Tronco rugoso

Pequenos milagres, legítimo esforço de chegar… Revalidar a vida. A verdade escapa pelos dedos como o trigo moído: o pão é a doçura de uma prece. Enquanto as árvores falam,  o vento chama os olhos…Acendo um cigarro, penso no silêncio fresco. Penso no esforço de ser ainda uma vez eu. Vejo as flores brancas presas no tronco rugoso da vida. A vida não se conta, mas se esmiúça na ficção. A ficção, o arremedo do suspiro fluído.  A vida se esconde nas feridas abertas da dor. Clichê.  Na culpa, na raiva. Que todos os esforços se soltem agora na fresca da noite. E o indício do prazer  seguirá no acaso deste causo. Elizabeth M.B. Mattos – 2012

Perfumes ou Restaurante

Onde está a casa aonde as pessoas conversam? Adultos mencionam política, recitam versos, enumeram autores necessários, exigem. Acolhem os jovens artistas, lêem os livros. Educação. Vozes tinham opinião. Tramas de novelas televisivas, seriados, filmes, crimes ocupam o espaço inteiro das salas… Roupas, cosméticos, perfumes ou restaurantes.O imaginário das pessoas. As casas se esvaziaram. Homens e mulheres nas empresas, presos nos congestionamentos. Os jovens moram nas esquinas. O mundo das pessoas grandes não é atraente, nem ambicionado. A criança cresce dormitando entre a escola e o computador. O velho significa o usado.  As janelas estão fechadas. Ainda existem os livros, o deleite. Mas não temos o traçado, apalpamos.

Azaria Guitlin pegou um cigarro, pôs na boca, agradeceu muito, emocionado, e logo voltou a agradecer pelo fósforo aceso que lhe foi oferecido. E começou a falar com fluência e rapidez, engolindo finais de palavras, desistindo no meio de uma frase e logo se complicando em outra, ajudando com as mãos que gesticulavam sem parar, não ousando interromper nem para uma tragada do cigarro; é um rapaz de Tel Aviv, socialista por convicção, sociável, organizado e diligente. (p.52) Amós Oz – Uma Certa Paz.

Uma certa Paz

Mesmo quando Iulek se abstraía de questões práticas, mesmo quando recordava suas vivências juvenis, ou quando pensava na morte ou em seu filho primogênito cada vez mais fechado para ele, mesmo então seu rosto não exprimia tristeza nem espiritualidade, mas uma mescla de paixão com a sabedoria contida e paciente de quem espreita com calma a chegada da hora dos prazeres. (p.49-50) in UMA CERTA PAZ de Amós Oz

Esta hora ausente de todo dia, mas presente em todo domingo sonolento suarento, sonolento molhado da chuva, sonolento numa manhã de sono comprido: o prazer!

Outra vez

Chove, faz sol, chove, faz calor. Já deves ter chegado ao Rio de Janeiro. Embora se tenha passado um par de dias juntos, pouco foi dito.Como dois apaixonados, as raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. A saudade plantada na presença fugidia. Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Posse do silêncio conciliador neste curto espaço de tempo… Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Os erros se transformam em acertos, as queixas se volatizam, a beleza do corpo adormecido transforma o quarto, estufa as cortinas ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala.  Sentada na poltrona que gostas de sentar quando a boa leitura avança, eu posso medir tua mão, teus pés abertos sob os lençóis, tuas ancas porque o vestido que cobre teu corpo está colado na tua pele suada. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas. Adormeço sentado. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.

Uma risca de limite

A balança interna que mede a energia. Positiva ou negativa. Convivência! Não podemos embrutecer paralisados! Observo as plantas. Converso com elas. Pobres jasmins escravizados! Também conhecem as gaiolas douradas, o limite do vaso. Também domesticados! Tantas vezes sem vontade própria! Somos o que os outros esperam que sejamos… Como as plantas nos adaptamos…Olho o verde, escuto a música, e tento acalmar minha inquietude enquanto escrevo. Temos que entender a cidade que nos aprisiona: escolhas erradas, certas, perigosamente nossas! Namoro os jacarandás, as paineiras! Caminho todas as manhãs pelas ruas do bairro abastecendo a casa com frutas, pão. Busco o cheiro do café energizante que já fizeram as cabras saltitarem vivazes, como conta a lenda… E posso sentar por uma hora ou duas nestas mesas que ocupam as calçadas. Retomo a cidade ainda vazia, mas sempre verde. O quarteirão. Uma risca de limite. O nosso limite. Interno. Particular rebeldia. Saudade do antes, daquilo que não conseguimos segurar. Porto Alegre das ruas estreitas, arborizadas, com perfume de terra, minha cidade. É preciso sair do lugar, ousar. Pode ser um olhar singelo o que liberta. Um olhar de paz. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2012

O desenho principal

Como escrever despojado quando escrevemos para nós mesmos? Sempre há intenção, sempre há julgamento, e interpretação. O outro lado. Não escreveríamos se não quiséssemos ser lidos. Sonho recortado nas imagens do desejo. Onírico, profundo: livre. Explicar quem se pensa, quem gostaria de ter sido… Quem sou. Tantas respostas prontas. A narrativa de fazer define: quantas vezes limpamos a casa, fazemos a comida, molhamos o jardim, lavamos e passamos roupas brancas? Ou cuidamos do filho, lemos. O que não lemos enquanto escutamos música. Quantas vezes nos sentamos frente a televisão! Nos reinventamos nos gestos. É o desenho principal.  O que se vive ou se pensa (ou pensamos que somos). Estamos tão pouco tempo sozinhos! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2012

Modulação

Meios sorrisos perguntam, ou afirmam sem respostas. Frases diretas, linha única, sem modulação na voz, sintaxe correta. O pensamento desnudo de um fazer que chega ao fim. Existo, molho o corpo de prazer neste verão. O silêncio da palavra escrita descreve, desnuda fantasia de memória inventada, descoberta. A doença custa a sarar, não importa o remédio. A beleza brilha e se esconde como sol, mas tem a lua. Mudanças e as palavras, palavras, palavras em tanto papel! Reciclado, tombado recentemente? Desmatado?Roubado.Juntar as letras do vício: roer as unhas, roer todas. E, depois, esperar crescer para roer outra vez. A vida como engrenagem… Este ir e voltar…Ornella Vanoni, Chico Buarque, Françoise Hardy, Jacques Brel ou Violeta Parra?

Ingenuidade

O apito do guarda noturno, o gosto do açúcar, o olhar agudo sobre o desconforto. Depois o pão quente  devorado com manteiga, o chá bebido como água  quente,  velho? A pressa de comer em casa, de enrolar-se na manta que trouxe. Os olhos na poeira dos móveis, a falta de ar… Engolir a comida. Comer com voracidade, desgovernar-se… Angústia de estar fora do seguro universo conhecido. A língua ligeira pra apontar o errado, a intimidade que constrange. Uma vez, duas, depois o outro, aquele que ouve, começa a sentir cansaço, mesmo exaustão. E o silêncio se instala. Estar calado, ou enfurecido no tédio também pesa. Espiando atrás da vidraça as pernas tortas desta, o chapéu daquele outro, a gordura do velho, a roupa esquisita, a histeria do cachorro… Um ser enfurecido, um temporal de chuva pesada no quintal da tua casa. Nenhuma paciência ou tolerância!  E todos se minimizam na simplificação negativa de um mundo estereotipado. É preciso esterilizar as pessoas, e resguardar-se. Atrás de um sorriso acolhedor escorre o veneno diante da ingenuidade do trato.

Não sou gato

Ele não é gato, mas tem personalidade de gato. É a raça do Dalite Dog! Criado em mosteiros: espírito livre. Pode inspirar, escolher, ser e fazer! E os humanos não podem aceitar o domínio manso de um cão. Não foi domado! Se olharem para língua tem a marca da história! Beth Mattos novembro de 2012

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