No meu braço, tua mão

Sonhei contigo esta noite, um sonho cheio de gente, mas era tua mão que estava no meu braço. Estar em casa e ao mesmo tempo longe de casa. Estar em alerta. Estar em exposição parecia, ou era pesado. Ou como desbravar. Chegar. Não sei explicar. Todos estavam lá, os da família, pais, filhos. O lugar era em casa, mas também era fora desconhecido grande e vazio.  Acho que morar, habitar é sempre pequeno.  A posse. Possuir é intimo, questão de posse.  Por isso pessoal, inexplicável. Pode – se possuir o mundo, ou estar em lugar nenhum tendo vivido sempre na mesma casa. Estar a caminho… Sonho de sensações. E tu, sentado. Sim, estavas numa poltrona como se bem me lembro. Eu apoiada nas costas desta cadeira enquanto observava a sala, o espaço. Olhava as pessoas se agitando, atônita. E depois a sensação de calor: senti tua mão no meu braço. Afeto. Cumplicidade. Era tua mão no meu braço. O melhor sentimento.  E foi paz chegando confiança. Eu te olhei. Desviaste o olhar, mas a tua mão ficou no meu braço. De costas um para o outro. Mas tua mão no meu braço. Alegria, confortavelmente instalada. Um sonho…

Ganhamos no vôlei, duríssimo jogo. Merecida prata da Itália, e também o bronze americano, mas ganhamos o ouro. Choro, emoção. A superação, a juventude. Ganhar, vencer, conseguir chegar lá… a vitória. E nos emocionamos todos.  Inexplicavelmente, até as lágrimas.  Guerreiros são eles, mas para nós, expectadores, em determinado momento, tão perto deles, somos eles, e guerreiros somos nós. É o inteiro. O motivo forte, interno, este alcance… Não sei. É Brasil. Acontece. Então choramos. Elizabeth M.B. Mattos

Pequenas flores brancas

Chove sol, chove calor. Já deves ter chegado a Porto Alegre. Embora se tenha passado um par de dias juntas, pouco foi dito. As raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. Há saudade na tua presença fugidia.  Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Silêncio conciliador neste curto espaço de tempo… Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Transformar erros em acertos. Poderiam as queixas se volatizar? A beleza do corpo adormecido transforma o quarto. As cortinas estufam ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala.

O vestido que cobre teu corpo está colado na tua pele suada. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas. Adormeço sentada. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.

 

Durante o tempo em que estivemos juntas imaginei cada palavra que poderia dizer, pensei o discurso, imaginei o pretexto para dizer o que me afligia. Separei qualidades e defeitos.  Mas confundi amor com responsabilidade. Felicidade com abnegação. Elaborei, mentalmente, o que escreveria reconsiderando a dificuldade das longas, retardatárias, ou invasivas cartas. Repassei leituras adequadas, procurei autores que auxiliassem apoiando minha advertência, mas não consegui escrever. Nem dizer.  Não consigo. Sempre adormeço ao teu lado…Elizabeth M.B. Mattos – 2016 – Porto Alegre

INVERTIDO

O invertido também é verdade, o teu traçado de roteiro aconteceu dentro do meu livro. A experiência da narrativa pode ser maior… Pode? Acho que pode. Uma rotina de deslocamento diferente de atravessar a rua, olhar e ou falar com pessoas de carne e osso. Beber chá ou café com amigos, olhar o verde, as cores, conhecer, cheirar, tocar, tudo diferente… Esta coisa do olhar, do mergulho tem… Tem coisas que não podemos explicar com palavras, é verdade, sentimos. Daquele jeito esquisito que sei que estás atrapalhado com uma coisa sem controle, sobrecarregado. E depois sei que estás frente à televisão entretido com a estória da história. Sei que não gostas tanto assim de frutas e legumes. E não sei nada. Invento tudo. Apenas sei que estás feliz, ou quando não estás. Mesmo longe, eu sei.  Palavras escritas. O escrito pode ter um viés transgressor fantasioso. Leitura tem um contra ataque. Sofro todos. E agora fico a pensar que nunca estaremos prontos para ser felizes, ou completos. Estamos presos na construção: operários da catedral… Não adianta projetar, desenhar, idear se a construção não acontece, em se tratando de catedrais… Não sei. Também sei que qualquer sonho vale, ou não sei? A expressão não é território real? Quero aquela tela, escuto a música, visto a roupa, mergulho no livro. Entro no fantástico mundo das maravilhas. E em cada fazer está pendurada a inquietude, insegurança, angústia.  O que me revela veladamente porque não encontro o lugar para trabalhar, escrever, e me acomodar. Nem silêncio, nem a luz certa. Reclamo da sorte, e agradeço a sorte. Incoerência completa. É preciso muita sintonia pra que a verdade funcione nas palavras, na escrita, nas entrelinhas, no silêncio.  Sabe como me descubro? Vaidosa, Susceptível. E me faço de corajosa, e me ponho nua na calçada, para surpresa de todos. E se comentam, acho engraçado, ninguém vê a carapaça, o meu escamoteado jeito de ser, como se a exposição, fosse ela mesma a minha caverna. A minha escura e real morada. A proteção pode ser exposição.  Com dureza Sábato escreve:

“Lamentavelmente, nestes tempos em que a palavra perdeu seu valor, também a arte se prostituiu, e a escritura reduziu-se a um ato de valor similar ao de imprimir papel-moeda. Como já disse em O escritor e seus Fantasmas ‘Ficam poucos que contam: aqueles que sentem a necessidade obscura mas obsessiva de testemunhar seu drama, sua desventura, sua solidão. São as testemunhas, os mártires de uma época’ Estão destinados a uma missão superior, não pertencem a igrejinha literária nem cenáculo e, por isso, não sua finalidade tranquilizar indivíduos confinados em sacristias, e sim romper todas as conveniências, devolvendo-nos o sentido de nossa trágica condição humana. Nesta vocação, muitos foram levados à loucura, às drogas ou a tantas outras formas de suicídio. […] Van Gohg morreu suicidado por uma sociedade que não podia continuar suportando suas terríveis revelações. Como duvidar que Artaud estava também falando de si mesmo; em uma carta a seu médico, depois de terríveis eletrochoques, declarou sentir-se ‘tratado como um alienado e maltratado em razão de um gesto, de uma atitude, de uma maneira de falar e de pensar que foram na vida as de um homem de teatro, do poeta e do escritor que eu era. ‘Acabou morrendo como um cão; o jardineiro encontrou-o uma manhã, sentado em sua cama com um sapato na mão. Nunca saberemos aonde ele se dirigia nesse dia da sua última solidão.”(p.78-79)  Antes do Fim  Memórias, Ernesto Sábato

 

Então, na minha completa nudez eu me pergunto. E eu? Não sei, mas sou obsessiva. Isso deve contar. Caminho, caminho na angústia, e vou registrando. Teclando, dizendo. Deve ser assim que ando no encontro com Karl Ove Knausgård. Estranha sensação… Mistura encantamento, não parei de ler, e decepção porque não tem espetacular, nem porão, nem sótão, o livro é de um hoje inquietante, casa plana. Noruega e Suécia se contrapõem. Pano de fundo. Apoio e espelho da relação marido e mulher. É minuciosa a diferença de países. E de longe nos parecem tão iguais! Não são. O que me atrai? A facilidade com que conseguiu colorir minúcias e transformou tudo em biografia.  O tanto que ele, obsessivamente, se coloca na palavra. E a palavra descreve banalidades ao mesmo tempo em que rasga a alma dele. Vai deixando o rastro das leituras, da arte, da dor, do difícil. Obsessivo sim, e tão comum! E eu me agito. E gosto deste perdido achado. Deprimido. Como me descartar? Há que ser/ter a certeza que mesmo sem ser, somos. Escrever é transgressão. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2016 – Porto Alegre

Incompleta

A voz da  mãe e o olhar do pai.

Não passei do portão…

Demoro tanto para ficar gente grande!

Ainda estou  a crescer …

 

”   […] o passado era apenas um dos vários futuros possíveis.

Não era o passado que deveria ser evitado e ignorado, mas apenas a estagnação. O mesmo valia em relação ao presente. E quando o movimento que a arte cultivava tornava-se estagnado chegava o momento de evitá -la e ignorá -la. Não porque fosse moderna e estivesse ligada à época em que vivemos, mas porque não se movimentava e não passava de uma coisa morta.” (p.387) Karl Ove

 

 

 

Hoje não posso

Leitura solitária. Difícil. Divertimento, passatempo, vício, depois a longa e frutífera conversa… Leio e pondero. Julgo, aceito, nego. O livro briga … E não existe solidão…

Pequenas mágoas doem bastante. Apertam. Empurramos pra esquecer, mas  se amontoam na gaveta, desarrumadas … Esquisito sentimento.

Enquanto você se mostra e faz o mimo,  recuo desconfiada. Consciência ajuda a perdoar.  Amanhã estendo os braços, abro a porta. Hoje não posso. Continuar lendo →

Decepção

Decepção, outro entendimento, outra leitura. Está perdendo os pedaços o meu autor. Bebendo demais. Óbvio demais. Talvez esta seja a questão. A  exposição corajosa, mas… Interrompo o processo para pensar.Talvez aborreça porque todas as histórias de amor se parecem. E tão iguais perdem identidade.

“Se eu ao menos pudesse vencer esta distância, escrevi. Eu daria tudo no mundo. Mas não havia jeito. Eu te amo, e talvez você ache que me ama, mas não é verdade. Eu acho que você gosta de mim, tenho uma certa certeza razoável, mas eu não sou o bastante para você, e no fundo você sabe que estou certo. Talvez você precise de alguém ao seu lado agora, e então eu apareci e você achou que talvez pudesse acontecer qualquer coisa. Mas eu não quero ser a pessoa que talvez seja alguém, para mim não basta, tem que ser tudo ou nada, você tem que arder como eu ardo.”(p.219) Um Outro Amor, Karl Ove Knausgård

Tão as mesmas! Tudo precisa ser reinventado. As verdadeiras narrativas são proibidas. São proibidas. Segredos. E contar segredos não é o foco. Ou, talvez, descrever o outro…

Lembro. Estivemos juntos na Feira do Livro, abrimos presentes no Natal. E durante o ano inteiro flores. Cesta com vinhos, copos,  e bobagens. Caixas para guardar mistérios. Pijamas (adoro roupas de dormir preciosas, especiais). Livros, cartas, cartões e telegramas. Pois é meu estrangeiro… Aqui estou eu,  sem vontade de escrever, nem pensar. Estou querendo ver os filmes que não vimos, ler livros fatiados por vozes, as conversas que não tivemos. Praças com balanços e gangorras. Jardim Zoológico. Dói ser gente grande, e por isso persigo a criança que guardo dentro de mim. E se /quando perdemos o amor, o desastroso é querer de volta. Via acidentada… Elizabeth M. B. Mattos agosto – 2016 – Porto Alegre

Vou morder a maçã

carte-norvege-G.jpg NorvegeDepois de uma caminhada no calor. Sim. Está quente hoje. Mormaço, clima de verão, e ainda é agosto. Mormaço. Preguiça. Um pouco de nostalgia, desacerto. Desencontro neste encontro amoroso. Sinto ciúmes. Revolta, raiva, vontade de bater… Qualquer coisa roída de malévola.  Como explicar? As tais escolhas definitivas, e nem tão definitivas. Desviadas, enviadas como raios, mas também a essência.  Karl Ove Knausgård escreve: “como é abissal a diferença entre nossas vidas.” Ou “compreender o mundo requer que se mantenha certa distância dele.” Uma distância. É nela que flutuo, e te encontro. Estás incompreensivelmente nesta distância. E te sinto tão perto! Tantas vezes estive neste abismo das diferenças. Como explicar? Talvez muito pouco acomodada no meu próprio corpo. Sempre procurando um lado etéreo, eterno, religioso ou pagão, mas essencial. Não existe essencial. Existe o agora, o hoje como tantas vezes repetes. Não encontrei o meu corpo, o desejo, o gosto, a violência, a paixão. Sempre comedidamente comedida. Tímida para espanto da lógica, do sorriso. Hesitante. O tempo vai engolindo o tempo, e não estás aqui. Não estou aí. Nunca estivemos no mesmo lugar.  Sim, lembro à calçada. Lembro na tua lembrança. Fantasia do capricho. Estás fervendo no meu sangue. Como se fosse o vinho que sempre me enrubesce. E a vida doce… Encanto de imaginar. Não está “tudo igual” porque existem territórios interiores intocáveis. Então te aproximas e te apossas. Releio tua carta: “Para mim fizeste uma parceria com tuas angustias e crises existenciais. Estás tão acostumada a viver desta maneira, que já não tem como mudar ou querer mudar. Tua zona! Tua história! Não briga com os fatos.” Fico procurando aqui e ali teu rastro. E a raiva impotente do silêncio, desta minha  história me toma por inteiro, se apossa …me entristece.  Desenhei a estrada, e me fui por este caminho torto. Desviei da história certa, ou eram todas incertas? Estou atrapalhada. Tu me alegras. Tu me confundes. Tu me inquietas. E não é hora para atrapalhações. Preciso arregaçar as mangas, e trabalhar. Releio:« Vou dizer como te sinto. Estás vivendo a tua vida totalmente do teu jeito. Curtindo da tua maneira!  Esta é a tua forma, engrandece isso, sem culpas, nem críticas. Não queiras a esta altura, ter uma grande solução para tuas dúvidas. (Esquece). Estamos nesse mundo louco e difícil de achar saídas. Estou contigo neste desafio.»Pois é meu querido amado… (Gosto de te pensar querido e amado) Não estás comigo, no entanto, estou contigo. Como se fosse este o único caminho, te encontrar… Estás rindo. E não há mais tempo para fazer diferente. Cultivei a angustia como rosa exótica, tens razão. Sempre tens razão o que de certa forma me exaspera. Quero eu ter razão quero eu justificar. Quero eu estar na zona do prazer. Quero eu ser o foco, tua rota. E tudo isso é como visitar a Lapônia, estar com Papai Noel. Pés fincados na neve, acariciar as renas, e… Claro! Quero te beijar.

Estou ferida de morte. E me abandonas.  Pontuas tranquilamente: “Vive teus momentos. Não é uma extravagância. É uma necessidade que devemos usufruir. Este é o caminho, o outro é o descaminho! Se tirar os momentos bons, o que sobra? Nada…» Enquanto te escrevo sinto enorme prazer. E me pergunto se este é um dos meus bons momentos. Mordo a maçã que não tem gosto de maçã. Então, vou comer uma laranja. Olhar para dentro. E não te encontrar. Onde estás? Elizabeth M.B. Mattos agosto de 2016

Distração

Lugares inesperados me esperam, foi o que senti…Irei a Noruega, a Suécia. Um novo amor. E também ao Japão ver as cerejeiras floridas. Haverá tempo? Sei que não posso levar a Ônix.

Não haverá tempo para cumprir promessas, escrever cartas, dizer o que pretendo. Tenho me arrastado desanimada. Não consigo reter sentimentos. Sou atropelada. O emocional enterra o raciocínio lógico, como diz e explica, meu neto. É distração. Pensei muito nesta distração filosófica. João demorou bastante para me explicar… E me esforcei. Sucumbi ao modo sereno como insistiu no assunto. Será que entendi?  Sublinhou a importância de escutar, ouvir e falar. É nas palavras proferidas, diz ele, que o pensamento e o entendimento se completam. Elizabeth M.B. Mattos – 2016 Torres

“A aura dele era ponderosa, ele era uma pessoa com uma presença que se fazia notar, mas não era uma presença física, porque o corpo dele, magro e leve, simplesmente não chama atenção. […] Os raciocínios dele sempre chegavam a lugares inesperados. A abertura que tinha me  oferecido superava todas as minhas expectativas. De uma hora para outra eu me senti à vontade para dizer tudo o que eu tinha guardado  dentro de mim, era como se eu tivesse me contagiado, de uma hora para outra os meus raciocínios também começaram a me levar para lugares inesperados, e fui tomado por um sentimento de esperança.” (p.188-189)  Um Outro Amor, Karl Ove Knausgård

“Aquele cenário despertava em mim notas estridentes. Ao mesmo temo havia em mim uma outra nota, uma nota de anseio, porém não mais voltada a abstrações, como tinha ocorrido nos últimos anos, não, meu anseio era tangível, concreto, Linda caminhava lá embaixo a pouco quilômetros de mim naquele exato momento.  Que tipo de loucura me afligia?, pensei enquanto eu caminhava. Eu era casado, meu relacionamento ia bem, planejávamos comprar um apartamento em breve. E de repente eu tinha vindo para cá e resolvido destruir tudo. Era  que eu queria. Caminhei sob as sombras malhadas da folhagens, rodeado pelos cheiros quentes da floresta, pensando que eu estava no meio da vida. Não da vida como idade cronológica, não no meio da estrada da vida, mas encravado no centro da existência. Meu coração palpitava.” (p.196) Um Outro Amor, Karl Ove Knausgård

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Você já chegou?

“Você já chegou? Estou pensando em você. Quando pensamos em uma pessoa conhecida, […] mas tudo o que aquele rosto podia ser, todas as coisas indefiníveis e ao mesmo tempo infinitamente claras que uma pessoa irradia para quem a ama.

Aquelas duas frases de repente fizeram com que eu sentisse a presença dela.A imagem de Tonje, de tudo que ela representava para mim, me preencheu por inteiro durante um breve intervalo. Não apenas o rosto dela e a forma de agir, como acontece quando pensamos em uma pessoa conhecida, mas tudo o que aquele rosto podia ser, todas as coisas indefiníveis e ao mesmo tempo infinitamente claras que uma pessoa irradia para quem a ama.Mas eu não quis responder. Eu tinha ido embora justamente para me afastar dela, então assim que uma onde de tristeza me atingiu eu apaguei a mensagem e voltei para a tela com o relógio com um clique.”(p.145)

“Qual seria o problema se eu nunca mais voltasse? Esse tinha sido o meu desejo. Estar aqui sozinho, em uma cidade estranha. Sem nada que me prendesse, nenhuma outra pessoa, apenas eu, livre para fazer o que eu bem entendesse.”(p.147)

Karl Ove Knausgård  – Minha luta 2 – Um Outro Amor

Pelo fim

Meu querido: parece inútil escrever quando estás tão longe!  Longe já seria o bastante para me sentir perdida. Quanto tempo o tempo tem para nós dois?  Escrevo pelo fim, contradigo toda lógica…. Apenas obedeço, e sigo peregrina atrás de ti. Enquanto te aventuras pelas estradas, enquanto tu segues o desafio do vento, eu te espero. Sentada na cadeira grande da varanda, perto dos gerânios. E seguirei teclando, lendo, e te esperando. De noite brindamos. Paradoxalmente, louca de amor, já estou outra vez ao teu lado. Não perdi nenhuma conexão, e embora os aeroportos sigam se agitando, gritando, empurrando, eu me inclino na gentileza de esperar.  E chego bem cedo, conforme recomendaste. Leio devagar, muito devagar. Faço tudo assim, devagar, já sabes bem como sou. Elizabeth M.B. Mattos – 2016 – Torres

« Mais difícil de reconhecer, por terem consistência de sombra e sonho, eram as relações na outra árvore, cuja imagem reproduzia a vida. Lembrança primitiva da relação infantil com o mundo, da confiança e entrega talvez fosse a base; tudo isso continuará vivendo na intuição de ainda vir a enxergar como terra vasta o que habitualmente enche apenas um vaso do qual brotam os raquíticos ramos da moral.” (p.422) Robert Musil

O Homem Sem Qualidades