Uncategorized
autobiografia / apenas palavras
As grafias se espalham a pensar autobiografia/histórias do passado mescladas ao presente desordenado, diz uma amiga ao estimular, com elogio e presteza, a cada novo lote de revelações, eu explico: não são novas. As citações, flores. Flores colhidas, novo jeito… O desejo que tenho/ mas também este, camuflado, mentiroso seria me esconder sem conexão. As vozes desapareceriam, os dias se esconderiam em noite. Noites corajosas. Seriam? Não sei. Às vezes quero o tempo acelerado, outras que fosse infinito. E Este balanço carece do amor, dos amigos, das vozes, do sorriso: este segredo guardado dentro de ti, da tua vontade assustada de viver atropelando o mundo, e os amores, vorazes que pontuaram tua inquietação. Como eu, ainda sonhas. E, fugimos dos fantasmas. Se fantasmas se tornam amistosos e menores? Amistosos sim, menores não sei, tenho/guardo um fantasma que cresce em amor amado como se possuísse, não apenas o meu corpo, mas a casa inteira, eu repito… Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2020 – Torres
“A Aventura humana jamais é original e exclusiva mas um conjunto de simetrias espaço infinito, contínuo. Mesmice porém estimulante. Repetição com alento.Não existem seres especiais. Abundam sósias, cópias e também caricaturas, […] O que pesa e diferencia é a narrativa da personalidade, as situações criadas ao longo de uma jornada.” (p.18)
Morte no Paraíso – A tragédia de Stefan Zueig – Alberto Dinis / Morte no paraíso é a biografia de Stefan Zueig, também biógrafo. A reconstituição dos conflitos existenciais de Stefan Zueig e do pano – de – fundo histórico contra o qual eles se desenrolam torna este livro um exemplo perfeito do que certa vez disse o romancista Bernard Malamud: A biografia é uma forma de aprender com a vida. Editora Nova Fronteira -1981
sem título
No mármore quebrado da mesa de ferro eu me inclino para escrever. Sala limpa, silenciosa. Paradoxalmente, o silêncio não chega: o ruído na cabeça e o som dos carros. Ordem, luz adequada: limpeza. As outras peças da casa, tomadas pela desordem. Disponho-me organizar/arrumar a cabeça: equaciono possibilidades. Não, nada farei sem autorização.
Cabelo comprido de menina esfogueada. A leitura adolescente, velhos romances: para sempre felizes, sem rebeldia. Dentro, as velhas injustiças se remexem: o namorado olhou para o lado. Olhar que não olhou. Silêncio. O beijo, as dúvidas se esqueceram/afundam na gravidez. E o cimento cobre madeiras e pedras. A terra se mistura. E a casa surge…
Beth Mattos – Porto Alegre – 2008
insatisfeita
Não sei se posso, mas quero dizer da insatisfação, e do abominável; não compreendo o motivo/o porquê de não ter/ser mordaz e cruel. Estou enjoada com este arrumadinho e engomadinho jeito de ser feliz, ou capa de revista,céus! As palavras podem me envergonhar, chega logo para me explicar tudo outra vez… Beth Mattos – julho de 2020
“A única maneira de se tolerar a existência é mergulhar na literatura como em uma perpetua orgia” Gustave Flaubert
Orgia boa palavra: com ela me aventuro por/em viagens incríveis e me embebo com beleza: mares, picos, prados e monumentais monumentos. Comidas exóticas e palavras, palavras em diferentes línguas. Intermediada por trens, aviões: máquinas maravilhosas que transportam…, balões. Intoxicar olhos e gestos em abraços e olhares: sentimentos. Agarro o tempo enquanto, atrapalhada, quero te escrever. Responder se faz sol ou venta, se transforma, no engasgo das reticências. E não me perguntes o porquê. Tropeço. Simples assim. E não sei mais se dancei no mesmo baile que dançaste. Chega logo. Beth Mattos – julho de 2020 – Torres
fusão
Se falas comigo, me confundes. Levantas/abres o passado (hoje). Turbulento. Remexes/ acendes inquietações. Anulas decisões, tuas e minhas. A cada tempo seu tempo! Beth – julho de 2020 – Torres com sol e calor num dia verão, morno.
primeira sessão – com desvio
Porto Alegre e Torres se misturavam/misturam no meu imaginário. Eu acabava de sair, definitivamente, da casa da minha irmã. Chorosas as duas, assustadas também. Quantas mudanças fiz, definitivamente. Quando morei no Rio de janeiro, nunca/jamais pensei no temporário. Era para sempre. Quando fui para Santa Cruz do Sul, ou Rio Pardo eu me encontrei comigo mesma. Era para sempre. Açudes, curva de nível, pomar, galinhas, gansos sinaleiros, cães, ovelhas, porteiras, cinamomos. Outro mundo. Para sempre. Não foi assim. Temporário. Perdendo os pedaços. Colando memória. De repente, arrasto malas, encaixoto ou deixo para trás, reduzo seleciono/reduzo. Aperto as roupas, esqueço. A cada mudança enterro um pedaço de vida, uma memória, um passado. Ou a cada mudança um vendaval, um incêndio, uma fumaça tóxica. E deixo para trás tanta coisa, tanto eu, tanto nada… Eu me dou conta do ciclone pelos livros comprados, salvos. Pelos abandonados, e pelos perdidos (lembrei que na biblioteca de Cambará do Sul deve estar o volume 4 do Diário de Anais Ninn, doei muitos livros). E o esforço para reconstruir… Nestas decisões de ir, de arrancar dor e lágrima, de correr a transformar: malas diminuem de tamanho, essencial desaparece, perdi meu rosto de Beth. E também a Elizabeth / a Lisa. O espelho me surpreende. A viagem altera importância, o jogo muda de regras. E Fernando Pessoa tem razão: quantos Eus ! E recomeço. O mesmo tabuleiro, outros ensaiados lances. E não consigo repetir, voltar e fazer certo. Ganhar. Estou sempre a perder. Já não sei se importa ou não importa. Tanta coisa me abafa nestes tempos apertados de cuidar, prestar atenção para não morrer! Estou a contar o dia, a noite, a morte como se estivesse numa partida de futebol, ou numa quadra de vôlei a contar os pontos, numa partida de tênis, um jogo. Qualquer jogo. Uma aposta. Eu sou a finalidade, mas não sou nada… O jogo perde o sentido. A cancha vazia. Não deveria ser. Mas eu não quero ir…, tenho um encontro marcado na rodoviária de Porto Alegre. Quero voltar a Belo Horizonte, voltar às cidades histórias e esquecer/lembrar, abrir um café com estantes de livros. Preciso voltar a Pernambuco, – esquecer o que aconteceu aqui quando Gustavo morreu. Voltar ao mundo mágico de Francisco Brennand, e, chorar um pouco, vou estar feliz em Recife. Os tempos são outros. Celso está feliz com a vida alegre de amar o amor e sua gigantesca biblioteca. Estar em São Paulo que adoro. E ficar no Rio de Janeiro com Valentina… Eu preciso ir a Viamão visitar a Mabel. Também a Florianópolis ver a Marina, e os meninos, que estão adultos: comer bolo feito em casa e tomar chá. Preciso voltar para o mar, e caminhar entre as canchas espiando o jogo, jogar frescobol, quebrar as ondas. E ficar cheia de sol. Comprar um pacote de chocolates no Max, em Porto Alegre, e visitar a Elaine. Não ter medo. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2020 – Torres – talvez vá até Brasília visitar a Beatriz e a Carmem Lícia: os ipês floridos/ coloridos. As espatódeas. Não posso esquecer que Nilton e eu marcamos um encontro na rua Vitor Hugo, 229 – Petrópolis.
frio que ficou…
Frio gelado, a rua, nas curtas caminhadas, nem acho tanto, porque estou super agasalhada, porque pode ser pouco tempo, porque está apinhado de estrelas… Etão viro a quadra em direção ao mar…, céus! Gelado. Do mar vem o frio! Naquele momento respirei o mar inteiro, sim, gelado. Beth Mattos – esqueço de escrever enquanto o inverno caminha: demoro na cama, demoro a cada passo, até nas leituras, demoro: releitura de foto, de bilhete, de longa carta, da saudade
o que não é mais…
O tempo revirou tudo, não, não foi o tempo, nem foi o tudo. O sentimento se fez nó. Ferrolho, stop! Na ponta o limite, e…, depois, outro nó apertado, daqueles que levam anos para se desfazer, ou paciência. Perdi coragem e paciência, ou fui sempre assim mesmo apressada e distraída. Não sei. Com medo. Hoje tão fácil ter medo! Pertinente, adequado o medo. Um jeito de brincar de Estátua, Quantos passos? A delícia de cair na cama e dormir antes de fechar os joelhos. Estava a vida à frente/diante da expectativa. O anos demoravam tanto, e tanto para o importante/ o justo/ o adequado o limite. E agora pergunto, timidamente, como estás? Com medo de receber a resposta. Estamos na vitrine, confundidos com os manequins (reler Cecília Meireles), ah! Nossos poetas! Deu saudade. Que loucura voltar no tempo! Beth Mattos – julho de 2020 – Torres
peste e guerra
Nunca estive na guerra, ou campo de batalha. O sangue a escorrer dos olhos… Mesmo cegos atiraram. Atiraram sem parar. Virulência absurda, parece ficção, mas não é. Querem a guilhotina… Foi promessa. Céus!E.M.B. Mattos – Os ratos saíram das tocas, vorazes. É a peste. julho de 2020