EXERCÍCIO do sonho

A narrativa ensaiada se compromete, perde a espontaneidade do sonho, no sono de vigília que sonhei. Estavas noutra sala, mas era a mesma de antes. Ou melhor, eu estava no limite das duas salas quando me chamaste para perguntar se eu gostaria de fazê – lo feliz assumindo o compromisso, para toda a vida… E também responsabilidade. Lá estavas abraçando, em acalentado abraço, o menino. De uns quatro ou cinco anos, ou três. Ele se apertava nos teus braços. E tu sustentavas, de cócoras, o corpo dele no meio das tuas pernas. Voltei os olhos para o salão e lá estavam os pais do menino. E assim mesmo concordei. Então sorriste para mim dizendo:  … mas é para sempre. Sacudi a cabeça afirmativamente. Sono de vigília. Mecanismos de memória. E o para sempre tão complicado de acreditar. Nada é para sempre.  Teus olhos e gestos reaparecem. Conversas voltam, não remotas, mas do passado recente, vivas. A história da menina-criança. Verbos, elipses, adjuntos, complementos diretos e indiretos do velho português. Vigília na memória que preenche, afinal, lacunas. Foi som. Som o teu silêncio. Observação. Química de alerta. Por que a criança?  Criança-pretexto como ferrolho da brincadeira. A serenidade sem grito de um sim que acorda. Quem era aquele menino que guardavas no abraço de proteção? E os pais, os dois a te olharem com meio sorriso, gratos. Escuto a voz. Fantasia proibida. Como descrever a fantasia? O escondido de tudo que fizemos, e não queremos confessar. De volta ao sonho. Penso que o menino dos teus braços sou eu mesma a me esconder. Moradas temporárias desqualificam o habitat… Chegar a casa, ou voltar para casa deve ser toda a jornada. E o para sempre uma verdade a ser reconhecida.

…e lembro nesta memória do sonho, a vida.  Dos meus três anos em Santo Ângelo, sete em Ponta Grossa. Dezoito anos no Rio de Janeiro. Viagem desastrosa. O internato. Destes deslocamentos onde existe procura. A casa está no centro, a velha casa de Petrópolis na rua Vitor Hugo, 229. (para Théo) Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2012 – Porto Alegre

REFEITO o efeito

REFEITO o efeito da idéia

Lugar comum: olhos de criança. Quando sorria era pelos olhos que o riso saia.
Dentes cheios. Dentes cheios quer dizer regulares, brancos. E o corpo respondia solto à conversa sobre campos, receitas ou invento…Pronto. O corpo participa do riso. Ele sorri. Concentrado. Interlocução é foco. Sem dispersão. Pessoas inteiras: contam, perguntam, fundamentalmente, escutam, olhos nos olhos, atentas.
Deduzo que não estou na sala. Podia observá-lo, ele não me via justo para que eu pudesse vê-lo. Olhei sem reservas. No entanto, inesperadamente, ele me chamou com os olhos e eu respondi de imediato caminhando em direção ao som.
Eu o vi com a criança. Os dois no abraço do embalo. Ele, sério, mantinha as
pernas dobradas. Apertava o menino contra o peito. Por cima deste abraço
perguntou-me se eu o ajudaria. Ajudaria para sempre. No espanto, concordei.
Na platéia homem e mulher sorriam.

Embrião de biografia e saudade

Fui ver o mar, lindo! Aberto! Perfumado, inquieto! Barulhento. Colorido. Meu. Contudo, o frio não me permitiu chegar perto: aproveitei o calor e o fogo forte da lareira e do fogão à lenha. Então, cozinhamos o pinhão e o feijão do jeito que têm que ser feitos. Sem os pães e as geleias açucaradas da preta Maria. Na calma, caminhei pela cidade: sem mar, é o feito. Feito? Não, o desfeito. Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel. O mar lá estava, e as pedras também. Ilha dos Lobos. A Lagoa do Violão poluída. O rio Mampituba, escuro, com botos; o mesmo rio que a barra fez aberto… Daquele lado eu gosto, o cheiro é outro: barcos pesqueiros, canoas. Lembra a vida do começo, da barranca. Os molhes pinta mar e rio. Beleza importa sim. Não a das pessoas, mas desta natureza que sobrou.  Como fez frio! Meus sonhos de Cambará do Sul e São José dos Ausentes, hoje, na sombra. Será que eu quero a neve? Será que eu, ainda, quero alguma coisa? Depois o hoje Porto Alegre. Não vou garantir nesta loucura desordenada de tempo sem tempo, falta de coerência, equilíbrio, lugar nenhum no concurso, mas estou tentando, estou quase com a cama-campanha armada no Cursinho. Puxa! Não consigo estudar nem entender estes ditongos e acentos e vírgulas, crase, ortografia: erro tudo. Mas estou tentando, querendo, concentrando. E a Legislação? Cartas rogatórias, precatórias, TJ, Sumário, juiz togado, comarca: vocabulário a se incorporar. Ainda a informática em detalhe, decorando. Não compreendo as questões, a memória é um fiapo, papel comido de traças. Louca, louca mulher. A casa está numa desordem permanente, minha. Os objetos se movimentam pelo chão como pudeste ver. Se me perguntares como consigo tirar as coisas das gavetas, das caixas eu não saberei te responde. Não sei. Sei que te reencontrar foi iluminar tudo por um momento. Depois o real, o silêncio da não chamada. Volto aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo: esquisito mesmo, isto tudo faz trânsito pelo chão. O mundo de dentro, estripado, no tapete. Ou mesmo grudado nas portas, como se os lembretes fossem solução! Quando a noite chega e o lobisomem aparece, escondo-me nos lençóis: durmo, durmo, durmo. Não faço nada. Estou doente. Odeio a televisão. Esquisito… Só minha floresta progride. Comprei alpiste e os passarinhos vêm piar e comer nos meus verdes. Não tenho máquina fotográfica, mas, hora desta peço para fotografarem e mando num daqueles papéis impressos para reconheceres a AMAZÔNIA da Beth. Tudo sombrio, com chuva e movimento sacudido pelas samambaias. Já tirei as avencas das frestas, detestam vento. Segundo PHF: “Nada oprime como se imagina que possa, calma mulher”. Mas eu repito. O que oprime é o desejo contido e a falta de verdade interior. O que oprime é o inferno de nos olharmos ao espelho e vermos o diabo: o inferno interior que não queremos revelar aos outros. Oprime a certeza da minha preguiça, as incapacidades, as ilusões frustradas, a idiota vaidade guardada intacta.  Este mesquinho egoísmo e esta opaca mediocridade. Oprime não termos a compreensão nem o espetáculo inteiro, só o palco. As diferenças de linguagem. Por que não aceitar o prazer de estar casa num dia como este? O silêncio. A possibilidade de ler. Estudar o que posso estudar. Aceitar o limite de ser apenas uma mulher comum. Uma mulher igual a todas as outras mulheres comuns. Não sou a Lou Salomé, nem Nais Nïnn. Rever, repassar, adulterar lembranças, explicar os isto e o aquilo. Não há necessidade, mas, ao mesmo tempo é toda esta necessidade da verdade, do despojamento que busco. Não vou me afobar nem me afogar em copo de água, irei mais longe. E, depois, não importa só o palco, mas o espetáculo inteiro. Até a paixão e o beijo importam. Importa que fugi do beijo e do abraço manso e lento.  O beijo da lembrança. Não peguei, nem senti; nem o suor, nem o cheiro do corpo. O nada e o tudo do sexo. Quero o vagar do recomeço. O vagar dos pequenos prazeres que irão construir o espetáculo completo. Então, a casa é o cenário perfeito aonde perdemos e achamos coisas, pessoas, cheiros. A invenção inteira. Não um quarto de passagem, limpo, liso. Os escritores usaram este método masmorra para poderem pensar e escrever, sem distrações. Pessoas e coisas nos atrapalham para pensar e interiorizar o que somos. Apenas tocar no beijo silencioso do amor renova; tudo o mais desgasta. Perde-se o tempo de crescer, de ser alguém. A escravidão. Depois, tudo repetido, nunca original. Se existe o único é o autismo interior. Será que eles têm, tiveram razão? Quando escrevem estão inteiros na loucura que a verdade impõe. Então o menor quarto, a menor casa, o mar, seriam o caminho, o meu. Tropeçamos nas coisas e na ignorância de nós mesmos, paradoxalmente, imóveis. Falta de atenção!… Ficar, assim, com joelhos esfolados, sem dedo, capengas.  Nietzsche. Adorei as convicções, as certezas corajosas: ser pessoas no livro do psicanalista: leitura para todos. Estabelecer o laço da cumplicidade não só amorosa, mas humana. Ou somos animais inferiores? Este jogo das leituras; adoro. Estas pequenas parcerias possíveis que podemos construir, sem espelho, com outra pessoa, divertido, vivo. Da galeria ficou o buraco vazio: as coisas de dinheiro, irregularidades do pouco caso me tocaram, busco solução na lei trabalhista. Deixo de ser passiva.  Isto resolvido, mas já me sinto inquieta. Sabes que estou, também, revendo a partilha do divórcio, assim, resolvo a questão de SCSUL. Bem, agora, preciso daquele imóvel. Mas, na justiça tudo é moroso, também nojento. Caminho chafurdando na má intenção dos outros, e, nos meus limites, sem dinheiro. Revolta-me a ganância, a soberba. A falta de generosidade, carinho. A mão que recebemos exige troca. Não há surpresa amorosa nas pessoas: revólveres, granadas, venenos e torturas. Nada de flores. Pão ou chocolate. Nenhum perfume. O fétido das ruas, o mau cheiro das pessoas. Tenho que marchar pra guerra e lá estou treinando o tiro com a velha espingarda de caçar pombos e patos. Tudo proibido. E eu estou lá. Não posso roubar, não consigo encontrar a forma (e roubar já é tão fácil por aqui: as cuecas cheias de dinheiro, escândalos dos ricos na política, o filho mesmo do presidente: guarda-florestal, ou similar agora empresário-fenômeno; o metalúrgico que veste Armani; como é fácil “negociar”, roubar, dar tiros e ficar com a bolsa de dinheiro, invadir bancos pela justiça) e o jeito, fico na intenção.  Não posso desprezar o dinheiro, preciso dele para viver, assim, estou na linha de frente, armada, pronta para atirar, lutar, revidar, esquartejar. Nas trincheiras q a vida impõe. Que parágrafo! AH! Se fosse verdade passar neste concurso! Resolveria as questões de direito e aplacaria a angústia. Dos erros aos acertos. Gostaria de receber um bilhete teu, uma carta, uma troca onde o selo seria o permanente para nós dois. E tudo é lento e manso. Escrever-te lava minha alma. Vou estudar. Com saudade do que não aconteceu. Elizabeth M. B. Mattos – 2012 –  Torres

Nota sobre amizade

Em 1974 no Rio de Janeiro  Iberê  expõe guaches na Galeria da Aliança Francesa de Botafogo. Amigo do colecionar, o escritor Vianna Moog  começa sua coleção de Iberês. O atelier da rua das Palmeiras em Botafogo é inaugurado em 1972. No intervalo de uma aula de francês conheço o pintor Iberê Camargo. Começamos uma amizade que vai durar trinta anos. Beth Mattos

O maior vício

O maior vício entre os vícios pode ser a leitura. A leitura obsessiva que faço de mim mesma em tudo o que leio: nos livros que leio. Ao ler não busco apenas idéias novas, mas pensamentos já pensados por mim que adquirem na página selo de confirmação. As palavras dos outros me atingem ao ressoarem numa zona que já é minha. E, fazendo-a vibrar, eu me permito recolher novas sugestões. Neste monólogo, dou-me conta de que as leituras são aos pedaços, inacabadas. Trabalho interno desconcertante.Olho para a mesa cheia de papéis, pastas, folhas. Concentração difícil. Meu artifício para não concluir uma tarefa é a desordem. O caos pode ser este vazio escuro, o início gerador de projeto ou abismo. Esta confusão externa sou eu.

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Hoje acordei cedo. Em casa amoleci por dentro.Não importa qual filme, ou programa, o som alerta para o tempo perdido. O silêncio como ameaça. Concentro-me nos últimos capítulos de um texto acadêmico. Preciso finalizar. Leio duas ou três páginas, rabisco, reescrevo. Interrompo. Pela janela vejo o mar. A risca do horizonte.Desordem cinzenta.Há que abastecer, realimentar, continuar e imprimir a pluralidade.Busco nos livros os monólogos, as confissões. Ninguém tem tempo para o tempo do outro. Se aquilo que explico não estiver na pauta, linha, princípio assumido, as palavras ficam soltas. Estico o limite para me aproximar, procuro me fazer entender e faço esforço para compreender quem, e o quê se propõe na interlocução…

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Órbita dos filhos

Buscamos a referência no outro. Será uma identificação positiva ou negativa? Atuar no emaranhado da órbita de filhos, netos, pais, tios, irmãos, estranhos, e amigos…Comunicar? Cercamos a área, e delimitamos quem, como e quando. Esquecemos alguma coisa, sempre esquecemos. Talvez o mais importante. O único elemento modificador e propulsor de uma boa e saudável mudança é recomeçar a contagem desta família eleita. O mundo deterioraria se não houvesse o novo. Onde se localiza o prazer de olhar? Estabilidade, permanência de tempo, esticar o ritmo,  o certo. Jogo físico e mental.

Algumas pessoas resguardam a energia interior. Sofrimento rasgado da infância? Desencontro com a realidade forjada por nós mesmos? Queda no abismo de outras vontades como fuga do reconhecimento da fragilidade interior? Queda. Apagamos as marcas anteriores da rebeldia com a mesmice de agora, afastamos a ousadia e fechamos as possibilidades de recriar. Há que existir sempre uma  atração entre os astros  onde a órbita se faz circular entre os homens: chamo de gerenciar o condomínio. Com cercas, policiamento e estrutura de quietude. Apenas olhamos pela janela: o sol e o arvoredo, o horizonte limite aquece. Ponto. Não foi prazer nem desprazer. A observação propiciou  a constatação da ausência que se estica no não-relacionamento. Sem voz, sem tato, sem olhar. Pensar o outro é entrar no imaginário fictício, o equívoco? Por mais forte que seja o impulso sexual entre o homem e a mulher ele não se faz único gerenciador de possibilidades. Racionalmente acomodamos tudo nas caixas confortáveis onde protegemos o tempo. Olhando o que acontecia a minha volta, ainda no prazer da quietude, e da minha própria tristeza interior, constatei a diferença entre o que eu vejo, e o que significa a visão do outro. Ainda amo a possibilidade. Arrefecida estou dos impulsos do riso solto e da fala livre. Observo o vazio que se abre, e pressinto outras certezas. Tudo é superficial. De certa forma as necessidades básicas como comer feijão no dia marcado dormir a sesta  no sofá certo, trazer a faxineira nos horários possíveis, previstos. Aceitar o sono e o dengue do filho, buscar os netos pro passeio. Assistir ao jogo de futebol. Ver a novela. Fechar o cerco, fechar as portas e transitar nos jardins internos do seu próprio condomínio. Assim, o limite de estar na calçada, flertar no café, alimentar o gato da esquina é o limite mesmo de uma hora, duas no máximo, se for por mais tempo, significa perigo. É preciso respeitar as riscas da amarelinha na calçada, o caminho dos pedestres. Em tempo de guerra o sinal de recolhimento,  e as janelas fechadas marcam a segurança. Eu não sou a guerra, sou a desestrutura. 

A compreensão acalmou o sonho. Não mais repartir tempo de vida. O que antes parecia ser receptivo se torna equívoco. Engolir lágrimas, lágrimas. A galeria  está iluminada pela música de Bach. Volto os olhos para a exposição das telas azuis. Beth Mattos – Porto Alegre – outubro 2012

“Por outro lado, prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica que pudesse informar-nos sobre o significado dos sentimentos prazer e desprazer que atuam imperativamente sobre nós. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente nada nos é oferecido para nossos fins. Trata-se da região mais obscura e inacessível da mente e, já que não podemos evitar travar contato com ela, a hipótese rígida será a melhor, segundo me parece. Decidimos relacionar o prazer e o desprazer à quantidade de excitação presente na mente, mas que não se encontra de maneira alguma ‘veiculada’, e relacioná-los de tal modo, que o desprazer corresponda a um aumento na quantidade de excitação, e o prazer, a uma diminuição. O que isso implica não é uma simples relação entre a intensidade dos sentimentos de prazer e desprazer e as modificações correspondentes na quantidade de excitação; tampouco – em vista de tudo que nos foi ensinado pela psicofisiologia – sugerimos a existência  de qualquer razão proporcional direta: o fator que determina o sentimento e provavelmente a quantidade de aumento ou diminuição na quantidade de excitação  num determinado período de tempo. […]  Os fatos que nos fizeram acreditar na dominância do princípio de prazer na vida mental encontram também expressão na hipótese de que o aparelho mental se esforça por manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível, ou, pelo menos, por mantê-la constante”[1] 

 


[1]  Edição satandard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume XVIII ( 1920 – 1922) Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. Páginas: 17,18 e 19.

Repetindo Torres

Fui ver o mar quando cheguei. Aberto! Perfumado, inquieto! Barulhento. Colorido. O frio, contudo, não me permitiu molhar os pés. Na casa, aproveito o calor e o fogo alto da lareira. Cozinho o pinhão e o feijão do jeito que têm de ser feitos. O café, sem pães nem geleias açucaradas. No fim da tarde, caminho pela cidade. Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel. Areia e pedras. A Ilha dos Lobos. A Lagoa do Violão, sem aguapés: poluída. O rio Mampituba, escuro, botos seguindo cardumes; o mesmo rio. Os molhes que facilita a entrada dos barcos… Daquele lado eu gosto, o cheiro é outro. Lembro a vida do começo da barranca. Os molhes: mar e rio. Beleza importa, sim. Não a das pessoas, mas dessa natureza que sobrou. Essa pode ser nomeada bela. Não é mais balneário, mas cidade. Torres em cimento com edifícios de vinte andares, sombra. As dunas desapareceram. Árvores exóticas, muros de vidros. Piscinas. Restaurantes. Quiosques e a sede dos veranistas. O morro do Farol tem rua… Os barcos pesqueiros circulam a Ilha dos Lobos. Por todos os lados o homem avança. Em Torres venta.
De volta para casa estico as pernas no balanço da varanda. Pelo envidraçado vejo objetos que se movimentam pelo chão: meias, copos, garrafas e livros; ou imagino esta dança? Se estivesses comigo!  A casa está numa desordem permanente. Sigo com as pernas esticadas, penso em abrir a última garrafa de vinho, comer o último pedaço de peixe, e as uvas que sobraram no pote verde. Preciso fazer as malas.

Preciosas cartas

19 de maio de 1935

Viena IX, Bergamasse, 19 / XIX, Strasserg 47

Muito querida H.D.

Inútil dizer como fiquei feliz com sua amável carta de aniversário! Faça-me a gentileza de transmitir meus pensamentos afetuosos para Bryher e Perdita e de contar a Bryher o uso que fiz do cheque que ela me deu de presente. Você talvez tenha sabido que o doutor Jones veio à Viena e deu uma conferência interessante quando de um encontro que introduziu nossa gente nas novidades um tanto comoventes da psicanálise inglesa. Ele nos pediu em contrapartida que enviássemos um conferencista a Londres para dar prosseguimento à discussão. Escolhemos o doutor Wälter para empreender essa viagem e as dez libras esterlinas de Bryhler cobrirão uma parte das despesas. Assim, o dinheiro retornará para onde veio. Lamento que você nunca tenha visto nossa casa e nosso jardim aqui em Grinzing. è o lugar mais lindo que já tivemos, um verdadeiro sonho diurno e somente a doze minutos de carro de Berggasse. O mau tempo teve a vantagem de deixar a primavera desenvolver muito lentamente seu esplendor, ao passo que nos outros anos, a maior parte da floração acontecia quando saíamos. E o certo que estou ficando velho e que meus males pioram, mas tento sentir prazer [na vida] tanto quanto posso e trabalhar cinco horas por dia. Não há outros escritos a esperar de mim, mas você não me mantém  par dos progressos de seu trabalho? Com minhas afetuosas lembranças para todas vocês

Sinceramente seu, Freud

P.S.: Recebi o número do jubileu e não reconheci meu retrato com a mesma rapidez de Perdita.

(p.222 Correspondência entre Hilda Doolittle e Freud in Por amor a Freud)