ponte

Entre dor e susto: o medo. Cheiro da constante aflição, desarrumada. Então, não consigo dizer nada! E.M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

A pessoa cuida / eu me cuido para não cair no desânimo, mas o dia pesa e… Dia pesado e difícil! Tão desarrumado! Flores, isso pode ser compensação!

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Quando passo horas e horas com uma criatura imaginária, ou que viveu no meu passado, noutro passado, não é mais apenas a inteligência que a concebe, é a emoção e a afeição que entram em jogo. É a mágica, o possível: calo o meu pensamento, escuto a voz: o que este indivíduo tem a me dizer, a me ensinar? E quando eu o ouço bem, ele não me deixa mais. Esta presença é quase material, trata-se de uma ‘visitação’. Estamos, de fato, juntos. Eu me acalmo, e me inquieto com sua possível dor, com sua possível insônia, com seu sonho interrompido. Mas, imediatamente, eu me aconchego no seu abraço, sinto o se hálito. E durmo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

acho que jamais renuncio a uma criatura que conheci, e não posso me separar dos meus amados amores, assim , muitas, e tantas vezes, estou a beber chá com FT, ou a comer arroz integral; estou a telefonar, às duas da madrugada para JAK; e posso ir ao seu encontro às três horas da manhã para beber duas taças de vinho. PHF conversa comigo, pontua, explica. E, e beijo demorado, no abraço de ZM se desmancha no sonho bom de nunca envelhecer. Eu me encontro, outra vez com Paulo Sérgio na Ponte Aérea do tempo.

explica o escrever, e, o pão

Ter o que dizer, não apenas exercitar, pegar a linha, seguir, e dizer, dizer/escrever/ repetir, acordar (tenho estado sonambulando, tropeçando, amuada, enjoada) e escrever. Tão bom ler? E encontrar… E. M. B. M.

Quando sinto que disse tudo o que podia dizer e o disse tão bem como me era possível. Nesse momento, tenho a sensação de que está terminado, de que está acabado. É como o pão: há um momento em que se sente que não é mais preciso amassá – lo. Experienta- se uma sensação de admiração – que aliás experimento em tudo, não apenas com os livros – , a satisfação e o espanto de ter conseguido fazer aquilo. de ter saído bem, de ter chegado ao termo. […] Procuro eliminar o que não é essencial, não ceder ao ornamento, como fazia em minha juventude.” Marguerite Yuorcenar

“toda criatura é um vulcão”

“Fico espantada por ela espantá-lo. A vida tem de um braseiro o calor (este calor que os mortos não tem mais), os sobressaltos, a mistura de luz brilhante e de fumaça negra, e, como o fogo, ela se alimenta da destruição; é devoradora. Digo seguidamente que toda criatura é um vulcão, o que é mais ou menos a mesma a mesma coisa. Contudo, em outro sentido, como não pensar na sublime meditação búdica: O mundo está em fogo ó meus irmãos! O fogo da ignorância, o fogo do ódio, o fogo da inveja, o fogo do rancor…” Vemos nesse momento, em torno de nós, muitas dessas chamas. E não nego a presença tranquilizadora do fogo do amor, mas com muita frequência acontece de esse fogo apagar-se mais rapidamente que os outros, ou, por sua vez, tornar-se devorador.

  • Qual é o sentido exato do título geral que a senhora deu a essas obra: O Labirinto do Mundo?

Nele, também, a fórmula me parece dizer por si mesma. Não se pode ler o jornal matutino ou escutar à radio a noite sem ser mergulhado em um labirinto de acontecimentos e de seres, e no fundo de todo labirinto há, sinistro ou de aspecto falsamente benigno, um Minotauro. É um dos mais velhos símbolos do que convencionamos chamar de nosso subconsciente. A imagem do labirinto foi esculpida, pintada, gravada nas paredes, no flanco dos vasos, no solo dos arredores das aldeias, em várias partes, da Creta à Finlândia, e figura nos mais antigos contos de todos os povos. Portanto, não tenho pretensões à originalidade.” (p.207-208) Marguerite Yourcenar De Olhos Abertos Entrevistas com Matthieu Galey

sem entender o remexido sentido

Sol e vagar: verão seco, soluço. O mesmo veraneio de todos os verão, esparramado, novo. A serra que cheira mar. Verão floresce e sapateia no asfalto quente. Memória salgada de outro verão, saudade de veranear perto do mar, das venezianas, das lajotas e das sacadas. Estou a fazer férias no mato, lagoando, sem areia a frequentar janela com preguiça. Não sou bem eu, sou a outra. Estranha reviravolta / volta ensolarada, quieta, impaciente, neurastênica, espinhenta. Apenas manhã, e depois, outra manhã. Depois, longas e compridas e preguiçosas noites sonhadas, doloridas, desdobradas.

Lagoa – serra – asfalto e recorte. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

Bolo de fubá

 / AMORASAZUIS / EDITAR

Apago o fogo no sonho da insônia. Chove na lua desta noite. Engomadas rendas de soluções rápidas. A vizinha devolve o quilo do café. Açúcar, manteiga, maracujá e rosas frescas… Hoje vou comer o bolo de fubá. Elizabeth M.B. Mattos – agosto 2013 – Torres

bolo / rocambole de laranja, goiaba ou chocolate

Às vezes dá uma vontade gorda de bolo de aniversário com Coca-Cola, bolo de casamento, fios de ovos e champagne, bolo da tarde, de laranja e chá. Bolo de chocolate no meio do dia, ou da manhã, no meio da noite. Vontade de comer bolo de chocolate! Não, bolo recheado com doce de goiaba feito em casa. Bolo de banana. Bolo feito pela Joana, ou pela Ana pra comer quente / queimando os dedos, sentindo o cheiro doce pela casa. Vontade de comer bolo! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

cheiro de abacaxi e sol pela janela

Menina loira bonita e rica / amorosa: homem insinuante, ambicioso, ‘cheio de ideias’. Daqueles que dizem bom dia agarrando o braço e se esticando. Quer agradar o sol num dia de temporal, segura o vento para dominar o poder e se atira no barco: arroz, luz, dinheiro e poder! Sim, a vida veio para ser regalada e vivida e socorrida e sofrida e colorida.

Escolha indeterminada, necessidade precisa, assim mesmo o correto. Os mimos da infância a se multiplicarem numa liberdade vigiada, descabelada, entregue a índole boa e a sorte. Então os namoricos ingênuos, as brincadeiras fantasiosas, e companheiras do acaso, da calçada. Os cães, as balas, a bicicleta e bonecas feitas de trapo, ou de papel. O jogo. Salgado mar das férias, tisnada pelo sol, alegre. Não houve tempo para a rabugice. Latões de biscoitos, leite condensado, banana e uvas, pãezinhos a queimar as mãos, e batatas fritas com filé, sucos, todos. Um acaso de luxo e descaso do jogo, lugar do mágico, da imaginação e de amontoada e borbulhante delicadeza. O melhor… Então, as reservas abastecem os sessenta anos agitados, os setenta anos de surpresas. Acomodados oitenta anos a dedilhar nos cinquenta, ou foram os quarenta os mais pontuados? O chocolate na casquinha de sorvete, as cerejas, os vestidos coloridos, a liberdade recortada, a felicidade pontilhada numa alegria de todo o dia…, pois, era assim, um dia acordar rindo, o outro sorrindo, com sol com lua, com chuva de verão e Rio de Janeiro de ardor, de festa, de estudar, de caminhar, de todas as praias. Generalidade amassada com purpurina. Laranjeiras, Humaitá, Botafogo, Jardim Botânico um pouquinho da Gávea, porque o tudo era mar de Botânico, Leblon e Ipanema, Copacabana. Não, sou eu subindo a serra para chegar em Petrópolis. Tanta narrativa apontada, tanta trilha a ser retomada. E Búzios rodando, rondando. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

Cada um dentro de cada história a refletir a mesma história: alegria, pode ser.

impaciente

Talvez o certo seja mesmo certo copiar/imitar/pensar o pai, seguir a mãe e se emparelhar com os irmãos: seguir a sombra dos filhos e dos netos, parar de respirar, suspirar, e ter avós. Ou seguir a inspiração da imaginação. Fazer/realizar/construir tudo antes da inspiração inundar o dia, e quando a noite chegar, apenas adormecer. É preciso desconfiar da imaginação. Queira ou não, ela deforma, joga em uma certa direção, que nem sempre é a verdadeira. Assim, o que está desenhado na tela de manhã, no fim do dia se desmancha em cor. E o traço? Desapareceu. As pinceladas somem nos talhos do dia… E eu tenho uma tela manchada, sem risco, mas com sulcos: o verdadeiro escondido. Sou eu querendo saber de ti, da tua lágrima, do teu pesadelo, da tua cura, teu caminho. Tu estás em mim. Não sei o meu lugar. Estremeço. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Quando penso Rio de Janeiro, onde tu estás.

Copacabana, fevereiro de 2022 – um instantâneo do Pedro Moog
da janela, cedo, antes do calor, antes de fazer dia inteiro/completo, antes da feira livre e da calçada