irritante

Tomada, desgovernada, inoperante, irritante. A ser descartada esta mulher poluída, não me importo. Ônix reage ao calor, ordens incoerentes, horários invertidos. Desordem, refeições irregulares. Como pode ser a vida assim  invertida? Esse enlameado criativo, não de Brumadinho, invade concentração, organização, implementação e manutenção. Não consigo pensar. Pertubação.  Excesso de trabalho. Excesso de lazer, fadiga ou medo. Preciso ficar imóvel.

Sonho ficar com as pernas balançando no ar. Segurar um bebê no colo. Sentar-se num círculo de árvores. Secar o cabelo ao sol. Assistir ao nascer do dia. Tocar piano. Orar. Escrever escrever escrever escrever.Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2019 Torres

quando termina

Eu me sinto pior ao final da leitura. Eu me agarro impotente, sugando o que o livro tem de pior ou melhor. Bonito ou bom. Ou demoníaco. Demoro muito/demais ou bastante. Vou me deliciando aos poucos num gozo que se quer maior, melhor, lento, vagaroso, quase oscilante. O prazer da leitura. Eu com o livro.. Ninguém deveria pensar memória. De repente em guerra. Desafio constante de me superar, sobreviver. E neste estado oscilante de sobrevivência, eu me perco. Não posso te amar. Tenho/sinto saudade do amor derramado que tenho por ti. Beth Mattos

substituível

Memória se prevalece apontando… Vasculhar e procurar, desviar. Vida em linha reta. No horizonte azul. T U D O embutido no substituível! Dor de cabeça, dedo quebrado, costas ou braço ou perna estropiados. Mágoa ou alegria. Envelhecer  pode ser trocar de eixo, de importância. Variante. Esperteza. No bojo, sentimento depurado, perdão. Sem contorno ou bainha, envelhecer é rasgado, aberto. Elizabeth M.B. Mattos fevereiro de 2019 – no meio da obra, da poeira, da loucura ruidosa do quebra-quebra.

poeira pesada

A noite engole o dia seguinte. O sono se agarra no corpo desgostoso, é preciso reagir ao desagrado. Depois de esperar esperar esperar, deixo a poeira se espalhar tudo: pelo livro, pelas mesas, grudar no tapete entrar nas frestas. Perfeita memória esburacada. O que devo mesmo lembrar? Teus olhos castanhos. O desgoverno de apaixonar derruba qualquer lógica, ou acerto. Durante cinco minutos, extremamente/ intensamente, alegre: a felicidade dura mais tempo que sete minutos? Aglomeração de palavras desconexas. Tranqueira de cismas silencia a coerência. Atordoado silencio. Nada me aquieta. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres.

BANHEIRO demolido

desejos que se bastam e não precisam ser realizados

Neste silêncio quieto renuncio ao teu amor que se alçou exibido, e logo se fortificou na quietude pacífica. Dois sanguíneos setentões nada saberíamos um do outro que não fosse se encantar, outra vez um pelo outro, atravessados pelo vinho. Apalpando, chorando e rindo nos transformaríamos no  inverosímel. Somos este silêncio que se fecha… Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

“Eu fui – ela ficou. Mas ainda hoje, depois de mais de cinquenta anos de distância persistente, que só uma vez, no princípio dos sessenta, foi interrompida e acabou levando a algo que deve permanecer não dito, nós damos sinais de vida um ao outro e não esquecemos nada, nenhum segredo na escuridão da igreja, nenhuma das palavras sussurradas, nem os momentos de da proximidade fugidia.“(p.290) Günter Grass  Nas peles da cebola – Memórias

num átimo

E de repente, num átimo, ou fora da doença e da dor eu penso: gostaria de envelhecer num abraço de amor, numa risada companheira, num brejeiro olhar, num adormecer pacífico, no meio do teu gramado, dos meus livros, da tua comida, da minha falta de jeito, ao som da tua voz! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

o inesperado é sempre uma ameaça

A ferida da alma não fecha;  começa de repente a manifestar – se de novo, lentamente a princípio, depois invasoramente até empolgar a alma inteira; quando supomos que tudo já está cicatrizado e esquecido, lá vem o contragolpe fatal.” (p.59)

“Quando Constance subiu ao seu quarto, fez o que havia muito não fazia: despiu -se diante do espelho grande, não saberia dizer o que a levava a isso, entretanto mudou a posição da lâmpada para que a luz batesse em cheio sobre sua carne. E pensou no que sempre pensara: na coisa delicada que é um corpo humano em estado de nudez… na fragilidade, na indefensabilidade do corpo nu: qualquer coisa inacabada, incompleta! Outrora gabavam -lhe as linhas esbeltas; hoje a considerariam fora de moda, mulher demais […] (p.82)

“O senso físico da injustiça torna-se algo perigoso quando se rebela.” (p.85)

Citações de DAVID HEBERT LAWRENCE in O Amante de Lady Chatterley

 

Sabbine e Iberê

espiando eu

homem inventado

“Ora, o que era eu, senão um homem inventado?” (p. 108)

Lenta e confusa ordem nesta desordem completa. Empoeirado, fora do meu gosto e do lugar! …, e estou distraída. Resolvo do imediato ao instante, depois esqueço. Será reinventar?  Luigi Pirandello no livro MATTIA PASCAL nos dá a chance, ou narra a possibilidade, de como seria anular tudo e recomeçar com identidade nova, claro, a plena idade! Faz reflexões e escreve: “Esse sentimento penoso da precaridade ainda me dominava e não me deixava amar a cama em que ia dormir e os vários objetos que tinha ao meu redor. ” Por mais anônimo e novo e ou perfeito ambiente que  eu me esconda, estou visível a mim mesma, e aos meus estranhamentos. E o que pode ser novo, ideal e completo fica em suspenso. “Cada objeto, em nós, costuma transformar -se consoante as imagens que evoca e agrupa, por assim dizer, em torno de si. Certamente, de um objeto podemos gostar também em si mesmo,, pela diversidade das sensações agradáveis que suscita em nós numa sensação harmoniosa; mas, [é o autor diz o que sinto] com bem maior frequência, o prazer que um objeto nos proporciona não se encontra no objeto em si mesmo. A fantasia o embeleza, cingindo – o e quase que iluminando – o de imagens queridas. E à nossa percepção, ele não mais se apresenta tal como é, mas como que animado pelas imagens que suscita em nós ou  que os nossos hábitos lhe associam. No objeto, em suma, amamos o que nele pomos de nós mesmos, o acordo, a harmonia que estabelecemos entre ele e nós, a alma que ele adquire somente para nós e que é constituída de nossas lembranças. Ora, como podia acontecer tudo isso, para mim, num quarto de hotel? (p.116)  Volume 38 da coleção Os Imortais da Literatura Universal da Abril Cultural

Penso na casa, espelho meu, nas roupas e o tudo que sou / escolhi: espelho meu. Magia e fantasia ao caminhar, falar, ser. Magia de ser quem sou? Qualquer objeto, de barro, porcelana, prata ou cristal importa pelo peso da vida de quem o possui? O bom decorado, antes de mobiliar uma casa para um cliente, precisa descobrir/ conhecer hábitos e histórias de quem vai morar neste cenário.  Trabalhar o pessoal e o íntimo. Assim o bom estilista, não pode ser apenas o bom corte a boa costura, o bordado certo, há que saber descobrir e adivinhar a personalidade, o detalhe de quem veste o traje. Os GRANDES estudam e sabem desta psicologia dos/nos clientes potenciais. Parece fútil, mas é da natureza. O urso procura a caverna, o pássaro o ninho, a fantasia as florestas. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres já não tão escaldante.

Revendo -m, assim, de improviso morreria do susto a viúva Pascatore? Qual! Ela? Pois sim! Faria é morrer a mim, novamente, dois dias depois. Minha sorte – precisava capacitar -me disso -, minha sorte consistia, justamente, em ter me livrado da mulher, da sogra, das dívidas, das humilhantes aflições de minha primeira vida. Agora estava inteiramente livre. Não me era suficiente? O fato é que eu tinha ainda uma vida toda à minha frene. Por enquanto… quem sabe quantos outros estavam sós como eu!” (p.117)

adoro estante e cartonado da aquarela do stockinger

Como Pascatore inventei um homem para amar. Trouxe para a minha vida, agora/hoje, a fantasia do menino-homem que, um dia, não sei dizer com exatidão, imaginou uma Beth pessoa a caminhar pela praia de Torres, …e,  não viu o  envelhecer. Eu me escondi atrás/ou dentro desta imaginação imaginada, e isso me rejuvenesce, e dá prazer. Não vou dizer obrigada. Paixão  /amor / namoro amante são graciosos, de graça! Tanto quanto fortuitos.  Este reencontro com Pirandello me salva. Beth Mattos

vida oficina, oficina da vida

“A recordação toma pé sobre recordações, que por sua vez buscam incansavelmente outras recordações. E assim ela se assemelha à cebola, que a cada pele retirada expõe coisas que há tempo foram esquecidas, alcançando até mesmo os dentes de leite da infância mais precoce, mas então o fio da faca a leva a um outro objetivo: cortada pele após a pele, ela tange lágrimas que turvam o olhar. ” (p.241) Günter Grass

Vou até Porto Alegre, volto no fim do dia e me deixo ficar duas horas na rodoviária. Vejo pessoas chegarem e saírem apressadas. E por um momento, reconheço na minha fantasia os olhos castanhos, também eles ansiosos. Recuo. Que um dia o telefone toque e desmanche equívocos. Ou…, apenas terei a voz serena e o tempo de explicação pequena e diminuta. “Tu insistes, Beth, em fantasia. Nunca irei a Torres. ” Eu digo três palavras, desligo o telefone. Idade, envelhecido tempo. Energia esfarrapada se fecha. E circunspecto, enterro a menina que insiste. Um beijo, eu respondo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Porto Alegre, eu não saberia mesmo o que dizer. Catástrofe!

A CAIXA

encontrei…

Encontrei A Caixa. Memórias, Nas Peles da cebola avança na obra completa, mas este, tem sabor de flores de limão.

Aqui está A caixa – Histórias da Câmara Escura, – com desenhos feitos também por Günter Grass. Pulsante  texto. Abre comportas: menino, adolescente, homem. O volume tem 222 páginas.

“Era uma vez um pai que, por ter envelhecido, chamou seus filhos e filhas –quatro, cinco, seis, oito ao todo – até que estes, depois de hesitar por um bom tempo, acabaram atendendo a seu desejo. Eis que agora eles estão sentados em torno de uma mesa e logo começam a conversar: cada um consigo mesmo, todos em confusão, embora seguindo o plano do pai e de acordo com suas palavras, mas de modo obstinadamente e egoísta e, apesar de todo o amor, sem a menor intenção de poupá –lo.” Günter Grass – A Caixa