Pedro Gonzaga me perdoa

Não pude transcrever os poemas como eles são, poemas… Perdoa Pedro. Li assim na corrida. Vou reler voltar. E digo: tão bom que é de voltar… Eles estão assim misturados. Perdoa. Ordena pra mim…

“Nossos mortos vestem, por invisível regimento, a macabra fantasia de permanecerem iguais em nossa memória. Aqui está o primo… Aqui está minha avó… Aqui está o amigo que tocava piano… Vejo-os todos, atores em reprise, enquanto eu envelheço entre tabacarias e sinagogas, aqui neste apartamento… Enquanto a manhã demora a chegar, meus mortos combinam à meia voz (mas eu os escuto!) uma maneira sutil de se fazerem desnecessários.”

“ Imperativo. Se puderes pedir uma coisa a júpiter pede uma ilusão adamantina, não a verdade… Somente filósofos e tolos, inquisidores e síndicos estão atrás da verdade. Se puderes fechar os olhos para o real, fecha agora, não te preocupes, antes, aproveita. Hão de acordar-te os credores, a dor no ciático, o fingimento da mulher que nunca se entrega e que julgas siderar com tuas carícias de manual enquanto ela organiza no teto uma lista de afazeres domésticos. Percebes? Somente em sonhos podes ser quem imaginas. Apenas em tua memória seletiva tuas ações recebem a devida camada de valorosa pátina, por isso, nega as fotos. Foge dos amigos nostálgicos, evita reuniões de dez, quinze, vinte anos da formatura do colégio. Investiga menos, questiona menos. Não há fatos, só versões, eles dizem ora, deixem que guardem para si tais patacoadas. Elas não podem te salvar. Se puderes pedir uma coisa a júpiter pede uma ilusão adamantina, não a verdade. Somente filósofos e tolos, inquisidores e síndicos amam a verdade.”

E ainda tem as formigas do colorado. Poema em linha torta para Alfredo Aquino. Inventário!

“Tuas roupas no chão do banheiro misterioso exosesqueleto abandonado, um copo d’água à cabeceira da cama… Um par de meias entre os lençóis, a porta entreaberta e o feixe de luz… O modo como estendias a mão e me tocavas, uma pequena argola prateada na gaveta. E o vento bagunça teus cabelos regime singular do ouro, o sol lambe tuas unhas, e digamos que você tenha sorte… a última temporada com o vinho dos chineses para Mariana…Deitados junto ao rio enquanto as estrelas ardem – cansadas da fútil combustão de nosso sangue impaciente, seguro tua mão, beijo tua boca…”

Pedro Gonzaga é natural de Porto Alegre. Por muito tempo atuou como músico, dedicando-se ao mesmo tempo a escrita… A última temporada é seu primeiro livro de poesia. Editora Ardotempo.

É preciso acordar

Primeiro a temporada de frio: homens abandonam velhas lealdades. Depois o tempo se abranda, mas o exército de monstros, gigantes afugenta a criação.  Na temporada seguinte o mar avança, e os peixes cobrem a terra. Onde estamos? No tempo de fogo sufocamos, mas ainda rezamos… Ajoelhados repetimos as palavras que nos transportam para perto… Perto do que entendemos. O milagre se faz. E apenas choramos… A terra se purifica no mar, e as árvores abrigam todas as saudades plantadas… Reconhecemos o pesadelo, voltamos ao sonho que nos adormece outra vez. No entanto é preciso acordar…

T R A G É D I A

Entristeço: estamos atolados na mediocridade, no vazio… Aniquilamos o potencial humano, abandonamos… Deveria haver massa cinzenta, idéias, correspondência com a vida. Nada. Somos um amontoado de carnes flácidas, e vaidosas. O desejo do poder a engolir tudo. O dinheiro cultuado por imbecis, e as criticas caem no vazio. Aponta-se para o nada em voz baixa… Os ambiciosos de poder a mandar, a desfilar em escolas deste samba tão gostoso! Um bom Carnaval! Vozes se escondem no vulto público de alguém… E o quadro alegórico faz a entrada vitoriosa! Dirigir, organizar… Como levantar a cabeça? Por que não somos mais coerentes e lúcidos? A entrevista com o jornalista Mina Fala, todo arrumadinho, mas rebentando… Tom Zé viajando n’ Os Sertões de Euclydes da Cunha, e citando Guimarães Rosa, a língua da sua infância, do balcão da loja tachada como intelectual… Busca o genuíno?! Então acerta. E o judeu que é contra a indústria do holocausto? E a vida das pessoas, outra vez mágica. Abóboras pras carruagens?! E o que fazem as pessoas comuns? É o rebanho todo atolado no plim-plim da Globo, no vazio. Salvamos o novelão!  Ontem li Marguerite Youcenar: novela curta contando uma história qualquer, de um homem qualquer, o tédio… Nada como reler Memórias de Adriano… Enjoei diante de algumas descrições, mas fiquei pasma com tanta coisa sendo posta de forma absoluta, recriada, rica: “Viam-se as madeiras raras e os fardos de especiarias; não se viam os dentes apodrecidos pelo escorbuto, os ratos e os piolhos do castelo da proa; as sentinas fétidas, aquele escravo com pé cortado que ele vira agonizar na Jamaica. Não se via em absoluto o saco de ouro do negociante que financiava na hora da partida aqueles grandes empreendimentos e que, às vezes, vendia aos capitães suas mercadorias adulteradas ou enganava no peso, como o gorducho de Greewich. Natanael se perguntava até quando durariam aqueles caprichos.” Youcenar, Marguerite. Como a água que corre. Ed Nova Fronteira, 1983.

Domingo bem azul, sem calor. E o olhar lânguido do cachorro. Dou-me conta das bobagens todas que tenho escrito! Nada a viver, nada a escrever! Pobreza desta vida sem luz enfiada num sono, no medíocre mesmo deste ano de mortes e perdas. E saudade. É tarde pra acordar. Dar-se conta não invalida a impossibilidade de. É como uma doença de pele… Marcada. Apontando sem matar. Agonizando. Perde-se tempo com frivolidade, incapacidade de organizar e fazer. Perde-se tempo por acreditar suprir o mundo de mães relapsas, ausentes, de casamentos sem amor, da solidão das pessoas. Peca-se pela prepotência de querer consertar o mundo assim, sentada no sofá.

Em Santa Maria, aqui neste nosso Rio Grande do Sul alvorada de fogo! Jovens morrem…Desastre de horror! Como se fosse um campo de guerra, uma epidemia… Um massacre! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro, 2013 – Torres

Ricardo: ninguém quer extraviar um livro

Uma das coisas esquisitas de envelhecer é distanciar-se da pessoa que fomos. Não digo que todos façam isto, todos não, porque alguns seguram o tempo no sonho contínuo de estar presente… Eu fui uma daquelas pessoas que se acotovelaram na vida. Resolvi os sentimentos, e tomei decisões na soleira da porta. O discurso se fez na emergência da situação. Alguns conseguem planejar, ordenar, obstinar-se num sonho definido, e percebem a Linha de Sombra, e atravessam, e se firmam com indivíduos inteiros, decididos, positivos. Realizar o sonho, ou melhor, descobrir com nitidez o sentido de ter a vontade, e assim, não se deixar levar aos solavancos, mas consciente exige da vida o espaço, e conquista  esta vontade de alma… Como diz Conrad no livro Linha de Sombra: “Todas as estradas que levam ao que nosso coração almeja são longas.”

Voltando a Virgínia Woolf, esquece As Ondas. Se puderes lê Passeio ao Farol, mas se estás subindo A Montanha Mágica… Deixa para outro momento, eu adoro tudo que Thomas Mann escreve. As grandes damas da literatura esperarão por ti… Ainda tens Katherine Mansfield, ao menos  o conto Felicidade, Jane Austen, a obra inteira. Emily e Charlote Brontë, Virgínia Woolf, Isak Dinesen, preciosos contos, ao menos A festa de Babette, Doris Lessing, pelo menos As Avós. Sei lá Ricardo! É uma roda constante de descobertas, sustos, pânico, prazeres e questionamentos. Acho que tens urgência em conhecer Bachelard… Procura os filósofos. E a vida é mesmo toda esta festa de gala, de uma noite, ou duas, ou… As leituras caminham soltas, não te prendas… Segue o teu coração, tua intuição, e logo terás novo prazer com Lolita; reler Bovary, quem sabe Proust? De qualquer forma, a cada novo texto que descobres e comentas tu me seduzes e  corro para uma releitura, ou tardia leitura… Quem sabe leio A Divina Comédia, quem sabe Cervantes? É preciso disciplina. Eu sei. Bem, e aí fica o sentido de ter biblioteca, fazer uma biblioteca, usufruir de uma biblioteca, a tua, ou frequentar uma grande biblioteca… Elizabeth M.B. Mattos – janeiro  2013 – Torres

A citação pode ser o presente visto que todos o presente caminha por ideias, pelo afeto, pela imaginação…Leia A casa de Papel de Carlos Maria Dominguez. 

“A biblioteca que se forma é uma vida. Nunca digamos uma soma de livros soltos. (…) O senhor os acumula numa prateleira e parece uma soma, mas, se me permite, trata-se de uma ilusão. Seguimos certos assuntos e, ao fim de um tempo, acabamos por definir mundos; por desenhar, se prefere, o percurso de uma viagem, com a vantagem de que conservamos suas marcas. Não é simples. É um processo no qual completamos bibliografias, preocupados pela referência a um livro que não temos, então o conseguimos, e nos deixamos conduzir a outro. Embora, devo confessar, eu seja um leitor limitado. Preciso ler todo o aparato de notas, esclarecer o sentido de cada conceito, por isso dificilmente me sento para ler um livro sem vinte outros por trás, às vezes para completar a interpretação de um único capítulo. Sem dúvida, essa ocupação me apaixona ...” (p.39)

– A casa de Papel – Carlos Maria Dominguez. 

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Diabo solto, anjo mal humorado

Diabo solto, ou anjo mal humorado… Um não fazer, não presença, ausência mesmo. Gosto de ambos. E também de Torres. Cidade de arranha céus, de calçamento difícil, cafés, livrarias. Da ideia de ser gente grande… Lotéricas e padarias, sorveterias, e moda! Gosto desta âncora de prazer. Mas não esqueço antigos verões! Das festas, do cinema, dos namorados, das rainhas e das princesas, das gincanas, do Luis Augusto, e do azul profundo… Do tempo de dançar! Boate Marisco e a Tatuíra… De jogar cartas no meio da tarde. Tomar sorvete na taça, e comer filé com fritas no Hotel da SAPT. Das barracas coloridas fincadas na areia, enfileiradas. Dos desfiles de chapéus: lenços, bolsas de palha e saídas de praia. Dos antigos pijamas de seda combinantes. Foto branco e preto. Caminhadas na beira do mar, certeiras. Exibidas ou tímidas. Tudo Torres, mesmo sem as grandes dunas de areia, mas dos molhes no rio Mampituba, os restaurantes que já se imaginam sofisticados. Muita cerveja, pizzaria Manjericão, a caipirinha, os barcos de pesca e as lanchas. A ponte pra Santa Catarina. E não estou descrevendo os banhos da tarde na Guarita, e nem o golfe no morro, nem o Farol antigo, e o cemitério lá em cima… A estrada difícil, as três balsas, poeira, distância, latas de bolacha, de leite condensado, de goiabadas e das flores! Não é saudade, mas Torres da Lagoa do Violão! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2013 – Torres

S.A.P.T. – Sociedade Amigos da Praia de Torres.

Tigre na Sombra

Lia Luft no seu livro Tigre na Sombra lança dados biográficos mal definidos, iluminados por lanternas… Refletem a autora, a sua vida, a minha… Queria retalhar, recortar de tal forma que o texto anterior, o seguinte, e o do meio fossem escritos por você…

“A vida que imaginamos é uma casa transparente sem janelas nem saídas. A gente a constrói com palavras e silêncios, abraços e afastamentos, uma vida paralela a isso parece o concreto cotidiano. Ali o amado não entra, a amada fica de fora, sombras e luzes como espectros dançam e acenam.

Fora dessa casa de vidro existe outra vida, que chamamos real. Com pão e manteiga, aroma de café, lençóis úmidos de sexo, filhos correndo, pais envelhecendo, contas a pagar, cargos a ocupar, nomes e marcas e tráfego e sonhos de consumo, e sonhos de consumo. E dor.” (p.36)

“Dias de recolher os personagens do passado, alguns mais duradouros, outros breves lampejos na memória, que afundam de novo, e vão e vêm. Onde estão, por onde se espalham, alguns deles que nunca mais vi nem sei onde andam, outros morreram – mas a memória não deixa que nada de verdade morra. “(p.53)

“Pouco a pouco outro alguém voltou a soprar-lhe vida, e acordou. E isso ela teve e perdeu e teve e perdeu de novo, até começar a entender que só ela podia dizer para si mesma:

– Isso aí, essa aí é o que eu sou.

Ninguém mais saberia lhe dar o seu nome nem o seu destino. E o que ela era nunca era o mesmo, mas união e ruptura e encontro e isolamento.

E o que alguém é, ninguém jamais sabe. Nem pais, nem filhos nem amantes, ninguém. Pois não conhecemos uns aos outros, sombras que se cruzam num corredor mal iluminado. “(p.62)

Tigre na Sombra, Lya Luft. Record

Não é nada

Penso: quero te contar tantas coisas, mas esbarro no motivo desta transferência de ansiedade… O que ata as pessoas? O que desata? Penso. Não faço nada. E me pergunto sobre a estranheza de sentimentos que se misturam. Confessar? Gritar? Conversar? Escutar? Entender? Saber? Como é que se faz a relação perfeita? Por que os sentimentos precisam sair todos do mesmo lugar, o lugar certo? Tudo tão sem rumo! Nenhum sentimento deveria esmorecer nenhuma carícia morrer. As crenças deveriam convergir. E esta coisa inútil de repetir sempre as mesmas coisas, sentir igual, sofrer igual, e se contentar com o ritmo manso das relações mornas de sempre… Como posso lamentar os sentimentos mutantes? Como posso me inquietar com o vazio da convivência pacata onde nada é dito, e os significados resvalam no silêncio…  O dia se ajusta na seqüência lógica: às cinco horas da tarde beberemos o café com leite, e comeremos as torradas.

Eu me esvazio das pessoas, eu me tumultuo neste ir e vir. E sinto pena do Frajola que se esforça para eu ficar um pouco mais … Nunca um nome definiu tanto um gato! Da Onix que me olha por baixo do olho triste, triste na tristeza canina dela! E dizer estas coisas, contar estas coisas não é nada…

Nous Dormirons Ensemble

Que ce soit dimanche ou lundi
Soir ou matin, minuit, midi
Dans l’enfer ou le paradis
Les amours aux amours ressemblent
C’était hier que je t’ai dit
Nous dormirons ensemble

C’était hier et c’est demain
Je n’ai plus que toi de chemin
J’ai mis mon coeur entre tes mains
Avec le tien comme il va l’amble
Tout ce qu’il a de temps humain
Nous dormirons ensemble

Mon amour ce qui fut sera
Le ciel est sur nous comme un drap
J’ai refermé sur toi mes bras
Et tant je t’aime que j’en tremble
Aussi longtemps que tu voudras
Nous dormirons ensemble

Le Fou d’ Elsa – Poema de Aragon – Música de Jean Ferrat