encaixotando saudade

Livros em caixas. Louças nas cestas. Engradados. Abre outra garrafa de vinho. Escolhe um dos cálices de vinho que se alinham aos de conhaque, as bolhas. Ainda tem três pacotes de biscoitos, damascos, um pouco de café, uma lata de leite condensado, e uma de sardinha. Bananas e laranjas. Meia dúzia de ovos. Duas garrafas d’água, e nenhuma fome. Precisa terminar de embalar o que falta. Senta no banco de três pés perto do fogo. Coloca um nó de pinho na lareira. Gelado este agosto. As venezianas entreabertas.

Isabel boceja! Deita no pequeno sofá, puxa  até ao pescoço aquela coberta de lã de ovelha. E onde fica o esvaziar, limpar, classificar, selecionar, eliminar? Precisa reagir. A estante de livros ainda abarrotada. A mesa retangular em desordem: lápis, régua, estilete, esferográficas, pincel atômico. Fichas, uma pilha de papel A4, duas canetas tinteiro, um caderno quadriculado, capa verde, aberto. Um peso de papel. Livros em torre, por autor.  Não dorme, volta aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo. Os objetos transitam, se movimentam pelo chão. O mundo de dentro estripado no tapete. Ou mesmo grudado nas portas, em lembretes. Estas sucessivas mudanças adoecem o espírito e o corpo. Choveu e ventou a noite inteira. Vasos em caixas de plástico. Manhã escura! A chuva e o movimento sacudido das samambaias arrastam sombras verdes. Abre a caixa que deixou na cadeira azul… Ajoelha no tapete e começa a tirar as fotos dos sacos plásticos. Visita cuidadosa ao passado catalogado: 1936, 1946, 1956, depois 1970, 1980.1999. O telefone? Não. É a campainha. Enfia os pés na pantufa, pego a chalé amarelo da mãe, passa as mãos no cabelo. Parece ser ainda mais miúda, as franjas sacodem nas pernas do pijama de flanela. Desce os degraus para chegar à porta. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2013 – Porto Alegre

Bolero de Ravel

Detesto usar estes óculos pesados. A miopia limita. Queria só beleza, e esta esquisitice! Os dentes doem, o aparelho machuca. O cabelo, com a chuva, encrespa.

O vento sacode a janela. O vento assobia. O vento entra no meu quarto. Não me concentro na música. Estou de castigo. Adianta? Faço tudo às pressas … Detesto o acanhado deste quarto, o frio, e não ter televisão. Nenhum filme, nenhum jogo, nada. Esta música me atormenta. Dizem que o Bolero foi um sucesso! Moderno. Ruptura. Droga! Ravel  importa? A liberdade de escolher, neste caso, parece arbitrária. Apenas dois. E se preferisse Vivaldi? Imaginar o pequeno instrumento de cordas, o cravo. História bonita! Aquelas roupas de seda, veludo, renda. Nos cabelos fitas, jóias! Intimidade com o músico… A moça de olhos azuis, loira e linda, aquela para quem ele toca.  Gosto de violinos! A professora pediu para escutar o Bolero de Ravel. Escolhi a gravação da Orquestra Filarmônica de Munich! É famosa! Gosto do espetaculoso, do brilho. Os grandes músicos são alemães! A posição de alerta não me deixa sentir. Fecho os olhos para pensar. Detesto exigências  impossíveis. Sentir ser possuída pela música. Estou perdendo a sessão da tarde! Se eu não conseguir nota boa em Redação este ano, reprovo. E o pior, leitura em voz alta. Aquele momento em que os colegas escutam minha voz. O que estou imaginando? O deserto. O deserto do filme Lawrence das Arábias. Os olhos azuis. E a marcha no deserto. Estou vendo a música. E também areia. A ventania. E tudo desaparece. Sorvedouro de pessoas, de animais.  A música está subindo, mas esta marcação continuada, rítmica, monótona, e então grandiosa entra no meu corpo. Recomeça a marcha! Alucina, encanta, vibra! Sou chicoteada pela areia. Estremeço de prazer. O deserto me desafia. O céu vermelho, azul. Beleza que desconheço. Recomeçarei. No deserto escuto todas as músicas ao mesmo tempo!  Compasso violento batido. Não, …  Apoteótico. E não é Beethoven, deve ter apreendido com ele este Ravel. A repetição nos estremece, e se confunde com o vento que fustiga, não, não é o vento, mas areia. Vou escutar sempre o Bolero de Ravel. Não. Prefiro Piazzolla, latino e quente! Adoro jazz.  Em Gerry-Mulligan  o inquietante. Quero o Piazzola. E dançar, e ser apertada num tango sem tango… Tudo nunca é do jeito que a gente quer. Quero mesmo escutar/ouvir sempre. Escutar Years-of- Solitude. Melodiosa. Gosto do anonimato de bar, do nada no improviso do hoje. Sem grandiosidade, sem deserto, mas assim mesmo bem sozinha. Terminei a redação. Ganhei o Ravel!  Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2013 –  Torres – Oficina Criativa

distâncias do amor

Villon

Morro de sede junto a fonte

 Rio em pranto e aguardo sem esperança …”

David Rousset

“Les jours de notre mort

L’ autre royaumme ”

Nossa morte, outro reino …, ou

Agrada – me bastante (beaucoup/ trop) quando podemos nos apaixonar / entrar / sentir as mesmas coisas.

Fragilidade que pesa e arrasta. Pelo rio navego sem bússola, sem rota. Sem texto. À deriva no tempo/ na hora do dia. No sopro desta preguiça, a espera. Sacode o barco. Sacode angústia. Silêncio. Quietude = N A D A , sem antes ou depois, apenas esta água … Elizabeth M.B. Mattos – setembro 2013 – Porto Alegre

depois da meia noite

Passo a noite a imaginar como você vive, sente, e respira. Quantos jogos assistiu, quais, de fato, importaram. Em quantos gritou, ou levantou da cadeira, de quantos participou intenso. Quantas vezes abriu a porta da varanda para respirar a noite, ou olhar para o escuro. Ou pensar no que deveria escrever depois… Quantos livros você abriu ao acaso. Quantas mulheres desejou. Segurando uma cerveja pensou no dia comprido, e nas tarefas matinais. Pensou na vida com cheiro de terra, não de mar. Quantas vezes falou com a filha ao telefone. Quantas vezes sentiu saudade do antes, do de sempre, ou lamentou o  hoje / este agora, quem sabe festejou? Quantas vezes chorou? Histórias de amor e o amor (nominado / imaginado invasor). Amor a trepidar, constante esta confusão… O que eu sinto por você.

“Eu me dava ao prazer de imaginá -lo, a cabeça debruçada sobre o papel até bem depois da meia-noite, quando você se levanta da sua mesa triste e desesperado para arrastar os pés até a geladeira, abrir a porta e examinar o que contém com um olhar distraído, sem nada pegar, como contou em uma das suas crônicas; e depois vejo você vagando pelo apartamento, ou andando em círculos em volta de sua mesa. […] Por todos esses anos, só fazia pensar em você  enquanto lia suas crônicas. Me dê seu endereço, eu imploro – ou pelo menos me diga alguma coisa”. (p.415) Orhan Pamuk  O Livro Negro

“Você é sua bem-amada, e sua bem-amada é você; ainda não entendeu? 

Acho / penso. Entendo. Não existe amor encanto, ou sentimento a definir. Agarrar como seu. Aquele que se possa segurar /possuir  inteiro, e triturar. …, e / ou se complete. Imaginação, fantasia, palavreado, ou depuração. Intenso. Estou no outro e o outro está em mim. Sinto a mão na minha pele, tenho o beijo. Toque sensação prazer. O sonho me acorda . Vou até a geladeira para beber o leite com chocolate, energia com vontade; ouço outra vez a música, sua voz. Abro as janelas. Você sereno, tranquilo. Somos parceiros e amados. E ainda não nos tocamos …, sabe por quê? Não envelhecemos.

Cada uma dessas histórias de amor levava a uma outra história num encadeamento infinito, em que cada porta desembocava em outra. E todas aquelas histórias de amor – quer se passassem em Damasco ou nos desertos da Arábia, nas estepes asiáticas ou no Horassan, em Verona, ao pé dos Alpes, ou em Bagdá, às margens do Tigre – no Rio de Janeiro, na Lagoa do Violão,  Porto Alegre, Belo Horizonte, Montevidéu, Buenos Aires ou em Torres –  eram tristes, todas eram melancólicas, todas eram pungentes.” (p.422-423)

São muitas e nenhuma. Tão particular o encontro, o momento, o gesto, a certeza. Todas as descrições e os sentimentos segmentados, e únicos. A cada um no seu tempo, a cada idade, outra intensidade. Esquisito esta coisa de amar o amor. Amar não termina, atropela. Respira e sobrevive. Fantasia. E sente medo, muito medo. O amor é você a me procurar e a desejar e a querer me encontrar, depois,  desaparecer. E ficar assim, grudada em ti a te  pensar /amar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 – Torres

frio de novembro

Não sei exatamente qual o ponto mais apertado, … uma pedra, uma dor! Um cinzento amolecido, quebrado. Ausência. Mistura agitada, desconfiada do horizonte. Beleza consumida pelo frio gelado deste nada. Zerada por dentro. Bom seria esvaziar gavetas, rasgar cadernos, fogo. Colocar na boca da lareira, acompanhar labaredas. Aquecer. Uma casa inventada. Tempo. Tempo enorme! Frio. Bastante frio. Cheiro de inverno. Este frio entra pelos pés, o gelo da terra. Os dedos congelam. O nariz. As bochechas vermelhas. A menina se encolhe. Desconfiança incontida. E a leveza da infância desaparece. Estamos em novembro. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 – Porto Alegre

tempo agora não ontem

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…, o agora tem qualquer coisa de generoso, mas contado / enfeitiçado / pequeno e diminuto, regressivo. Tem que ser hoje e agora. Ok! sem abraço, sem beijo. Um jeito de olhar. Palavras: um monte de palavras e palavras. E um passo apertado. Mastigar a água e beber a comida. Invertido. Tem o sorriso, outra vez a doçura da palavra. Elizabeth M.B. Mattos –  2018 – Torres

devolva os sonhos dele

“ Neste nosso país maldito, que outro caminho resta às pessoas como você, além de escrever? Eu sei que você escreve porque não sabe fazer mais nada, por pura impotência. Ah!, se você soubesse quantas vezes imaginei, ao longo dos anos, esses seus acesso de desamparo!” 

Costumo procurar sono nesta hora. Hoje quero escrever. Eu te devo um montão de palavras, de respostas. Já foi tão fácil! Pois é, agora sou eu a recuar perdida, ansiosa. Está sendo difícil envelhecer, perder pedaços, aceitar. Entender que a vida passou: vida viva, temos outra prazerosa a espera, diferente, encolhida. Empacotada. Mas quero. Quero o que não tenho, ou nunca tive. Desespero comezinho e idiota.  Diz um amigo que sou tímida. Sou tímida? Não fui contigo contida, ou qualquer coisa assim, nem tu foste comigo, apenas fomos…, isso é bom. Acho que não posso falar de amor ou de sentimentos ou sei lá sobre quanta coisa imaginária: imaginação, fantasia. Conosco tanta coisa!  Bem, fomos  longe! Não lamento. Foi poderoso, forte, intenso e verdadeiro. Será que teria dado certo? Tu recuaste. Ou seria eu a recuar, seríamos nós? Não tentamos. Lembro de um apartamento com lajotas vermelhas que visitamos! Bem, preciso superar isso e voltar. Ao tempo de hoje, de ser agora. Resolvi LEVANTAR e te escrever. Tenho todo o tempo do mundo, estou cercada por todos os muros, estou trancada, protegida. E a ponte levadiça. Já me dói o corpo todo. Vou tentar dormir. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 – Torres

Muito mais tarde, depois de desliar discretamente o telefone da parede e examinar todos os cadernos, armários, anotações e velhas roupas de Celâl, com os gestos de um sonâmbulo que procura suas memórias, Galip deitou se na cama de Celâl, usando o pijama dele e deixou –se mergulhar suavemente no abismo de um sono profundo, embalado […], enquanto entendia mais uma vez que o melhor do sono era a possibilidade de esquecer –se desta lacuna  desesperadora que existe entre a pessoa que você é a pessoa que deseja ser. No sono, a vida se coagula num único nevoeiro agitado, onde se confunde tudo que você ouviu e não ouviu, tudo que você viu e nunca viu, tudo o que você sabe e tudo que ficará para sempre no escuro da sua ignorância.” (p.418) Orhan Pamuk O Livro Negro

a casa, história para Diana

Sou sempre eu a me descrever sem ir de verdade, vou ficando a olhar para os lados, distraída. Fico pelas bordas. E afinal, uma certa inacreditável timidez me paralisa.

Um dia de sol e de beleza particular. Duas ou três advertências sobre este brinquedo de esconde-esconde. A praia e a súbita vontade de fazer dizer contar, escrever. Autobiografia parece o tema mais obvio, e ao mesmo tempo uma bomba explosiva, nunca é tudo, inclusive porque caminha sobre outras pessoas. Temos permissão? Usar pseudônimos. Uma solução. Vou tentar. Não sou escritora, a palavra me assusta porque sempre sonhei com ela, reverenciei idealizei idolatrei. E hoje parece tão óbvio e fácil. Publicar e se sentir autor. O certo é que desde muito cedo, para não dizer deste sempre, escrevo. Aquela escondida vontade de ser, de fato, dedicada a palavra, mas … cheia de medo. É puro dinamite. Esquisitos temores que me perseguem e me apequenam castradores.

A casa tinha livros. A mãe inteligente, atuante, forte. O pai atento aos livros, ao zelo silencioso. Uma tia, duas irmãs. Uma amiga. Uma rua, e tantas calçadas. Uma piscina. Detalhes, cenário, pessoas, na Vitor Hugo 229 tudo e todos atuavam … a casa vibrava colorida / e sempre bonita e perfeita. Fantasia. E respirar no quintal dos jacarandás. Ela, definitivamente, a grande personagem com jardim, quintal. Ninguém escaparia ou resistiria aquela casa. Nem aquela mãe, nem as histórias, nem as lareiras, três sem mencionar o fogão de ferro (poêle) com seu charme especial. E hóspedes. E pessoas. Ela é a história. Elizabeth M.B.Mattos – novembro de 2018 – TORRES

lamento

Eu te amar não foi pouco, foi muito, foi tanto e tão …, pois é. Tu me amares tanto e tanto …, o melhor. Por que dizer ou escrever? Já não importa. Apenas registro. Sou eu és tu somos nós  + o querer. A volta, o hoje dando uma volta. Aperto dança, uma certeza. Não. Eu não lamento nada, lamentando tudo …, eu sei. Elizabeth M.B.Mattos – novembro de 2018 – Torres