Confessaram mentiras / equívocos do passado e de hoje, prometeram um amontoado de verdades oportunistas, e se casaram para segurança geral das nações. Céus! Das nações! Para não caírem nas próprias armadilhas. A se realizar o casamento regado,… reticências,… regado no conforto objetivo. E eu assisto o teatro no balcão principal. Céus! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres (risos) – ilusão faz bem…
Mês: fevereiro 2021
Flávio Flávio ou Flávio


Voar e pousar, voar. Deve existir rota, caminho, e a hora de chegar…, não tenho certeza. O nome Flávio não é o mais bonito, mas se desenha no imaginário, significativo: tem quase um rio no final, tem flâmulas e a vitória. Dá um nó cego nas histórias passadas, esquecidas. Misturado com narrativas descoladas/ coloridas… Impossível controlar, deixar de medir temperatura. O amor inesperado: afoga tudo. Joga no poço miudezas, deleta… Qualquer carinho dedicado a semente guardada, desnecessário… O vento traz de volta a mesma flor, o mesmo amor amado. Adormeço no silêncio.. Tão quieta! mas tão quieta mesmo, que é para sempre. Não ouço nada que não seja tua voz. Vou encolhendo mansa, sem reagir. Eu te amo. Entro no teu amor. Encolher nos braços amados do amado…Nunca antes esta energia: quero ser feliz. Aceitar a pessoa como ela é. Não tão magro como ele é, nem tão azuis são os olhos, sem ser verdes, são holofotes, os dele. O cabelo deveria ser loiro, claro, nunca castanho nem ralo. Os braços deveriam ser fortes, o corpo não magérrimo, mas aquele que vou beijar e abraçar. E as roupas seriam perfumadas. O corpo de tantos banhos de mar, de rio, das águas do meu corpo. Os sorrisos todos meus, sem nunca se aproximar de um telefone, nem teclar, nem ler, nem pensar, apenas me amar. Risco o nome de todas as outras mulheres e tenho o Flávio apenas para mim mesma, inteiro, completo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres
bastariam flores
Basta dizer prometo que a vontade se dilui imediatamente, sei que não consigo manter, minimamente, a palavra. Menina contrariada e infeliz. Infelicidade, palavra chave da imaginação. Apenas pessoas infelizes chegam ao poder da mágica. As felizes sucumbem em bobice. Eu concordo. Eu posso. Eu farei. Estou disponível, mentiras grotescas.
Sala escrupulosamente limpa, clara e despida. Disponível. A mesa retangular ocupa o canto esquerdo, e a luz ilumina. Cadeira majestosa embora tenha rodas macias. O som do piano.
Flores, todas disponíveis, perfumam: rosas prevalecem, algumas em botões, outras abertas, cravos brancos com algumas ramas verdes. Cortinas vermelhas. O uso dos tons avermelhados e acastanhados definem…
Ao rever/revisitar os textos, rasgo, impetuosamente, e sem piedade. O passado não pode se impor. Branco hoje. Transparente hoje. Enorme vazio, majestoso hoje.
As calças de linho branco, a camiseta tem/é de um cinzento desmaiado. Paletó branco, ilumina. Claro! Os sapatos, mocassins cinzentos, não usa meias. Unhas bem cortadas.
Os olhos se inquietam. Sofá estampado, dois lugares, daqueles que se transformam em cama. Lustre gigantesco se exibe com vários andares de pequenas luzes acesas, desnecessárias, afinal, o sol está mesmo acomodado. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres
efêmero, romântico e indecente
Adjetivos completos. Sentir o perfume e ver a luz no movimento. Tu ganhas um secretariado e pensas que o mundo te ama, te oferecem amor e tu cais na vala comum da indecência. O curioso das biografias está nas entrelinhas, o insignificante não merece uma vírgula, mas… As vírgulas definem o texto. Beth Mattos
clandestino
Vontade de te ver, tirar a cisma, tirar o medo, levantar a fantasia. Seduzir. Ficar presa na teia… não sou quem pensas que sou, nem és quem eu já não espero. Tu és o hoje, este agora possível. Faz dois ou três anos que nos encontramos/conhecemos, ao acaso… Eu tenho o jeito clandestino, escondido, sem contexto, tu também és clandestino. Temos medo? Medo. Do desastre? Da proibição. De romper barreiras. Vontade de te ver! Um susto e pronto! Olhar nos olhos, agradecer. Rir um pouco. Beber juntos café, chá, chuva ou whisky sem gelo, um vinho. Cachaça ou água gelada. Dos olhos cansados. Sempre um sorriso, uma ternura perdida. Deve existir o gosto de coisa boa, de audácia. Ah! Teremos que envelhecer mais e mais para nos proteger! Distraída. Claro! Depois de todas as pedras que coloquei em cima da história levanto uma depois da outra. Esforço sonolento, quase desanimada. Em algum lugar do passado eu te amei. Queria pegar tua mão. Queria te roubar do tempo. E te esconder na praia. Queria te descobrir. Esquisito! Consegues alterar/remexer meu humor. Da alegria pra irritação depois pra uma danada melancolia a se arrastar… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres

Bebermos café, chá , chuva ou whisky sem gelo, um vinho. Cachaça ou água gelada. Agarras a mania de assustar. Eu me agarro em nós dois juntos. Sustos voadores despencam e nos atropelam. Do complicado ao difícil. Foi tão forte quando nos reencontramos que ficou a sensação de intimidade de amor de todos os dias. Não combinamos certo/direito o dia do café… Medo? Do acaso, do certo, do hoje, do amanhã. Não do corpo, da pele ou do envelhecer. Dos olhos cansados. Sempre um sorriso, uma ternura perdida. Deve existir o gosto de coisa boa, de audácia. Ah! Teremos que envelhecer mais e mais para nos proteger! O risco de não ser quem sofre de inquietude, medo de virares as costas… De nunca mais ter desejo e gozo. De abrir o brinquedo proibido. De perder amorosidade latente. Ah! Se não houvesse o outro no meio do caminho! Sentaríamos na grama, deitaríamos nas margaridas e dormiríamos. A manhã/refrescou muito, esfriou mesmo. Eu me enrolei num chambre velho e desci com a Ônix. Distraída. Claro! Depois de todas as pedras que coloquei em cima da história, fico levantando uma depois da outra num esforço sonolento, desanimada. Quero entender e me confundo. Em algum lugar do passado eu te amei. Deves rir de mim. Aliás, teu jeito de ser… Pequenos e grandes pecados se atrapalharam nas redes amorosas. Eu sempre fui clandestina para amar o amor. Então, aí teríamos sido bem felizes. Não sacramentado, mas escondidos no sentimento roubado. Queria poder te socorrer nestas questões de grana e te libertar. Queria pegar tua mão. Queria te roubar do tempo. E te esconder na praia. Queria te descobrir. Esquisito! Consegues alterar/remexer meu humor. Da alegria pra irritação depois pra uma danada melancolia a se arrastar… Teu poder, maior do que a minha vontade. Tua brejeirice mágica. Por isso tenho vontade de quebrar tudo: pratos e copos e risadas. Jogar a insanidade pela janela, a se espalhar. Para começar tudo outra vez. Ah! Que loucura a vida em estado de paixão! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres
“O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou.”
Houve o esquecimento? As memórias pertencem ao esquecimento. Quem foi conferir o livro nesta última quinta-feira, dia 28 de outubro 1998, se impressionou. Por que as pessoas se impressionariam com a noite de autógrafos? Relato de trinta anos após mar de sofrimento, memórias esquecidas para serem lembradas / recontadas à mulher não tão misteriosa quanto divulga a imprensa. Comprei o livro e fui pedir autógrafo, como faria mesmo uma jovem fã que conhece / vive o conturbado momento político. Não o de 1964, atrapalhada com a maternidade. Aborrecida por ser rotulada de ignorante publicamente. Entrevistado por Jô Soares o autor escorrega em certos rótulos desnecessários, simplificados. A plateia de jovens desinformados como eu esfriaram o sorriso e o interesse; será que não podemos mesmo entender o que foi o GOLPE? A imprensa estava com o jornalista, o evento do livro revelador anunciado nas manchetes. Fui conferir na Saraiva Mega Store do shopping Praia de Belas. Palavra shopping impronunciável para o autor, convicções profundas. Quando me aproximei da mesa dos autógrafos percebo o motivo da demora/lentidão da fila, uma loira fabricada com seus trinta e pouco anos se identifica com Sharon Stone do filme Instinto Selvagem e se imagina sensual ou erótica, de certo algum efeito surgiu porque o zum zum atrapalhava tanto quanto as conversas divididas entre alisar os cabelos ou as mãos do nosso herói. Espetáculo armado e a dúvida, a qual dos dois pedir autógrafo? Sou mordaz, mas foi a primeira vez que tal concorrência em lançamento de livro, então registro. Desisto de entender a cabeça das futilidades, todos nos flashes e agito social, muitos se sentindo no direito de avançar sem entrar na fila. Os “olhos verdes-azuis ao sol” citados na introdução do livro resvalam nas palavras de Amoroso Lima: “O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou.” Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres

extraviada lembrança
Cartas se perdem / extraviam em caixas amontoadas a serem organizadas, catalogadas, relidas, e se perdem… sem som, sem a voz, cá estou a te falar, escuta. Ao telefone vou atropelar na ansiedade. Descubro que as pessoas estão mesmo vivendo cem anos! Assim, quem sabe, pode ser, nos veremos mais uma vez, sem medo. Impacto de tempo, antes regressivo, hoje animado. Olhar nos teus olhos, descobrir onde estás, aonde ficou, o meu príncipe? Aquele que invadiu meus domínios, contou histórias, enfeitiçou, seduziu e se foi… Nós nos escrevemos por anos e anos… Deixamos de nos escrever por outros tantos anos. Tu a caça de amores, do fantástico mundo das atrizes, do glamour e do poder. Da elegância, do mistério e dos caminhos iluminados dos holofotes. Eu fui me encolhendo por aqui, e terminei cariocando, amando o Rio de Janeiro. Abracei a coragem de viver a vida aos/em goles permitidos, possíveis, sedentos. No escuro e nas facilidades, seguindo a vida que não escolhi, mas vivi intensamente, confesso. Sim. O marido foi companheiro / amigo. E as crianças festa, mas tanta preocupação! Ternura. Outras vidas misturadas. Certezas e também um amontoado de desejos. Geraldo guardou a minha fantasia de alegre menina-criança, tão jovem! Tantos filhos! Exigente, eu também. Um dia depois do outro a esmiuçar a certeza desta completa proteção. Tínhamos o melhor. A vida se alargou com filhos, e se alargou no desencontro. Novos e inesperados amores apaixonados, cortes, dores. Abandono de certezas. Acordar no meio da dança, no centro do salão iluminado, entregue a música e ao giro, despidos. A nudez nos escandaliza algumas vezes, ou sempre. E a vida vivida / sacudida se desdobra. A vida vai nos arrancando as roupas… Expostos resolvemos cultuar o corpo, ou a beleza. Ou os livros. Nada resolve. Nem fantasias extravagantes escondem o que de fato somos. Somos pessoas desprotegidas, ignorantes, pequenas, assustadas e inseguras. Cegueira latente (se é que isso existe). Sentimentos contraditórios se amontoam a nossa volta como se fossem roupas a serem lavadas, dobradas, ou passadas, ou poeira, ou terra: surpresas espalhafatosas. Ah! Como é difícil viver! Entender a vida e chegar ao sensato modo de respirar. Nem respirar apreendemos. O exercício do corpo se perde nas elucubrações destemperadas dos sentimentos.
Tu me pediste para contar/dizer/ escrever da vida. De como vivo agora, hoje. Como se passaram estes anos, ou como eu sinto a vida hoje. Fiquei mentalmente organizando e a pensar o dia. A descrição. O momento. E sendo tão igual a todas as vidas a minha se encolhe, se alarga quando te penso.
Moro num apartamento pequeno. Iluminado, envidraçado. Janelas para todos os lados o que me permite ver a lagoa, água e terra, e verde. Também a serra deste lado se desenha. E o céu, esteja onde estiver, inclusive, da minha cama posso ver estrelas… Muita luz, excesso de sol, de chuva de vento. Como se eu estivesse numa bolha. Já te mandei fotos de todas as janelas. Lembras? Não gosto de cozinha integrada, americana, mas não tive escolha. Tenho uma pequena cozinha integrada. Uma sala com livros, mesas com livros. Cheiro de livros. No quarto menor, uma cama pequena. Ali também a janela se abre para a buganvília e os verdes da jardineira (hoje malcuidada, faltam flores, grama, ou sei lá…), e tenho estantes nas duas paredes, livros. O quarto maior tem uma antessala com livros, cômodas e mesas e as caixas, tantas caixas! Subo um degrau e lá está a cama grande. Na parede quadros, retratos, meus, da minha mãe, aquarelas de mulheres, desenhos: pequena galeria. Já deves ter visto no Amoras muitas fotos. Neste quarto um envidraçado em ângulo, luz: a cidade grita desenvolvimento: vejo torres de edifícios, iluminação de ganância. Não imaginas quantos edifícios! Cidade grande, ou quase… Não podes acreditar. O mar está há umas quatro ou cinco quadras daqui. Inventário. Lagoa do Violão, a Serra do Mar, areia, cheiro. A Praia da Cal, também a Guarita, posso imaginar. As furnas, minha Bretanha pessoal: os lados de lá. Como não saio de casa, tudo volta/caminha pela imaginação. Adormeço pensando que no dia seguinte colocarei um maiô e farei uma caminhada pela beira do mar a sentir areia e água salgada. Não vou. Claro que eu engordei. Deveria perder sei lá quantos quilos para me sentir leve, disposta, ágil ou bonita. Amanhece, o céu está mais lindo do que ontem, perfeito e eu me deixo ficar. Já faz muito tempo, não dirijo, não tenho carro. Fico preguiçosa neste caminhar essencial, mas vou diminuindo as passadas. Ônix me acompanha. Minha filha Luiza me pediu para cuidar dela quando se mudou para Pernambuco, Recife. Ela é peluda e preta, pequena, inteligente e atenta. Envelhece como eu, e cuida de mim. Quando fico demais na cama naquela preguiça do amanhecer, ela me acorda. Quando quer comer, quando quer sair. Faça sol ou chuva saímos. Esqueci de te dizer que tive uma deliciosa banheira. Adoro água morna, ou gelada. Intermináveis banhos… Perdi a banheira numa assombrosa reforma. Sinto saudade da velha banheira.
O meu dia. Acordo cedo. Bem cedo, desço com a Ônix, pequena volta, às vezes, cheia de sono, de preguiça, volto correndo para a cama, mesmo sem dormir. Ou decido que já é hora/tempo, mesmo o céu ainda não ter acordado. Se estou disposta vou passar um café preto, do jeito antigo, comer um pedaço de pão com manteiga, uma fruta, às vezes, leite. Bebo água gelada. Bebo água de manhã. Se estou com fome, posso me aventurar com o filé na manteiga, pão fresco, descongelado e aquecido, é claro, como se fosse para o campo, trabalhar. Adoro manteiga! Queijos e presuntos e salames. Loucuras de vontades. Sou dona do meu tempo. Gosto de mimar as manhãs. Levanto as cortinas, prendo as que esvoaçam, abro as janelas. Sensação de caminhar, pés descalços, pela grama do meu tempo. Sonho ou ainda imagino ter uma casa pequena, mais cães, mais árvores, mais cinamomos, mais natureza, mais cheiro de vida. A vida com odores de ventania. Gosto. Gosto dos perfumes, todos. Uma mulher bem vestida será sempre a mulher perfumada. E bons sapatos ou descalça. Ideia de elegância. Hihhhh! Já me perdi.
Vamos mais depressa. Escrevo de manhã. Gosto de escrever de manhã, ou no meio da noite se acordo insone. Aliás, gosto de escrever todas as horas do dia. Escrevo cartas, textos curtos, escrevo as palavras de hoje, corrijo as de ontem. Começo o dia e ligo o rádio. Tenho discos de vinil, muitos, mas a vitrola não funciona. (risos) Ligo o rádio, eu me submeto as boas ou as horríveis seleções. Adoro música. Adoro! Eu adoro música. Adoro mesmo. Tenho que resolver esta questão do aparelho: luxo de prazer meus chansoniers. Eu já me perdi outra vez. O piano, as sonatas, o violão dedilhado, Mozart, para dizer o mesmo. Detesto cozinhar. Bem, detesto estar na cozinha sempre, e todos os dias. Detesto a bagunça: preciso, compulsivamente, deixar tudo limpo e…, assim! Cozinho duas ou três vezes, e congelo. Até posso gostar (às vezes, gosto) de cozinhar. Enjoo. Então peço comida de um restaurante aqui perto, o que fica horrivelmente dispendioso para meu pequeno orçamento. Como frutas. Leite com chocolate, pequenos lanches engordativos. Cuido da roupa. Lavo e passo (já contei) porque me faz bem, ou cura agitação e ansiedade. Uso/tenho milhões de travesseiros. E, sem ser sonâmbula, troco de cama durante a noite. Ora na pequena, ora na grande. Leio na cama. É péssimo, eu sei, mas leio deitada. Errado. Sempre quero fazer diferente, mas é o meu lugar preferido para devorar livros, riscar por eles todos, fazer anotações ou dobrar as páginas sem respeito, devorando mesmo, depois fico enjoada. Ou escrevo. Tenho cadernos, diários. E o dia se desdobra em escutar música. Abraçar e beijar também (risos). A cama é um fetiche de alegria, não te parece? Acho que vou te mandar esta parte e, de repente, espero as novas perguntas, alguma coisa especial. Engraçado! Gosto das tuas perguntas, e das possíveis respostas, tuas e as minhas (risos). Onde eu estava em 1987? Num segundo casamento, uma filhota nos braços e num estranhamento… A perigo. Traçava planos para outras viagens, talvez, morar em Torres e correr ao teu encontro… Fico a pensar que poderias ter me amado um pouquinho, seduzido outro pouquinho e eu teria cedido. Cuida de ti. Escuto tua voz e falo contigo todos os dias. Um beijo Beth Eliza Liza, Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres


citação

Atrás de uma citação eu me escondo, sempre acho (perdendo)/penso/imagino o menos, não o mais. Complexo doente, insistente, ou tímido. Nunca ousar, mas esconder. Lugar de criança a espiar, nunca coroada. Espiar para aprender/ entender. Espiar para soltar o grito de guerra, ser mais porque sabe que alguém disse, falou, pensou, apontou antes, sempre antes… Sempre no escuro da possibilidade, maldita possibilidade. “Se alguém tem de construir uma casa, não se precipita a agir sua mão impetuosa: primeiro uma linha interior do espírito mede a obra; a pessoa traça, no seu íntimo, uma sequência de operações, segundo um plano definitivo, e a mão do espírito modela toda a casa antes da mão do corpo.” (p.132)
Uma estrutura mental antes de ser uma realidade. Por que errei sempre? Porque me deixei levar, tudo acaso. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021. O que admiro? A habilidade do jogo, do lance, da possibilidade arriscada, da estratégia. Da equipe, e nunca do acaso. Este terrível acaso alucina, o amor se perde, e a poeira cobre tudo, fina, alucinante, sem lógica.
“ O essencial da matéria deve ser circunscrito num âmbito reduzido. Podes comprimi – la de acordo com as seguintes disposições: a eloquência da ênfase exprima muito em poucas palavras […] recuse – se a ouvir duas vezes a mesma coisa; o subentendido dê a entender no dito o não dito; a conjunção não faça a ligação das preposições, deixe -as ir soltas; ou a mão do artista funda várias conceitos num só, de tal maneira que com o olhar da mente muitas ideias sejam abarcadas apenas numa.” (p. 139) Geoffroi de Vinsauf – Do Mito das Musas á Razão das Letras – organização Roberto Acízelo de souza

sono deprimido

Tem um sono deprimido presente a se espalhar bocejando, amolecendo o corpo: não dorme, apenas estica os braços, sente dor nas costas, no corpo sem exercício, sem vontade. Tem um sono apertado e insone a reclamar. Razão tem minha amiga que vai e volta, volta e vai desapegando disto e daquilo, agarrada nas curvas das calçadas, nas caminhadas, no gosto alegre do novo, e do agora. Este verbo ter traiçoeiro e injusto, este indefinido um… Fico a pensar nestas danadas escolhas! Livros lidos, e naqueles impossíveis, inacessíveis perdidos nas estantes. Nos que deveriam ser relidos. O livro Pantera no Porão de Amós Oz deu uma sacudida neste meu jeito novo de reclamar / ou me queixar: por que não trazer a infância para se esticar no papel? Por que não posso contar histórias possíveis e as impossíveis? Por que cortar o tempo sentindo dor? Hoje, agora: todas as possibilidades possíveis, nada impede. Nem o vírus, posto que sigo em casa, fechada em sonhos como antes, como será amanhã. E razoavelmente bem. Se infeliz, bem, se estou infeliz deve ser este apego ao sono deprimido, a ausência. Não de ontem. Nem qualquer saudade, mas a que guardo de nós dois. Ausência do agora. Deste silencio imposto não porque envelheço, mas porque não chegas, não dizes, desapareces. E o novo? O novo se espreguiça também. Preciso assumir o passo e caminhar, caminhar, e caminhar. De mal com as panelas, aborrecida com os cheiros, cansada de mim mesma. Preciso de mar, de sol, da pimenta, da proibição e da valsa. Como está se saindo meu amigo nos Estados Unidos gelado, naquela América gelada, na neve e no vento? Como será o calor? E a primavera? O outono e a incerteza… Quero uvas, pêssegos e um hoje, um agora/amanhã, um instante florido. Flores. Bom que Marina mergulha nas aquarelas delicadas dos jardins. Invejo este jardim florido no papel das tintas, no perfume das rosas colhidas, na delicadeza limpa e imperiosa das cores. O gosto do café me desagrada. O chá não conversa. O vinho faz doer a cabeça. O whisky não chega perto. Azeitonas recheadas. Tomates com azeite e sal. Todos os verdes possíveis. Onde estará aquela alegria natural? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2021 – Torres
