sou eu

Sem vontade de inventar, sou eu. Nada mudou nem mudei. Faltam os espirros. E o  lagrimejar, a dor de cabeça e ser  diagnosticada. E se for irei. Sem despedidas neste ter de seguir / ir.

Passei o dia inteiro pesando em ti. Calçadas nossas, e combinações calculadas; inteligente e saudável, os dois com os pés na areia, a rir. Sem precisar fazer contas. Sem pensar em amanhã ou depois. Beijos e beijos, beijos e beijos.

Sem vontade, aos pouco, entre o nada e o muito, entre…, que importa? Eu te espero, durmo menos hoje porque ontem dormi demais, não leio, não aguento, sem a mínima concentração, li tanto antes, li tanto, nenhuma vontade agora. Não escrevo , não sei o que escrever, não penso, eu me debruço em ti. Prisioneiro de tantas bobagens e  penduricalhos do tempo. Dinheiro importava, não importa. Não importa, droga! Faço panquecas e abro um vinho, rimos. Atravesso o tempo. Não imaginas quanta tanta quanta enormes gigantes saudades sinto das tuas palavras, e tu amordaçado, meu querido. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020, em noites tépidas, lindas, perfeitas e nossas…

Palavras chaves: inteligente e saudável. Droga! Perdi tudo. E tu te importas, claro que não.Vamos nos ver sem cálculos nem lógica. E estou morrendo, morrendo devagar não me importo, nem te importes. Saúde precisamos para amar, senão…Deixa o tempo levar!

 

finalmente

Olhei para ele: estava mais velho, mais velho que ontem ou antes de ontem do que poderia ser envelhecer. A roupa desleixada, mas o olhar não era triste, nem infeliz, nenhuma gota de amargor. Nos braços o pacote, também flores, e a correspondência. Dois livros. Agradeci. Em casa preparei um chá. Não tinha fome. Nem vontade de folhar uma revista, olhar pela janela ou. E a televisão? Talvez eu fosse uma das poucas pessoas que não assistiram um filme nesta semana, nada. As notícias entram pelo rádio. Um velho hábito. Estou cansada. Fisicamente dolorida, o apartamento estava sujo, então eu limpei devagar: urgente, amanhã termino. E poderia ser diferente, sigo pensando. Poderíamos todos envelhecer devagar aos sorrisos.  Os cravos e as rosas no vaso e o perfume se mistura com o aramo das goiabas. Lembrei que a mãe detestava cravos. Talvez por serem amassados e tantos tingidos, ou porque deveriam ter enormes canteiros de cravos em Guaíba. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres e agora chove

o sopro

image 2 interessante.jpgFarelos, fragmentos ou estranhezas.

Não estás em lugar nenhum. 

Será que ainda te reconheço?

O moço de olhos azuis, ou são verdes? Apressado, gelado. Eu te aqueço.
Abro o baú do tempo e retiro a manta que tua mãe tricotou.
Perdi o você depois que te conheci,
Nem sei por que cedi.
Elizabeth / Beth Mattos e penso nesta coisa complicada dos nomes F.H.T. Um nome, uma pessoa, outra, e depois ainda outra… Mudar na ventania, desaparecer no mar… Em abril de 2020 / Torres Lagoa do Violão sem frio, com epidemia a rondar.

A Blusa Amarela

“Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevski mundial com passo pachola
Todo dia irei flanar qual D.Juan frajola.

Deixai a terra gritar amolengada de sono:
Vais violar as primaveras verdejantes!’
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!’

Talvez seja porque o céu está tão celestial!
E a terra engalanada tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olhas, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela!” Vladimir Maiakovski
1913 – tradução de Isadora Coutinho Guerra

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Catálogo de Brotos

Ana Luiza Job, Elizabeth Mattos, Heloisa Pegas, Marta Luiza Aranha, Tânia Maria Borges, Suzana Correa Sores, Suzana Machado, Maria Beatriz Peroni, Isadora Medeiros Ilsa de Castro Matte, Consuelo Zabalesta

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Catálogo de Brotos 1961 – Cotillion Club  (da rua Salgado Filho / Porto Alegre / RS)

 

 

 

não foi brincar

…,poderia ter sido apenas brincadeira como sempre: toque de audácia, brejeirice de rapaz: ciência de sedução. Houve um tempo em que os amigos fizeram coroas, depois foram embora com seus jogos a ser eles. Mundo às avessas, sempre mais do que deve ser menos. Solitário quando a ordem se esparrama… Turbulento e lotado na algazarra. Tão menos quando transborda! Uma  garrafa de vinho, um pouco de queijo e o pão, todos os tipos de pão. Todos os festejos, todos os sorrisos, todas as brejeirices, todas as tuas risadas, sim, tu me alegras. Eu ainda quero todos os meninos que estão em ti. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

P.S. Esta epidemia a revirar cabeça com mortes e mortes! Que revirada de vida. Sinto saudade de alguma coisa dentro de mim: de uma cor, de um jeito, daquela volta, daquela trava, daquela rebeldia de não dizer, não ir. Sabes o que me acontece? No/do proibido recomendado volto a desejar encontros, conversas soltas. No proibido, desejo ser normal, gentil, social e faceira. E agora? Está tudo mesmo proibido. Eu desapareço na normalidade do sinal: não socializo porque obedeço, deixo de ser eu. Abril pode ser um mês perigoso. Não vás morrer!

azula o céu

Venta no verão. Atrasa a estação, atrasa a vida, atrasa o amor amado, envelheço. Venta tanto! Depois azula o  céu para amanhecer. Li tua carta transferindo os trabalhos para janeiro… Lá os projetos voltarão robustos e alegres, os meus se perdem. Sim, a cada passo um sorriso.  Abraço. Afagos também se esvaziam.

Tu sabes a magia. E outro novo jeito de fazer… O estranho, meu amigo, ser sempre o mesmo peso, o incerto passo de aprendiz… No teu caso, voltas, chegas, refazes, reviras o tempo inquieto, como marinheiro em alto mar! Vão e voltam…, entre os muros  do castelo. Eu te digo, teremos sol. Teremos luz e margaridas no campo. Olha! Não há beleza maior… E eu posso te amar e tu me abraças. Depois desapareces, eu fico a te esperar porque nós, as mulheres, embalamos os filhos. Nos Contos de Fadas era assim, em todas as histórias. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

 

utopia

Utopia: sonho, devaneio, fantasia… tais os sinônimos comumente atribuídos a essa palavra, criada, como se sabe, em princípio do Século XVI, por Tomás Morus.

Homem feliz, cujos pensamentos fora tão sedutores que a palavra, com que os designou, se incorporou na linguagem vulgar, passando a lembrar um belo sonho! “Ivans Lins Thómas Morus e a Utopia

No vento a fantasia, na música a loucura. Loucura deste vagar potente, único. Das cordas do piano a melodia doída deste dia-epidemia. Esquisito medo sem palavra agarrado no mal humor agressivo da pressa. Será que eu vou mesmo chegar? Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres e tanta, tanta ventania quente!

acuso 2

forçar e pressionar

“Tentar forçar algo, entende?, forçar sempre é errado. E isso é forçar e pressionar – fazer com que todo mundo ame todo mundo, e que eu tenha que amar todo mundo o tempo todo.” (p.290) Barry Stevens Não apresse o rio, ele corre sozinho

Trazer de volta uma pessoa será sempre redesenhar / repensar/ imaginar. O paradoxo da lembrança oscila entre opostos. E vou a caminhar pela infância (aquece a alma), imaginação! Constatar a imensa/enorme solidão de dentro enquanto descreve as paredes da casa. A exata importância do beijo. Ficção, emoção sem responsabilidade. Lacunas, dúvidas preenchem o texto… Experiências passadas preenchem lacunas. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

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Perfume da goiabeira dentro da casa / prazer guloso.