não aquela de te deixar em casa. Não aquela de te levar para casa. De gritar. De ficar. De pegar a estrada. E de mudar tudo. Eu te imagino sorrindo, tomando sorvete, suando e chorando. Outra história com muito sorvete.

Lágrimas brotam na tristeza isolada, pequena, picada, diária. Nos teus olhos, nos meus olhos. Lágrimas da luta, da superação, e do esforço para não fazer nenhuma concessão. Procuras ilusão, amor e o abraço, o beijo. A mão pousada no braço. Temos vivido o espanto, minha menina, e a sombra, a ilusão. Então, olho dentro deste teu olho de Anita e confesso: a estante de livros, a música, os pratos empilhados, as fotos no papel, e teus escritos, as flores daquele vaso, os tecidos empilhados são o mundo. O teu e o meu misturados na história desta ficção… E como posso te explicar?  É a procura do sólido, da certeza, mas tudo se desfaz neste tempo que não é o tempo, mas ilusão de que estamos, as duas aqui, agora, juntas. Buscas desenfreadas, desnecessárias.  Eu te escrevo e vejo que te remexes na cama insone. E bebes o último copo de vinho, e toda a água da jarra … este agora é real. Se eu pudesse te dizer que não se chega, e nem importa chegar! Passamos. É a cadeira, a mesa, o armário, esta mistura de lá e cá que faz a diferença e fica real. Se eu pudesse te contar, com detalhes, que todos os lugares são os mesmos …  E nossos! E não são nada, apenas ilusão. Que tu és inquieta, sonhadora, e triste como eu. E somos felizes. Não tem medida, somos nós, assim, alegres e felizes. Vou terminar de ler. Vou terminar de pensar.

Consegui um jardineiro para o meu canteiro. Poda – se as buganvílias, coloca-se o novo gramado, talvez um jasmineiro. Mas é só um canteiro suspenso… penso em gerânios, nas azaleias. Ou apenas o muro verde? Poderia ser azul, cor de rosa, ou amarelo? O sol chega sempre. Não comprei os pincéis, nem tinta, nem papel. Vou desenhando assim, só na imaginação.

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Lugar nenhum

Recomeço a escrever a mesma coisa que já não é … perco o fio da meada, a vontade, o assunto. Os textos somem, desaparecem. […] eu me chamo Elizabeth, como se escreve o nome da rainha da Inglaterra, da atriz americana. Por que não podia ser Maria, Ana, Lucia, ou Elisa, talvez Izabel? Os nomes carregam histórias, não nascem vazios. Eu me chamo Elizabeth e parece outra pessoa, não eu. Não é o nome que me aborrece, sou eu mesma aborrecida por dentro. O tempo se esgota, desliza. Tantas vezes enfiada nas caixas, tantas vezes procurando o lugar, o esconderijo, a caverna. Parece o bom quando chego. Limpo, lustro, arrumo, lavo, seco. Esfrego. Despejo toda energia. Brota vontade de ficar, de ficar para sempre, mas nunca é para sempre … tão absurdamente temporária a vida. Faz cara de coisa séria, se engala no olhar, abre possibilidade, e depois se arrepia, congela, se anula… E não é mais o meu espaço. Recolho meia dúzia de fotos, as caixas cheias de papel. Os livros, os copos, deixo as flores. E já estou em lugar nenhum.

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Fazer importa

Levanto pouco antes das oito horas da manhã, e dou uma volta curta com a Ônix.  Faço o café. Não está tão frio… Apenas úmido. Sairemos mais uma vez, a volta completa na lagoa. Hoje vou arrumar a roupa do armário, e as gavetas. Viabilizar espaços, e jogar papel fora, ordenar. Selecionar livros, descartar outros. Já separei caixas, sacos plásticos. Um pano… Começo a empilhar livros por autores, no chão. E o ritmo me parece bom. De repente, interrompo tudo para escolher feijão. Colocar de molho. E fazer isso me surpreende. Resolvo escrever. Não basta abrir o livro, e ficar ali lendo, curiosando, folheando, mas também isso? Escolher feijão. E já me volto para a sacada, o jardim: podar buganvílias, colocar grama nova… Cavar… Pensar nas varetas de bambu… E já estou fazendo outras mil pequenas coisas sem fazer nada. Esta incapacidade de concentração,sem objetivo, me deixa a florir sem flor, fazer sem chegar. Vou lavar a louça, e tomar café. Mas estou a repetir feito mantra “hoje, as roupas, ao menos, as roupas”…

A mensagem eletrônica da Joana me mobilizou, remexeu comigo. Escreveu sobre o tempo sem tempo, da exposição, da vida, do acúmulo. Do dividir, de escutar, e de amar. Uma carta. Ninguém usa o correio. Deveríamos  usar. Há tanto prazer em abrir o envelope, segurar o papel! E depois esta foto! Esta foto é especial: ainda vou aprender a colorir, e desenhar. Pinceladas com mãos  de artista, firmes. E seguir fazendo, e também sonhando contigo meu amigo amado.

A pintora da foto era a minha avó Zenith Quintão que, infelizmente, faleceu em setembro de 2014, pouco antes de completar 99 anos. Até os últimos dias, frequentava aulas de pintura e produzia trabalhos assim, firmes e belos.

Depoimento do neto Armando Quintão Bello

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