Vento vento vento desta primavera que conversa, mistura confissão com fantasia, inventa, alucina e inventa venta. Inventa. Hora diz noutra hora nega…,confunde. Venta. Se agita, e depois se aquieta…, confunde. Venta. Se agita e depois se aquieta e pergunta. Não espera. Se domingo fosse, mesmo domingo…, o dia não dizia, mas calava quieto, acarinhava. Mas como venta! Venta voa, sacode…, eu espero. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres
Saudade não existe. Não quero nada nem ninguém de volta. Minto sobre saudade. Nunca sinto saudade. Experiências são / se escondem vivas todas juntas, ao meu lado, hoje, agora. Posso escolher: este brinquedo, aquele outro. Corda? Elétrico, pilhas, energia, de tração! E quando eu te penso, penso os dois andares da casa, com buganvílias penduradas, ouras coladas ao muro, floridas, estupidamente floridas. Eu penso o pedaço da vida que estou vivendo: Eu te penso como se tu e eu fosse nós, e eles todos este pensar fosse o EU mesma, a minha imaginação feito gente, reflexo. Uma química. Um facetado eu divino, perfeito. Vasos da sala com rosas amarelas e brancas, outras galhadas de flores. Quadros assinam teu nome, os livros dizem tua voz, e vejo teus atrevidos desenhos geométricos. Cadeiras colocadas estrategicamente. E quando eu entro o fogo da lareira se apressa agarrado nos nós de vinho. Sinto cheiro de bolo e cheiro de café. Oscilo entre ficar na copa, e te seguir: tua organização. Ah! Teu mundo impecável e festivo! Nunca escuto o desagradável reclamar, nenhum excesso, toda a ternura se multiplica porque cuidas. Tu cuidas. Este verbo é danado de detalhes porque toda atenção / cuidado respondem aos prazeres internos. Sinto sono. Um sono livre de pílulas porque me entrego a doçura de ser cuidada. Os lençóis estalando com dobras, perfumados. A limpeza me sacode de prazer, sequer sinto o corpo. Livros escovados, dois cadernos novos, folhas ofício, uma régua, lápis apontados, grafites diferentes. Um copo português com lápis coloridos: borracha, um estilete, uma aquarela de criança com dois pincéis pequenos, dois copos vazios. Abro a primeira gaveta da cômoda. Limpa, olho os detalhes. Da madeira o cheiro bom de pinho… A mala pequena segue encostada segurando a porta. As venezianas estão abertas. Gosto do azul…, e velhas e corajosas presilhas seguram as vidraças. Abro a porta-janela para a sacada pequena dos gerânios. O céu colorido de entardecer estupendo, tem amarelo azul rosa e branco deitados no horizonte: entardecer. Um copo de whisky, com gelo. O que mais posso desejar? De nada sentir saudade…, não. Esta minha gula de viver se apressa e alerta/chama meu corpo. Nenhum amor desmaiado velho do passado, ou lembrança embolorada me enternece. Agarro o momento precioso de ser eu, e sublinho os detalhes. Do quarto tão ao meu gosto! Usufruo. Abro o primeiro caderno, e a caneta tinteiro que trouxe comigo e escrevo: Estou estupidamente feliz. Nada pode ser mais cuidado, mais perfeito do que respirar a vida e o tempo, ser eu agora/hoje: 11 de setembro de 2021 – aniversário da Luiza, São Paulo -Elizabeth M.B. Mattos
Tudo o que eu possa dizer, não digo, basta um pensamento distraído para completar a imagem, o perfume da casa, o descaso e esta caminhada dos objetos pelo chão, os mesmos: conversam.
Escrever tem fluxo: vasculhar /remexer/ fazer sentimento pode ser pintar com / ou o piano, acordeão… Flauta e aquarela aguardam: pincéis finos, densos, e, a mão destra, e, a música carrega o sentido.
Se eu vou ao teu encontro depois de, se vou ao te encontro com saudade contaminada de mesmice… (uauuu!), o que importa eu dizer? Percorro o tempo. E, na calçada, se olho distraída para as favas das mimosas, esqueço. A esquina daquela casa, naquela rua das voltas. Procuro os muros da casa de Petrópolis: a Vitor Hugo 229, sei lá! coisas de hoje, podem ser ontem. Um prego se atravessa: tênis e meia grossa, chega no meu pé…, outra vez. Um desacerto dolorido. Ah! seria diferente se ainda pudesse estar a te ver todos os dias…, e bastaria? Ou quero te encontrar na nudez / no corpo exposto ao sol, na juventude dos dezessete anos. O poder: vestir vermelho… e tudo ser ainda o amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres
“As imagens estão ligadas entre si por relações de contiguidade, de semelhança, que agem como ‘forças dadas’, elas se aglomeram sendo atrações de natureza em parte mecânica, em parte mágica.“
“Ideias não têm outra existência senão a de objetos internos do pensamento, mas elas nem sempre são conscientes.“
“Não há um mundo da imagem e um mundo do pensamento, mas um modo de apreensão incompleto, trincado, puramente pragmático do mundo, […] a imagem é o domínio da aparência.“
– pai do meu pai – Pedro Alexandrino de Mattos
“Podemos deixar a memória vagar ao acaso: as imagens se sucederão em um mesmo plano de consciência, elas serão homogêneas. […] Compreender, lembrar, inventar é sempre formar primeiramente um esquema para depois descer do esquema à imagem, preencher o esquema com imagens […] é do esquema que vêm a flexibilidade e a novidade. E Bergson conclui: “Ao lado do mecanismo da associação, há o do esforço mental.”(p.18-77)
Os tantos noves se penduram no colar, depois fazem saia, quase renda… Festejam a data dos setenta e cinco anos: Trejeitos e fetiches…. Encontra graça colorida nos lilases e vermelhos que se abraçam e dançam alaranjados… A festa continua misteriosa e alegre e minha! Grande! Ruidosa! Colorida. Balões e fitas. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres
” Não observastes ainda que o prazer, que é, efetivamente, o único móvel da reunião dos dois sexos, não basta, entretanto, para formar uma ligação entre eles? E que, se é precedido pelo desejo, que aproxima, nem por isso deixa de ser seguido pelo desgosto, que afasta? É uma lei da natureza, que só o amor pode mudar; e tem-se amor quando se quer? É ele, entretanto, sempre necessário, e isso seria realmente muito embaraçoso se não houvéssemos percebido que, felizmente, basta que exista de um lado. Com isso, a dificuldade diminui de metade, e sem que se tenha muito a perder. Com efeito, um goza a felicidade de amar, outro a de agradar, um pouco menos viva, em verdade, mas a que se junta o prazer de enganar. Assim, estabelece – se o equilíbrio, e tudo se acomoda.”
[…] Uma infidelidade recíproca tornaria o encanto mais picante. Sabeis que lamento, por vezes, estarmos reduzidos a tais recursos? No tempo em que nos amávamos, e creio que era amor, eu me sentia feliz.[…] Mas por que nos ocuparmos ainda de uma felicidade que não pode voltar? Não, por mais que o digais, é uma volta impossível. Primeiramente, eu exigiria sacrifícios que seguramente não poderíeis ou desejaríeis fazer, e que é possível que eu não mereça. E depois, como vos assegurar? Não, não, não quero pensar nisso, sequer, e, apesar do prazer que tenho em vos escrever neste momento, prefiro ainda deixar-vos bruscamente.”(p.254-255) Choderlos de Laclos As Relações Perigosas (Les Liaisos Dangereuses) Volume 26 Os Imortais da Literatura Universal – Abril Cultural – 1971
Homem, mulher, amor e prazer + vozes = estás comigo, tão bom! Tão bom! O que eu fiz neste final de chuva! E como chove? Encontrei livros, limpei estantes por capricho de prazer. Ou por prazer de remexer, mas necessidade sempre premente. Ah! Uma bibliotecária! Ah! o prazer das bibliotecas inglesas, fechadas por vidros, ou?! Alguém a cuidar. E eu me emociono com um livro de poemas que tem os olhos faróis do pai e seus sonhos. A juventude da minha mãe, aquela beleza de caráter e força a cada linha! Seguir. Pedro e Lúcia de Romain Rolland, será que foi reeditado? As Cabeças Trocadas de Thomas Mann, e, na verdade, prazer no manuseio. Preciso me desfazer, ou insistir em guardar…, deixar acontecer? Resolvi te escrever, ficar um pouco mais…, seguir teus passos, e guardar, estar mais um pouco antes de chegar no longe, meu querido. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2021 – Torres
“[…] os portões entre os mundos […] estavam abertos, um após o outro, ao capricho e ao desejo do viajante. Esse é o grande segredo conhecido de/por todos os homens cultos de nossa época: pelo pensamento criamos o mundo que nos cerca, novo a cada dia.” Marion Zimmer Bradley As Brumas de Avalon
“O que os sacerdotes não sabem, com o seu deus uno e sua verdade única é que não existe história totalmente verdadeira. A verdade tem muitas faces e assemelha-se a velha estrada que que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos, e, talvez, no fim, chegamos […]
“Por certo não é tanto ver outra coisa como separar-me de tudo o que não não me é indispensável! Ah!, quantas coisas, Nathanael, poderíamos ainda dispensar! Almas nunca suficientemente despojadas para serem enfim suficientemente enchidas de amor – de amor, de espera e de esperança., que são nossas únicas posses verdadeiras.” (p.82)
“Sem dúvida conheci o amor, o amor ainda e muitos outros; mas dessaternura de então não poderei dizer nada?”(p.83) André Gide Os Frutos da Terra tradução de Sérgio Milliet – editora Nova Fronteira – 1982
O não dito parece ser o pior, o perigoso, a armadilha… Conversar, ou teclar pode ser animosidade, elogio. Da sombra, escuridão. Simplificação… Termino por compreender: palavras são armas perigosas e mortais – o desarmamento seria solução, (talvez) mas o homem seria o homem belicoso, sempre. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021
“Digamos nosso pensamento por inteiro ou não digamos nada.” […]
“Ao suprimir a passagem do fiacre, nada foi retirado ao que escandaliza, e, ao suprimir, no sexto número, o que me pedem, nada também será retirado, da mesma maneira. O senhor detém-se em detalhes, mas é ao conjunto que se deve dar importância. O elemento brutal está no fundo e não na superfície. Não se pode branquear os negros e não se muda o sangue de um livro. Pode-se empobrecê-lo é tudo.” (p.164) Gustave Flaubert – Cartas Exemplares A Louis Bonnenfant – Diretor da Revue de Paris 5 de dezembro 1856
o que espero de um companheiro? que seja ele mesmo sempre, sempre, não ceda. deve ter foco, querer ser ele mesmo, e se amar bastante. ele comigo diferente, por isso, juntos. um companheiro? alguém para conversar, discordar, descobrir, zangar e depois alegrar, alguém para rir junto. beleza importa, mas menos, muito menos…, aquela história “de como és bonita!”, “que homem lindo!” céus! E se não fosse? um bajulador, será sempre superficial, menor. o amor como uma fruta: precisa ser descascada, comida aos pedaços, devagar, nunca devorada. as palavras fazem a diferença, concordar, complicado, bom quando discordar para descortinar e avançar…alguma coisa a descobrir…claro! a fazer também, construir, mas, cada um um. apaixonado parece zumbi, ou…bem, é particular, mas conquistar, e ficar, outra sensação, e nunca saber… não existe o completo, somos mutantes, e por isso vivos. e o para sempre, difícil. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres