Superávit de Vida

“P. Alegre, 24 de setembro de 1997.

Elizabeth: Leio-te e já estou mandando o meu palpite. Tens ímpeto articulado, a confirmar o papo telefônico. Aprecio mais a carta para mim, pelo pé no chão de um relacionamento. As outras várias páginas, no conjunto, circulam em torno de um tema, a satisfação e insatisfação erótica. Claro que isso conta, mas fica geral demais no tom de desabafo empregado, não chegando a ser crônica, que pedem mais objetividade, experiências vividas. Mas na cálida e pronta verbalização, mostras ter atingido um patamar que já é uma conquista. Devolvo os originais para o caso de precisares deles e te abraça o

Paulo Hecker Filho

P. Alegre, 02 de outubro de 1997.

Elizabeth: Dizes para “o filho escrever quando aflito”, falas em terapia e cura pela escrita. No entanto escrever mesmo é antes um superávit de vida que um déficit e se pode definir o talento como ter o que dizer. Quem sabe sob essas duas colocações, descobres novos caminhos, já que escrever por escrever, publicar para publicar, meio mundo faz e só se engana.

Cordialmente,   Paulo Hecker Filho”

CARMÉLIO CRUZ

“São Paulo, 17 de dezembro de 1964.

Beth querida.

“Ela! Veio de leve, natural.

“Ela” veio de um mundo encantado, de um sonho

“Ela” não quer ser formidável

“Ela” não quer encantar

“Ela” É carinho, amor, luz, vida.

Vida vindo de leve. Rosa em botão.

Estou dentro da noite

Mil quilômetros nos separa

Procuro retê-la na memória.

Tenho medo de perder os detalhes.

A voz sim. Tão meiga.

Certa vez, uma senhora indaga sobre detalhes do seu esposo do qual desejava ardentemente um retrato: percebeu de repente, que o amara por muitos e muitos anos, no entanto os detalhes haviam desaparecido de sua memória

Não tenho pintado

Não tenho vontade

Tenho vontade

Muita vontade de sair por aí.

Ir. Ir de vez.

Chove muito aqui. A Rua Augusta é um rio. Eu sou uma ilha. Escreva. Escreva para a ilha. A Rua Augusta 609 é uma ilha. Estou sempre pensando em voltar para ou a Porto Alegre. Tudo depende do Scarinci. Ele quer que eu fique aí, como professor, no Museu de Arte. Que tal? Estaríamos todos juntos. Até quando? Depois, partiríamos juntos para (vermos) a vida.

Um grande abraço a Anita, Dr. Roberto e Suzana ( a grande). Diga a Lili que ela é linda e querida.

Também saudades de verdade e carinho do

Carmélio”

EXCESSO…

Boca cabelos olhos. As pernas. Pescoço nariz. A pele. Tudo beleza. E dentro dela solidão. Porta fechada, tímida. Se a perfeição está somente no corpo como serão os gestos, os sentimentos?  Isabel entra na loja da esquina. Rouba pequenos objetos sem escolher. O coração preso no medo, mas assim mesmo rouba. Caminha  com a cabeça erguida como se aquela visita fosse apenas um olhar transitório de lazer. Desafia. Quando se sente observada sorri e sai… Burla vigilância. Mas eles a surpreenderiam… A beleza esta associada à punição? O pecado exige castigo porque a beleza é excesso. Talvez! Ausência do belo uma máscara inacabada. A beleza tem veneno. Ser feio protege a pessoa.  Abre-se ao talento… O destituído de beleza se esforça na alegria para a bondade. Honesto ou cruel?

Exausta. Talvez preenchida. Um vento forte, num verão que fica vestido de primavera. A cidade lotada e pessoas feias. Isto importa? A beleza sempre importa. E mesmo assim a vida rouba esperança e oportunidade. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2013 – Torres

BELEZA ROUBADA

A China comunista não permite canteiros de flores, nem arte, nem música.  Durante a Olimpíada de Pequim, no entanto, viu-se beleza na cerimônia… Eficiência. Beleza.

Concentrado no trabalho o homem erra menos. A beleza rouba do esforço o penoso. Entrega-se fácil à conquista.  No caso da China é como burlar, enganar  a identidade, o Eu. Apenas o conjunto tem mérito. O excesso de trabalho, e a busca da perfeição física  surpreende. Sem estorvo. A beleza não tem identidade. Depois que a beleza passa, o fardo permanece. Não se pode roubar a beleza sagrada… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2013

Esticado

Fio do novelo emaranhado na alma enredada. Emaranhado refeito em novo novelo enrolado. Fio entre fios… Linha de outro novelo esticado. Brinquedo de gato. Enfadado sonho. Brinquedo de gato!

Amarela, malhada, assustada bichana… Elizabeth M.B. Mattos – Torres

Os beijos tombavam

Escrever tropeça no que já foi escrito… Respiro. Transcrevo Niels Lyhne do romancista dinamarquês Jens Peter Jacobsen (1847-1885).

(…) os beijos tombavam pesadamente dos seus lábios, como perguntas hesitantes, mas não traziam alívio, não os satisfaziam. (p.155)

 

Como era possível tamanho desprezo pela própria dignidade, um tão cínico desdém por si mesma, que arrastava de cambulhada a ele próprio e a tudo que lhes tinha sido comum, lembranças e esperanças, entusiasmos e idéias sagradas! Só de pensar nisso ficava corado de raiva. Mas, enfim, estava sendo justo? Pois, por outro lado, que fizera ela senão dizer clara e lealmente: ‘ Alguma coisa me atrai para outro lado, me atrai fortemente, mas eu reconheço o teu direito, mais do que tu mesmo exiges, e aqui estou: se puderes conquistar-me, conquista-me, se não puderes, irei para o lado mais forte. ’ (p.159)

O sentido de plantar

Não é possível mudar o curso da vida! Tens os pés plantados na terra do teu jardim adubado…Buganvílias, jasmins, sempre-vivas, margaridas e cravos  te cercam…Teus cabelos se enrolam nas samambaias, e o jacarandá  florido deste verão enfiou um galho  no teu corpo… Estás ali, o cão preto cheira tuas pernas, e deita no gramado. Vigia.

Quando chove, tudo escorre… A terra mais fofa, mais nutrida faz com que teus pés afundem… São pequenas responsabilidades, sem voos, mas tuas! Há quem diga que te abandonaram no jardim! Há quem se espante! Importa? Em nenhum momento estiveste sozinha. Tens os cravos, as margaridas, e nesta estação os junquilhos. Elizabeth M.B. Mattos – 2013 – Torres

AZUL

Amoras azuis. O céu, o amar, as lavandas, o perfume. Azuis. Tu és azul. A fita do teu cabelo é quase lilás… Existe o vermelho: perigo! E o vestido de tricô amarelo, aqueles minúsculos babados brancos. Meias  brancas engolidas pelo sapato branco de verniz. A franja! Eduardo no colo da Dinda! Santo Ângelo. Ponta Grossa foi depois… Os canudinhos dos eucaliptos. Cartazes com figuras, letras e palavras… Eu não sabia nada das amoras. Muito menos das azuis! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2013 – Torres