LIBERDADE

Li muito, muito mesmo, literatura Infanto-Juvenil. Este livro de  Gisela Laporta Nicolelis, RUMO À LIBERDADE, faz parte destas leituras-lembranças. Amizade de um menino pelo pássaro Vira-Mundo.

LIBERDAE CHORO DO AVÔ

“- Ele talvez volte  –  continuou o avô

– Volta nada, ele não volta mais …

– Você já está bem crescido. Já é capaz de compreender uma porção de coisas …

 – Eu não quero compreender nada. Eu quero meu Vira de volta.

 – Às vezes os amigos vão embora -falou o avô, de um jeito macio.  –  Mas se eles puderem, eles voltam. 

 –  Ele não tinha nada que ir embora. Eu tratava tão bem dele. Dava comida enquanto ele não sabia comer sozinho. Fazia cafuné quando ele pedia.

 – A gente não deve cobrar nada que fez por amor – replicou o avô.  […]  Se ele quis descobrir o mundo é um diteiro dele. Você também um dia baterá as asas para descobrir o mundo …

 – Eu não, eu não … Nunca vou deixar vocês [ …]

 – Não prometa  o que não sabe se poderá cumprir, meu filho – sorrio o avô – eu queria tanto que me garantissem uma porção de coisas. Só posso dizer que, se ele puder e quiser, ele volta. […]

Aceitar. Eu tinha 10 anos e ele me pedia o mais difícil.  […] Ele estava sendo sincero comigo. Não estava me eganando com conversa fiada, com consolação besta. Só me restava torcer para que o Vira – Mundo soubesse voltar. Porque querer voltar eu tinha certeza que ele queria, poxa, – era tão meu amigo. e amigo a gente não esquece de uma hora para outra, não amigo de verdade. […] Disse que a vida é assim mesmo. Às vezes a gente perde quem a gente ama; eu não tinha perdido meu pai de um jeito tão besta? Mas eu não devia ficar triste, […] Eu não corta as asas do Vira – Mundo porque respeitava a liberdade dele. Ele tinha essa liberdade para, não era? Se não pudesse usar a liberdade nem adiantava ter dado. Era mais fácil cortar as asas e pronto. […] Quando se acalmou, voltou a falar. E disse que felicidade é um segredo muito simples  […] É importante que você goste de você. Gostando de você é capaz de gostar dos outros e fazer com que gostem de você.

 – Complicação, – reclamei, o sono voltando. – O senhor mesmo disse  que eu preciso ter amigos.

Todo mundo precisa de amigos. Mas não devemos ter medo da solidão. Se a gente gostar da gente, vai achar a solidão menos ruim, porque afinal está em boa companhia …”

LIBERDADE texto

LIBERDADEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sem volta

Tudo acontece na cabeça, um dia é preciso viver na vida. Estar no tempo e na hora com o jeito e o entendimento comum de amar o amor. Entregue, confiante. Recíproco. Não é um agora. Sempre foi … A perda atropela. O pior é a sensação de irrecuperabilidade. Não apenas não se pode recuperar um ao outro tal como tinha sido como também não posso recuperar a mim mesma … Elizabeth M.B. Mattos – Torres, agosto de 2017.

PRAIA LINDA

Recado pro amado

Amora ardida, ou doce. Vermelho verde rosado azul esparramado. Depois da ventania a paleta. Caminho /passeio / rumo ou calçada. Jasmim da primavera sacode o prazer. Sol brisa, luz e azul com Matisse nas águas da lagoa. Um cálice de vinho. Branco ou tinto. Sei, nada de álcool, melhor um copo d’água, natural, sem gás.  Não, não vou pedir batatas fritas, mas cenouras cortadas. Cerejas? Bananas em rodelas? Tens razão. Com açúcar ou carameladas. Ora ora ora, sem açúcar, sem sal, água natural. Não quero nada. Posso falar? Sabes que eu falo muito muito muito, e  não sei / não consigo te escutar. Que atrapalhação este encontro!

Penso em ti, penso neles, penso tempo, penso volta. E a rua Vitor Hugo, paralelepípedos. Lareira e fogo. Pai mãe irmã sorriso amigo e quintal. Escadas. Esconderijos. Jacarandás. Por que chamas / invocas este longe da meninice da juventude, a nossa? Dos jogos de cartas, da mímica, de São Francisco de Paula, e do enamoramento. Eu te respondo atenta pontuo abandono e suspiro. Tu me levas para a saudade de amar o amor e o amado que ainda se revira vivo dentro de mim. Não, não és tu o meu amado, mas ele que me acorda e me desperta emotiva. Estou a te confessar que ainda aguardo / ainda entendo ainda choro ainda quero o abraço bom, o beijo certo e a conversa solta. A risada o amor incerto desconhecido novo inoportuno, tão bom! Vem, vem chegar… Caminha devagar, eu estou aqui. A idade atropela, aperta, mas não me importo. Penso penso menina penso jovem penso mulher. Penso em ti com um rosto outro rosto uma idade outra idade fantasia invenção: eu te conheço e eu te sinto sem te ver, imagino. Então, … então és meu. Sempre atravessei teu corpo pela sombra, pelo cheiro, pela ideia de amar o amor que te envolve e me envolve. O escondido do longe e perto. Espero o encontro com data marcada e aviso e detalhe, o nosso. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2017 –

FLORIANÓPOLIS EU

a solidão

Insignificância, inserção, pequena cicatriz  arde dói nos dias de chuva. Memória, uma carta, a letra traz de volta sentimento ruim … por que eu me permito ser eu mesma, como não reconhecer o falso, o esquivo, o engano? Elizabeth M.B.Mattos  – Agosto -Torres, 2017

Buganvilia caida na grama

A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou a simples sensação com que um um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a ceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando – a fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência, uma simples distração, em vez de uma concentração para as alturas. Até o comer, os homens transformaram em algo diferente: a carência de um lado, o excesso do outro perturbaram a clareza desta necessidade; e todas as necessidades elementares em que a vida se renova tornaram – se igualmente turvas. (p.39)

Não se deixe enganar pela superfície: – Aqueles que vivem mal este segredo (é o caso da maioria), perdem – no apenas para si mesmos, pois transmitem – no a outros como uma carta lacrada sem o saberem.”(p.40)

Falando novamente em solidão, torna – se cada vez mais evidente que ela não é, na realidade, uma coisa que nos seja possível tomar ou deixar. Somos nós. Podemos enganar – nos a este respeito e agir como se não fosse assim; nada mais. Mas  quão melhor é admitir que se é só, e mesmo partir daí.”(65)  CARTAS A UM JOVEM POETA, Rainer Maria Rilke – tradução de Paulo Rónai –  editora Globo, Porto Alegre – 1978. Nona Edição.

CARTA Paulo Fernando DUIO

 

o assunto OTELO

A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.”( p.159)

A reler, e encontrar a cada página não um romance/ história/ tema repetido como o desamor e o ciúme, não um escritor de primeira qualidade ou muitos quilates, não um português perfeito rico simples firme … não o esquecimento desta literatura brasileira que importa. Machado de Assis  está vivo presente. Representa cada um de nós. A língua portuguesa na sua majestade, até soberba. Reler Machado de Assis importa. Está no oito do infinito, no para sempre vivaz, … nada que já não tenha sido escrito dito ou … sei lá o que mais. Reler para fazer a releitura de meus sentimentos, revisitar a caverna azul …, e as reviradas paixões que se agitam dentro de mim. Entender o significado do abandono, da indiferença, daquele descaso miúdo que tantas vezes me submeti encolhido, diminuída. Entender as inúmeras vezes que eu abandonei quem não podia/ ou não deveria ser abandonado …  Elizabeth M.B. Mattos, Torres agosto de 2017

Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava -se justamente OTELO, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço  – um simples lenço!  -, e aqui dou matéria à  meditação dos psicólogos deste e de outros Continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender a acender o ciumes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam – se, hoje são preciosos os próprios lençois; alguma vez nem lençois há, e valem só as camisas. Tais eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. […] Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até  que o pano subia e continuava a peça.” (p.259)  – Prefácio de John Gledso – São Paulo: Globo, 2008 – Dom Casmurro, MACHADO DE ASSIS

bg

não há espaço na pessoa

Em casa o abraço da certeza. Pequena saudade de afinidade que se pendura no olhar. Ninguém se importa com ninguém. Não há espaço na pessoa. Engodo de gentileza e sorriso. Afinidade é interior, talvez obscura, mas pode ser também iluminada.

A cada um a costura correta. Ponto cruz aberto bainha feita à máquina, ou feita à mão. Fendas bolsos pregas. Violão piano acordeon.  Céu cinzento vento que não cala, e se agita e grita primavera. Assusta.

O vendaval destelhou minha casa. Fecho a porta quando a janela amanhece escancarada. As meninas estão certas e cinzentas.  Não pode ser sempre tecnicolor. Há um fio azul que segura o vermelho e o beterraba e o verde. Não sei com qual deles amarro meu desejo. Elizabeth M. B. Mattos – Torres, agosto de 2017

acordeon

qualquer coisa dolorida de saudade

A memória tem gosto seletivo que nos empurra ora pra frente ora pra trás… Pra frente, na sequência de acertar capricho. Imagina fantasia: vai acontecer? Para trás, quando aperta e dói, nostalgia. Este ir e vir se junta a incapacidade do agora do hoje do momento. Há qualquer coisa de dolorido na saudade e na porta que se fecha.  O silêncio desarruma o tempo me apressa… Contagem regressiva.

Aflição com dor. É preciso semear um canteiro com alegria. Elizabeth M.B. Mattos – Torres, agosto de 2017

invisível transparente

O bebê a menina o menino a filha o filho. Mário Júlio Antônio Sonia Matilde Inês Lúcia se pensam …   Falam andam dão risadas. Escuto olho vejo e toco. Caminho sento entre eles, ao lado deles. Transparente, invisível e …

E aquelas bolas coloridas iluminadas do universo que são grandes pequenas e médias … vemos, e não sabemos. Sabemos nominamos e não conhecemos.

Elizabeth M.B. Mattos – Torres, agosto de 2017

FOLHAS não estão nítidas

 

 

desamor do amado

… alguém nosso! Alguém do amor amado,  que foi/ esteve/era do embalo e do abraço. Alguma flor … espinho. Sem rosa sem buganvília sem perfume nem forma sorri perdida enterrada … Narciso? Será que é sozinho, aquele que já foi nosso? Elizabeth M.B. Mattos – Torres, agosto de 2017

foto de fotos de muitas épocas pouco nitida

amorosos fantasmas

Fantasmas amorosos, fantasmas. Entre o perfume do jardim e a indiferença do olhar aquela prepotência cega de desamar. Fico com alfazemas. As pedras do cascalho queimam meus pés. Vou leve ao encontro do amigo. A amor tem este desencanto do desencontro. É  o caminho. Elizabeth M.B. Mattos – Torres, agosto de 2017