sem história

Tinham um jeito particular de sentir e sublinhar o tempo, mesmo confinadas, dividindo um pedaço de pão, e ou bebendo café preto, ou leite com chocolate. Às vezes era explícito, fácil, mas escolher o filme poderia ser atrito. A hora de lavar a roupa, ou passar, o tempo de ficar conversando na sala principal, os programas na televisão. Digamos que Mara poderia ficar um dia inteiro sem acompanhar as notícias, Lúcia fazia questão de saber do seriado. O tempo da noite corria solto com seu bom hábito de dormir tarde. Antes de duas horas da manhã impossível. Ao lado da cama uma torre de livros selecionados / a dificuldade para vencer estranhos temas impunham disciplina. Pouco costumada a dar explicações, ou abrir a coragem de querer ou não querer. Livre das decisões apressadas ou impulsivas, não era possível explicar como seria aquela semana… Não se apressavam, o tempo sim, engolia os dias.

– Vais ao cinema na quarta -feira? Pergunta Lúcia. Vou me organizar, responde Mara, mas acho que quinta feira também pode ser um bom dia, Celso pensou em fazer uma visita, não sei se daremos contas de todos os acertos, do projeto. Eu o convido. Mas se esta semana se agitar demais, não vou. Irei na outra, sozinha, numa sessão mais cedo. Quero passar a tarde conversando, bebericando chá, talvez faça um bolo. Queres sair conosco? (inacabado) Beth Mattos – 2019

de volta

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“Você diz que Londres é cheia de gente. Florença também está cheia de turistas dispostos a fazer valer seu dinheiro, correndo por todos os museus da cidade. Mas não importa porque todo o resto me reconforta muito. A arquitetura, a escultura, a própria terra, tudo é tão magnífico que estou curado. Devo estar – senão, por que estaria tão feliz? Esta viagem está parecendo uma peregrinação: Griffin Moss presta homenagens no altar de seus mestres. Ficarei mais alguns dias para ver as igrejas. Tive um sonho maravilhoso e sensual na noite passada. Eu estava no Palazzo di Medici , conversando com o próprio Lorenzo, quando você surgiu de uma parede de fumaça e me abraçou. Sinto sua falta. Griffin”  Nick Bantock Agenda de Sabine

Sinto tua falta. Como explicar? Aperto dolorido, sem sentido. Estou a procurar aquela Beth tranquila e passiva. Estou sem letras, sem texto, sem vontade. Não encontro. Talvez as paredes me apertem e o ar não me deixa respirar. Caminhadas inúteis, não me levam… Preciso do mar, da areia, do calor. Dos teus braços fechados no meu abraço. Preciso do dia colorido. Por que não me libertas? Parece pouco / pequeno e apertado. Não sei. O sono me acorda apressada. Eu corro e não chego: estou na mesma calçada. Eu te espero. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres ficou desproporcionalmente, enorme, gigante! Eu não consigo te alcançar.

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colorido

A magia se movimenta nas cores quentes do sol. Escrevo apressada descuidada. Derramo vontade distraída no teclado. Se deito cedo acordo tarde… A despistar ansiedade festiva. Escadas e frestas, música recheada de alegria. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

 

nunca mais

…não vou mais te dizer, tudo errado. Olhar insistente, esta mão que se estende. Não. Estás, livre, e surpreso. Contra tudo e contra todos… eu sigo o erro. Vou sair devagar, mansa e silenciosa, e vou voltar platônica e sonhadora, sem confundir o que sinto. Vou viajar naquele barco e dançar. Rir um pouco, e deixar passar o tempo, vou de goles e de sonecas em sonecas envelhecer, e nos sorrisos seguir. Caminhar… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

sem entender

“Num mundo onde tudo precisa ser instantâneo, rápido, sem esforço, sem observação, sem investimento de mim mesma no que faço, e sem dor, as pessoas escavam (ou abstraem) alguns pedaços da teoria de alguém, algumas ferramentas conceituais, e as passam aos outros  como “salvação”. Isso é charlatanice.” (p.45) Barry Stevens Não Apresse o Rio Ele Corre Sozinho

No meio da leitura, sonâmbula no sonho.  Desafeto. Fico encabulada. Depois, eu sigo a encher potes com chocolate.Não abro janelas, nem portas, e não falo. Escuto.

Dias natalinos. Absoluta liberdade. Vou pegar um barco e viajarei para MACAU. Meus passos. Beth MattosIMG-20191129-WA0017.jpgIMG-20191129-WA0018.jpgIMG-20191129-WA0013.jpgIMG-20191129-WA0001.jpgIMG-20191203-WA0003.jpg

excesso

Os cabelos eram, excessivamente, curtos.  E o sono pesado, ardido. Caminho com os olhos fixos na menina. Agarro a boneca bebê com aconchego e desço os degraus para o jardim: o quintal e o verde com gosto livre e doce. Vou para a calçada descobrir o brinquedo. E já estou colorida como ela. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

P.S. Toda austeridade representa coragem, não ser guarda o estoicismo de ser. O despojar a riqueza, o silêncio o grito a explodir no peito…

26 de abril

Há também o tipo que quanto mais leva tombos, quanto mais razão teria para só pensar em levantar -se, tanto mais pensa em voar e se entusiasma pela ideia. Isso, antes de mais nada, é gosto de contrastes e habito de contemplar – se. Ninguém que não tenha o vício de se encarar como a um outro – um outro importantíssimo tem a capacidade de se entusiasmar pelo prazer e a liberdade enquanto passa pelo sofrimento e a preocupação.” (p. 39) Casare Pavese O Oficio de Viver

Fragmento de livro lido e sublinhado e relido. Cartas / diário e textos / recortes voltam para entusiasmar o gosto travado de desencontro… Tanto gesto perdido! A escorrer o desânimo. Faz frio em dezembro, e o Natal lento vem para festejar os aniversários de todos de sempre. Vontade de se esconder atrás daqueles sonho valente de ainda querer ser… No entanto, já chegou a despedida heroica, e ou traiçoeira,  atenta. Beth Mattos

 

quero energia

IMG-20191203-WA0003.jpgRepresenta vida, a minha Valentina: avança na alegria clara. Acredita.  História da estória a se construir. Beleza plena. Concentração na/da luz. Volta no tempo/do tempo… Deveríamos estar a plenos pulmões! Como a pequena. Esbarro em fotos. Esta me agarrou / prendeu. E.M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

 

instinto de liberdade Yukio Mishima

O real, o histórico, o evidente me atrapalha, assim saio do contemporâneo, e me envolvo com oriente oriental, esqueço Macau…  Tramas apaixonadas: entrelinhas do ontem se esticam preguiçosas. Sem tempo, desespero, vou na emoção. Beth Mattos

Se os dois tivessem realmente se apaixonado naquela manhã de neve como poderiam suportar um dia sequer sem se encontrarem, nem que fosse por um ou dois minutos? Nada poderia ser mais lógico.[…] Por mais estranho que pareça, os que vivem só para suas emoções, como uma bandeira obedecendo a brisa, necessitam de um modo de vida que os torna esquivos ao curso natural dos acontecimentos uma vez que isso implica em ser de todo subserviente à natureza. A vida das emoções detesta restrições de qualquer origem e assim, por ironia, acaba por agrilhoar o próprio instinto de liberdade.” (p.108) Yukio   Mishima Neve de Primavera – Mar da Fertilidade Volume I

Marguerite Yourcenar escreve sobre  Mishima ou A visão do Vazio, em se tratando da avó: “A esse contato precoce com uma alma e um corpo doentes, talvez, ele tenha devido, lição essencial, sua primeira impressão sobre a estranheza das coisas. Mas, acima de tudo, ele lhe deveu a experiência de ser, de forma ciumenta e insana, amado, e de responder a esse grande amor. Aos oito anos eu tinha uma namorada de sessenta anos”, tal começo representa ganho de tempo.” (p.20)

impossibilidade

Esbarro e tropeço no impossível do possível. Sim. Com certeza poderia fazer acontecer, mas a certeza do não posso agarrada estremece a vontade. Corro pra me esconder, não importa que seja de mim mesma. Medo do desastre. Pânico. Não posso dominar, entender, ou simplificar. Não tenho esquina, nem acaso, nem desvio, nem certeza…

Será que as bordas da vida são barreiras? Perigo avançar. Que medo sinto das palavras! Se fossem apenas gestos…Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

mais

IMG-20191121-WA0001 (2) Já não basta escrever, preciso respirar. Inverto a necessidade. O campo, o céu, o mar e aqueles pássaros todos perseguem meu coração. Beth Mattos – dezembro de 2019 – Torres