se

se eu tivesse aberto os braços…

menos reticências, mais coragem.

fiquei assustada (desculpa), mesmo livre:

janelas e portas escancaradas e vontade,

vontade de sonhar e de ver.

se eu tivesse entendido… Eu não deixaria tu ires embora sem me explicar.

todas as pistas,

tínhamos / temos o hoje e o agora.

Olha pra mim… E me surpreende.

Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torresmesa sombrio e beleza

de amor

“1. É uma das ironias do amor o fato de que é mais fácil seduzir com segurança aqueles por quem estamos menos atraídos, a seriedade do desejo adia os jogos de indiferença necessários, a atração provoca uma sensação de inferioridade com a perfeição que atribuímos ao amado.” (p.35) Alain de Botton Ensaios de Amor

acender

A declaração dele certamente fez seu coração se acender.” J.M. Coetzee – Verão – (p. 107)

Interrompo a leitura: tanto em tão pouco tempo! E não tenho nada.

Ele tocou no meu braço, e eu estremeci. Transes da luz, das letras, deste sol que a primavera entregou… No entanto, ainda sinto frio. Não consigo segurar o sentimento, nem a perda, nem teu sorriso. As flores estão / são /  pedaços de memória! Imaginação. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019

Amor significa abrir o coração para o ser amado, diz John.” (p.109)

Escrevo enquanto leio, leio escrevendo, escrevo enterrada na terra do teu pântano. E o inacabado me espera. Às vezes, agarro outro sentimento, e vou cantarolando pela casa enquanto limpo/ordeno e desarrumo outra vez. Depois, interrompo a leitura, depois vou  ao cinema. Caminho. Ou me debruço no parapeito da janela. Claro! As caminhadas me levam ao teu portão… Sigo a te pensar adormecido em mim. Está escuro por aqui. E o sol ardendo no dia! Está escuro neste pensamento. Devagar, eu volto devagar para dentro do teu sonho. Não deverias ter me contado se era apenas imaginação! Beth Mattos

cadeira e flor

pelo sol, no sol do domingo

A carta roubada de Edgar A. Poe, a referência. Teia sem aranha. A sala? Sempre abarrotada de livros, desordem colorida, a minha. Flores perfeitas. Objetos inusitados e o detalhe das mantas e almofadas aquecem a informalidade. Tapetes são infância, estanho o casamento. Porcelanas, minha mãe. Quadros: acidentes coloridos. Café da manhã, o meu pai. Tia Joana, o meu quarto. Livros de arte/com arte: gravuras e recortes. Pilhas de papel. Copos de cristal, eu gosto. E leituras interrompidas. Por que não estou em Paris? Pelo mesmo motivo de não estar em Portugal, nem em Berlim, não conhecer os Estados Unidos da América, nem a Rússia, nem o Alasca, nem a Noruega. Lamento não ter ido/visitado a Amazônia legal, ou Alagoas, ou Belém, ou ter voltar a Belo Horizonte, revisitado as pequenas cidades históricas. Estar em Limoges outra vez. Algumas perguntas conseguem mesmo desestabilizar. Remexem noutras memórias. Desejos ocultos, fracassos, escolhas malfeitas, e a magoa da vida volta. Como forçar a cabeça dentro de uma bacia com água e simular afogamento, tortura ocasional (se é que tortura pode ser ocasional, e o veneno acidental). Não somos o possível do sonho do outro, somos tão absolutamente todas as nossas próprias mentiras. Somos o esconderijo. Maluca lógica do disfarce, do medo, da covardia e do intenso. Sabes do que estou lembrando? De uma noite de mudança, quando as caixas chegaram de Porto Alegre e eu fiquei aturdida e aliviada: desarrumada (é verdade), mas a tristeza da perda se misturou ao bom do teu encontro, então eu me achei, absolutamente, encontrada comigo mesmo, e aliviada. Te joga na cama, mereces! Foram tuas palavras. Estou lembrando das tuas palavras apressadas e escondidas, do teu desvendar já te despedindo (e eu não sabia), da tua resiliência e da minha surpresa. Do homem que não vou reconhecer/conhecer, do menino que escapou da minha memória. E me atropelou. Estou a lembrar desta tua lembrança ardida enquanto temperavas a carne, e do meu descaso comigo mesma, das minhas inumeráveis desistências. Eu lembro que pontuavas minhas palavras com o jogo inteligente e astuto da tua imprecisa e certeira memória. Desenhavas limites. Ainda uma vez/ tantas oportunidades, nós as tivemos!?, ou nunca cruzamos a mesma calçada. Não estou onde deveria estar, e não temos uma rodoviária, um aeroporto, nenhum lugar de passagem para tomarmos o nosso prometido café. Sinto saudades tuas. Não adianta / não importa. Envelheço a cada amanhecer de maneira tão avassaladora! E para tuas mãos, para teu olhar eu teria que guardar a beleza da mulher, todas as voltas do corpo e me vestir devagar como se fosse ao som de Schubert (o quinteto para cordas). J.M. Coetzee idealizou/desejou fazer amor, eu penso nos gestos que nos levariam a loucura certa, na verdade aquela ideia maluca do amor nudez… nem sempre, o depois pode ser também avassalador. O sexo tem voltas repassadas / ultrapassadas / fantasiadas no olhar aberto ao ritual da desconstrução. Ah! Que saudade tenho / sinto das conversas desalinhadas e intensas, picadas, perfumadas pelos odores do verão. Vontade de ficar extasiada outra vez com as revelações e as entonações, as tuas insônias aconchegadas nas minhas insônias. O teu proibido viver esticado e misturado com minha liberdade. A minha vergonha com teu jeito desavergonhado e profano. Livre. Tuas escolhas abertas com minha vida oscilante de empurrões. Saudade de nós dois, deste ápice de te amar escondido. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Ainda em Torres.

viagem

apenas um botão branco fechado na árvore da lagoa A grande viagem poderia ser experienciar um novo quintal,

com sol e chuva e pés na terra…

Valeria a loucura de tudo tirar do lugar, e de tudo recolocar no lugar outra vez!

Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

Verão de J.M. Coetzee

“Apaixonado… Apaixonado por mim ou pela ideia de mim? Não sei. O que sei é que ele tinha razões para ser grato a mim. Eu facilitei as coisas para ele. Existem homens que acham difícil cortejar uma mulher. Têm medo de expor seu desejo, de se expor a uma recusa. Por trás desse medo muitas vezes existe uma história de infância. Eu nunca  forcei John a se expor. Eu é que fazia a corte. Eu é que fiz a sedução. Eu é que controlei os termos do caso. Fui eu até quem decidiu quando acabar. Então, o senhor me pergunta: Ele estava apaixonado?; e eu respondo: Ele estava agradecido.” (p.72)  J.M. Coetzee – Verão

Estar apaixonada  pode ser um estado de permanência sem rumo, desnorteado. Pegar um avião, comprar flores, caminhar sem sentir, ou céu ou chuva, ou aquela precisa sensação (não sei definir), aquela certeza de que tudo está exatamente no lugar certo (o meu certo, não sei como será o certo do outro…). Estar apaixonado também pode ser acordar uma vontade. Gritar / chamar pelo teu nome, e responderes… Em alguma página do livro eu perdi o teu retrato. Esqueço teu rosto, não sei mais a cor dos teus olhos. Estar apaixonada!

“Ele foi o único homem que eu conheci que me deixava ganhar uma discussão honesta, que não berrava, nem armava confusão, nem saia bufando quando via que estava perdendo. E eu sempre ganhava dele, ou quase sempre. A razão é simples. Não que ele não conseguisse argumentar; mas ele conduzia a vida dele seguindo princípios, enquanto eu era pragmática. Pragmatismo se movimenta, o chão se transforma debaixo dos nossos pés; princípios estão sempre um passo atrás. (p.69)

Voltei ao texto. Sou tão a mesma! Covarde. Eu não consigo dizer/explicar o sentimento inteiro ou falar como, realmente, eu sou. Não consigo ser frontal, eu não consigo… Escrever pode ser a tentativa escamoteada de sentir e dizer, mas sempre escondida atrás de uma página. Vou ter que enfrentar! É preciso! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019

sem voz

lindaaaaaa a roxa as flores de hoje

O dia pode ser vazio, ou isolado,  ou colorido, mas sem voz… Este é o meu.

Fantástica extraordinária magia de renovar beleza: viajar. Os continentes seguem, para mim,  intransponíveis!  Espero tua voz e sorriso… Não me perguntes por que não estou em Paris. Não tenho resposta, ou todas são tantas! Obscura história. Por favor amiga, escreve um cartão! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019

informalidade

Informalidade, esforço enorme, gigantesco: tento colocar a casa (as coisas) no possível / ou visível lugar certo.

Sim vou fazer terrorismo.

Tenho a sensação que as cadeiras se multiplicaram / voam / não estacionam. A Ônix se transformou num enorme cão. Os livros saíram todos das estantes.

Céus! Suponho que estejas viajando e viajando permaneces provisório…

Mas logo entrarás chegando! E não terei tempo para respirar. Pânico! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres com vento e vento, também primavera doce.

oscilar / balançar

Oscilar e balançar irresponsabilidade, excesso… É querer se pendurar na juventude  imediata, na urgência de fazer, na exaustão e correria da alegria criança. Quando escrevo estas coisas eu me dou conta que a solidão inteira está guardada nesta caixa colorida de não saber esperar, nem pacientar. Insisto como criança, desisto como criança, choro e logo estou na risada. Faço gracinha e beicinho… E tens razão, está tudo fora do lugar. Eu respondo bem depressa se eu for encerrar, arrumar, polir comprar flores e cozinhar para te esperar…  Não sei. Não sei se o verão vai chegar depois da primavera, o tempo é tanto e tanto! Desanimo. Corre e diz que não, vem logo… Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2019 esperando o André Peifer chegar no ônibus das 23 horas, direto de Floripa! Empilhei livros. Pensei tudo. Só não consegui estrelar o céu. Segurei o frio.

Elias Canetti

Dentre as coisas mais importantes que urdem dentro em nós estão os encontros adiados — trate -se de lugares ou de pessoas, de quadros ou de livros. Existem cidades pelas quais anseio tanto, que é como se estivesse, desde o início, predestinado a passar nelas toda uma vida.“(p.17) Elias Canetti O Jogo dos Olhos (História de uma Vida /1931-1937)

Gosto do autor. Gosto muito. Como tenho o hábito de sublinhar os livros, vez que outra, eu me reencontro com observações e surpresas. Pensei nos encontros adiados e descubro que não quero mais que aconteçam… Temos motivos (????) para adiar e adiar o encontro com pessoas, até esvaziar a vontade de ver, e com autores, é o mesmo. Quando o tempo de adiar se estica muito, o prazer do encontro, a surpresa, o represado se esvazia. Talvez seja a idade, este danado envelhecer que nos dá sulcos e curvas,  deforma… Talvez seja a ciência / certeza de que não podemos mais isto ou aquilo. Até falar / pensar seja esforço. Talvez a ternura tenha terminado em se tratando de um encontro amoroso, ou resgatar ou deixar morrer já tenham o mesmo peso. Ou esperar seja ridículo tanto quando esperançar ou desencantar. Adiar é uma palavra maldita. Adiar tem gosto de impotência / fragilidade, covardia e tristeza. Não querer. Não adiamos a sede ou o sono, pode ser protelar. Não sei.  Fico pensando. Adiar a leitura  já está no desprazer de ler. Adiar alegria, ou gozo, ou a viagem, significa desistir. O ímpeto é jovem, adiar é a velhice. O desejo de encontrar / ver / tocar e saber tem gosto de alegria, do imediato. Eu estou sempre esperando… Ridículo. Sei que o jogo de esconder e encontrar é apenas o meu jogo, como se assim eu fugisse do tempo, e ludibriasse a tristeza. Encontrar me assusta. Se alguém ameaçar bater na minha porta eu vou dizer não, se insistir, não vou abrir. Talvez seja a lembrança da morte, como se chegar onde estou fosse sempre ameaça. Assim, imaginar / fantasiar / protelar seja o truque para seguir respirando… Elizabeth M. B. Mattos – Torres de 2019