doce amigo

“Doce amigo, não é tão terrível assim. Tudo isso é porque você está aí, e eu, aqui. Quando você me vir, tão alegre e indiferente, logo seu coração se aliviará. Nunca oprimi nem sufoquei ninguém em minha vida; sou apenas um pretexto para que as pessoas vão em direção a elas mesmas. Quando este” em direção a elas mesmas” existe, ou seja, quando elas mesmas existem – então – TUDO EXISTE.

Diante da ausência eu nada posso.” (p.289) Marina Tsvetáieva Vivendo sob o Fogo

exato

ação / o exato / o preciso que seria real, se confunde,

não é verdade, mas percepção.

sentimento fantasioso.

o entendimento se atrapalha, tropeça, atropela o sentimento

a realidade, uma narrativa

fantasiosa de impressões (não verdade, mas conceito)

o fato é considerado real, realidade.

no entanto, ao contornar / delimitar o feito / o fato… puft! desaparece

a história é abafada na evidência da narrativa: um amontoado de palavras explicativas / ou iluminadas: e eu te amo

vês?! a narrativa, às voltas com a fantasia!

o beijo, o abraço, a possibilidade de ser real desaparece, outra vez,

novo emaranhado de histórias.

Volto ao piano, ao som do violão, a voz equivocada. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

“optar por si mesmo”

“A liberdade não chega automaticamente: é conquistada. […] O Passo fundamental para a conquista da liberdade interior é ‘optar por si mesmo’. Esta estranha expressão de Kierkeggard afirma a responsabilidade de cada um pelo próprio self e a própria existência. É uma atitude oposta ao impulso cego ou à existência rotineira; é uma atitude de vivacidade e decisão; significa que a pessoa reconhece existir naquele determinado ponto do universo e aceita a responsabilidade da sua existência. Isto é o que Nietzsche queria dizer com sua ‘vontade de viver’ – não apenas o instinto de auto conservação e sim a decisão de aceitar o fato de que a pessoa é ela mesma, com a responsabilidade de cumprir o próprio destino, o que, por sua vez, implica em aceitar o fato de que cada qual deve fazer suas próprias opções fundamentais.” (p.140)

Esta questão inquieta, esta tal de liberdade atormenta. A falta de coisas supérfluas e tão necessárias!, a saudade de algumas pessoas: amigas, amadas, íntimas. O mito permissivo da juventude eterna, Fausto fez a melhor escolha?! Eu posso ser eternamente jovem: eu estou ótimo, eu me cuido. A vida, uma vitória. A tal velhice bateu, fez toc-toc na porta…, não esperou abrir a porta, refestelou-se no meio da sala, entrou antes mesmo que eu terminasse de enfiar o casaco e arrumasse os cabelos, eu não tinha passado a chave, descuido meu. Porque se eu pudesse, se eu exercesse a minha autoridade, eu não a deixaria entrar. Fiquei encabulada. E a conversa começou com intromissão insistente… Então, eu me pergunto qual é o limite, como vou impor a minha vontade?

“Kierkeggard escreveu vinte livros em quatorze anos, terminando -os aos quarenta e dois e – quase dizemos ‘para concluir’ – caiu de cama e morreu.” (p.141) Rollo May O homem a Procura de si mesmo

Estou a fazer uma nova arrumação enquanto me proponho a limpar a casa, agir/fazer e estar disposta (ou alegre) , consciente de que eu mesma escolhi esta vida de não-casada, de dona de casa, de estar sozinha, de amar sem vergonha, de sentir prazer, de me apaixonar, desmedidamente, de ter que desapaixonar, cair na real, seguir caminhando nas calçada esburacadas, mas particularmente, bonitas…É lindo onde eu moro! Atividade: jogar fora os velhos livros, sem dó, nem piedade! Pensar nos catadores de papel! Enfim! Não telefonar ao amigo X, nem ao Y, muito menos ao ZMCGR! porque eles são casados, e as mulher ficam todas…, eles ficam todos melindrados! Pois é, mesmo nesta velhice esquisita, os amigos não se permitem escrever, participar ou dizer olá! Os homens não podem sair dos seus quadrados, e as mulheres seguem atarefadíssimas sendo avós, mães e seres de fé. Não posso reclamar, eu sei, por cima da minha velhice, o meu amado chega para me visitar amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

Quanto mais a pessoa se aprofunda em sua própria experiências, mais originais são as reações e os resultados.

azuis

os azuis se colocaram aos meus pés e grudaram nas minhas mãos, ativos, determinados, alertas, então, limpei a casa, o banheiro, os vidros e fiquei mais ou menos morta depois de pendurar duas máquinas de lençóis, esticar as camas e perfumar a noite, dormir com a graça do dever agarrado, e festejado. um acaso de vou e faço e fiz e ficou bom, terei o sono atravessado e voltarei na madrugada cheia de ideias e abraços e beijos e sussurros porque me esperas. querido, se eu dormir antes, perdoa, dormi também tu. Eu te acordarei com ternura e firme e deixaria que a tua mão me descubro, e que a noite esteja nos teus sonhos, nos meus e nossas…estou bem cansada. Amanhã eu te conto detalhes, agora vou apenas inclinar a cabeça. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – te amar tem este encontro de exaustão e entregada e porta fechada, depois vou dormir. tu me amas, eu te amo,

é

É devagar que eu te penso, digamos que escorrego… A poça com lama responde, a pitangueira se sacode.

Estou a fazer uma pequena caminhada atrás do vento: sair e pensar e te reencontrar.

Agora, distraída passo geleia na torrada, e bebo café com leite, sem açúcar. Esta coisa de esperar o dia passar pode ser um fardo: eu escuto vozes: vou ao encontro delas…

Decidi eliminar velhos livros amarelos, vou encher muitas caixas, e… vou deixar esta melancólica saudade de lado. Prestar atenção! Eu posso. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres / sem grandes seleções, apenas me desfazer. A cada um sua própria estrada: novos ares…

aforismos

“O pensamento é algo que se encontra, que se reencontra. E quem o procura é um encontrador honesto; ele é seu, mesmo que outro também já o tenha achado antes dele.” (p.133)

” O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”, escreveu Karl Kraus (1874-1936) a respeito do gênero que se tornou um mestre.

Ovide

” Tandis que tu es libre encore de tout lien, voici l’ instant propice pour choisir celle à qui tu diras:’ Toi seule as su me plaire.’ Elle ne te viendras pas du ciel sur l’ aile des vents; la belle qui te convient, ce sont tes yeux qui doivent la cherchr.”(p.5) Ovide L’Art d’AIMER

aconteceu, ou não aconteceu?

Nunca saiu de casa, não sair faz sentido. Aventurou-se numa viagem ao exterior, ou duas, atravessou o Mampituba, e, chegou a Santa Catarina. Evento. Sair de casa…, dificilmente saímos, somos empurrados, estupidamente, abrem a porta e nos empurram, ou gentilmente, há de se saber?! Então a figura tem qualquer coisa de patética. Descarnadamente patética. Casar-se pode ser uma solução magnânima, outra triste figura, a esquálida mulher insignifante e má. Resultado? Dois patéticos. Levemente transparente (isso existe? Levemente para mal querer? ou a transparência faz parte da arrogância?). O tal jogo de sobrevivência fotografado e ‘ventilado’, as fotos servem para documentar o indocumentável / o risco de quere tomar atitude: evidência do ridículo da escolha…, o pavor da solidão. O incerto, na dúvida burocrática. Céus! Estes degraus parecem palacianos, mas não são. Reflexões sobre um encontro casual entre abrir e fechar a porta.

Olalá! O feito e o não feito, ou será que foi assim, ou nem foi? Tomar consciência. Tomar consciência antes da ação ou depois da ação. A bomba! Como se faz para tomar consciência quando a ação, por assim dizer, engatilhada, e não se decide a assumir, quer o aspecto do já visto, do já feito, do já passado, quer o do ainda não visto, do ainda não feito, do ainda não passado? Estou resfriada, gripada, com algum vírus, algum mal estar rondando…, e a vontade de dizer se arrasta… Então, vejamos, em que instante da manhã (agora é quase meio-dia) minha memória parou de funcionar? Não quero detalhar se ele me olhou, ou falou por falar, disse por dizer, ou se apenas passou reclamando, também ele, saindo da neblina, dos chuviscos de hoje. Este outubro de sombras e sombras atiça os nervos, amolece a vontade, esconde a voz. Abrir ou fechar a porta? Que importância relevante pode ter isso? Estou outra vez com fome. Não, ainda não posso me sentar e teclar, qualquer pensamento se esfumaça. E a memória se afunda. Elizabeth M;B. Mattos outubro de 2021 – Torres

Georges SIMENON

“Uma coisa é certa: para escrever com a clareza e simplicidade de um Simenon, é preciso ter o que dizer e a coragem de dizer. Ou melhor, a coragem de publicar, porque no caso de Simenon era maldição mesmo, ele não conseguia não dizer. Isso para mim, define o escritor de verdade. O resto é figuração, ou carreirismo.” Ernani Só – Zero Hora / Sábado, 17 de julho de 1993 – Segundo Caderno