O Guardador de Rebanhos

Alberto Caeiro

1911-1912 (…)   IX

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

Com as mãos e os pés

E com o nariz e com a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

(…) Fernando Pessoa, in Ficções do Interlúdio

Escrevendo para PAULO HECKER FILHO

Como já comentei contigo outro dia o inferno somos nós no espelho. Para não ver o fogo ardendo, não escutar os gritos desesperados, não rever os corpos contorcidos sangrando, abrindo, ou uma criança em chamas correndo… ou os acorrentados, ou cães espedaçando outros cães, não  devemos nos olhar ao espelho. Aplaca as dores e os maus sentimentos. Assim, olho, gentilmente, para os lados: jacarandás, cinamomos com flores, carros com pessoas, janelas iluminadas, cafés falantes, cães de raça enfeitados. Bebo a água da garrafas plásticas displicente  caminho pelas vitrines. Visto as roupas pretas, procuro os lançamentos de livros em novas edições que se multiplicam! Isto é o mundo hoje e agora. E, viva o Juremir, homem do jornal Correio do Povo! Expressão de menino! Quem pode dizer que consegue vender a alma em cada linha?! Ele é bonzinho? Ou vai nos ajudar a ver o mal e o homem mau? Viva Juremir na crônica de domingo. A novela das oito a ser acompanhada como lição? E os contos de fada voltam a ser editados em versão televisiva!!!!! Censura em horário aberto? Nosso Tavares precisa ser mais ativo, alerta, aguçado! Décio Freitas era estudioso, lia bastante, sabia das coisas. Paulo, meu querido, será que logo seremos todos bonzinhos? Gostei. Eu sou boazinha: triste, feia, aflita, mal amada, mas boazinha. Vou ao cinema bem festiva, e volto pra dormir cheia de idéias. Boazinha!!!! Logo me cairá do céu o maná e o emprego. Mas, não era nada disso que ia te escrever. São aqueles desejos corruptos que temos lá dentro: aquela gana presente de tudo querer e poder: o vinho bom, a carne macia, o salmão, as cerejas naturais, o branco nos estofados, as porcelanas na mesa, e o riso de poder. As sedas!  Adoro a roupa bem cortada, deslizante num corpo magro e bonito. A alegria do pátio e do peixe no aquário das crianças, os cachorros também no sofá. E por que não os gatos? Mas, não vais me contrariar: todos cheirosos. E, da cozinha o bolo de laranja com cenoura, ou recheio de ovos moles nas caldas doces e nas ameixas. Frutas sem tóxico, as laranjadas feitas na hora, jarras transparentes amareladas e roxas. Isto é agora. Ou não existe mais? E não te contei ainda que o desejo vai crescendo e quando explode não é mais nada. O desejo se desfaz no limbo do outro quando ele tenta, o outro, nos presentear para aplacar o desejo, satisfazer, nos fazer felizes, ora! Mas ele não está aqui. Fica, na mesa, o presente.  E eu volto a querer  por perto o Mário de Almeida Lima e as conversas com pão quente, escapadelas das voltas de ir ao banco, das idas pra casa, dos presentes livros que guardei nas mãos num prazer de toque maior do que qualquer outro prazer. Como teus livros, ou a revista chegando na caixa do correio. Dia de festa; mas não leio nada até esquecer tudo daquela maldita alegria. É um momento depois do outro. O livro é meu, tua letra, dedicatória pequena fica lá; espera por mim, a poesia. A tua poesia. Mas, como já te disse, repito, o inferno somos nós mesmos. Queimando, sufocando, desejando e querendo a água, o alívio. E o desejo que o outro seja despejado no nosso corpo em forma de prazer. Queremos a própria vaidade de sermos amados em gozo comprido. Para isto ficamos bonzinhos, solícitos, generosos, sorridentes. Aceitamos. Quero flores, tortas chegando em casa, uma caixa com surpresa, um lenço colorido pro pescoço, e as vaidades todas femininas que não me alcançam… Leio o jornal e alguém escreve que o autor X é muito bom, e o outro reafirma o Y é melhor. Quero os dois. Fotos, alusões: desejo vem como brotoeja. Livros espalhados pelo chão…, alívio porque logo estarás aqui. O Mário proporcionava alegria livresca: o Bechara, a correspondência da Anais com o Miller, em francês, Flaubert, em português, as cartas. E, também,  o amigo Faraco com o livro Lágrimas na chuva, na prateleira, sem ler… Esperando o final da história que era um autógrafo, uma fala, eu não sei. Droga! Por que  tinha que passar assim tão depressa por mim o meu amigo? Eu o invoco para que me ajude, ordene meu caos, estude comigo, faça o tema, tome café preto, olhe pra mim. Mas não está aqui. Era o tempo de  Porto Alegre generosa. Água mineral, o café preto, até sorvete da Parmalate na beira da calçada: um homem.  E ele tá lá escondido dentro de mim… E assim fazemos com o desejo, deixamos preso, escondido, ou desfazemos devagar. Não quero ter as pratas, ´e só vestir roupa bonita, mas ser jovem outra vez, ter cadeira pra sentar prosaicamente. Quero não ter contas pra pagar, não pedir dinheiro emprestado, vender tudo. Fugir? Olhar pro mar, e ficar lá quieta, feliz. MAR existe. Vez que outra atravesso um texto inteiro feito uma agulha de ponta rombuda com linha grossa que vai e vem fazendo bordado por cima. Foi assim que eu li O PRISIONEIRO DE GASPRA. Gostei tanto! Gostei tanto que te confesso Paulo (isto é segredo de Estado, apenas nosso), fui eu quem escreveu o conto, e mandou pro Faraco publicar… Está tudo aqui dentro, de verdade. Vejo tudo como ele descreveu, menos a mulher, pois se sou eu a mulher que vê, não tenho homem passando e entrando na minha vida, lendo jornal, vendo futebol, fumando, olhando  para a comida pronta da mesa e saindo outra vez. Não tenho aquela sombra masculina na vida, mas, grito, grito pedindo socorro. Sinto a esperança, esperança igual. Finjo que alguém me ama sem que eu saiba e essa pessoa me espera, como Penélope esperou Ulisses. E finjo tanto que, às vezes, passam-se três dias e três noites, sem que nesse tempo eu veja a casa, o subúrbio, a agência de correios. Quando paro de fingir, quando regresso a mim, me dá uma angústia tão funda, uma vontade tão forte de gritar…  A esperança de que, pensando no que penso que escrevo, meu pensamento alce voo  pelo escuro deste espaço. Repara, Paulo, que ali no texto tem um você que eu chamo, na minha vida real de marchand, e fico esperando que esta pessoa escute o que eu digo e sigo, assim, como no conto: Pode ser que você, na amena noite terrestre, sinta um frêmito, um estranho calor e diga a nossos amigos que sonhou comigo, que no sonho estou longe, sozinho num lugar do qual nunca ouviu falar, num lugar que só existiria num sonho. Mas pode ser também que você  suspeite desse sonho e faça alguma coisa. Pode ser que embarque numa nave espacial ou contrate um advogado ou faça uma promessa ou qualquer outra coisa e venha me buscar. Paulo, vês como eu escrevi exatamente na medida que o Sérgio aceitou. Piegas eu estou sempre a pedir beijos, abraços, afagos, presença, carinho quente, isto ele cortou do meu texto. Na vida real não acontece Paulo, fica tudo preso na imaginação e nos bilhetes. Envelheço, seca como a pereira da Katherine Mansfield, lembras? O conto A felicidade? Que lindo! É este? Mas o meu conto que o Faraco publicou termina assim, lindo! E eu repito num  novo grito Pode ser que embarque numa nave espacial ou contrate um advogado ou faça uma promessa ou qualquer outra coisa e venha me buscar. Como eu gostei!! Como eu escreveria tudo de novo: Gostaria que você soubesse que estou longe, sozinho num lugar do qual nunca ouviu falar, num lugar que só existe num sonho. Mas se você não pode me ver nem me ouvir, como saberia? Tampouco espero que leia esta carta, embora eu pretenda enviá-la. Só um milagre, não é? Tamanha é a distância ente nós, que é como se você também não existisse e fosse outro sonho. Se você pudesse acompanhar meu dia-a-dia, diria que é o que sempre foi e cada coisa está onde sempre esteve. Sim, tenho uma casa em que tudo se assemelha àquela que eu tinha. Mas o lugar – você acredita? -, o lugar é outro e, em meus delírios chego a pensar que transportaram a casa no guindaste de uma nave espacial. E não só a casa. (…) Paulo, não posso escrever tudo de novo, o Sérgio vai ficar furioso comigo, afinal, o conto saiu como inédito na ZERO HORA de sábado, dia 18 de setembro de 2004 no Segundo Caderno. Não esquece de mim. Vou mesmo estudar até dezembro como retomas na tua última carta e fazer concursos. Tens razão: “não tá muito Beth” mas aceitas. Obrigada pelo estímulo, é meio assombração este tempo… E, das angústias saem os textos, as inquietações e os meus gritos desordenados. Então vem saudade do amor que me fazia chorar, resmungar, gritar, discutir, enfim, estar viva. Contrariar, pensar, remexer junto nesta ferida do mundo. Sigo teu conselho quando limpo a casa passando aspirador, esfregado os vidros, molhando as plantas, limpando as pratas, ou cozinhando. Depois vem a angústia de novo. Diz minha filha Ana que está escrito na roda de todos os filhos a certeza de que conseguirei. Dos teus livros não há engano. Os poemas desfilam pelo jornal e passam de boca em boca preciosos. Eu, eu fico meio engraçada de escrever sobre isto. Mas, vou fazer de um salto. Reler o primeiro, e ler o segundo num mergulho sem soma de letras ou som; enfiada dentro de cada um deles pra cheirar tudo e sentir tudo, depois volto a te escrever. Eu vou fazer sim. Um beijo. Obrigada por escreveres. Tu sabes que eu sinto saudade das presenças que já se foram como a do Flávio, Iberê e Mário. Tu estás aqui comigo e isto aquece.

As passagens em itálico são do conto O prisioneiro de Gaspra de Sérgio Faraco. Elizabeth M. B. Mattos  – outubro  2012 – Porto Alegre

Conselho de Paulo Hecker Filho em carta

P. Alegre, 28 de setembro de 2004

Beth: Perguntas, respondo: comprido como o é  em extensão; o verbo cumprir é com u. Vais estudar até dezembro e fazer concursos, contas. Não ta muito Beth, mas aceitemos. Em geral preferes o brilho da angústia, o que é regra quando há talento como em teu caso. Mas ouve esta: para vencer a angústia não há como ocupar-se, diária e utilmente. Nem é preciso a metade do esforço que se gasta tentando vencer a angústia, pois acaba ficando fácil se entregar ao trabalho, escolhido ou achado e em que se confie. Caio pra trás com os bons comentários que chegam dos dois livros que te enviei, ainda mais que estava meio em dúvida com eles. Decerto a boa repercussão se deve em parte à idade e à insistência; mas como citam trechos, mostrando ler mesmo, me enganam…Esse último parágrafo deixei sair para te empurrar a ler os dois livros, os dois, e depois me contar se sobra algo.  PauloHFilho

A DONA DA HISTÓRIA

Levanto cedo, faço café preto, como pão com manteiga, mel. Lavo aqui, escovo um pouco ali, molho as plantas, e estudo. Aspirador. Mesa com lustra móveis, outro dia  não faço nada. Precisas ver minhas mãos!  Escrevo cartas, conto histórias, e o dia termina sem voltar aos teus poemas. Imaginação, promessas de  tempo que não chega, o amor. Não quero aceitar, mas aceito o presente, as conversas, os dias marcado.  Aceito  e navego nela. Ver o filme “ A dona da História”. Posso até dançar!  Gostei.  Catastrófica sessão dos velhos, todas as velhas do Moinhos de Vento reunidas. Tão engraçado! Uma levou a almofada de botar nas costas, outra carrega a outra velha, ou o velho, falam bem alto, trocam de lugar, estão arrumadas com boca pintada, faceiras. Eu mesma com o meu velho e grandalhão suéter pro frio, meias de lã, também. Não esquece que o sol está quente nas calçadas, mas é assim do quente pro frio, do calor pro bom tempo depois que o homem furou o céu. O filme? Adorei, adorei estar no Rio, estar tão jovem, beijar o Santoro estar, ainda, depois de 30 anos casada com o Fagundes podendo ir a Cuba que é Paris, Londres e Veneza ao mesmo tempo. É mesmo? E, na vida real, ter sido, mulher do Chico Buarque. Eu até chorei! E tu vais dizer que não é possível ser?!  Sou eu no cinema de um dia de sábado, com céu azul no Moinhos de Vento. Igual ao filme vestindo Paco Rabanne. Alienação, nada de passeatas, ou Cuba, ou fazer arquitetura, ser intelectual. Com a praia do Leblon, e o poder da beleza, ter vinte anos. Aquilo tudo lá dentro fervilhando. Por que não pude, então, ao menos ter amor entrando certinho assim, ficando, sendo, e terminando  no amor?! Droga! Queria estar lá no filme, fazendo cinema, colorindo tudo sem a angústia, sem medo. Livre. Nada. Estou aqui, num lugar que nem existe em mapa nenhum, estacionada em lugar nenhum, fazendo coisa nenhuma.  Então, ao acaso, leio a ZERO HORA  O prisioneiro de Gaspra  de Sérgio Faraco.

CASA PARA MORAR

“O mundo real apaga-se de uma só vez, quando se vai viver na casa da lembrança. De que valem as casas da rua quando se evoca a casa natal, a casa de intimidade absoluta, a casa onde se adquiriu o sentido de intimidade? Essa casa está distante, está perdida, não a habitamos mais, temos certeza, infelizmente, de que nunca mais a habitaremos. Então ela é mais do que uma lembrança. É uma casa de sonhos, a nossa casa onírica.”[1]

Desliga o telefone. Guarda os óculos. Amanhece com temperatura amena depois daquele calor de quarenta graus. Quarto fresco. Na sacola lápis, bloco, e três livros de poemas. Saia de algodão, duas calcinhas. Toalha, escova de dente, fio dental. Uma calça quadriculada, duas camisetas. O casaco.

Através da porta de vidro da janela, a simetria dos vasos. A trepadeira com flores amarelas esparramadas pela sacada. O verde inteiro das árvores. A piscina. Cadeiras brancas volteando as duas mesas no jardim-quintal. A rede se prende nos ganchos, atravessa um chão de lajotas. No varal calça de pijamas, cuecas, camisa, vestido estampado, toalha azul, um par de meias. No horizonte o rio Guaíba. Volta para o interior do quarto. Segura a mochila, a bolsa. Tranca a porta de vidro, desce as escadas. Sai da casa. Os cães latem, sacodem o rabo festejando. Fecha o portão, joga a chave na caixa de correspondência.

Começa a voltar para casa. Sem pressa. Subidas, descidas. Os braços doem. Não sabe por onde começar. Imagina o itinerário. Os joelhos doem. Pés e mãos inchados. Já na beira do rio que é lagoa… Senta na areia, depois deita com a cabeça apoiada na mochila. É preciso escutar o silêncio. ’Se eu pudesse explicar que tua voz me abraça! Se morrer quero que saibas do equívoco, desejo viver. ’ Encolhe as pernas e sente o jeans apertado. Fecha os olhos.

[1] Bachelard,Gaston. A Terra e os Devaneios do Repouso. Ed Martins Fontes. São Paulo. 1990.p.75

 

 

Quarto de Menina

Ao subir os degraus já me despeço do embaraço que eles me causam.

Duas janelas iluminam o ambiente. Pela maior vejo o telhado das casas, e na rua paralela, jacarandás. O azul das cachopas sombreia minha cama encostada na parede. No lado oposto, o armário pintado de rosa-claro tem oito portas.  A salamandra[1], uma poltrona em tecido enxadrezado. Mesa retangular embaixo da outra janela, duas cadeiras. Sobre a forração, um tapete grosso de lã com flores vermelhas. A pequena Remington. Livros pelo chão. É preciso escrever, contar do tio de sorriso manso. Voz suave. Olhos escuros presos no meu corpo. De como segurou minhas mãos. Inclinou a cabeça para escutar, e consolar. Então ele pediu para ver as pernas. Levantei a saia. Depois, esticou os braços O delicado abraço me reconfortou. Escutei que sou bonita, e que, certamente, serei moça talentosa. Silencio. E recomecei a leitura  do conto de Maupassant. Os cães que gritavam ao serem jogados num poço, vivos. Arredores de Paris. O realismo impressiona. Ao ler em voz alta ainda escuto os grunhidos dos animais feridos, e famintos.

Quando ele desceu as escadas, pediu desculpas por ter me tocado. Não compreendi. Agora entendo…

Histórias confusas de conivência.  Tantos anos passados! A voz estridente voa na memória, e o riso fácil me assusta. A vaidade encobre vícios. Amigo da casa sobe as escadas para conversar, ler escritos da jovem, e apalpa seu corpo. A tia puxa orelha, belisca. Alguém descobriu o sinal que tinha na virilha. Lembranças de criança sacudidas. Este homem das escadas já deve pintar os cabelos, usar colete para não ter barriga. Ou talvez esteja apenas velho, perfumado, engomado. Certamente, nunca permitiu que a filha ficasse na calçada desacompanhada, ou comprasse balas no armazém. A mulher é triste, bela, e casta. Aos amigos reserva risada fácil, mas gestos contidos. Homem sério que se acredita exemplo.

Na memória, o quarto de menina. Revistas espalhadas pelo chão. Os livros que precisavam ser lidos. E a mão apalpando seus peitos.

Não é a mãe, o filho ou o tio, que nos aborrece, mas nós que nos aborrecemos com eles. Gestos familiares, heroínas, vilões. Nem somos originais… Solidão, impossibilidade de explicar, mal-estar.  E gritamos por qualquer coisa. É preciso exorcizar. Reagir, não apenas projetar o desagrado no que está próximo, neste momento.

E fazemos desagravos, nós nos contamos histórias para justificar gulodice, preguiça, desacerto. Não sou eu o desastre, mas a manobra do amigo, do filho, da irmã, da vizinha que faz a vida ser como é. Triste. Então, qualquer Maria, ou Isabel, Francisco ou Antônio, transformam-se em pivôs de estranhas insatisfações. A memória lamenta ou reforça justificativas. A tia malvada, avó algoz, irmã amada, pai compreensivo, mãe ausente. Às vezes procuramos nos encaixar na boa história. No cheiro quente do afeto. Outras, mergulhamos nestas estranhas e danosas visões… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2012 – texto escrito anteriormente, ainda na Vitor Hugo, em Petrópolis –  Porto Alegre – revisitado…

[1] Espécie de estufa móvel, usada para aquecimento de ambientes domésticos: aquela era toda de ferro e ficava em cima de um quadrado de lajotas vermelhas. Em tacho de cobre, a lenha cortada, adequada para manter o braseiro.

Livro dos Bruxos

Afoga-se queixas e dores, saudade de amores. Sim, a vida pode ter este sentido dramático, depois tão leve! É curioso de perceber a fluidez que  arremata o passado.  mistura-se o bolo com reencontros: o marido passado, pequenas histórias passadas, uvas passas, passado e muita manteiga sem sal. Claras em neve. A volta dos desafetos  é o recheio dos preconceitos. Bem querer e mal querer como se ainda existissem margaridas a ser desfolhadas. Rasga-se um coração! Enfeita-se  com rosas vermelhas.

Dou-me conta de que algumas pessoas nascem adultas, e outras não passam da doente e longa adolescência!

Bom mesmo é pensar nas calçadas molhadas, nos desencontros secos e nos risos abafados…Quero amigos,e inimigos. Vamos descobrir as diferentes peles como tão bem descreve Doris Lessing:  cheiros tardios e silêncio amigo, o perigo da África. As linhas em branco…Bem, estou de volta, e pronta pra trabalhar. Ah! Molhei as plantas que estavam inquietas na  sacada fechada, retorcidas. Ainda está escuro, bem escuro.Passei um café, e repassei sentimentos. Certeza de que corridas, movimento têm finalidade. A família exige espelhos, muitos espelhos! Reflexo e genética. Vou procurar nova receita no Livro dos Bruxos.

AOS SALTOS

Ao repetir a palavra amor quero chegar ao final daquela rua, numa súbita decisão de seguir o rumo certo. Mas qualquer luz me atrai, e me desvio. Todas as certezas desaparecem.

Faz dois dias que mal durmo; leio aos saltos, nem penso. A linearidade dos fatos não se ajusta. Internamente a desordem. Internalidades flutuam. Excluem-se relações afetivas; subsistem apenas relações de trivialidade: a corrida “vestida de relógio”.

Rio de Janeiro me abraça

Para escrever é preciso  silêncio,

ou boa música,

ou a certeza de que você está do outro lado da mesa…

O Rio de Janeiro me devolve o sabor doce: desejo silencioso de encontrar a beleza. Neste momento percebo cada  detalhe dos seus movimentos, a doçura com que você preparou a casa para me receber.Caminho por Copacabana, ainda na Rua Figueiredo de Magalhães posso olhar devagar as vitrines. Depois entro nas lojas da velha galeria Menescal, mais de sessenta anos: os mármores que revestem as paredes e o teto são os originais, e os relevos estilo art-decó que adornam o interior da construção foram mantidos – para alegria dos cariocas.  Ela é a passagem que liga Nossa Senhora de Copacabana com a Barata Ribeiro. Convite a minha juventude: as mesmas lojas, pouca diferença. Objetos de casa: uma tigela, um cálice… Aquela louça Limoges! E os talheres? Todas as vitrines são presentes. Bebo um cálice de vinho ao folhear as sofisticadas revistas que me presenteaste!  Fico possuída pela moda, e pelo luxo. Como uma rosa de chocolate. E na banheira a espuma, o cheiro de alfazema. Estou em Copacaba. Elizabeth M.B. Mattos – o doce da juventude.