Solidão

Sobre a solidão dos objetos. Um dia, no meu quarto, ao olhar para uma toalha sobre uma cadeira, tive a nítida impressão de que não apenas cada objeto estava só, como tinha um peso – ou melhor, uma ausência de peso – que o impedia de pesar sobre o outro. A toalha estava só, tão só que eu tive a sensação de poder retirar a cadeira sem que a toalha se movesse. Ela possuía seu próprio lugar, seu próprio peso, e até seu próprio silêncio. O mundo era leve, leve …” (p.45) Jean Genet – O ateliê de Giacometti

” A solidão, como a entendo, não significa condição miserável, mas realeza secreta,  de uma singularidade inatacável, nem incomunicabilidade profunda, mas conhecimento mais ou menos obscuro.” Jean Genet

2018-01-07 12.30.57

Para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma mulher só; pois ser de muitas, poxa! é de colher … – não tem nenhum valor. Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há de fazer do corpo uma morada onde clausure -se a mulher amada e postar – se de fora com uma espada – para viver um grande amor.[…] Para viver um amor, na realidade,há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor. “[…] Vinícius de Morais

Protesto

Adormece o envelhecido corpo. Cabelos ralos, rosto deformado. A velha se remexe na cama procura o sono: nada. Uma palavra puxa outra. Ideia firme de fazer  e desfazer. Trocar ficar ou ir. E o fluxo segue … O desconforto da idade. O poder vai diminuindo no passar do tempo como acontece com as crianças. Fico desastrada distraída ensimesmada susceptível. Copiamos e erramos. Pequenas observações pontuam um jeito de ser.  Ouvir a reprovação incomoda. O olhar tolerante desaparece. Ao envelhecer cada passo tem o peso de um ano. O gesto define desenha reafirma. Cavernas necessárias! Não é possível lutar nem querer nem mudar. Aceita-se o mundo. A greve é um protesto. O protesto um grito. O grito a revolução. E depois a guerra. Elizabeth M. B. Mattos –  maio de 2018 – Torres

Aparência

A China comunista não permite canteiros de flores, nem arte, nem devaneios. Durante a Olimpíada de Pequim beleza cerimônia e eficiência. A China mudou?

A beleza é um castigo. O reflexo do belo pelo belo pode enganar e burlar. Pessoas bonitas são surpreendidas por uma aparente batalha sem mérito.

Boca cabelo olhos. Pernas pescoço nariz. Se a perfeição está no corpo como não estaria nos gestos, nos sentimentos? Ela entra três vezes por semana na loja e rouba pequenos objetos. Sente medo. Assim mesmo rouba. Caminha esticando a cabeça abraçada nos livros como se fosse apenas um olhar transitório de lazer. Vez que outra compra um disco, um lenço. Desafia, mesmo observada, a moça que rouba.

Vasos enfileirados pratas polidas. Amontoa objetos. Apalpa tudo com prazer. Um dia chega com três vestidos sobrepostos. Sente sono no meio da tarde.  De manhã se aquieta.  Ser bonita faz parte do circo doméstico que a inferniza. Segue roubando: a beleza se concretiza no furto.

Roubo institucionalizado. Política encoberta por boas intenções. E o público faz ah! Que venham palmas para os espertos. Será que roubar alivia a alma?  Elizabeth M. B. Mattos –  agosto de 2008  – Torres

 

 

liberdade vazia – da autobiografia

Acordei assustada do sonho. Fiz chá, acendi as luzes. Vi o dia nascer. O significado da necessidade está neste construir e destruir peculiar a natureza humana. É preciso ser livre para viver, mas desanimo no ócio. Absorvo a minha separação, esbarro na liberdade vazia: há urgência na vida.

A vida queima, nós queimamos.

Qual será o momento do encontro. Chegaremos à margem do Guaíba? Ao poente?O lençol cobre a terra, mas o ar conterá todas as transgressões … Algumas passagens da vida têm a pincelada da corte da ruptura com o pedaço interno lá de dentro do corpo. Dói: cheira a morte, cheira a doença.

Acabamos sentindo fisicamente aquilo que temos no coração.

Será justo,  ou não será? Por quê? Porquanto fizemos e desfizemos começamos recomeçamos. Desfazemos fazemos.  Não saímos do lugar, apenas morremos um pouco. Dias longos chegaram. Não estavas aqui, poderias estar. Desânimo. Cansaço igual ao teu. Quero voltar para nós. Costura minha dor e faz bordado deste meu arrependimento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

 

Porto Alegre, 7 de janeiro de 1992.

Amiga, querida amiga:

Tua carta é desesperada, é um grito. Eu me preocupo. Estou ao teu lado, quero te ajudar. Tu não podes te deixar abater, afundar na desesperança. Cuida da tua forma física, pinta teu cabelo, renasce. Basta perder peso que voltas a ser o que sempre foste, uma mulher bonita e sensível.

Oportunamente vou te fazer um desenho, será o presente de Natal que passou. Mas não posso fazer uma ratinha, porque não é assim que eu te vejo. Se eu o fizesse mentiria. Precisas sair deste poço, dessa prisão imaginária em que vives tuas cadeias, essas amarras são psicológicas. Não te deixes aprisionar num círculo de giz como acontece com as galinhas.

Eu, atualmente, enfrento muitos problemas. As reformas que fiz no atelier não deram certo! Agora vou jogar a última carta: remover o telhado, substituí-lo por […], única possibilidade de ter a tão necessária luz zenital, a luminosidade do céu. Tudo isso devido ao erro do arquiteto que projetou o atelier. Nesse país a incompetência é geral. Nós estamos sempre pagando a burrice dos outros. A situação do Brasil é a prova maior da incompetência e da irresponsabilidade. Desculpa, mas estou muito irritado com a situação que estou vivendo. Há ainda o caso da Lopo que não se decide, pois o tribunal está em férias. A justiça é lenta, não tem pressa, é preguiçosa. Seja o que for nós temos que lutar.

Comecei um novo quadro, também de grande formato. Há nele a evocação dos carretéis. Abstenho -me de mais comentários para não esvaziá – lo emocionalmente.

Sei que vais reagir. Para começar cuida do visual, pinta o cabelo, volta a ser bonita. Manda – me uma foto, mas não tão pequena, quase invisível, como a que mandaste tempo atrás.

Tô com saudade de ti. Quero te ver. Se te libertares dessa prisão imaginária, isso será fácil. Tu já vieste uma vez aqui, conheces o caminho. Por infelicidade, nesse dia eu não estava em casa. Estou ao teu lado. Muito carinho.” Iberê Camargo

 

 

 

 

 

 

No Bazar – autobiografia

Meu amigo:

Li no jornal o teu protesto sobre o preço das tintas.Que a tua voz seja ouvida. Estamos nesta luta juntos.

Continuo trabalhando no Bazar Praiano.

Mar verde água limpa. Sem ondas. Verão. Sol e sol. Natureza quieta: silêncio no barulho do mar. Muito a ser vivido neste momento. Convite às famílias. Quando pretendes aparecer? Vem logo. Pessoas carecem de amigos. Eu te necessito, mas a vida segue aberta. Vivo experiência curiosa. Estar no bazar concretiza o tempo. Abri mão de valores de posição social. Termino o dia com as mãos doloridas e gretadas quando limpo prateleiras. Esta experiência é uma porta que se abre para o comércio. Aprendizado. Gosto deste tablado. Laboratório fantasia observação. Olho faço, estou dentro do ritmo quente das vendas e compras compulsivas. Respiro pessoas numa troca cúmplice de olhares. Todos em férias.  Muito calor entre pastas de dente colheres chapéus redes cestas brinquedos. O necessário e o inútil. Livro vela pote enfeite. Perfumes vidros vasos e tudo o mais que possas imaginar. Preciso ter dinheiro para comprar uma loja e investir. Estou agitada, fervendo por dentro …

Má notícia: engordei para todos os lados. Estás rindo? Sim. A vida não é fácil. Enfim, cá estou diante de uma porta aberta colorida engraçada. Vou entrando … Temos castelhanos como praga. Tropeço neles. Se  alguém me dirige a palavra em português  eu me surpreendo. Gritam. Alguns conversam e são educados, mas  poucos. Não há mais Torres, mas colônia. Enxame de gente lota corredores. Produtos desaparecem das prateleiras numa rapidez inacreditável. Meus olhos caem pesados num sono crônico. Azedo.  Mas a tristeza não se põe lá. Se guarda em casa. O movimento entra na madrugada cobre a noite e as  tardes. Apenas as manhãs são silenciosas e mansas num acordar lento. O sol entra pela janela  gotejando  o dia.

Hoje é segunda-feira, não irei ao Bazar e posso, assim, planejar o trabalho acadêmico. Já levei os cães na praça. Bebi café preto. Comi pão com manteiga e mel. Hoje é  segunda-feira da última semana de janeiro. Elizabeth M.B.Mattos – rua José Picoral –  Torres 1992.

dia do casamento com GERALDOOOOO rasgada

reentrância

No meio da noite teu corpo no meu. Reentrâncias. A língua sente a maciez da pele. Sugo teu gosto. Durmo encolhida nos teus braços que são meus braços. Não faço planos. Estou na tua cama. Toco e movo meus pés em tua direção… Diante do espelho eu me pergunto da beleza. Das rugas, do fio branco no cabelo, das olheiras. Conversa estreita com o tempo. Existe tempo quando se ama? Ou tudo é  mesmo uma projeção, uma ideia do nosso olhar. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

escondida

Desligo o celular abafo o telefone e vou dormir.

Hoje pensei conto história palavra. Pensei dia e noite. Olhei o espelho, eu vi. Tem estrela no olhar. Tem lua pela metade. Tem lagoa de água lisa. Tem a serra. Tem árvore e desenho. Quanta surpresa nesta fome de dormir. Esta coisa de ver do outro lado do mundo. Esta coisa de sentir do outro lado do mundo. Esta coisa de imaginar do outro lado do mundo. É procurar. Terei uma manhã, eu vejo. Elizabeth M.B. Mattos – Torres

SABINE CARTA e CAPA

Outra vez … Esta coisa de ver do outro lado do mundo. Esta coisa de sentir do outro lado do mundo. Esta coisa de imaginar do outro lado do mundo. É procurar. Terei uma manhã, eu vejo.

despedida ou adeus

Despedida ou adeus. Apertam. Não gosto. Não gosto de abraçar quem não vai voltar. Nem o que termina. Procuro poderes especiais para virar as costas e não olhar para trás. ” Certas pessoas tem mais talento do que outras para a realização de proezas de bruxaria, e nós sabemos muito bem escolher.”(p.316) Thomas Mann Doutor Fausto

Segunda noite desta insonia-tristeza. Não sei terminar a palavra, não sei largar tua mão. Não sei fechar o livro. Não sei explicar nem escolher. Não sei dormir, nem acordar. Não sei chegar nem dizer adeus. Não sei. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 Torres, ainda