Egoísmo não, egoísmo sim. Não te esconde na vontade do outro, ficas diferente / ficas outro. Acentua teu desejo, qualquer um, não pensa ser o outro, pensa/fica sendo tu mesmo; cava pequenas vontades. Dorme teu sono desarrumado, mas o teu, apenas o teu sono. Fecha os olhos para escutar a música. Sonha aos pedaços, e sonha devagar. Afasta teu gosto do gosto deles, não servem…, caminha pela praia, distraído. Uvas, teu doce de leite, teu jeito derramado de ser, o gosto. Como descobrir o bom? O bom está/é/ ou se esconde na vontade curiosa do mundo que ainda vais descobrir…Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres
O que acontece dentro do coração, o que acontece nas beiradas do equilíbrio, as estranhezas do outro lado, apertam. Define, e depois colore…, e, as palavras se amontoam como sanduiche para gigante, sinto fome: as laranjas e as peras, as maçãs e o pêssegos se transformam em sucos e salada com maçãs. Colheradas de sorvetes, desejo um bolo quente, quem sabe amanhã eu acerto, e, neste silêncio de tarde consigo fazer, ou vou , outra vez, molhar os pés do mar…, o meu mar! Estou virada num esquisito bicho de praia rastejante? Tenho garras? Esfrego a casa, tiro a poeira insistente, faço a comida, molho as plantas e me surpreendo. Fantasiada com capuz e alpargatas, ainda cuido da minha peluda (hoje tomou banho, Celso poderia visitar, e, não se aborreceria). Em linha reta, arrumei minha cômoda: arejadas as blusas, dobradas. mil vezes o pano para carregar a poeira, lençóis limpos e o prazer acomodado. Aonde estou? Não sei. Se gostas de saber, mas bem acomodada. Dentro do teu bolso. Resolvo tudo ficando dentro do teu bolso. Que estejas bem. Eu te amo, devagar e confusa, eu te amo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 20222 – Torres
“O que nos recomendam sempre, e o que é extraordinariamente difícil de adquirir, é o que os sábios hindus chamavam de atenção, uma atenção que elimina os três quartos, os nove décimos do que julgamos pensar, ao passo que na realidade não pensamos; reunimos pedaços de ideias que já estão aí. É preciso eliminar tudo isso e fixar seu pensamento em nada, o que é muito higiênico. Ou então, ao contrário, fixamo-nos em um ponto que não abandonamos, que não deixamos sequer um minuto. É extremamente difícil realizar isso: há todo o tipo de astúcias, diferentes maneiras de chegar a esse estado, que aliás fiz com que fosse descrito ao próprio Adriano ao aprender a viver – mas Adriano, greco-romano intelectualizado, intelectualiza ainda mais esses métodos. Julgo-os, de uma maneira ou de outra, inteiramente essenciais. Só que não se deve confundir a meditação com o sonho. Trata-se de uma atividade diurna. À noite, dormimos; ou temos, sofremos sonhos.” (p.147) Marguerite Yourcenar De olhos Abertos Entrevistas com Mathhheieu Galey
Toda a ilustração desnecessária. Toda a conversa desperdiçada. As vozes repetidas de milhões de vezes o mesmo assunto, a mesma volta, o mesmo encantamento italiano, o mesmo olhar pendurado na janela, o mesmo sanduiche, o mesmo espinafre, a mesma hora, o mesmo riso, e o mundo inteiro acomodado na mesma cadeira como se congelasse o tempo. O sossego a sorrir. E posso descer do táxi, atravessar rua, antes compro pães diferentes, manteiga, fiambres, frutas, usas, pêssegos, maçãs, estico os perfumados lençóis, vou molhar as plantas. Depois u irei morar em Porto Alegre. Certamente, irei… ZM espero que a rodoviária cria a possibilidade, vamos rir um pouco. Será que mão podemos afazer uma coisa apenas errada? Tu sabes, somos o acerto: Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2022
quando comei a escrever aberto / com destino / e sem nome comecei a escorregar pelas leituras, desde muito escrevo cartas, cartas e cartas, com destino, agora quase anônimas, diferentes, iguais, e/mas outras coisas,
e de repente eu encontro/reencontro Marguerite Yourcenar: uma fatia / um corte aberto:
“[…] Quando gostamos da vida, eu diria sob todas as formas, tanto as do passado quanto as do presente – pela simples razão de que o passado é majoritário, como diz não sei que poeta grego, sendo mais longo e mais vasto que o presente, sobretudo o estreito presente de cada um de nós -, é normal que leiamos muito.” (p.141) De olhos abertos
esta coisa da leitura, deste aberto espaço livre, e nosso espaço particular, sim, porque estamos a ler a nós mesmos, a desvendar e a tocar o que já sentimos/percebemos no nosso dentro (esquisito pensar que algumas pessoas ‘passam’ do exercício físico para a praia / da praia para o sol e no colorido das roupas praianas a preguiça do entardecer, ainda na praia -, claro! também trabalham, vendem pizza, ou vestidos, ou fazem contas, administram…, e este dentro de si mesmas?! ou trabalham muito, sentem calor e já pensam inverno). Esquisito o culto ao corpo / ao belo e ao desconhecido…, depois penso no meu caminho, eu também uma coisa esquisita / estranha a me sacudir nas letras!
“Creio que é preciso impregnar-se completamente de um assunto até que ele saia da terra, como uma planta cuidadosamente regada” (p.142)
Ah! os diários! os diálogos! os encontros misturados com ausências!
no jardim, neste cuidado com/da floresta, deste arvoredo e deste gramado…, sim, pelas calçadas eu imagino, olhos apertados com tanto sol! o que me rodeia vai permanecer/ficar, as palavras se misturam na fala dos pássaros e viver é sentir o outro! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – ainda Torres
“Era noite e chorei. Chorei lágrimas absurdas, não lágrimas tristes; pelo contrário, eram o alívio necessário. Durante toda a minha vida confundira o desejo com o medo.”(p.52)
“Toda felicidade é uma forma de inocência. Tornar-se necessário (ainda que te escandalize) insistir na palavra felicidade, embora me pareça uma palavra miserável. Nada prova melhor a nossa miséria do que a importância que conferimos à felicidade. Durante algumas semanas, vivi de olhos fechados. Não abandonei a música. Pelo contrário, sentia uma grande felicidade em mover-me dentro dela. Deves conhecer aquela leveza que experimentamos no fundo dos sonhos. “(p.53) Marguerite Yourcenar Alexis ou O TRatado do Vão Combate
Aceitação: objetos dados, vida dada. Penso mar, vejo montanha. Acredito no acaso. Estou, talvez, no meu melhor paraíso… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres
tomou os braços, os dedos imobilizaram, as pernas doeram pesadas, inchadas
senti por dentro, atravessando o meu dentro.
li um livro, coloquei um disco, abri todas as janelas, voltei a um poema
sentei, deitei, caminhei
abri a caixa das fotos: namorei jardins, caminhei pelas pontes…
não saiu a dor, os remédios não resolveram, mas me amargaram mais
o doutor disse/explicou: as rosas cor de rosa se atravessaram no seu estômago, obstruíram a passagem, intactas: caule, espinhos e pétalas, rosas cor de rosa, mas tem uma vermelha aberta… talvez seja esta, a mais perigosa… depois explicou das margaridas, amassadas, grande quantidade, brancas e amarelas!
lindas margaridas! Eu sinto o perfume de rosas espalhado no meu travesseiro!
sem vontade de seguir; quero os teus pincéis, todos, e as cores também;
preguiça de riscar, então, esparramo amarelo no verde e tem calçada…
gosto de pisar no macio deste tapete, gosto de esperar o teu cheiro pêssego chegar, gosto das ameixas da terra, e deste dizer, ‘vem cá’, e, eu não vou…
agora, tenho pensado tanto nestas coisas boas de chegar: chegar mais perto, chegar no teu abraço, chegar na tua saudade, chegar naqueles lençóis brancos, macios,
chegar no teu desejo…chegar na areia da tua confusão: pedra, concha, e sal. Por favor, não importa qual idioma, explica o que sentes / faz eu entender um pouquinho disso tudo. No meio da tua conversa em chinês, ou foi polonês? Ah! Eu escutei, mas ainda não compreendi meu querido. Escreve. E me diz/conta como te sentes, como foi esta volta/este susto de arrepiar. Como foi tua dor, como foi voltar! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres
a maneira mais profunda de se penetrar em um ser é ainda escutando a sua voz, entender/compreender som/a palavra, exatamente, como é dita/feita, a nota
é preciso escutar com os olhos
a cada pessoa, para cada um existe uma certa maneira de se exprimir/dizer, de estabelecer a ligação entre a fala/ o som de quem diz e a pessoa a quem/com quem ela fala – não é fácil chegar no outro (a tal ponte larga/estreita/a balançar ou firme)
deve-se fazer um esforço para ouvir, fazer silêncio dentro de si próprio para ouvir
jamais colocar no outro coisas suas, ou então, inconscientemente, nutrir o outro com substância sua, como se o nutrisse de sua própria carne, o que não é a mesma coisa do que nutrir de sua própria e pequena personalidade,
ou desses tiques que nos tornam nós mesmos…, e, então, não o escuto, não posso socorrer, estamos, ainda ali a nos escutar…
o tal eterno monólogo interior que se faz diálogo porque existe o outro, o que narra/diz/fala, mas eu não escuto, eu escuto apenas o som de minha própria voz, na voz dele.
e não escutar quando alguém quer dizer dimensiona o tamanho da solidão! Ufa! Não sei se consegui vou voltar…, amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres
É tão forte! Veio tão cedo. E fiquei tentando, tentando me debruçar, fazer acontecer, alcançar, mas sem disciplina, sem método, sem alguém que creditasse em mim. Tentei sem jeito. “Quase todos os escritores começam, ou começavam, escrevendo poemas. O que é muito natural, pois ao mesmo tempo que se é apoiado, se é coagido por um ritmo. Existe um elemento de canto. Existe um elemento de jogo e de repetição, que torna as coisas mais fáceis. A prosa é um oceano, no qual se pode, facilmente, afogar.”(p.56) Marguerite Yourcenar De Olhos Abertos Entrevistas com Matthieu Galey