desconhecido vivo no imaginário da palavra acelerada

Estranhos são os que nos conhecem mas pensam que nos decifram. Somos atitude, expressão, também gestos e manias. Não sinto solidão em mim.

CONVERSA com um estranho conhecido

Eu: normalmente leio devagar, não liguei a televisão para guardar bem as impressões da leitura, e te contar. Penso como tu, mas não vivo na rotina.

Tu: será que sou egoísta? Penso que não, sinto – me feliz contigo.

Eu: tu levantas e vais para o mundo

Tu:  vida social para mim é de certa forma continuidade das burocracias. tu me dás sentido e prazer: falo de espírito

Eu: como és jovem precisas de muito mais, mais vida. Sabes bem

Tu: alma

Eu: concordo contigo, e por que não podemos dividir o real, o que já somos? Nossa relação, uma ideia, um espaço entre dois mundos, no mínimo, o esquisito e estranho, instigante real! Estranho!, porque preciso de ti, preciso

Tu: desgastante ser quase um boneco sei lá cumprindo rotinas, mas eu também preciso de ti

Eu: somos isso também, e somos nós, grudados. Sinto tua falta, no Rio eu estava diferente, mas a exaustão volta.

Tu: o que me assusta no enfrentamento do corpo a corpo: não conseguir seguir em frente sem estar ao teu lado

Eu: o corpo o corpo cansa. Sempre cansa. Sentimos porque somos sugados, e absorvemos o outro. Tu sabes

Tu: no Rio estavas em outra dimensão, mas estavas ligada, de certa forma purgamos

Eu: estar atenta ligada presente o tempo todo pode me tirar as forças. Dormi bastante também. Penso, não sei agora: purgar é exatamente o quê? Pagar por alguma coisa?

Tu: mas estás/estavas linda, radiante

Eu: podes me esperar?

Tu: colocamos frente a frente nossos sentires e desejos

Eu: conseguimos

Tu: somos dois apaixonados pelo amor que sentimos

Tu: eu te espero

Eu: verdade isso. Somos apaixonados pelo que sentimos um pelo outro. Eu me sinto preenchida, sem espaço para mais nada, o que me parece trágico também, assunto para um dia inteiro

Tu: talvez uma vida inteira, vá lá antes que chova

Eu: uma vida inteira apenas nós dois sem filhos sem cães nem gatos, apenas nossa. Vou, vou me vestir. beijobeijobeijo Bom dia!

Tu: ah colocas meias e mangas compridas beijobeijo beijo.

Tu: Gosto muito de frutas, muito mais de verduras e legumes, tive dificuldades de apreciar os verdes de gostos diferentes (sorrindo e divagando)

Eu: Vou logo. Depois tomo café, e penso, tenho que sair.

Tu: tomas café antes. Pensas que tens de sair?

Tu: não compreendi. É uma exclamação ou expressão metafórica?

Eu: já fui, já voltei. Comprei tudo na feira, menos tomates. Comprei couve brócolis cenoura beterraba cheiro verde cebola e alho, – tudo na feira ecológica. Está quente na rua. Agora tomo um café, depois volto…

Tu: como és rápida!

Eu: apenas três pessoas comprando na feira, Ônix precisa caminhar mais (eu também), vou voltar para a calçada, preciso caminhar, caminhar. Não me espera.

Tu: (sorrindo)

Eu: sou anarquista (?!), tudo para ontem. E rápida, café agora

Tu: sou teu contrário

Tu: vou te enviar uma imagem que te decifra enquanto caminhas com a Ônix, – não esquece os remédios

Tu: teu coração continua só coração (desenhos mostrando imagens de seis pessoas e o tamanho do coração, – um lápis)

Eu: (foto da feira em cima do balcão preto da cozinha)

Tu: maravilha, como sempre, tuas composições. E as maçãs? Ontem de madrugada senti desejo de comer maçãs argentinas no forno e do perfume que fica no ar pela casa

Eu: que delícia!

Tu: bem, sobre o Rilke, ele teve uma queda brusca de peso e o veterinário disse que estava com imunidade baixa, estressado por causa da pia e que não gostava da passadeira ou que estava me captando ou se sentindo abandonado ou os traumas “de guerra” da infância… Sabes, essas teorias medievais! Que estava/está anêmico, que era preciso investigar onde estava perdendo peso e o porquê, e por fim me xingou dizendo como é que tu tá dando asas para a santa ignorância, pegas um bicho de rua? É certo, terá problemas e mais problemas! Agradeci e me retirei furioso. Conversei com o Marcos, e ele me disse: cuidas tu,

Eu:  (pensando) meio triste. As maçãs? As da geladeira… Pobre do Rilke!

Tu: tu gostas também? tu achas?

Eu: eu tinha maças em casa por isso disse tristes, nunca faço deste jeito. Nem sei se sei fazer…, apenas o purê de maça no Natal. O pai adora/adorava!

Tu:  não queria te trazer lembranças tristes; fácil demais more

Eu: bobagem! As maçãs não estão felizes. Murchas depois de tanto tempo na geladeira. Não comprei morangos, nem limões

Tu: é só colocá – las no forno para isso são as argentinas, faz as que tens na geladeira

Eu: e comprei bananas demais

Tu: morangos nem é bom ter

Eu: mas eu adoro. Dizes para “temperar” como? , nunca fiz maçãs deste jeito, trabalhoso

Tu: faço in natura

Eu: colocar alguma coisa (aha!) Vou ter que comer contigo

Tu: os chefs tiram os cabos e colocam açúcar e canela

Eu: aliás, já te disse, ando meio sem vontade com a cozinha… Comprei coisa demais! Droga! Isso: açúcar e canela, mas in natura deve ficar bom

Tu: vamos sim comer e aprender juntos outros gostos e sabores

Eu: tomei um café enorme

Tu:  estás certa

Eu: tô giboiando! Bem que gostaria de ter uma alguém para limpar tudo e colocar a casa em ordem

Tu: a primeira refeição tem de ser a principal

Eu: maior caos

Tu:  bagunça é vida, – caos é não ter bagunça

Eu: café preto, salame pão e manteiga não é lá nutritivo, mas sabes, nisso não me cuido

Tu: estava te contando antes do Rilke…

Eu: verdade o que dizes, mas o Rilke (o gato) desculpa

Tu:  embutidos não são muito saudáveis, – trocas por queijos brancos ou ovos

Eu: sou agitada, tu és metódico organizado tranquilo e atento

Tu:  vou te enviar as fotos de como ele estava quando tu estiveste no Rio

Cada um a pensar, teclar enquanto o outro segue em pensar noutra coisa, no que ainda não passou, e o novelo segue desenrolando. Conversa no computador.

Eu:  eu sou ao contrário, tem uma flor uma única flor no meio da buganvília

Tu:  por isso nos completamos e somos curiosos um pelo outro

Eu: tá saindo um sol! vou caminhar

Tu: espião

Eu:  a chuva não vem… (foto da buganvília com apenas uma flor). Já tomaste café?

Tu: a chuva virá, sim

Eu: estamos de volta

Tu: tu terminaste?

Eu: sim, tenho que arrumar lavar… Preguiça!

Tu: pensei que o Rilke ia morrer

Eu: estou atirada na cadeira de conversar contigo

Tu: por isso não queria falar

Eu: o que houve

Tu: estou te atrapalhando, – te disse lá em cima

Eu: não

Tu: tu estavas lá fora… vi teus post no Amoras

Eu: agora li. Quem é o Marcos

Tu: o médico dos gambás

Eu: ah! ele sabe das coisas

Tu: lembras?

Eu:  …, mas o veterinário estava estressado exagerando. Lembro sim, não fica brabo comigo. Eu não tinha lido. Pulei. Tenho que voltar, desculpa, distraída

Tu: louco para fazer exames, usar as máquinas e ganhar dinheiro. Tu sabes bem

Eu: isso mesmo…

Tu:  o Rilke está com um fungo, estou a medicar. Ele é muito sensível / sensorial (espaço de tempo)

Eu: eu fui pendurar os lençóis. Vê. E não voltei a caminhar com a Ônix. Precisa mesmo de cuidados, o pobre!

Tu: cuido com muito carinho ele me morde como um tigre, estou com as mãos arrebentadas, mas sou paciente e tolerante. Terminas tuas coisas more arrumas tuas bagunças

Eu: difícil dar remédio para gatos! Cuida, cuida de ti porque eles são transmissores de tantas doenças!

Tu: está vacinado sem vermes pulgas todos conformes

Eu: a máquina de lavar tocou a música: vou pendurar a roupa. Sim, tenho que fazer as coisas, tenho que fazer todos os dias

Tu: faça o básico, espero

Eu: tô cansada

Tu: tu acordas cedo

Eu:  estou enjoada cansada dormi tarde

Tu:  alérgica total

Eu: uma droga estar doente, não sou alérgica. Estou gripada, vou voltar para o remédio

Tu: tu não estás doente

Eu: ué! estou fungando

Tu: os cheiros, o tempo

Eu: cansada! cheiros são minha maldição

Tu: queria dormir contigo

Eu: pois seria bom, mas se voltar para cama agora inverto tudo outra vez

Tu: descansar no teu descanso: foi só um querer

Eu: não sairíamos da cama…, uma domingueira no meio da semana. Estou olhando para os lados, desanimada: vontade de sair correndo, morar num hotel e ter quem faça as coisas. Ainda tão cedo e já cansei.

Tu: correr do quê?

Eu: dessa bagunça desordem

Tu: vou me organizar e vou te servir

Eu:  vou ter que sair com a Ônix, ao menos até a praça! …apenas até a feira é pouco (sorrindo feliz, imaginando)

Tu:  tu tens cada ideia!

Eu: o dia mal começou

Tu: …, mas eu vou ainda ser teu servo mais fiel.

Eu: seria bom, mas ainda assim íamos precisar de alguém para nos servir.

Tu:  não. Faço tudo

Eu: tô carente de uma pessoa a fazer tudo, tu? ficarias quieto comigo

Tu: serei teu empregado

Eu:  de vidros limpos, livros sem pó, chão com cheiro de cera, tapetes limpos e perfumados…

Tu: faço tudo

Eu: lençóis perfumados, cozinha limpíssima, prateleiras ordenadas/ arrumadas. Panelas espelhadas, lindas! Flores nos vasos: beleza doméstica.

Tu: vou te impressionar

Eu: livros nas prateleiras, não empilhados pelas/nas mesas. Ias morrer de tanto fazer… tal a bagunça!

Tu: vou deixar tudo como desejas

Eu: quando acordo penso que vou arrumar já no meio do dia desisto. Mal consegui espaço na mesa para o café. Desabafando: cansei de ser dona de casa, (foto com os castiçais de estanho, – mesa passagem, – três fotos de mesas com livros)

Tu: para mim será um prazer zelar por tuas coisas

Eu: (outra foto de livros bagunça)

Tu: tu acendes velas?

Eu: já te apavoraste. Acendo quando estou na cozinha por causa dos cheiros.

Tu: iria estar no teu mundo, finalmente

Eu: (foto de mais livros empilhados, – um pedaço de uma aquarela do Danúbio)

Tu: devias assar maçãs para perfumar a casa

Eu: (foto da desordem livros e caixas).

Tu: não sentirás ciúmes das tuas coisas?

Eu: não tenho muitas coisas, tenho livros. Aqui é pequeno. Teria ciúmes sim. Ah! esqueci das gavetas que também estão uma bagunça…

Tu:  irias me beliscar? sou discreto

Eu: fico feliz que penses assim… eu ia te beliscar, e não te deixar fazer nada. Não sei olhar, só sei fazer…

Tu: tu me ensinarias o teu jeito

Eu: a ideia de assar maçãs é ótima, – tenho duas na geladeira. Vou experimentar. Não, já te digo o motivo de beliscar. Explico: se não és tu a arrumar não saberás encontrar. É uma geografia pessoal o armário a estante. Poderíamos fazer juntos se tuas coisas estivessem com as minhas coisas!

Tu:  quando elas racharem e estiverem cor de cuia estão prontas… sim, juntos, uma boa ideia

Eu: a casa, prateleiras gavetas armários estantes são intimidade… vou prestar atenção, e te conto

Tu: são histórias

Eu: tu já conheces tudo. Vou sair. Tenho que levar a preta para passear. Te cuida.  Isso. São histórias, boa ideia! Abrir uma gaveta e escrever, descrever. Tenho que voltar a escrever. O livro de Kazuo IShiguro   – Não me abandone Jamais – tomou conta de mim, cortou por dentro, dor, amargo. Fiquei impressionada.

Tu:  …e tu de mim, por que perguntas?

Eu: gostas de ler, sei tudo de ti? Não sei nada…

Tu: é como as refeições

Eu: eu te imagino

Tu: é vital para mim

Eu: mas tu me sabes, e me conheces, e sentes o cheiro e eu te mostro detalhes. Até o vento eu te faço ver. Eu não sei nada, ou tão pouco…, ou sei mas quero mais, muito mais. Não sei do teu café do teu almoço; nem quantos travesseiros usas. Sei do banho demorado. Sei do sofá. Um pedaço de mesa, do Rilke, mas não dos livros que lês. Da roupa que usas.

Tu: dois travesseiros

Eu: dos livros não sei quantos nem como lês, tua letra não conheço

Tu:  tu escreveste um poema

Eu: falta tanta coisa! tu usas dois? eu preciso de três

Tu: uso um

Eu: somos muitos

Tu: o outro é companhia para o outro

Eu: muitos travesseiros muitas histórias. Conheço isso. Eu preciso de três: os meus me atropelam de noite

Tu: tu estás me contando uma história fascinante

Eu: tenho que levar a Ônix, e te cuida te cuida te cuida

Tu: estou apaixonado por ti

Eu: vou comprar mais maçãs e pensar em ti. Te imaginar mais e mais no dia que é amanhã à tarde à noite e na madrugada. Um dia te encontro com a lua.

Eu também estou apaixonada: ontem de noite tinha lua crescente e a noite era cálida. Passeamos um pouco sem medo, Ônix eu, mas quando vi um carro do outro lado da lagoa entrei depressa no edifício. Essa coisa do medo! Já tive medo de ti. De nós. Elizabeth M.B. Mattos – editado em junho de 2018 – Torres – ventaventaventa, ontem foi verão, de dois dias verão. Hoje ventania, amanhã, de certo já o inverno.

“[…] deveria ter-me lançado na realidade – na dura realidade que não admite sonhos. Eu deveria ter recomeçado de baixo e ter subido novamente até as alturas – mais alto ainda do que antes, apesar de tudo o que tinha acontecido. Sra. Borkman Balançando a cabeça e olhando –a com um ar professoral.  – Nada de novo acontece. Aquilo que já aconteceu também não se repete. É o olhar que transforma as ações. Um novo olhar transmuda antigos atos. (Interrompendo – se).  Mas, você não compreende nada disso. – E é esta a minha maldição: não ter nunca encontrado uma única alma que me compreendesse. Talvez uma. Mas há muito muito tempo atrás. Numa época em que eu não imaginava um dia precisar de compreensão. Depois mais ninguém. Ninguém atento o suficiente para, estando de vigília despertar-me – para soar com o sino da manhã fazendo-me renascer alegremente para o trabalho duro e convencendo – me de que eu não tinha feito nada de irreparável ” (p.67) John Gabriel Borkman  Henrik Ibsen – Editora 34 – 1996

Linha de Sombra

A liberdade não está ao alcance, ao alcance das mãos, da cabeça, mas solta no íntimo da alma. Não domino os sentimentos que me afastam, ou aproximam desta ou daquela pessoa… A natureza de ser / ter / estar se altera no cansaço, no corpo físico, e por dentro.  Escrever sobre eu mesma, ou como sinto, enxergo ou me vejo, formatar um dia em palavras, difícil, abstrato embora descritivo, e definitivo: um exercício. Volto a um velho texto de um velho livro: “Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não – humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder – se – ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta … até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório. ” (p.35) Davis Cooper, – Psiquiatria e Antipsiquiatria, – Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo 1967

 

Domingo

Acordei cedo. Acordo cedo porque durmo muito cedo. E mesmo se não durmo imediatamente, eu me enfio na cama para que a noite passe mais depressa. Não penso em preencher o tempo escrevendo, lendo, pensando, ou vendo um filme. Acabo não vendo filmes nem televisão. Tenho sempre a preocupação de fazer o que preciso fazer (limpar / cozinha / caminhar / lavar e pendurar a roupa, depois passar), e também a leitura, o vício, ou escrever. Tem um ANTES tão grande que só ligo a televisão se estou com sono. Ouço notícias aterradoras e mais uns minutos desligo, não penso nada, e não faço nada. As notícias do que acontece assombram…

Antes de pensar em alguma coisa eu me enrolo numa manta qualquer e desço para o gramado com a Ônix, – ela é comportada e companheira, se não levo é / acho mesmo judiação não pensar nela, penso.

A ideia de escrever sobre um dia chegou enquanto lavava a louça, depois do café, depois de fazer mil pequenas coisas…

Depois, mas vou contar.
A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que nosso coração almeja são longas. ”

 

Março 2004 – Páscoa

Balonismo depois do furacão Catarina que assustou, assombrou Torres. Fui demitida da galeria Garagem de Arte no dia primeiro de abril, e não era uma piada. Engasgada gelada assustada avisei filhos, irmãs, – faço o registro do medo, mas logo pensei: novos tempos novos rumos. De certa forma atordoada assustada, mas livre (havia escravidão peculiar a servir/ter chefe e metas a cumprir) então, estava, desavisadamente, aliviada, e sem rumo. Agora conto a história de ser marchand em mar aberto … sigo o rastro deste recomeçar, ainda outra vez, tantas vezes recomecei. Sair das cores. Da magia, da vida de amigos pintores, colecionadores, artistas …  Por algum tempo toquei na luz.

“E o tempo também caminha – até que se percebe logo adiante uma linha de sombra avisando – nos que também a região da mocidade deverá ser deixada para trás”.

Voltei para casa, para dentro de mim mesma, desertei da vida porto-alegrense, e me perguntei, e agora? Dar as costas para aquele mundo foi um ritual de passagem. Conheci o paraíso de ser eu mesma depender apenas de mim, … e cheguei ao inferno do medo.

“ Mas eu não senti receio. Eu estava suficientemente familiarizado com o Arquipélago por aquela época. Paciência extrema e extremo cuidado me levariam através desta região de terras quebradas, de ares tênues e águas mortas até onde eu sentiria enfim meu comando balouçar nas grandes vagas e inclinar-me com o grandioso sopro dos ventos regulares, que dariam a ele a sensação de uma vida mais ampla, mais intensa. A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que o nosso coração almeja são longas. Mas esta estrada meu olho mental podia ver num mapa, profissionalmente, com todas as suas complicações e dificuldades, mas, ainda assim, bastante simples de certa forma. Ou se é um marujo ou não se é. E eu não tinha dúvidas de que era um deles. ”

Como eu me senti quando cheguei a primeira vez na galeria? Não sei dizer, mas Joseph Conrad soube explicar:

[…] “, eu sabia que, como algumas raras mulheres, este navio era uma daquelas criatura cuja mera existência é suficiente para provocar um prazer desinteressado. Sente-se que é ótimo estar no mundo que ela habita.  […]. Meia hora mais tarde, pondo meus pés em seu convés pela primeira vez, fui possuído pela sensação de profunda satisfação física. Nada poderia igualar a plenitude daquele momento, a integridade fantástica daquela experiência emocional que chegou a mim sem preliminar fadiga e desencantos de uma carreira obscura. ”

Eu me desligara da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) com a ideia de me aventurar em Belo Horizonte, pois é, uma vez tive tal enlouquecida e amorosa ideia de ser mineira, e comecei a tecer planos que se desfizeram diante da morte de Sonia Maria (minha querida, preciosa amiga mineira). Foi tão estranho e doloroso! Tudo se enrolou numa rede de fantasia, e de repente, não era mais nada para ser daquele jeito. A morte é definitiva; sinal de limite. Estranho! E minha vida tem estes sinaleiros, anjos, ou faróis a mostrar o caminho…  Não, este lugar não te pertence, nesta ilha não podes descer, este homem não podes ter. Este jardim não é teu. Foi sentimento, encantamento e magia. A galeria Garagem de Arte. Lentamente o amor cobriu o espaço inteiro, e eu estava viva como que hipnotizada pelas esculturas. O mesmo sentimento de pertencimento que senti com os alunos do Colégio da Providência no Rio de Janeiro. Um passo e já fazes parte. O encanto da chegada, e depois a demissão. Posso lembrar dos dois dias. Carteira de Trabalho assinada e aquele podes ir emboraHoje, agora. E a vida tomou outro rumo. O imprevisto. O gozado e o estranho…  Sabia que alguma coisa tinha mudado, e tinha a tal moça – secretária rondando, uma cilada? Talvez. Então não foi surpresa, foi previsível, mas assim mesmo fiquei em choque. Sair e dar as costas, ir embora. Ao manejar o veleiro de Conrad e levantar a cabeça, – faço uma leve analogia com o curso da vida em determinado momento (assumir a galeria, e ser demitida de supetão): como estar em grande tempestade, mas não se pode desistir, ao contrário, é preciso ficar mais forte, mais destro, mais corajoso. Assumir e agarrar a vida. Eu nunca pediria demissão, não ia fazer isso comigo. Eu já tinha abandonado o meu concurso do magistério no Estado num gesto de rebeldia e prepotência. Eu já tinha sido gentil e tolerante. Eu já tinha usado da humildade. Eu já tinha sido Beth, agora eu era Elizabeth, não contestei naquele momento, contestaria mais tarde, no momento certo. Contenção de despesas foi a boa explicação.

Eu era ainda suficientemente jovem, estava ainda demais deste lado da linha de sombra, para não ficar surpreso, indignado com tais coisas. ”

Eu teria que recomeçar. Retomar. Eu ia começar outra vida, como Isabel ou como Liza. Tinha sido contratada no dia 10 de julho de 2001. Saída efetiva na Carteira foi no dia 5 de abril de 2004.

Havia no ambiente uma estranha tensão que começou a me deixar incomodado. Tentei reagir contra esta vaga sensação. […]

No rosto daquele homem que eu julguei ser muitos anos mais velho que eu, tornei – me consciente daquilo que já havia deixado para trás — minha juventude.  E isso isto era realmente um parco consolo. A juventude é uma coisa maravilhosa, um poder incrível — enquanto não se começa a pensar a respeito. Eu senti que estava começando a ficar consciente de mim mesmo. Quase contra a minha vontade assumi uma melancólica seriedade. ”

Reencontro com Joseph Conrad – A Linha de Sombra: (The Shadow Line) – Uma Confissão (155 páginaspode ser relido, repensado)

Encontro o passado enquanto procuro acerto. O computador é o armário mais abarrotado e surpreendente que jamais tive… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

Última obra-prima escrita por Joseph Conrad, A Linha de Sombra (1971) marca o limite – tão indefinível e incompreensível, quanto inquietante e doloroso – que num determinado momento da vida configura, de modo irrevogável, o fim da juventude.

Duva Tavares Sejas bem vinda, velhice. Que venhas leve, que me sejas leve e dócil; e o computador, o armário-guarda-roupa soft e hard ware mais bagunçado da minha vida

o jogo

Obstrução! Palavra chave para atrasar! Arrastar, estrangular, dificuldade! Haja! Será que o jogo importa mais do que resultado? Ou soluções? O JOGO importa, tens razão! Beth Mattos

Sonia: tão pouco! ‘ toda saudade uma espécie de velhice’ diz/escreve Guimarães Rosa

Citamos todos, tantos, colorimos a conversa matutina. Tempo! Dou-me conta: todos, todos eles. Os inquietos, os corretos, os subversivos, os revolucionários, os mansos, também os incertos incautos, tanto os absolutos como Jorge Luis Borges!, nenhum escapa do amor. De amar o amor mesmo em mirabolantes  metáforas, pelas beiradas e até nos escondidos. Ernesto Sabato faz/conta/explica agita a jornada. Perdoar depois de purgar a culpa disse André. E somos culpados desde sempre. A culpa está em toda e qualquer diferença… E por qual desvio devo chegar / andar para encaixar na paz marota de aceitar e perdoar. Arar o campo, plantar margaridas e laranjeiras. Eu me surpreendo, morosa no Grande Sertão: Veredas. Voltei. Deixo O Linguado, entro aturdida noutra guerra, outro dizer, e no final, o mesmo amor repetido que carregamos, minha amiga.

” Que é que de verdade a gente pressente? Dúvido dez anos. Os pobres ventos no burro da noite. Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas, a poder de minhas rezas. Ahã. Deamar, deamo… Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.”(p.68)

Como pode alguém dançar assim nas veredas (caminhos, ruas e picadas), e dizer em prosa poetando a verdade intocável, verdadeira e sentida… e os escondidos: ‘Minha mulher que não me ouça’. Penso: o que mais tenho medo e assombro?! Da verdade inteira, do amor, da entrega, de dizer ‘eu te amo’ e tanto! (Assusto o amor!). Não sei quanto tempo, nem alongo este ‘Eu te amo’!, logo será diferente, nem tanto,  quem sabe para sempre…(um espanto!). É isso. E o corpo gira no girar da tonteira. Depois passa. E lá se segue outro rumo, ou se chega em Torres na saudade envelhecida de Guimarães Rosa. Depois de conversar corrido o que vou ler nesta pressa. Não não cheguei no Ulisses de James Joice, corajosa que és. Não passei pelo tempo perdido, não todos os volumes, nem esgotei o amor de Proust, e ninguém esmiuçou tanto e tanto o verbo amar. Pecados, meia verdade. Obscenidade, feiura e descaso. Alopração de vida corrida!  A pensar, amiga!

“‘Tem discórdia não, Riobaldo amigo, se acalme.[…] Mas, se você algum dia deixar de vir junto, como juro o seguinte: hei de ter a tristeza mortal…’ Disse. Tinha tornado a pôr a mão na minha mão, no começo de falar, e que depois tirou; e se espaçou de mim. Mas nunca eu senti que ele estivesse melhor e perto, pelo quanto da voz mesmo repassada. Coração – isto é, estes pormenores todos. Foi um esclaro. O amor, já de si, é algum arrependimento.Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros.” (p.69) João Guimarães Rosa

Da conversa de ontem, teclada, apressada, da conversa de hoje. Deste morno e quente dia que se diz inverno eu penso, cruzo  sentimentos. A caminhar devagar, a pensar e me digo/repito ‘por que não aprendo?’ Ana tem razão: por que não aprendemos o caminho e reconhecemos armadinha e desvio? Por que repito e sofro e não agarro, não termino no beijo, ou na raiva, no abraço, no ‘não devo, não quero, não posso‘. Por que as cores mudam? E as peças não se encaixam. Desencaixam como no engenhoso lego: colorido, estupendo. Eu me escondo. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

…,outro tempo, tanto tempo!

…, outro tempo, tanto tempo!

Torres,19/03/99 00:46:28

Tenho certeza da emoção deste momento: saudade do pai e da mãe: do jeito que deram para a vida que não levaram, (há uma potencialidade grande! Tão grande! Enorme a vida, não damos conta, eu acho. Fica- se a querer mais e mais, eles podiam seguir, eu gostaria tanto! – Deixaram passar – como estou fazendo agora… Estou? Não sei se sei.

A vida que não levaram, o que pretendo dizer com isso? Pessoalmente acredito que a cada pequena escolha feita traz uma não escolha, um não viver. Acerta – se isso e aquilo, mas também erra – se aqui e ali, alguma coisa fica perdida na escolha. Como laranjas, deixo de comer uvas. O difícil de uma narrativa linear, explicativa são os desvios, as escolhas. Quando penso meu pai e minha mãe e penso, dou – me conta do pouco / ou muito que sei da vida deles, dou-me conta do mais e do menos. E tudo o que eu possa afirmar contém uma negação. Oculto e mostro ao mesmo tempo num fato, outros. Consciente ou inconsciente, este é o jogo.

Amor e ódio. Aconchego e frio. Enquanto o pai foi presente a mãe foi ausente ou ao contrário. Não há simultaneidade na história. Herói e heroína. Lembro dela costurando a preparar entre costuras (habilidosa e incansável) nosso pequeno enxoval de verão, eram dois meses cheios na praia de Torres. Lembro dele descascando laranjas no alpendre em invernos ensolarados. Lembro dos dois conversando, olhos arregalados e verdes os dele, os  dela instigantes e vivos olhos castanhos. Das discussões. Das presenças. Tenho a nítida sensação que um empurrava o outro para a vida. Roberto, gentil e doce, Anita, generosa e exuberante. Como posso descrever o avesso? As parciais e honestas confissões: as dele, e as dela. Não consegui segurar todas. Registro uma carta do pai:

Torres, 9 de dezembro 1988

Minha filha querida Elizabeth

Acabo de ler tua carta, caminhando pelo calçadão da Prainha. Dia fechado, chuvoso, mas enfim é Torres e aqui quero passar meus dias revivendo minha vida, tão longa e plena de lutas para sobreviver com dignidade junto minhas filhas e minha mulher. Nunca fui Juiz e todo o meu trabalho profissional foi pleno de ‘pareceres’ […]. Sinto-me gratificado vendo hoje minhas filhas, independentes e com personalidade para darem, também, aos seus descendentes o exemplo de compreensão e coragem na luta do dia a dia que tanto exige de cada um de nós. É engraçado como vocês três são diferentes, herdeiras, cada qual, de nossos defeitos e qualidades…

Mas para meu orgulho são amigas e é o que espero nunca deixem de ser. Cada uma de vocês precisam muito uma da outra e é tão bom ter um ombro para se encostar a cabeça…

Chega de arengas do velho Pai… Dia 15 mandarei pelo Correio para a Caixa Postal 102 de Rio Pardo o meu presente de Natal para os netos “grandes” 30.000,00 para cada um, em cheque aqui de Torres que colocarás em cobrança no teu banco. Tudo de bom para ti, Jorge e filhos a benção do Roberto” 

A explicar os netos “ grandes “, se refere aos meus três filhos do primeiro casamento, Moog, como já sabes. Tenho cartas do pai, outras poéticas da mãe. Sigo a te ler e a indagar. De repente entro pela noite pensando nos alunos: o jeito de fazer crescer, botar água, um pouco acreditar na leitura, outro pouco a crescer… Na verdade o que, lá no fundo, morto já está, sem saída, amarrado, esquecido, pouco vale. Mas não digo isso. Tenho alunos / boa dádiva. Desdobro a conversa: grito, faço teatro, nem respiro. Chego cansada – perdida.

Volto a pensar no tempo em que F.T. estava/ficava aqui, e eu podia discutir, convencer, recuar, aceitar, e brigar para depois escutar, continuar a pensar. E tudo já te contei do Tavares, cartas perigosas, raivosas e ferventes. Inclusive, como o conheci na casa de Iberê Camargo. Tralhamos/ trabalhei no livro Gaveta dos Guardados, manuscritos que nos foram entregues, aos dois tanto Iberê confiava, para serem transformados em livro. Iberê em seus últimos dias de vida. E toda uma polêmica pressão sobre esta edição que acabou nas mãos da Edusp (mas esta já é outra história com tantas interferências! Mereceu discussões via jornais de Porto Alegre, São Paulo e Brasília. Cito página 84 / Gaveta dos Guardados, sei que tua crítica é severa, suavizo:”Agora tu e eu aprendemos a dissimular, a enganar, para que o amor sobreviva. […] Por muito tempo vivemos felizes. Mas um dia se desfaz o misterioso laço que une os amantes. O vento da desesperança, de que fala Mário Quintana, soprou entre nós e nos separou. ” Iberê Camargo, no conto intitulado: ela mora no outro lado do rio. Sabes, e gosto. E volto. O curioso que na carta que me escreve Iberê menciona “O vento da desesperança“, transcrevo:

 

“Porto Alegre, 7 -5 – 1988

Cara Beth

Tu não escreves mais. Teu silêncio me faz pensar no Vento da Desesperança de que nos fala Quintana. Este vento que ninguém sabe onde mora e de onde vem, vento que uiva como cão, que sopra sobre os charcos, que enraivece o fogo e propaga incêndios, que sopra sobre tudo podre, morto e ruim; este vento separa os irmãos, os amigos e faz com que não mais se vejam, não mais se falem e, tudo isto, sem explicação ou razão. Ele transforma o amor em ódio. Ele apaga a vida. Será, Beth, que este vento mau soprou sobre nós? Desconfio que ele nasce e mora no coração do homem. Com afeto, o Iberê”  Deve ser o exercício que me imponho visto que romance não escrevo. Droga! Então!Tudo te conto, e repetidas vezes Paulo, eu te conto. Perdoa. Escreveria um livro de / com cartas, fragmentadas, deste jeito mesmo. Curiosidades. Em 1974 no Rio de Janeiro Iberê expõe guaches na Galeria da Aliança Francesa de Botafogo. Vianna Moog começa sua coleção de Iberês. O atelier da rua das Palmeiras em Botafogo inaugurado em 1972. No intervalo de uma aula de francês conheço o pintor Iberê Camargo e Maria, sua mulher da vida inteira. Aqui segue fragmento de outra carta. Saudade do amigo, também sinto. E já sei porque me  repetes: preciso caminhar sem muletas, sem Iberê e sem Tavares. Mas…, transcrevo:

“(…) encontraste felicidade nas coisas simples: marido, casa, arvoredo, gado, e para alimentar a tua fantasia, as nuvens que, nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras.  Reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste? Também gosto da vida da campanha — bem a conheço –, vida arrastada, modorrenta, feita de dias longos, demorados. Em Porto Alegre também há muito remanso, muito sossego. Mas eu não me deixo adormecer na modorra. É preciso estar atilado, se não, a gente vira coisa, morre por dentro. Tenho saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas e dos carrapichos que jogava, por judiação na corujinha da minha irmã preta. Hoje tudo isso é lembrança. Eu também sinto falta dos amigos do Rio, não da cidade. Tenho trabalhado muito, de sol a sol.” Iberê 

Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos. Nostalgia ao reler a carta. O tempo da campanha foi paz, e crianças; depois tempestade. Somos nós que mudamos, ou a vida nos surpreende e atropela? Ou se desdobra mansa…

Abro o livro outra vez:  Saudades de Voltaire. Como me agrada tanto! Começo pelo começo, volto para recolher pedaços. Obrigada pelos volumes que mandaste. Chegaram a/em tempo. Os alunos estão a ler também O caráter de Jesus e Juventude. Eu já te digo que muitos olham aflitos, e me perguntam se é só ler e depois?! Ainda não cheguei no depois.  Começo, na madrugada, o trabalho pela leitura do teu Voltaire, Rio Grande. Bobona!! Agora há que se dizer e ter escolaridade nesta leitura. Ler, ler, apenas ler?! Como explicar/incitar fazer trabalhar e desdobrar a leitura? Cada turma um livro diferente. Com Paulo Hecker Filho, instigados. Flávio por conta de Memórias do Esquecimento, livro que também foi lido em sala de aula, fez uma sessão de autor presente, um debate em sala de aula, virias a Torres? Quero botar uma vida inteira na panela do feijão. Citações da minha leitura, teu livro.

“Esse apego, a seguir, busca se apoiar nas doçuras do campo, que não são poucas (nem as amarguras), dando vez a um bairrismo que inclui uma falsa imagem de autonomia e dignidade. ” Donde sai este gaúcho descrito como é / ou pensa ser. Ou sou eu a ler o que escreves como reza de catecismo certo? Bem, eu morei na fazenda, em Rio Pardo, sabes, senti as coisas do verde, das curvas de nível, das porteiras. Tomei do ar e, na intuição escrevi sobre exclusão. Encaminho no final. Parte da minha narrativa perdida…  A reacionária gaúcha sem nunca querer ser gaúcha, renegar, bater pé e fugir. Ignorância no assunto dos sem-terra, na luta pelos excluído e incluídos. Gaúcha a se pensar carioca, mas sempre gaúcha, adorei estes teus versos!

“[] há um vestido por ano,

        há sexo de todas as maneiras,

        ou não há, nunca se fala disso.”

 Leio, releio e vou em frente, penso e não digo, escrevo. Vontade de conversar. Já sei, nada de café. Nem água. Muito menos cerveja ou destilados. Então releio tua crônica:

“Vá que a ideia de afrontar qualquer poder é antes romântica e conduz à imoral tentativa de submeter os outros. Mas acresce a pessoa a noção de resistir sem reclamar, de enfrentar por si o adverso, de buscar se respeitar enquanto homem. ”

Volto ao tema/tempo: sinto saudades de pai e de mãe, de colo e do mundo que era deles, nunca meu, – sou espelho. Resvalo na literatura citada pelo / no teu livro. “Simões Lopes Neto, ou O Continente com Ana Terra (mulher) Antônio Chimango, Fronteira Agreste.” Agarrada ao Érico,  metódico, triste ou melancólico. Lembro bem dele. Quero voltar, repassar encontros com a Mafalda, com a Olga, a Reverbel: fofocas, com mel com fel. Se abrisse um parêntese aqui seria outra história de Porto Alegre, de Petrópolis de Porto Alegre, histórias deles. Não minhas. Conversas que muito bem dizes / explicas na crônica EU GOSTO. Passo a poesia, mas fico nos versos, procuro tua prosa. Choramingo a beleza, e me incluo:

Mas o povo não gosta de poesia. É gênero difícil, que exige iniciação, exige familiaridade com o sentimento e o êxtase. E quem tem sentimento? Quem tem êxtase? Bem poucos, Deus me perdoe. ” (p.24) Paulo Hecker Filho, in Eu Gosto

E lá estou eu entre os que não leem a poesia nem sentem o gosto deste todo que pode ter – preconceito – dificuldade, abandono de que pedaço? Nas prateleiras os poetas não lidos. Não gosto. E gosto dos teus poemas, todos que leio, e então eu me sinto em casa. Fernando Pessoa é claro, tudo, inteiro. Alguns outros. Poucos. O que eu fiz do meu tempo por que não posso escrever “sou antes da casa e, em particular, da cadeira em que leio...” Suspiro inquieta. Fico outra vez querendo te dizer, contar, resmungar no teu ouvido e querer saber se todas as coisas inacabadas. Minha cura da doença deste silêncio deste viver no faz de conta em que vivo. E gosto. Da gente toda que eu toco na lembrança, por telefone, num encontro casual… Fantasmas que caminham na memória. E os nomes significam, quase todos.  A revista Crucial mencionada(tem alguns volumes perdidos aqui…), Vera Mogilka Josué Guimarães segurando a mão da mãe no hospital, entre a vida e morte de uma morte que houve, nós sabemos. José Otávio, Tânia Faillace e sua primeira edição apadrinha por Érico (isso é o que dizia), Luiz Fernando Veríssimo humor e genialidade com o seu Pedro Veríssimo, e eu com o meu filho Pedro Vianna Moog. Encontros de conversas silenciosas e gordas. (Acho engraçado existir um Pedro Moog, um Pedro Veríssimo selando amizade de tantos anos!) De Antônio Carlos Resende para quem não voltei a encontrar, por quê? Li os livros todos embora guarde preferência pelo O rapaz que suava só do lado direito (1979) e Magra mas não muito, as pernas sólidas, morena (1977) – Antônio Carlos Resende, também gosto. Consegui que fosse a Santa Cruz do Sul, por estranhas coincidências, amigos/primos em comum. Sociabilidade. Podia insistir, telefonar, escrever. Silenciei. E tu ficaste aí plantado deste lado de lá como parte, já te disse, da família do lado de cá. Coisa estranha! Medo feio destas coisas que não sei, não se acabam. Ficam. Por quê? Conversas nas frestas do verão.

Curiosidades! Digo que se gasta em jornal, não acrescenta. O Moacyr Scliar que morou na Vitor Hugo 229, surpreso com a surpresa coincidência me deixa ir / voltar a entrar na casa que hoje pertence ao cunhado. Os acasos, depois da palestra na ULBRA, jantar na beira do rio Mampituba, confraternizar e homenagear o autor convidado. O tempo se revira. Na conversa descobrimos a casa da Vitor Hugo em comum. A casa que conheces por conta da Anita e do Roberto. Eu era criança (risos). Tudo radiografia…

Outra curiosidade da vida foi trabalhar na galeria Garagem de Arte e já ter feito, aos 18 anos, entrevista com o Xico Stockinger publicada na Revista do Globo.  Queria que tivesses avaliado. Walter Galvani, depois, publicou na íntegra, no jornal Folha da Tarde: por simpatia, galanteio, como flores, eu sei. Vaidosa, como gostei?!!!! Estou nostálgica! Sérgio Jockymannn e o Celso Gutfreind, citas na crônica. Claro, eu gosto. Tagore está na lista preferida. Liliam Lemmertz! Vejo na casa, outra vez. Lineu Dias – eu sei. Ao ler teu livro volto a todos com saudade. E a correspondência embrionária de tudo. Adoro cartas! Já sabes! Adoro teus poemas, tuas crônicas. Eu te gosto. Já sabes também. Cartas são o embrião. Quando releio outra história comprida e bonita! Enfim! No final é pobre. Pobre! Tudo pobre e coincidente?!!! Que doença é esta que me toma quando eu te leio? O que é isso que tenho amolecido, sem forma, apenas quero pedaço do que já foi porque o fazer não se faz, acontece. E fico lenta, quieta, espreitando a noite. Quero carinho, aconchego, sinto saudade e arrependimento. Tristeza grande, outras vezes pequena, e uma solidão, engraçada, tumultuada pela fantasia louca daquele passeio entre tecidos que são os quadros, tu sabes. Os quadros daquela pequena galeria da Coronel Bordini. Renderam um conto. Este já leste.  Longe da minha vida de agora a lembrança segurando um tempo esquisito de esquecer, duvidar e nada ter. O que eu quero eu não sei. Agora, hoje, eu queria poder te escutar, ouvir… Não. Eu preciso continuar a ler e preparar a aula do novo milênio que repassará o gosto de ler, escrever… Estudar, continuar. Não parar. É isso.

Segue o texto escrito sobre aventurar – se no outro mundo a inteligência for desperta para o puro prazer do prazer. Este, ainda não comentaste. Elizabeth M.B. Mattos – carta para Paulo Hecker Filho com quem mantive correspondência e amizade – julho de 2019 – Torres

Quem são os excluídos do prazer? (Título e texto, provisório)

O prazer, a libido dentro do homem, o nosso prazer sexual, cultivado; não segue apenas o instinto. Desenvolvemos a sexualidade como desenvolvemos a intelectualidade e todos os nossos potenciais. O uso da inteligência nos qualifica e o uso da sexualidade nos amplia, nos potencializa como seres humanos completos.

Desenvolver a sexualidade, usar a sexualidade, saber o prazer depende da possibilidade intelectual de cada pessoa, da complexidade do homem, da interioridade do homem, para não radicalizar afirmando: depende da nossa inteligência. Os menos favorecidos socialmente terminam por ser os excluídos do prazer pois abandonam muito cedo as potencialidades do próprio corpo. Desenvolvem uma sexualidade limitada na própria necessidade de sobreviver e não viver. Menos preocupados com os limites do eu e do corpo se abandonam. Esquecem quem são eles e o que poderiam vir a ser. Não há, assim, completitude, mas deformação.

As pessoas que não desenvolvem potencialmente a inteligência terminam por abandonar a sexualidade. Abandonam a preocupação com o corpo, com os limites do corpo, abandonam o conhecimento interior.  Preservar a sexualidade, desenvolvê-la é preservar a completitude da vida: alimentá-la, usufruir não como um alívio de tensão, não como órgão de função mecânica. O gozo não se concretiza apenas nas fezes se compararmos com alívio premente. O gozo sexual transforma o homem pois atravessa a inteligência e aguça a sensibilidade. O sexo não é paliativo como o álcool, o cigarro, mas parte de enriquecimento (o requinte) do ser humano; trabalhar com a inteligência – o pensar – então o homem se conhecendo, sentindo, cresce.

O homem do campo, o operário comum não desenvolve este tipo de libido, não da mesma forma. Está bloqueado pelas necessidades primárias da sobrevivência. Não possui conhecimento do seu corpo e nem o explora. A inteligência fica bloqueada no trabalho mecânico do não pensar, não agir além do limite, apenas aceitar.  Trabalham surdos as próprias vozes e preocupados com o barulho do mundo, dos outros. Se estamos surdos ao olfato, ao gosto, a nossa voz, perdemos, também, a sexualidade.  Surda está a nossa sexualidade e estamos assim apenas metade de nós mesmos. O sexo se esconde dele mesmo, assim como olhamos sem ver, choramos sem sentir, comemos sem fome nem gosto falamos por falar, vivemos por viver, fazemos sexo por fazer.

O ócio, o não fazer nada com as mãos e com o corpo, a despreocupação diante do trabalho-fazer, olho-fazer pode ser parceria com o prazer, com o sexo, somente, quando a inteligência aflorou e desenvolveu no homem o sensitivo: sentir, ter percepção completa. O sexo pensa o sexo, o olhar pensa o ver, o nariz pensa o cheiro, a boca pensa o gosto, o corpo pensa o corpo, o homem se pensa. Pois que o ócio pode ser ópio, mas também a contemplação, a meditação. Seres especiais convivem e sabem do ócio, do corpo e da alma. A sensibilidade precisa ser aguçada e trabalhada em parceria com a inteligência.

O ofício, a ação mesma do homem, pode ser apenas a fuga. A igualdade entre operário e patrão, mas o excesso de trabalho termina no poder. O que é externo ao ser é pernicioso. Este poder pode ser entendido como o resultado do trabalho. Não o poder sobre si próprio, sua vontade: é um poder vazio, projeção dos outros. Assim, o excesso de trabalho, a contínua agitação física é a fuga. As grandes cidades e suas parafernálias são as caixas dos desesperados, solitários operadores: solitários porque esquecidos deles mesmos. Agitam-se meio as massas e jogam-se uns contra os outros nos brinquedos do barulho; desconhecem suas interioridades, limites. Os que possuem a sensibilidade criadora de se fazer homem encontram o prazer. Possuem o conhecimento essencial para a explosão da sexualidade e longevidade. O homem do campo, reconfortado com a natureza do mundo, com o ar, com o verde, e com outros animais encontra diferente paz, diferente prazer… (Pretendo ampliar e explicar um pouco mais, depois te encaminho o definitivo.) Trabalham a sobrevivência, apenas sobrevivência, esquecem a sexualidade. Abafam inquietudes interiores no trabalho físico, exaustivo. Abafam a própria potencialidade da inteligência. Não mais pensam, apenas são conduzidos por necessidades evidentes.

O sexo banalizou-se como o consumo de drogas: fuga. Descarregam a libido por outros meios, a cada um, uma saída. O sexo banalizou-se através do olhar e das urgências, sem tempo, sem hora, sem vagar não pode haver sexo.

Barbarela, a máquina de fazer amor que pode ser a televisão, o computador, o cinema, o livro, os jornais, as ruas, mas nunca duas pessoas. Solitários, esquecidos do sexo, da cama e dos murmúrios do orgasmo afundam: morrem em vida. Elizabeth M.B. Mattos.  Torres, 24/10/1997 19:03:17.

 

P.S. Os homens esquecem a medicina do sexo. Fugindo do prazer, fugimos da própria vida, fugimos do nosso corpo e de nós mesmos; e nós nos entregamos à doença da sobrevivência. Estar vivo não é evidente, nem igual. A energia corre nas veias. Como são eles, estes outros? Como são eles?

 

Enquanto procuro um texto perdido nesta desordem do meu computador, encontro a velha carta para Paulo Hecker Filho. E já outros textos das cartas/ nas cartas trocadas. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres: tentando organizar o passado dos escritos.

 

 

 

2019-06-23 12.50.57

 

 

de olhar

Vendo (de olhar ou de vender?), ou deixo passar a vida por efêmero sonho. Indefinido sonho de criança. Velha, recolho sobras do tempo: tu e eu. O que fazes aí tão longe da tua vida de menino, de reencontro? O que faço eu nesta cidade senão borboletear! Brinco entre o café, o chá e o chimarrão. Esperar, sonhar, abafar, sai pesadelo… Impotência ausente, escuto tua voz. Cartas, malditas cartas que rasgam e espicaçam a vida amorosa… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

da madrugada

(…, coisa da madrugada)

Por que te escrevo? Porque estás a ler, e preciso de ti. Mas não choramingo. Não, não quero te pedir nada, nem que olhes nos meus olhos, passou tanto tempo desde o primeiro dia que nos encontramos! Já sei o que sentes. Estás acomodado/ instalado na vida, – e lembranças disparatadas te assombram. Já tens o gosto acomodado na memória organizada do reencontro generoso, e do pequeno prazer de ser tu contigo. Eu atrapalho. Mas repito, preciso de ti. Lembro como és envolvido, abarrotado de tarefas e exigências. Não quero te pedir nada. Mas não vou esquecer de nós dois. Então eu te conto como sou, porque não sabes, não podes saber tudo. Ainda não sabes (sorrindo). Mais ou menos agitada dispersiva quieta inquieta curando apalpando esquecendo. Mãos na terra cavoucando, mãos nas nuvens. Apago equívoco para te gostar do jeito certo de gostar. Escrevo a lápis, e vou e volto com a borracha. Espalho anotações. Amontoo prazer para te entregar, desordenado, mas nosso. Pega agarra. Sou desorganizada, tu não imaginas o quanto! Ficarias logo aborrecido comigo se eu te perguntasse dos óculos. E a xícara, o casaco (sorrindo) espero que não brigues comigo. Lembras quando deixei queimar a panela Creuset (maravilhosa!), e tiveste uma inundação em casa, um cano com problema num dos banheiros…  Estávamos juntos naquela confusão. Fogo e água. Aquela febre que não cedia, ardia. Perguntas inquietas, paciência. Teu sorriso. Estico o braço para tocar no abraço, depois vou recuando, não virás, não irei. Posso esperar. Não vais acreditar na vontade grande que tenho de te olhar quieto, retraído, tu também esperando. Outras vezes te sinto feliz, esparramado na cama. E sei que sentas para ler, escrever, vagamos pela nuvem virtual, estamos viciados. Vejo pouco televisão, saio pouco, e gosto de andar de camisola pela casa. Faço chá de madrugada, escuto música e respiro. Abro as janelas. Gosto do vento fresco da noite, e acho uma droga que envelhecemos/ envelheço…, afasto este desgosto e penso nas noites ao relento, respiro. Devem existir outras vidas, outras formas de prolongar /esticar porque não damos conta de tanto fazer e tanto sonho! A menina se apressa dentro de mim, espia e aguarda, dá gargalhadas quando me impaciento. Então espero ela adormecer para sossegar o espírito e agradecer. Afinal estás aí do outro lado, mesmo se choro, se suspiro, eu te tenho / penso, e sou feliz para poder derramar tudo no teu colo quando chegares.  E qualquer claustrofobia se desarruma quando me sinto feliz como agora. E volto para os objetos amontoados. O desfazer. Coisas me atrapalham, mas não consigo me livrar dos livros. Vou limpando uma estante depois a outra, decido que não lerei este nem aquele outro livro, jogo na caixa. Preciso separar os preteridos / esquecidos e dos que não me querem / rejeitam, dos amados, deste amanhã que ainda teremos. Fiz tantas mudanças ao logo do tempo! Estive a morar aqui e ali. Estes dias lembrei de Montevidéu, da casa e das tardes enormes, do leite do doce da boa comida, das bicicletas dos meninos em grupo com as mochilas nas costas, do fogo da lareira, do bom queijo ralado na massa, o bom vinho e a preguiça. Por que te conto estas histórias? Gosto que me escutas, gosto de te embalar. Enquanto digo/ alongo as palavras. Eu te beijo, e te aperto e assim mesmo fechas os olhos. Estamos um a pensar no outro. Cada um amolecido no próprio corpo. O meu falante, o teu silencioso e amoroso. Como os dias eram enormes, como viver tinha um tempo um tempo um tempo, como vou te explicar… E com tamanho de vida inteira. Sentia saudade das crianças, sempre senti saudade dos filhos, já te contei isso, na minha vida de ser gente grande, mulher, bem, antes dos dezessete anos eu queria apenas ficar gente grande e escrever, mas depois, – esqueci todo o resto. Comecei pelos bebês, pelas crianças. E agora quero te amar assim, devagar com os olhos, com o pensamento, com todas as estas coisas boas que guardamos um para o outro. Elizabeth M.B. Mattos março de 2018 / volto em junho de 2019 perdida no computador. Deves estar do outro lado a me esperar. Eu sigo em Torres, definitivamente.

sem data

Quisera ter amado mais, e não ver poeira na estrada, mas sentir o constante palpitar de saudade…  Ao ter teus braços no meu corpo estremecer. E o amor voltasse/fosse/continuasse. Oxalá não me sentisse vazia como agora. Quisera o beijo sem equívoco sem lamento. Não percebeste o particular encontro. Haja perdas! Tudo ficou menor. Jamais seremos Tristão e Isolda nem Abelardo e Heloísa. Jamais teremos o sabor da vitória ou da consciência: absurdo fardo carregas.

Assim, amar-te foi equívoco. Prosaica igualdade! Luta perdida, a tua, a nossa. Sempre haverá dignas diferenças e imundas lutas, vergonha, roubo! Que jeito sem jeito… Elizabeth M.B. Mattos (sem data)

 

 

morte norte

Se eu pudesse dizer, se eu pudesse abrir aberto este desejo fechado… Estaria, ainda uma vez, solta e livre. Olhos frestados, adormeço.

Lenta, lentamente, desço as escadas do viaduto, ao lado da igreja. Embarco, sem bagagem, no último ônibus. Sigo / vou rumo ao mar, aquietada desta saudade doente. E não estarás lá. Não estarás. Então, como me pedes, esqueço, não penso, adormeço.

Escondida nas letras, possíveis palavras. Caminho no escuro, possibilidade impossível. O o tempo inquieto espera. Tu e eu não esperamos, inquietos no tempo, olhamos através/pelo aberto olhar triste… Já passou. Outra vez a fechadura arrombada. Larga memória de uma lágrima.

Quando eu te escuto a ler poemas pelo fio, eu te vejo nas palavras. Ouço pela metade, escuto o aperto da tua dor. Quando te escuto, ouço o feitiço. Tua voz agarrada ao passado fechado, sem presente, sem fita nem surpresa… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2006