estar deitada, atravessada na boa cama, quase a dormir, quase pensando, quase… parece o ideal do ideal, o ideal perfeito chamado, meio do caminho, quase iluminada. vou tirando a roupa de vagar / com vagar, devagar mesmo, parece interessante, ou quase… apesar de, considero a demora, o tempo, a vontade. do desejo eu chego perto, senilidade? não, em absoluto, uma majestade majestosa do amor… deve ser assim envelhecer junto, antes de se indignar, quase envelhecer, mais ser como serenidade flutuando e desejo entrando. ah! vou ter mesmo que fechar os olhos! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres, acho que é domingo, domingo, quase terminando. espera.
Parado. Ainda é cedo. O calor invade as frestas das janelas fechadas. Sublinhado inverno rigoroso, verão escaldante.
A cidade se tranquiliza abafada, tudo ferve. Mesmo a passarinhada se acomoda imóvel. As árvores não se movem, a lagoa parada, quieta, cintila.
Interrompo o dia, acelero o fazer, picoto os soluços. Será que o sol se apiedará? Antes das seis horas estávamos já caminhando. E se a Ônix não existisse, o que eu faria? Sem energia. Quieta. Desmotivada. Sensível a qualquer empurrão. Sem voz… Imagino. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro 2023
e os passos fazem eco na calçada, espio.., molho as plantas, e sinto o cheiro na vontade do café, amanhecer traz energia ativada, e já o corpo inteiro desperta. Escuto teus passos na cozinha, e aperto a saudade; vejo a mala atravessada no quarto. Sei que nos despedimos. Na surpresa, voltas sonolento, e me abraças. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres
a essencia, o que liga ou rompe, o que estabelece o amor: o pertencimento
ele vai , ele se infiltra / busca/ ele se aconchega aonde tem amor,
certeza absoluta, completa de pertencinimento…
mais, muito mais do dizer, há um rastro definitivo: lá, neste lugar de amor, ele dorme sem pesadelos, ele sossega o corpo, e o amor floresce…
ele se renova fortalecido abastecido,
leva/traz/carrega nos bolsos pedaços, o que pode/consegue carregar (a mágica):
pedaços deste amor necessário / a essencia do amor:
assim se faz um homem, um ser inteiro. há que entender / saber / o lugar deste amor, as pessoas deste amor… embora desnudas, ou suntuosamente vestidas, reconhecer, afinal, o amor sentimento / alimento. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres
O tempo e nós. Vivo sem me preocupar com o tempo, apenas vivo. Sei bem que lá, mais adiante, precisarei contar /dar conta deste tempo. As manhã em sala de aula: momentos especiais, faço o que gosto, appreendo com eles, esqueço de mim, e recomeço. Lamento que terminará em julho, o curso. Mas não se pode lamentar. Não posso romper com tudo aquilo que me machuca, tudo que machuca faz parte da minha história e está dentro/contando / sendo este tempo. Recomeçar, o desafio, começar/iniciar/conseguir, não desesperar. Adivinhar o que não foi escrito e perdoar. Tenho atravessada a dor. Não dizer / o não escrito não pode ser sentido. Estou de volta. Incerto caminho. por que depositei confiança completa? Para eles eu era o brinquedo, não a pessoa. Brincar de marchand / brincar com arte / brincar com vitrine… A cada onda o castelo desmancha, as ondas atravessam a minha necessidade, e saem a se esparramar sem que eu possa entender. Bebo uma enorme quantidade de água, mergulho. Vez que outra, no mergulho, fecho os olhos, e vejo o interior confuso, egoísta, enxergo as carências desarrumadas… Ora! A vida é tempo, e o tempo nunca será perdido / nem perfeito…Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres
Li tudo / reli a carta. É esquisito o diálogo, bom de repassar, de tentar, ao reler, reerguer a vontade de acertar. Não vou retomar e ou escrever agora, A proprietária do apartamento q eu estava, em Petrópolis, reclama de um vidro quebrado. Fico aborrecida e tensa. Reclama das contas que chegaram (q eu ia pagar, é claro), contas telefônicas… Hei de me ver livre de tudo. este é o sentido da noz-casa. Pequena, nossa, inviolável. Quanto aos 16 anos, um ato falho! Nasci em 1946, casei em 1968, dia 9 de fevereiro, muito quente). Nada confere com as datas que te mandei. Eu me separei com 26 anos: três filhos. Céus! Luiza nasceu em 1985. Já com dezoito anos a minha bebê. As contas e os números me assustam, Sou lenta. lentíssima, eternamente assusta. Vontade de que tomem conta de mim, para sempre cuidem de mim. Vou correndo recolher as contas lá da moça, e, responder sobre o vidro quebrado. Ah! Um lindo apartamento, uma linda vida, um bom susto!
Carência é a falta que sentimos de nós mesmos. Carência nós temos de todas as necessidades internas de nossos talentos enterrados… enterrados tão distantes, num jardim desconhecido, talentos que não florescem, não brotam, não saem da terra. Carência somos nós esquecidos de nós mesmos, mediocres, pedintes de um olhar, ou de um toque que nos diga: volta, volta, eu te preciso, tu existes no meu mundo, ou meu mundo não existe se tu não estás nele… Volta. Acorda! Não és a sombra de um sonho és tu comigo. Ou apenas tu sendo pessoa, inteira.
Como posso te consolar? Nos percalços deste nada que nos afunda, (as duas) na inércia – ficamos sendo mendigos da luz de sermos nós mesmos. O que me consola? Se tu estás do outro lado, livre, quieta, feliz ou infeliz, diz/conta amiga, diz da tua alma, derrama teu cheiro, teu toque naquilo que importa, não naquele que te ameaça…. Vira as costas. Pensa que o outro, amiga, é sombra nas sombras do desejo criado/inventado. Pedaço do teu barro , da tua fantasia interior: um nada se não está em ti / contigo. Será vazio se em ti não há o completo. Se o riscares da tua vida, ele desaparecerá. Agora círculo de fantoches, tu fazes viver ou morrer.
Enche a alma do teu poder. Eu ando solta, projetos soltos, projetos de fazer isso e aquilo. Procuro um tempo vazio. Um espelho de alguém-eu para esquecer-me do interior de ser eu, ou ser tu.
Quanta saudade! Coisas esquisitas me acontecem. Inclusive um novo namorado… Mas bem velho, presta atenção! Destes encontros que chegam para te dizer que as coisas não podem ser sempre horríveis. Noutra carta eu te conto da galeria, e de como as coisas se desenham… Estou a pensar como será a vida mais adiante…Volto a te escrever amiga. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Porto Alegre – todos os médicos agendados.
Um pouco do nada tira/revira a vida do lugar, talvez a gota que transborda o copo já pelas bordas, o tom da voz, a roupa que despe e mostra mais do que esconde ou tapa, um som… O não dito, mas expresso. O que não foi lido. Verdade: um amontoado de não, não, não = nada. A carta que não foi escrita, o telefone que não tocou, a gentileza não feita. A poeira. A dor desajeita do que não tem conserto. Claro! O sol, o vento, a limpeza, ou a música resolvem… A boa comida, o copo com água fresca…
A tal vontade de bandeira. O sono… Silêncio arrumado!
Explicar não, dizer sim. Estar, ser, muito mais do que ter. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2023 – Torres
impaciente com a potencialidade / o poder do outro, quero engolir, sem mesmo ter/sentir o gosto…, apressada, e a pressa (ah! danada pressa!) é para viver, vou tropeçando. Largo os brinquedos, rasgo o vestido, não escuto a mãe…brincar/descobrir eu comigo, inquieta e impaciente. E parece tanto, tanto tempo! E não é nada… Ia ser chuva, mas só ameaça, ia ser festa, foi apenas um bolo! Elizabeth M.B. Mattos janeiro de 2023 – FT desapareceu, um fantasma que se esqueceu de dizer a verdade, eu sei. Não temos coragem de ser nós, sem o outro, somos o arremedo possível /imaginação!