fora do lugar

Por que as coisas saem todas fora do lugar quando deveriam estar serenas em ordem e perfumadas. Basta pequena euforia, e pronto…  Acelerada desordem atormenta. Inquietude improdutiva. O vento leva livro e a memória. E também minha alegria brejeira.  A ventania uiva, varre o mundo, o dia. Estupefata eu me pergunto: sou ela ou eu?…, não quero fazer nada. Não quero pensar por uma hora, duas, por toda uma tarde e uma manhã inteira. Não quero mais pensar. Não quero fazer nada pensar nada. Essa pressa louca me atropela. Aonde está o meu nada? Elizabeth M.B. Mattos – março 2017 – Torres.

tinteiro

Aonde habita o desejo?

Livro para presente. Ideias fervilham. Estou indecisa …  Coisas da loucura … livros? Quero todos para mim. Mesmo sem tempo para ler ou usufruir e ou me dedicar deliciar com eles. Compro decidida só pra empilhar … como ficam, fora da estante, esperando nas mesas ou nas  cadeiras. Milton Hatoum! Muito, muito muito bom. Então já quero todos … Tento me controlar. Difícil! A loucura invade, toma conta, enlouqueço. Este quero presentear. Será? Já perdida dentro do Borges e do Brennand, agora o Hautoum? Abro o livro seduzida. E.M.B. Mattos, Torres.

” Uma lembrança do Japão, ele disse, com sotaque de Portugal. Pedi que traduzisse os ideogramas. No lugar desconhecido habita o desejo. Sem saber o que dizer ou comentar, agradeci de novo e disse que ia acompanhá -lo até o hotel. Vamos direto ao porto, ele disse. Tinha certeza de que não queria descansar? Depois comeríamos uma peixada … Recusou, balançando a cabeça e sorrindo. E então revelou um sonho antigo, desde a infância: viajar pelo rio Negro. Sua profissão levara – o a terras distantes e, em cada rio que navegava na África e na Ásia, aumentava o desejo de conhecer o maior afluente do Amazonas. Não tinha tempo para uma longa viagem. E acrescentou: tempo de vida.

Quer dizer que tinha vindo de tão longe só para dar um passeio pelo rio Negro?”(p.30)

Milton Hatoum, A cidade ilhada, Contos.  São Paulo,Companhia das Letras,2009

A muralha e os livros

A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão a ponto de dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz e, quem sabe, o fato estético. ” (p.12) outras inquisições (1952) jorge luis borges

“Cercar, construir a Muralha, queimar os livros … E Borges cogita: “Che Huang – ti talvez tenha querido abolir todo o passado para abolir uma única lembrança: a infâmia de sua mãe. (Não de outro modo, um rei , na Judeia, mandou matar todas as criança para matar uma)”

E Borges explica: Talvez o Imperador tenha querido criar o princípio do tempo  e se chamou Primeiro.

Cercamos casas para perpetuar, não ser invadido, queimamos fotos pra não ser lembrados, desejamos que nossa memória registre, e desenhe apenas o melhor. E. Mattos, Torres.

Um desastre

Às vezes acho que não faço nada, outras que faço tudo e muito. E hoje foi desastroso …

” …Tenho pressa de deixar este lugar … Não sei se você pretende me deixar aqui, mas é muito cruel para mim! …Dizer que a gente está tão bem em Paris e que é preciso renunciar a isso por causa das bobagens que vocês têm na cabeça … Não me abandone aqui sozinha …”

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Camille Claudel, fragmento de uma carta ao seu irmão Paul Claudel

Com gelo

Entrei com toda a desenvoltura possível.

Não vou beber nada, obrigada.  Água? Sim, um copo, por favor. Vinho? Não obrigada. …  Bem, … pode ser  uísque. Sem gelo. Mas não esquece a água. Uísque e com gelo, bastante gelo. Bebo raramente. Aliás, nunca bebo. Estou nervosa. Não, não precisa ter pressa … quero água, e uma taça com uísque, aliás, não importa o copo. Uísque, por favor. Aliás, pode ser vinho!

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sonho de Alguém

O livro traz de volta o que terminou, o concluído, o exorcizado. Reafirma que o Outro existe. Estou no sonho dele, e ele está no meu. O sonho me cerca. Intrometidamente Alguém entra no meu desejo. E não quero. Quero ser Eu, não Ela. Não vou ao teu encontro, não preciso tocar, nem abraçar. Não és Alguém. És a fantasia do meu sonho. E os sonhos são os sonhos… Eu acordo.  O vento uiva e a maresia se instala confortável na sala. O vento é real. É preciso anular, derrubar estas coisas de amor.  Ou de voltar no abraço e no beijo. Não quero o teu olhar. Não quero estar lá… Vou semear margaridas, plantar hortênsias. Colher amoras e pitangas.  E vamos ser amigos sem ser amantes. Elizabeth M.B. Mattos 2017 – Torres

“Com efeito, se o mundo for sonho de alguém, se houver Alguém que agora esteja nos sonhando e que sonha a história do universo, como prega a doutrina da escola idealista, a aniquilação das religiões e das artes, o incêndio geral das bibliotecas não será muito mais importante do que a destruição dos móveis de um sonho.  A mente que alguma vez os sonhou voltará a sonhá -los; enquanto a mente continuar sonhando, nada se terá perdido.”(p.81)  Jorge Luis Borges, Outras Inquisições, Nathaniel Hawthorne, texto de uma conferência proferida no Colégio Livre de Estudos Superiores, em março de 1949.

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Depois da voz

Depois de escutar tua voz e depois de gritar te gosto bem alto no meio da praça …depois que peguei na tua mão e olhei nos teus olhos, arrumei as malas, duas, e joguei as roupas lá dentro e peguei a rede. Depois, depois, fui entrando feliz naquele apartamento aonde o mar nos espia …  Lá temos vento, e temos a Ilha dos Lobos, e temos nós dois abraçados, quietos. E o amor.

De repente uma coisa triste entrou …  Tu a pensar nos quadros, nas esculturas, nas artes e nos tapetes persas …. Eu a pensar nas estantes, nos livros, nos livros, nos livros, nas panelas na mesmice de ser só eu. E nas amoras azuis …  Esquecidas.

Fechamos os olhos e nos beijamos. Beth Mattos, Torres.

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Apaixonada por Francisco

Estes amores  presos soltos atuando…  reviram memória. Presentes. A memória conversa… Iberê Camargo não está mais aqui! E ainda quero dizer tantas coisas! Entender  e amar  dois universos. Os artistas plásticos escrevem, pintam, esculpem, e se reviram a pensar e a dizer, nunca alcanço o suficiente. Beth Mattos

received_1226201020748136Francisco-brennand-011 cerâmicas“A escrita constante e reflexiva de Francisco Brennand, iniciada em 1949 é caso singular do memorialismo no Brasil. Por que um artista plástico potente precisa escrever com essa determinação O Diário não busca legitimar sua arte nem seus relatos de encontros significativos são atos vulgares de esnobismo, mas a revelação de ideias, imagens escrituras e experiências que se incorporam a seu processo. Tanto fôlego para escrever exigiu ainda mais fôlego pra viver, para lembrar-se de tanta urgência, para aceitar ser impossível esquecer como condição inquieta do artista. A memória despontou e Marcel Proust e se estende em suas profundezas, diapasão e vagueares desde a evocação sensorial da madelaine, agora matéria calcinada, ou pelo piano do pai na casa em São João e nos percursos míticos de Ganimede na celebração do intelecto e da virilidade para converter o barro bruto em carnação do humano.”

Na geração surgida no pós-guerra, a aventura do atelier permite associar criticamente o signo voluptuoso de José Cláudio, Francisco Brennand e Iberê Camargo.” Escreve Paulo Herkenhoff.

Iberê Camargo

Iberê Bassani de Camargo (Restinga Seca RS 1914 – Porto Alegre RS 1994). Pintor, gravador, desenhista, escritor e professor. Em 1928 estuda pintura com Frederico Lobe e Salvador Parlagreco (1871-1953) na Escola de Artes e Ofícios, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Entre 1936 e 1939, em Porto Alegre, faz o curso técnico de arquitetura do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e estuda pintura com Fahrion (1898-1970). Muda-se para o Rio de Janeiro em 1942 e, com bolsa de estudos concedida pelo governo do Rio Grande do Sul, freqüenta por pouco tempo a Escola Nacional de Belas Artes – Enba. Não satisfeito com a proposta acadêmica, estuda com Guignard (1896-1962) e funda, em 1943, com outros artistas, o Grupo Guignard. Em 1947 recebe o prêmio de viagem ao exterior e vai para a Europa no ano seguinte. Em Roma, estuda com Giorgio de Chirico (1888-1978), Carlos Alberto Petrucci, Antônio Achille e Leone Augusto Rosa, e em Paris, com André Lhote (1885-1962). Volta ao Brasil em 1950 e, em 1952, torna-se membro da Comissão Nacional de Artes Plásticas. Funda, em 1953, o curso de gravura do Instituto Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro, hoje Escola de Artes Visuais do Parque Lage – EAV/Parque Lage. Em 1954, participa com Djanira (1914-1979) e Milton Dacosta (1915-1988), da organização do Salão Preto e Branco e, no ano seguinte, do Salão Miniatura, ambos realizados em protesto às altas taxas de importação de material artístico. Promove curso livre de pintura no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em duas temporadas entre 1960 e 1965. Em 1966 executa painel de 49 metros quadrados oferecido pelo Brasil à Organização Mundial de Saúde (OMS), em Genebra. A partir de 1970, leciona na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Em 1980 Iberê Camargo mata a tiros um homem que o agride na rua. É absolvido sob o argumento de legítima defesa, mas o episódio marca profundamente sua vida e sua obra. Em 1986, recebe o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Entre suas publicações, constam o artigo Tratado sobre Gravura em Metal, 1964, o livro técnico A Gravura, 1992 e o livro de contos No Andar do Tempo: 9 contos e um esboço autobiográfico, 1988.

José Cláudio

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José Cláudio (Ipojuca PE 1932)

Pintor, desenhista, gravador, escultor, crítico de arte e escritor.

Em 1952, José Cláudio, ao lado de Abelardo da Hora (1924), Gilvan Samico (1928) e Wellington Virgolino (1929 – 1988), entre outros, funda o Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife – SAMR. Posteriormente, em Salvador, José Cláudio é orientado por Mario Cravo Júnior (1923), Carybé (1911 – 1997) e Jenner Augusto (1924 – 2003). Viaja para São Paulo em 1955, onde inicialmente trabalha com Di Cavalcanti (1897 – 1976), estudando também gravura com Lívio Abramo (1903 – 1992) na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP. Recebe bolsa de estudos da Fundação Rotelini, em 1957, permanecendo por um ano em Roma, na Academia de Belas Artes. De volta ao Brasil, passa a residir em Olinda e escreve artigos sobre artes plásticas para o Diário da Noite, do Recife. Realiza pinturas de caráter figurativo, retratando cenas regionais e paisagens do Nordeste, evitando, porém, o caráter pitoresco. O artista escreve, ao longo de sua carreira, vários textos de apresentação para exposições de pintores nordestinos, como a mostra Oficina Pernambucana (1967). Publica, entre outros, o livro Memória do Ateliê Coletivo (1978), no qual reúne depoimentos dos vários artistas que integram o grupo.

E Francisco Brennand

A Oficina Cerâmica Francisco Brennand: um museu de arte brasileiro localizado na cidade do Recife, capital de Pernambuco. Foi criada pelo artista plástico pernambucano que dá nome ao conjunto arquitetônico, Francisco Brennand.

de repente

Eu te amei tanto e completamente que todo o teu corpo e o que tu pensas me pertence, tudo. Todos os segredos, as ideias O incerto também meu amor …  E tu me amaste. Cartas, telegramas. Amor e paixão e raiva e por inteiro e pela metade. E terminou.

O esquisito é que  num átimo eu volto a te amar e te abraçar e beijar …

Não te vi neste verão, nem vou ver no inverno, não importa. Ainda te amo e sinto ciúme. Não sei o que fez na tua vida aquela personagem loira deslumbrada com quem resolveste de repente morar … estranho aquilo, mas fizeste…e eu te amando e ela não. As pessoas cometem equívocos. Bem, hoje precisei dizer que te amo.

Duas

Portugal linda e invernosa

Tu andando avoando pela Europa Ásia e Américas

E eu curiosando  andando pela lagoa em Torres

Não é texto. Não é nada. Diferentes, velhas as duas.

Tens o  colorido mutante, eu o mar e a lagoa.

Tens a terra se desdobrando … Eu invento, e não lamento.

predio da lagoa