As pontas do casaco

Isabel limpava as estantes. A escada de quatro degraus, aberta. Já tinha escovado e separado os livros por assunto. Os volumes estavam em pilhas na mesa encostada na parede ao lado. As crianças brincavam no quintal, sem gritar. E Francisco consertava o rolamento da janela, distraído com as hortênsias azuis, demorava.

Ela entrou agitada com os papéis na mão, e com peculiar entusiasmo largou no tapete junto à escada, não sem antes reclamar a posição dos dois quadros de Marcel, recém-colocados, na parede, e falou depressa: ‘Terminei. Não está na boa sequência, aliás, invertida. Do fim para o início; acerta isso para mim, Isabel. Os desenhos ficaram ótimos, vais ver.’Francisco olhou para a sala somando urgência. Ela saiu, feito vento passageiro, convocando as crianças.

Isabel desceu da escada, olhou para as folhas. Uma sequência erótica de momentos domésticos. A saia se enrolou nas suas pernas quando deitou no tapete. Francisco se inclinou para examinar os desenhos. Suas mãos tatearam o corpo de Isabel que encostou a cabeça no assoalho. As pontas do casaco roçaram seus pés descalços. As mãos dele  percorreram, carinhosamente, seu corpo por cima do vestido de lã.

O colecionador

Tropeçamos, afetivamente, na vontade, ou posse desenfreada. Colecionamos. A vaidade alimenta este compulsivo involuntário. Colecionamos objetos, mas também pessoas. Se associarmos fatos específicos, tipificados, catalogamos o arquivo particular que pode estar no amor, na intolerância. Por raiva, por frustração. Colecionamos sonhos e enredos. Somamos reações, resultados, atitudes. E, tudo acontece de forma mais ou menos inconsciente. Caímos na rede de uma boa, ou má aranha. Ficamos colados, presos, na engenharia de outra pessoa. Como Alice no País das Maravilhas, buracos, mutações, encontros, sorrisos misteriosos, autoridade, fuga, mutações. Colecionamos, mas também somos objeto do colecionador. Sedução, solução fácil. O encantamento esconde o jogo,

Definimos intimamente o limite do outro. No entanto, o amado interfere, ou se apossa do nosso tempo. Estar à disposição, alertas. Máquinas acionadas para rir, escutar, falar, tocar ou silenciar. Queremos ir e voltar definido por vontade própria, mas, comodamente, nos deixamos ficar. Não voltamos. A sedução paciente, justa ou injusta do outro define o relógio. Embalados por mimos, carentes, ou impotentes dançamos o minueto, e ficamos ali instalados no sonho do outro.

Colecionar, dicionário: reunir, erros ou desenganos. Sinônimos: adiragruparajuntarcoligirgruparjuntar e reunir

The Collector é um filme de suspense anglo-americano de 1965, dirigido por William Wyler, com roteiro baseado na novela homônima de 1963, de John Fowles.

 

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Preferes o cinza

Amigo, sedutor, desconhecido, ou apenas saudade?

Querias mesmo te aproximar, participar da festa e rir  com elesEles não significam nada. São figurantes. Querias conversar, fazer amor, ou apenas espiar? Coragem  a espada. Ou recuar? Deixar passar. Covardia surpreender. Cúmplice. Afinal, sabias que ele e eu nos amávamos. Sem amor  aberto, verde, azul, ou lilás. Preferes o cinza….

“Eu estava em pé, diante do piano, e olhava as orquídeas. Aquela casa era como o disfarce de alguém. Ou será que para você o disfarce era o uniforme? Você é o único a me dar uma resposta, e de fato deu, com a própria vida. Às perguntas mais importantes sempre terminamos respondendo com nossa vida. O que dizemos neste meio tempo não tem importância, nem os termos e argumentos com que nos defendemos. No final tudo, é com os fatos de nossa vida que respondemos às indagações que o mundo nos faz com tanta insistência. E que são estas: quem você é?… o que queria de verdade?… O que sabia de verdade?… A quem e a quê foi fiel ou infiel?… Com quem ou com o quê se mostrou corajoso ou covarde?… O que sabia de verdade?… São estas as perguntas capitais. E cada um responde como pode, com sinceridade ou mentindo; mas isso não tem muita importância. O que importa é que no final cada um responde com a própria vida. “(p.95)

As brasas, Sándor Márai

 

 

Insanidade juvenil

Escapou o que ia dizer. Esqueci. Da  história, o grito. Quero repetir, derramar o  amor. Na verdade esta conversa atravessada, cibernética, escrita, ou a vontade grande de encontrar, dar as mãos, e sair cabelo ao vento parece a melhor loucura das loucuras. Fomos atropelados pela insanidade da juventude. E nosso corpo, pobre!  esconde a vontade, mas se defende, reage rijo. Como é mesmo amar outra vez depois de tanto tempo? Será que as marcas de perigo, encontro, reencontro não serão visíveis no abraço? Que não seja definitivo, mas possível… Fico aqui pensando. Atrás da janela te espero, não pela porta que vais entrar. Voaremos. O que preciso? Que venhas, passes devagar, passo manso, pela mesma janela, pelo sonho, e voaremos. Eu volto a te espiar. Desejar. Era assim noutros tempos. Apaixonado por outras meninas, outras mulheres seguiste. Eu cruzei por outros homens.   Porque nós dois ficamos namorando sem tocar, a pensar sem dizer. Tudo se escondia. Ou voava. Que eu sinta tudo outra vez, como a manivela do realejo, a mesma música, faço para mim o exercício repetido de te pensar.

Elizabeth M.B. Mattos – março de 2016 – Torres

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Curso de Caligrafia

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Aprendi sobre letras com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna excelente uma tipografia excelente. Era lindo, histórico, artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode captar, e achei fascinante.

Era mais um exemplo de Jobs posicionando-se conscientemente nas interseções entre artes e tecnologia. Em todos os seus produtos, a tecnologia estaria casada com excelente design, aparência, elegância toques humanos e até mesmo romance. Ele estaria à frente da promoção de interfaces gráficas amigáveis ao usuário. Desse ponto de vista, o curso de caligrafia se tornaria um ícone.

Se eu nunca tivesse aparecido naquele curso da faculdade, o Mac jamais teria tido fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E como o Windows sempre copiou o Mac, é bem provável que nenhum microcomputador as tivesse. ” (p.59)

Steve Jobs: a biografia por Walter Isaacson, Companhia das Letras, São Paulo,2011.

Velho, novo amigo

Pessoas se reconhecem pelo olhar. Beber do mesmo vinho. Escutar, falar, dizer,e responder.  A música importa, o livro importa, a cor. Observo, e me espanto. A voz importa.

O corpo responde. Dores precisas. E o tempo se esvazia em menos um dia, menos uma manhã, menos uma tarde, menos uma noite. Inchaço no coração: excesso.

Preguiça de viver. Insisto na leitura repetida da tua voz. Esforço para me fazer compreender. Risco, pontuo, estabeleço analogias, conclusões, depois esqueço. Nenhuma relação afirmativa. Mas tu me falas…

Confuso mundo de desvendar mundo. Vendar, esconder, apagar, abrir e descobrir. Vou completar a caminhada, duas vezes a Lagoa do Violão, e depois, volto a te escrever.

Desespero suicida

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O tiro se aloja na porta. Não removem a marca. Anguloso começo. Sinal vivo de gesto esquerdo. Ebulição, processo.

Também nela vejo marcas. Arranhões, a violência. Como será morrer de um golpe? Devagar ela sabe. Esvazia alma, corpo. Transparência progressiva…

A naturalidade como entra na sala, pega a xícara de café, e vai contando, modulando a ferida, surpreende. A violência abocanha, acovarda. Defesa contra o indefensável. Não é apenas duro viver, mas duríssimo. Esdrúxulo. Ela fala enrolada nas pérolas, impecável, sentada na ponta da cadeira. O potencial suicida emoldura seus cabelos. A dor iluminada pela voz se espalha pela sala. Perde, aos poucos, a vontade de dizer. Sorri. E se interrompe. Entrega as hortênsias azuis presas por uma fita. E posso, então, ver a menina. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2016 – Torres

SURPREENDE o amor

No amor, a entrega. E nos confessamos… Como se amar fosse absolvição ou redenção. Submissão. Difícil segurar esta narrativa verborrágica que inunda o outro de informação, e fantasia inadequada. O amor deveria ser jornada, caminho. Confidência delicada que desvenda, mas não se confunde amontoada com dores e pecados. Nem segredos.  Estar no estado de amor, deveria ser prazer, alegria generosa. Cumplicidade. Planejar juntos, não em órbitas esquizofrênicas. Sedução constante. Sem posse nem violência. Sem submissão. Sem poder. Não basta chegar lá. Cuidado com a vaidade que engole o senso do ridículo. Invalida honra. Desnuda fragilizando. Existe um lugar mediador, tranquilo onde amar se estende no verde. Sem a faca sangrenta do excesso. Meio termo sereno. A beleza no detalhe, na diferença. Inteligência na solução, até no desvio. Amar está no olhar silencioso. E, o estado de amor surpreende…

Tempo de reverter

Quase um ano no espaço…Aeronave precisa pousar. Onde? Quando? Em que hora?No meu jardim?

Um amigo acaba de me dizer que está em tempo de reverter histórias desencontradas, e mal resolvidas. Haverá mesmo possibilidade para setentões durões? Tempo de mudar afetos? Amor. Chegar mais perto? De quem? Colher amigos? Será que não estamos, de fato, cristalizados?