Hilda Doolittle Sigmund Freud Elizabeth Mattos Iberê Camargo

Entrelaçado de cartas: uma de Freud para Hilda Doolittle, seguido de Escritos na Parede do livro Por amor a Freud de Hilda Doolittle para Freud. Na sequencia transcrevo carta de Iberê Camargo para E.M. e outra de E. M. para o pintor depois de morto.

Londres, N.W.3 /  28 nov 1938

Querida H.D.

Recebi algumas flores hoje. Por acaso ou intencionalmente, são minhas flores preferidas, aquelas que mais admiro. Algumas palavras ”para saudar o retorno dos deuses [gods] (outras pessoas leem bens [goods] )”. Sem assinatura. Desconfio que você seja a responsável pelo presente. Se adivinhei certo, não responda, mas aceite meus calorosos agradecimentos por esse gesto tão encantador. Em todo caso. Afetuosamente, Sing. Freud.

Vi o Professor somente uma vez mais. Era verão de novo. Janelas envidraçadas até o chão davam para um agradável gramado. Os deuses ou bens estavam adequadamente guardados em prateleiras organizadas. Eu não estava sozinha com o Professor. Ele estava sentado quieto, um pouco tristonho, aparentemente absorto. Tive medo então, como acontecera muitas vezes, de invadir, perturbar seu recolhimento, esgotar sua vitalidade. Mas eu não tinha escolha.

(p.45 Hilda Doolittle / Por amor a Freud memórias de minha análise com Sigmund Freud/ Editora Zahar)

Porto Alegre, 5 – 4 – 90. 

Querida Beth,

Dizem os poetas que o pensamento anula as distâncias. Podemos ver com os olhos da alma a imagem que evocamos, mas – este é o tormento – não podemos tocá-la. Tu estás ao meu lado, assiste-me pintar; eu acompanho teus passos. Tu apareces no meu vídeo, eu no teu. Somos, querida amiga, dois prisioneiros que vivem em celas separadas, alimentando-se um da imagem do outro.   Estou acuado vivendo um momento de grande tensão. O diabólico plano do Führer das Alagoas atingiu nosso naviozinho. Agora estamos procurando juntar os destroços para construirmos uma jangada, que errará à mercê dos fétidos ventos de D. Zélia. É irônico e trágico ver a ditadura entrar a passo de ganso pela porta da democracia. Positivamente, o Brasil é um país bandalho.Querida, preocupo-me com os teus desacertos e com tuas mágoas, que são profundas. Gostaria de analisar e discutir estas coisas, pessoalmente. Tu sabes, que te quero bem.Beth, não descures do teu aspecto físico, pois o que está bom reflete dentro, na alma. Tu és uma mulher bonita. Para não engordar basta seguir um regime. Sei que não se devem misturar hidratos de carbonos com proteínas. Pensa nisso amiga. Junto vai um rabisco, minha imagem por dentro, agora.Escrevo-te às pressas para que não fiques sem o meu carinho. Beth, o coração guarda segredos. Eu quero te ver. Com muito afeto o Iberê.

Para IBERÊ CAMARGO agora, século XXI, 2012.

Meu amigo: Sinto falta das tuas cartas da conversa. Inúmeras vezes estendeste a mão, nada aproveitei. Ao te escrever aflição e medo recebi ternura. Acreditei estar contigo sem te tocar. Sentimento suspenso apoiado no brilho na inteligência do pintor. Enchias meu coração com cartas desenhos notícias de Porto Alegre das artes das galerias. Tua ironia, tua generosidade. Por que não escrevo a  história das cartas e conto o que não aconteceu?  Fatos definem a desgraça o sofrimento. Perdi o tempo, a conversa. Eu te perdi.

Mal conseguias falar…, acariciei tua mão — tudo queimava, tu me disseste. Não sei se eram os sentimentos, o coração, a dor, o câncer… Fui ver tua tela inacabada. Chorei. Chorei diante das três figuras desesperadas… Três vultos solitários no azul. A vida não pode ser vivida sob vigilância. A história seguiu seu curso . Porto Alegre te devorou. A solidão te queimou. A casa-ateliê o túmulo. Tuas cartas contam do desespero na/da volta ao Rio Grande do Sul. A Rua da Praia tinha desaparecido, as idas ao café silenciosas, os amigos retraídos, os muros da casa… O sombrio lugar de trabalho somado à prisão no Rio de Janeiro te consumiram. Sussurraste meu nome nos teus últimos dias. Quando entrei na tua casa todos me reconheceram sem nunca ter-me visto.  Passei a vida fugindo da vida. Maltratei nossa correspondência. Quando nos sentimos solitários, acionamos reservas. Tu pintavas, eu escrevia. Neste dia conheci Flávio Tavares. A história que tenho para contar não tem ponto final. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012 – Torres

Lições de Abismo

E não fiques me dizendo que estou deprimida, ou triste porque a energia da vida está numa alegria lá de dentro que alimento com amoras, biscoitos e leite…

“Eu fiquei pensando que as dores se separam em beliches, e se concentram, e quase se escondem, como se fossem conspirações, porque os homens entre si se separam; e os homens entre si se separam porque cada um de si mesmo se separa.” (p.48)


“A mim o que mais fere, o que mais dói são os equívocos que vejo no mundo. essa é a minha tristeza dominante: uma exasperação do senso do ridículo. E só quem já viveu essa experiência é capaz de avaliar a dor aguda, penetrante, glacial, que permanentemente me faz companhia. Falam de um inferno de fogo; eu penso às vezes num inferno de gelo.” (p.49)

É bom ter ponte entre o que penso e um outro alguém pensa, escreve, e expõe: ‘estou visitando o passado, para chegar mais depressa no futuro’, embalo tuas palavras, estremeço, e eu não me cuide para te esperar, oxalá não prestes atenção! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

“- Se alguém nos perguntar ‘aonde vão?’nós nos calaremos. Querem que eu diga, com voz de menino, que vou correndo em busca da felicidade? Essa ideia de criança ficou enterrada no último buraco que fizemos no fundo do quintal.” (p.79)

Gustavo Corção – Lições de Abismo –

 

Uma exposição

A galeria  está iluminada pela música de Bach. Atravesso as janelas para encontrar os quadros; lá estão os  preferidos: um homem segurando a cabeça na frente de um copo, uma mulher olhando o vazio; outra segurando um livro… Alguém passa apressado  pela tela azul… As pessoas entram e saem na dança que preenche os vazios desta galeria pintada de branco. Não entro, sigo caminhando pelas ruas verdes de Porto Alegre neste Moinhos de Vento ensolarado. Elizabeth M.B. Mattos

Olha pra mim

Esperas são feridas remexidas. Não dói esperar?! Dói.  Mas, o olhar chega transparente, vago, ou se navega na superfície, alívio. Depois volta a doer. Dizem que os olhos são janelas: é preciso debruçar-se nelas, e ficar um pouco ali olhando pelo olhar… Se ele foge, escapa, não toca, não chega, fica pendente, não chega, mas afirmo: dói este olhar fio solto, paradoxalmente, preso na ponta errada… Esperas são feridas remexidas… Bom é amora madura! Azul. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2012 – Porto Alegre

A mala

É preciso sair deste torpor. Caminhar, reaprender.

Nós decidimos o percurso do desastre, conscientes ou não, explicitamente ou implicitamente. A culpa está presa nesta mala… Reservado, lacônico, inseguro. Viajo nos sentimentos. Solto amarras. Confiante menino! As dificuldades, de um modo geral, são afetivas… Mas o medo é negação.Tenho a tendência a ver o mundo filtrado pelo sonho seguro. O que significa estar/ entrar na vida de alguém?  Obsessão: és a mala que não pude abrir. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012 – Torres

 

“Quando choramos por aqueles que morrem no viço da juventude – aqueles que foram privados de tempo para viver -, choramos por alegrias perdidas. Choramos por oportunidades e prazeres que nós mesmos jamais chegamos a conhecer. Temos certeza de que, de alguma forma, aquele corpo jovem teria conhecido o desejo e o prazer intensos que procuramos em vão durante toda a vida. Acreditamos que aquela alma jovem, inexperiente, presa na armadilha daquele corpo jovem, poderia ter sido livre e conhecido toda a felicidade que ainda buscamos.Dizemos que a vida é bela e que proporciona satisfações profundas. Tudo isso nós dizemos, enquanto caminhamos como sonâmbulos, percorrendo o nosso tempo, através de anos feitos de dias e noites. Permitimos que o tempo caia sobre nós e se vá, rápido como as águas de uma cascata, acreditando que nunca se esgotará. E, no entanto, cada dia que nos toca – e a todos os homens do mundo – é único, irrecuperável, finito. E é apenas mais uma quarta-feira.”[1]


[1] P.16 – 17; Hart, Josephine; Perdas e danos.

As cartas

Cartas. Quebra cabeça.  História aos soluços. Emoção confessional. Descrição parcial. Escrita truncada sem sequência, fragmento. Cartas são franjas. Lentas?! Voam ou caminham. Franjas de amor. Queixas de uma gueixa. (pra rimar) E quem guardou a história abafou sussurro e saudade. Leio num único fôlego nove vezes te amo e transformo tudo em em ficção. Escrever, o exercício complicado de fazer / refazer e apagar. Tu és virtual, e eu também sou virtual. As cartas são reais. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012 Porto Alegre

naturalmente brancos…

Longe de casa, em casa. Outra vez o verde, a grama. Cheiro, passado novo, agora, ontem. Medo. Como pude ser imprevisível! Saudade das possibilidades… Estranho tempo de refazer, voltar, rever o antes, como se objetivar fosse solução. Contudo, o esperado, o inevitável colorido, o mar mutante, o silêncio, as esquecidas possibilidades… O permanente e suficiente gosto pelas palavras mornas. Palavras: hora, nada, inquieto, energia, guerra, resíduo, perda. Entre o tanto, o nada se solidifica. Outra vez escorrega o desejo de espiar. Espiar a vida do outro como se este, então, o outro, fosse eu mesma recomeçando. E lá estão soltos, todos… A energia passa, fico quieta. O corpo reclama o excesso. Sem espelho a juventude se esparrama no gozo. O que posso fazer se as linhas se cruzam em circuito desfeito, ou mesmo pelo feito de uma soma de nada. O resultado é zero? O sentimento da real, incapacidade de continuar. Aos solavancos a vida: saltos maiores, menores, nunca linha reta. Posso ver o verde pela risca da caverna,  escondido possível tesouro. O que espero desta conversa sem fim como a colcha de retalhos, enquadrados empilhados, tecidos com lã grossa. Aquece. Enfeita o colorido quente das brincadeiras. O lúdico dos excessos. De água, de luz, de calor, do frio: céu de estrelas, caminhadas longas, água, água e mais água. Matar o que antes existiu. Socorrer?  Nem um tijolo, uma telha, uma planta a renascer. Tudo deteriora. Deixar cair… Despencamos, e, ao envelhecer perdemos cabelos, dentes, cor, sentido. Nós tropeçamos ao atravessar a rua, tropeçamos no fio da calçada, e ficamos surpresos. Tudo a escorrer! Sai o grito. No fio da calçada, olhos fixos na casa: vidraça quebrada, tinta descascada, árvore seca, janelas fechadas, trancadas. O vazio espaço de um tempo de família aos pedaços, fugidas/ finitas. Este ferrolho é o choro  seco  diante do que para sempre se foi.

Cabelos brancos, naturalmente brancos. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2012 – Torres

Torres, 2019 sem pandemia, com a Ana Maria fotografando.

O amor nas dobras da DELICADEZA

O amor atravessa fronteiras… Diferenças se escondem na delicadeza, na gentileza, e na simplicidade. Outra vez…  Amar de amor! Estremecemos surpreendidos. Perda, sofrimento, um embalo, a ponte. É preciso  coragem  il faut arriver… Chegar na outra margem. Beth Mattos

A DELICADEZA DO AMOR, um filme de David e Stéphane Foenkinos com Audrey Tautou et  François Damiens.

INDAGAÇÕES e viagens

Por que motivo na vossa primeira viagem por mar sentistes essa mística vibração, quando vos disseram que tanto o navio como vós já se achavam fora do alcance da vista? Por que é que os antigos persas consideravam o mar como sagrado? Por que razão lhe atribuíram os gregos um deus especial, o próprio irmão de Júpiter?  Seguramente, tudo isso tem um sentido. E mais profundo ainda é o significado do mito de Narciso, que por não poder agarrar a imagem suave e atormentada que viu na fonte, mergulhou dentro dela e se afogou. Pois a mesma imagem vemos nós em todos os rios e mares. É a imagem do inacessível fantasma da vida; é aí que se encontra a chave para tudo. (p.41/ Herman Melville/ MOBY DICK)