e

O nome / se não temos o nome, desaparecemos / outras vezes o nome atrapalha / o que herdamos, o melhor de todos os nomes / o escolhido / a fantasia do certo / o nome pode ser a pedra / pesada, ambicioso brilhante bruto / há que ser lapidado, e por quê? Chica / Liza / More / José / Luiz / Flávio ou Roberto / Isabel / Isabelita / Izabel / Bel / luz / Lucila / Paula / Maria / Lucia…caminho.

entra sem bater

Para além dessa aldeia, outras aldeias; para além dessa abadia, outras abadias; para além dessa fortaleza, outras fortalezas. E em cada um desses castelos de ideias, desses casebres de opiniões superpostos aos casebres de madeira e aos castelos de pedras, a vida enclausura os loucos e rasga uma fenda aos sábios. E em toda parte, os vales onde se abrigam os simples, os rochedos onde dormem os metais. Entre um bom momento ou uma boa esperança, a tua voz…, mas, por que vozes quando preciso de um quieto silêncio eloquente? Decifro letras para chegar aonde te escondes, iluminado, entre rochas, pedras, fortalezas. Cercado de cuidados atentos. Afinal, SGRTHKLXV, o que importam as letras? Entre a tua ausência e a nostalgia, eu te escuto. As rosas perfumam, os jasmins dançam e as margaridas te esperam. Elizabeth .B. Mattos – abril de 2022 – Torres

o inferno / nós

não é concreto, mas, roça na/a vida, o inferno, e,

o inferno queima as possibilidades: primeiros os olhos…, e eu não consigo chorar.

E. M.B.Mattos -março de 2022 – Torres

[…] “o nós não morre nunca, mas continua a viver, todas as nossas instituições, tudo aquilo que fazemos, e construímos serve para fomentar a continuação desse ‘nós’, que é mais perene do que qualquer uma das suas partes individuais, porque as partes morrem e passam um tempo guardadas na memória recente do ‘nós’, que então morre novamente, até que o ‘nós’, que em um nível fundamental é sempre o mesmo,, seja inteiramente composto de novos indivíduos.'”(p.432) Karl Ove Knausgard O FIM

‘ensolarar’ deslocar com iluminar fazer andar…

A leitura desloca o pensamento, muda de lugar, altera por um minuto um sentimento, despeja do outro lado, esparrama outras coisas… Do jeito que abro as janelas, abro o sol, ou melhor, deixo ele se refestelar. Abro o vento, e assim, eles remexem na poeira da casa, investigam, sacodem os sentimentos de tempos adormecidos, remexem, para meu espanto, nosso espanto… Eu me imobilizo diante da mágica, ou acelero, paradoxalmente, o fazer. Depois, volta tudo ao antes. Fecho as janelas, guardo o que restou e, pouco a pouco, a poeira volta, quieta e se instala, exatamente, onde estava. O livro tem a mesma mágica. Surpreende, arrepia, ou me ‘arranca’ da imobilidade, e festeja, sacode, mas não aguento muito tempo. Largo o texto, retenho um aqui e um ali, e, infelizmente, esqueço… Dói a perda, enerva esta falta de memória, esta surpresa perdida. A leitura esquecida. Esvazio o copo sedenta, passo um outro café, daquele jeito antigo mesmo, uso um coador… Estico os dedos para a cuca, depois como uma maçã. Preciso caminhar, esticar as pernas, sentir o corpo, voltar ao normal, ou voltar a dormir. Uma aventura entre ler, jogar cartas, estudar, escutar música e apagar tudo outra vez. A roupa já está seca, o ferro perto / espera. E a televisão? O horror de sempre… Bom, novidade?! Um tapa estalado na raiva! São as dores desacomodadas e o gesto desastrado. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

Milton Hatoum é um dos nossos grandes escritores / grande mesmo, porque perfeito. Ficamos a ler outros como J. M. Coetzee, perfeito a pensar, a escrever, a ser (mas leio uma tradução, mesmo que lesse o original, outra língua, não os mistérios e as reentrâncias onde navego / escorrego e estudo, o português. Hatoum é o prefeito no meu mar.

“Olhei para a beira do cais e reparei nos homens-rãs: os rostos visíveis através do vidro da máscara negra, o braço apontando para o horizonte; e, então, aquele som que soara suavemente, como o som de uma flauta, parecia vir de uma silhueta esbranquiçada, sem contorno definido, quase colada à linha da selva, mergulhado de vez em quando nos raios solares, sumindo nas brumas do chuvisco e reaparecendo como um corpo luminoso, alvo, talvez estático, ou se movendo tão lentamente que era impossível saber se vinha em nossa direção ou se distanciava do porto.” (p.65) Milton Hatoum Relato de um certo Oriente

Nascido em Manaus em 1952. Milton Hatoum ensinou literatura na Universidade do Amazonas e na Universidade da Califórnia em Berkeley. Estreou em 1989 com o romance Relato de um certo Oriente, seguido de Dois Irmãos (impressionante de maravilhoso, sério e bem escrito este romance) em 2000, ambos ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance. Em 2006, Cinzas do Norte venceu os prêmios Bravo, Jabuti e Portugal Telecom de romance do ano.

sem querer

Não quero ver, não quero me importar, mas estou sempre a enxergar e aqueles sentimentos desarrumados saltam, entram e ficam a me espreitar outra vez. Dizem que é preciso olhar de frente, enfrentar, resolver. Bah! Tão fácil dizer, aconselhar, mas…Fico ‘possuída’ e nada me diz respeito diretamente, como fazem, como vivem, o que gostam ou deixam de gostar não me diz respeito…, mas lá estão a se revirar dentro de mim e interferir. Às vezes penso em me mudar, sair daqui, eu me afastar, mas por que faria isso? Estou super acomodada, o meu lugar é lindo, aliás, o mais lindo, o melhor, não por ser meu, mas porque é. Eu tenho que me ocupar. Desviar. Não escutar…Ah! Tudo um desabafo! Vou ter que resolver. Sim, eu vou resolver. Adoro o outono! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

romance

“Ler um romance depois de ouvir as sonatas para violoncelo de Bach é como virar as costas ao pôr do sol e descer a um porão.” (p.382) Kar Ove O Fim

Sem a música, sem as sonatas, sem o piano, sem a doçura estamos todos no porão, com um rasgo de luz, ou completamente no escuro. A gentileza e a doçura salva, nos permite subir as escadas, mas o silêncio nem sempre explica/esclarece, corretamente, a inversão da verdade / a representação. A inverdade e o desconhecimento de coração, de saber quem sou eu, complica, complica a sobrevivência e tropeçamos na própria sombra. Agimos como fantoches, embevecidos pelo outro. Queremos subir o Everest, mas estamos no porão. E sequer temos um nome… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

alucina

A vida pode mesmo ser um círculo de horrores. O estranho da fúria / da raiva é a não explicação. A inconsciência do monstro, ou a dor / o machucado / o pecado transborda. Não há explicação. Deste chicotear violento e descompensado, desta nudez feia a bomba atômica se desenhando no céu…, então, chorar, gritar, e sucumbir pode aliviar. Outra vez um campo de margaridas, e o perfume do gramado molhado pela chuva. E num repente que a verdadeira história abre os olhos…, repassamos, lembramos, dobramos o tempo. Perdoar? Nunca perdoamos, apenas esquecemos aos poucos, não porque a ideia seja esquecer, mas porque viver é imperioso se não somos suicidas. Há uma semente alegre que se agita. E nos recuperamos. A lucidez dói / alucina também, mas há que reagir. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

leitura e ler

Um hábito ou uma obrigação. Hábito quando gostamos ou nos permitimos interromper/parar o fluxo da vida/ do fazer, e, nos aventuramos no pensamento. Viajar de jeito/forma nova: nem de avião, ou trem, ou ônibus, nem caminhar, apenas pensar/mergulhar no livro e se entregar. E sozinhos. Sem acompanhantes. Apenas tu contigo! Ah! Nada fácil. Ou ler é estudar/aprofundar/ decidir saber para seguir/ seguir a frente dos outros, competir. Lazer não é leitura, ouso dizer. Bah! Não vou me aventurar mais! Tenho este súbito desejo/vontade de estar em sala de aula, mediar os jovens / apreender m pouco mais. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

Abrir as portas. Todas!