sair do palco

Sair do palco é a pacificação, sair, não como derrota, ou cansaço, ou sei lá o porquê de precisar sair, sair para festejar. Haja palco, luzes, vibração! Efeitos. Sair para fazer o que é preciso… Hoje, agora. Nem palco, nem platéia, deixa acontecer o espetáculo… A vida, o desafio natural: sobreviver parece uma palavra derrotada, não é… Encontrar a semente, plantar, pode ser? Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

Em algum lugar estás, meu amado, estás. Porque ias chegar/ficar, então, estás. O pão, o perfume dos lençóis. Cantei para a alma sossegar, fiz exercícios de estar / ficar e te esperar! Interrompi as leituras obcessivas. Hoje, ansiosa. Deves voltar, voltar para sossegar, tu também! Mas eu te queria pra sempre, aquele todos os dias, dias inteiros, com direito ao tudo, ao todo… Ah! Sou gulosa! O equílibrio és tu.

as palavras mentem

De fato, não há/existe palavra verdadeira, todas estão fantasiadas e espreguiçadas numa dimensão pouco confiável. Mais conversamos / dizemos e explicamos, pior a verdade. Livros, documentos, leis começam a se amontoar num simulacro contínuo, e todos para ensair a verdade, a possível verdadeira verdade: agarrar uma certeza para colocar ordem no caos a que chamo de comunicação.

De fato os romances mentem – não podem fazer outra coisa -, porém essa é só uma parte da história. A outra é que, mentindo, expressam uma curiosa verdade, que somente pode se expressar escondida, disfarçada do que é. Dito assim parece um galimatias. Mas, na realidade, trata-se de algo muito sensível. Os homens não estão contentes com o seu destino, e quase todos – ricos ou pobres, geniais ou medíocres, célebres ou obscuros – gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Para aplacar – trapaceiramente – esse apetite surgiu a ficção. Ela é escrita e lida para que os seres humanos tenham as vidas que não se resignam a não ter. (Através da ficção eles – os homens – conseguem ter a vida que, em vida, não aceitam não ter – a negação da negação?) No embrião de todo romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo insatisfeito. […] Isso significa que o romance é sinônimo de irrealidade? […] Nada disso. Convém pisar com cuidado, pois este caminho – o da verdade e da mentira no mundo da ficção – está semeado de armadilhas, e os oásis convidativos podem ser miragens. […] E nesses acréscimos sutis ou grosseiros à vida, nos quais o romance materializa suas obsessões secretas, reside a originalidade de uma ficção.“(p.16-17) Mario Vargas Llosa A verdade das mentiras

Ufa! Um desabafo. Por que estar sempre a explicar, ou voltar ao fato? O que aconteceu é objetivo. A narrativa se esfacela pelo caminho, as explicações resvalam em percepções e emoções diferentes! Não extamente mentirosas. Diferentes. Um copo de vinho, um dia ensolarado ou a chuva de uma tespestade, pronto, mudou. O ciúme brota onde nos sentimos insatisfeitos, inseguros (inseguros, exatamente, com o quê?)… Acredito naquilo que preciso acreditar com a mesma petulância que posso colocar em dúvida o sentimento de amor, raiva ou sei lá o quê. Os motivos desta ou daquela atitude se não foi pincelado, colorido, visualisado numa tela / num fixo efeito de ponto / de terminou, céus! a dúvida. Qual era/seria extamente o BOM término? A minha vida precisa deste ponto final? Pois é. Acho que não…Elizabeth M.B Mattos – março de 2023 – Torres

Foto de Pedro Moog

a pimenta / aquela ardida pimenta

Os dias se arrastam incorretos, pequenos. Aquela racional e perfeita hora de trabalhar desaparece. E o necessário some como sombra alterada pelo sol, desaparece… A tal das férias permanentes / floridas e vazias se arrastam… Nada é urgente, apenas ser feliz. A tal felicidade aparece tão completamene despida, nua, disponível que não parece a possível… Quero outra. Vou cavocar um pouco de alguma coisa que tenha a pimenta do compromisso. Da urgência. Que se levante como necessária, mais importante do que a minha vontade. Esquisitices de aposentados – dos disponíveis – dos jovens… Pedalar para chegar no ponto. Pedalar importa.

E um dia desaparece, some dentro do outro. O anterior foi espetacularmente movimentado. Deslize da loucura, deste sombrio estado permanente de vento festivo, noites frescas e o diurno calor do verão. Escrever pode ser ofício, vício. Teimosia, imaginação e experiências pessoais. El23izabeth M. B. Mattos – março de 2023 – Para Laura Rangel – admiro seu trabalho e força.

perder aos poucos

” O reencontro com este livro perdido clareia o passado e joga luz no futuro. As coisas mudam, passam. Os sonhos acontecem. Não há mal que dure para sempre. Os mortos vão, mas as palavras que eles deixam, se encharcadas de amor, são indestrutíveis. Por isso é imperativo transformar solidão em palavra. Vida em palavra. É a única forma de viajar no tempo e reencontrar quem nos faz tanta falta. Somos três solidões” (p.34) Socorro Acioli

a grande solidão se trata mesmo do poder –

a ponta que desejamos deste poder –

o ponto essencial –

a força deste poder – consciente ou inconscientemente, carregamos a vontade,

e perseguimos a coragem para chegar ao poder –

em todas as idades, não nos desvíamos nunca.

parece tão inútil! mas não é. uma jornada de uma vida. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023- Torres

obcecada e apaixonada por tuas memórias esquecidas

Vivi contigo, enlouqueci de amor e alegria. Acreditei no sol, enfrentei a tempestade. Abandonei o mar e a praia, obcecada por tuas histórias, teus olhos, tua magreza. As histórias que escreverias /as tuas histórias/ me faziam flutuar/afundar, amar mais e mais. Simbiose e expectativa: o mundo a nos dar repostas, entregar a paz… Merecíamos. Tínhamos a chave. De repente, no meio da chuveirada, desperdício amaricano de tanta água, atravessada pela literatura, a pensar nos afazeres, nos filhos, no tempo, e no envelhecer = entregar o infinito ao finito, uma dúvida. Terás dito a verdade? Qual foi mesmo o mote, o que de fato aconteceu? Estas memórias esquecidas estavam engaladas pela literatura? Por que escrever? O vício, o poder, a obsessão pode paralisar quando se pretende surpreender e pegar a onda com palavras e textos e poemas. Perguntas. Embora estejas aí do outro lado, embora possas responder e pensar, contar a verdade, não sei perguntar olhando nos teus olhos. Foi verdade? Ou a invenção da omissão não te permitiu dizer, enfrentar tudo outra vez. A versão oficial te engoliu. Por que somos assim aprisionados nas histórias? O que seria de fato enfrentar / dizer / ou derramar… Passados os anos, os castigos, o dilaceramento, sobrevivemos e resgatamos o sonho de liberdade… Nunca é hora de morrer, hoje continua, continuará… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

P.S. Claro, escreveste sobre a verdade / eu sei – estou a questionar as verdades (são tantas / tantos focos!) que nos perseguem, amarram e devoram… e nos fazem mentir. Duvidar da memória seletiva que pode nos afogar.

Petrópolis / RJ – Luiza Pedro e eu – 1990 ou 1991 (não lembro bem)

falta

faz falta o mar, a caminhada, o sono, as risadas, a pausa

faz-me falta alguém a me dizer ‘relaxa’,

um beijo é suficiente: não explica

tenho o vício da conversa comprida, inútil,

pontuada, exaustiva…

ao desespero a inquietude de limpar, de organizar,

limpar outra vez, lavar, cheirar, ordenar… varrer ou ler

ler e escrever cartas… do outro lado, na ponta da corda,

na ponta da corda a esperança

esfarrapada esperança, afinal, não mudei nada, sou a mesma

e ser a mesma pode ser a desordem de sempre.

Quanto ao meu modo de vida atual, devo notar em primeiro lugar a insônia, de que sofro ultimamente. Se me perguntassem: o que constitui agora o traço principal, básico, da sua existência? – eu responderia: a insônia. Como outrora, seguindo o costume, eu me dispo exatamente à meia-noite e deito-me no leito. Adormeço depressa, mas acordo depois da uma, com a sensação de não ter dormido absoluta ele ingressou no funcionalismo.mente nada. Torna-se necessário erguer-me da cama e acender a lâmpada. Passo uma hora ou duas andando de um canto a outro do quarto e xamino quadros e fotografias há muito conhecidos. Quando enjoo de andar, sento-me à mesa. Permaneço ali imóvel, sem pensar em nada e não sentindo qualquer desejo; se tenho um livro na frente, aproximo-o maquinalmente de mim e leio-o sem qualquer interesse. Assim,, não faz muito tempo, li maquinalmente um romance inteiro. Ora procurando ocupar a minha atenção, obrigo-me a contar até mil, ora imagino o rosto de algum dos meus amigos e ponho-me a recordar: em que ano e em que circunstância. Gosto de prestar atenção aos sons.” (p.113) A. P. Tchekohv – Uma História Enfadonha – Das memórias de um homem idoso – do livro O Beijo e outras histórias

Perfeita insônia / danada desta intrometida insônia! Ainda mais quando se perde a noção de que 5 ou 6 ou apenas 7 horas seriam o suficiente -, o tédio, o desconcerto, a louca inércia, a dita preguiça, os joelhos cansados, talvez o calor, ou serão os vícios todos a pressionar que não querem dormir, apagar esquisitas vontades! Ah! Como se faz para interromper / parar de se remexer sem sentido. Ir em direção, estabelecer metas, sacudir os pincéis nos potes de tinta e fazer acontecer uma tela revirada, bonita, fazer acontecer a história de fazer. Pois tudo fica preso num filme (ah! que saudade de se enfiar numa sala de cinema e beber café com pipocas, achar bom ou ruim, e… voltar para casa preenchida!) de televisão, ou nas notícias espicaçadas – e, concluir a ideia atrapalhada (vai terminar a guerra que não podia ter começado) do sentido de guerra. Os estragos das chuvaradas já foram resolvidos. Problemas Brasil resolvidos, as pessoas se importam. Logo teremos novas eleições! Mas a insônia não vai terminar… Elizabeth M.B. Mattos -fevereiro de 2023 – Torres

Elizabeth Arden Ponds Nívea

Em que momento e por que passar / massagear com creme, o rosto, as pernas, os pés… Um bálsamo necessário, claro. Começo pelas mãos, amaciando o toque… Quando? No intervalo da leitura, na hora da sesta? Ao amanhecer, ou antes de dormir? Importante processo: o creme para amaciar o mundo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2023 – Torres

serenidade

ah! esta serenidade noturna que desapareceu… um pedaço aqui, outro ali, na boa lembrança doce. o entardecer, meu recolheminto imediato, necessidade de fechar as escotilhas, ou amarrar as velas ao mastro, serrar as venezianas, recolher as vontades para cochilar, e depois? o sono se acalma, o corpo se organiza, a sopa esfria enquanto conversamos. a noite, a noite chega, mansa… ou chegava acalentadora, sensual, assim como o céu escuro. ah! agora o sono não chega, nem o piano toca, nem falas comigo, nem organizo o sonho, apenas, não durmo e amanheço pesada, cansada e mal humorada. os pés gelados, o nariz fungando e sem chuva, sem a chuva! quero de volta a minha serenidade e a xícara de chá, e o biscoito, ou o bolo de laranja…, ou um copo de vinho. ah! danadas saudades! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

judiação

Eu não gosto que peças, pedir vira logo judiação… E ninguém merece assim se espicaçar para pedir. Não importa para quem, pedir tem que ser ensolarado ou mesmo com chuva, mas natural, coisa de verão, necessária, sem destruir. Quando o pedir fica enxurada, melhor não ter, ou resolvo eu, devagar, no prazer alegre de te fazer alegre… Misterios de amor e necessários. Não é orgulho, nem altivez, mas, a felicidade natural, maior felicidade do que qualquer previsão… ginásticas de querer bem, aos poucos, meu querido, vais entender. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

pedalar é um dos prazeres deste ir e vir, e chegar, gosto de te ver indo

vergonha, depois

A natureza, pela fresta da janela, com prerrogativas… Vozes se misturam com a chuva. Conversas apressadas, passos ligeiros e determinados… E nos encolhemos nas dobras da vontade, nenhuma. É preciso reagir, soltar o riso encabulado, e te abraçar. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres