CIORAN

Excesso de vontade. Excesso no desejo. A relação flui lenta, preguiçosa. Neste/deste jeito gosto de nós dois juntos. O que não impede uma efervescência violenta interna reprimida. E o sono esparramado nesta sexta-feira silenciosa explica os excessos: esfreguei, ordenei sem método ou jeito. Entregue ao brilho das meninas. Ao bronze da praia: cheiro de férias e sal. Eu me transporto para os braços da Anita, do Roberto, da paciência de meus pais. Sinto o perfume das lajotas enceradas. Do gosto de abacaxi. Beleza das uvas… Já  temos laranjas! E o sol se termina/ acaba ainda cedo. Os filhos cresceram… E  espero. Fecho encantamento e amarro a lembrança de Torres sendo apenas praia céu e gosto de milho. Sofisticação do que já passou… Elizabeth M.B.Mattos abril de 2019 – Ana e Luiza em Rio Pardo, os netos também: expectativa. Eu sou o chocolate.

A verdadeira filosofia é a literatura, a única reflexão que não teme o escândalo da vida. Fora disso, mostra Cioran, só existem tentativas positivistas de regular o regulável, o limitado, o racional. Mas o verdadeiro filósofo deve alimentar-se de paradoxos, de paixões, de ironias, de tempestades.

Não se evita impunemente uma crise interior‘, avisa Cioran. 

“Cioran  evitou as concessões. Teve sucesso sem adorar o brilho. Permaneceu libertário mesmo quando se tornou um mito, uma celebridade, um adulado. Desprezou os prêmios e as horarias fáceis. Buscou no tédio, no vazio,  na insignificância das coisas, o sabor da existência. Só há sentido na falta de sentido. Depois de ter reduzido o tudo ao nada, suspirou: ‘Se não escrevo mais, é por estar farto de caluniar o universo.

‘Quando a maioria dos pensadores estiver relegada ao silêncio empoeirado das estantes, Cioran ainda resistirá como um analista do impossível, um mestre da dúvida, um espírito da mordacidade a serviço da palavra maldita. A sua insolência resistirá ao sol do tempo dando sal a impaciência dos que já não suportam a morosidade do’ vitalmente correto’.Tradução e apresentação de Juremir Machado da Silva Cioran Entrevistas com Sylvie Jauceau – Coleção Filhos de Rimbaud

“A lucidez e a fadiga venceram-me 

–  falo de uma fadiga filosófica tanto quanto biológica – ,

algo se rompeu em mim. Escreve – se por necessidade, e a lassitude elimina essa necessidade. Chega um tempo em que nada disso interessa mais.” CIORAN

 

Pascoa perto longe

Segunda-feira, 5 de abril de 2004.

João, estou com saudades sim, mas, muito preocupada com o tempo que a vovó dispõe para RESOLVER muitas coisas. Agora estou em casa tratando de NOVOS caminhos para minha vida, inclusive, a possibilidade de me aposentar. Sabes o que SIGNIFICA aposentar- se? Receber um dinheiro para ficar em casa e ter, então, comida e roupa. Quem pagou para o GOVERNO um tanto de dinheiro, depois de muitos e muitos anos de trabalho, pode parar por estar ficando velho, velho, velhinho…, acho que é isto.  Quem sabe explicar melhor é o papai. Pergunta para ele. Mas a vovó também  quer ganhar dinheiro…, vou fazer um concurso, vou estudar um pouco mais…se der, deu… TU podes imaginar uma pessoa como eu passando os dias inteiros  numa cadeira de balanço para lá e para cá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Poderia ler muitas histórias, é verdade, talvez escrever outras,…mas, eu penso que estar trabalhando e ganhando um pouco mais de dinheiro seria melhor.

Bem, a Páscoa e o coelhinho estão chegando, juntinhos. Vou passar estes feriados com vocês. Então conversaremos sobre o TEMPO de FICAR NA CADEIRA de BALANÇO e o TEMPO de FAZER COISAS. TAMBÉM PODEMOS PENSAR no TEMPO de CAINHAR na PRAIA COLHENDO CONCHAS e PEDRINHAS. O que achas? Vovó Beth

 

Por que só agora?

“- Por que só agora? – perguntou alguém que não sou eu. Por que mamãe sempre me…porque eu queria gritar como outrora, quando se ouviam gritos na superfície da água, mas não conseguia…por que agora…

Palavras ainda me deixam em apuros. Alguém que não gosta de conversa fiada me mantém prisioneiro de minha profissão” (p.7) Günter Grass Passo de Caranguejo

Procurei. Procurei o livro: remota ideia de ter estado com ele nas mãos, antes dO Linguado, antes de Nas peles da Cebola. Quase comprei. Ia ser outra vez/mais uma vez  livros duplos. Estes ímpetos! Esqueço… Livros caminham, e caminham, e desaparecem em lugares incríveis! Eles se permitem viajar… Estou feliz! Reencontro e festa! Desejo e vontade satisfeitos. Estou com ele nas mãos: todas as memórias. Günter Grass, eu volto.

Confusão! Grande Sertão: Veredas, vai se misturando! Céus! Ninguém deve ler assim. A disciplina perco pelas esquinas, também no amor o ímpeto. Espera! Sossega! Já vou… Elizabeth M.B. Mattos – abril sempre volta eriçado!  A caixa, outro livro/prazer/luxo com pernas e braços, lembranças de ‘agarrar’!

 

 

 

se apagando, este dizer

SOFISTICAçÂO do Rio casamento de uma ARANHA no RJ

o dizer vai caindo e se apagando… lembro, agarro, seguro

naquele/aquele verão de tanto dizer!

lembro que me mandaste calar: querias tudo contar e contar e eu, a te esperar?! sentia que nunca ia terminar, então, paciente, eu te ouvia, eu te amava, eu te amo

paz tão boa! certeza tão certa!

não foi como sonhei, terminou: sinto saudade, e te pergunto: por quê?

chega logo, sem avisar, mas…chega!

tantas e outras perguntas se questionam mudas

silenciosas, insatisfeitas…quero tanto te ver, um pouco de olhar, apenas um pouco porque merecemos, já expliquei

houve troca/desejo/confusão = nós dois

risada também

encontro e palavra solta e silêncio

o silêncio tem gosto tato cheiro vontade própria e meninice brejeira

tem mundo, tem nós dois: que não somos

tem o verbo cheio de bocas pernas e braços e lembranças meninas

gosto de pensar tu e eu, eu e tu e nada mais: o acaso,  a hora marcada

Elizabeth M.B. Mattos – abril chegando num domingo amanhecendo – Torres de 2019

amontoado

 

amabilidade

Fui à noite a seu apartamento e no princípio tivemos café e amabilidades, sentíamos o que inevitavelmente se sente quando alguém mostra sua obra a outro e sobrevém esse momento quase sempre temível em que as fogueiras se acenderão ou será preciso admitir, escondendo – o com palavras, que a lenha estava molhada e fazia mais fumaça que calor.” (p.57) Júlio Cortázar – argentino bem francês  – Orientação dos gatos -, contos. Este conto Recortes de jornais, tem epígrafe: Embora não ache necessário dizer, o primeiro recorte é real e o segundo imaginário. Tradução de Remy Gorga, filho –  Rio de Janeiro – Nova Fronteira, 1981.

Abril como temperatura. Estado de ânimo e energia, fato. Encantamento, outro. Ando a te pensar e a estranhar os empurrões: aconteceu tão fácil nosso abraço, natural, e assim, como eu vou explicar, estupidamente, trágico e silencioso.

Um ano, não meu querido, dois anos. Eu, de natureza alegre, vou me distraindo com a flor do vizinho, a risada na sacada, a moça do oitavo andar olhando/medindo o sol já de roupa de banho! Hoje é domingo, obrigações cumpridas, um banho de mar…

Afago a preguiça. Quero um dia de não fazer nada. Igual aos gatos espreguiçar e ronronar. Sono domingueiro.

Velhos vícios: vou trocar móveis de lugar, medir espaço e comprar rosas. Omelete de espinafre e as últimas rodelas de abacaxi. Colecionar amor neste teu olhar castanho preguiçoso, inquieto e barulhento. Céus! Aquieta! Respira! As pessoas dizem, repetem assim, respira! Ansiedade e saudade se misturam imprecisas: ioga e mentalização! Aguento  miséria, descalabro e até indiferença. Respira! Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2019 – Torres: Domingo de Ramos , os sinos!livros esta não usei ótimo aquele dia inesquecívelAquele dia foi inesquecível! Quero voltar. Paris e Torres: uma festa em movimento! O farol: iremos/ subiremos o morro e lá de cima, no farol sentiremos o desalento do tempo: mudou. E 1968 foi um ano decisivo e inquietante, sobrevivemos. Tínhamos que ter nos encontrado nos meus dezessete anos, eu sei. Beth Mattos

Do amor

Estratos Del Amor. A los tres estratos del ser humano – carne, alma, espíritu – corresponden tres manifestaciones del amor, desde el rigurosamene animal instintivo hasta el amor espiritual, fenómeno peculiar del hombre. Pero nos aparecen en recintos herméticos, ni são estáticos, ni definidos, pues todo lo que se refiere a la vida es dinámico y contradictório. De tal manera que és fácil discernir matices sexuales en el más alto amor espiritual – Santa Teresa,  San Juan de la Cruz -, como inesperados tons espirituales en el amor físico.” (p.31) Ernesto Sabato Heterodoxia

foto da mãe menina.jpg

Meu avô Athayde, as duas filhas: Anita e Joana. Guardados, no tempo, em tempo salvas.

dedicatória pra mãeVontade de transcrever em português, o nosso, mas a vizinhança é tão grande! Preciso? Não. Afirmo, tudo de/em Sabato encanta! A reler. E ficar! Apaixonada transcrevo em português: “O AMOR e AS COISAS. Diz Jung que o amor às coisas é prerrogativa masculina, miendras (como traduzo? apesar de?) embora seja um rasgo essencialmente feminino pelo amor a um ser humano. […] Pois o amor concreto da mulher aos seres que a rodeiam se projeta (se lança) nas coisas inanimadas que de algum modo estão vinculados a eles: uma pipa (pandorga), um traje (uma roupa), um brinquedo e, em geral, a todos os objetos que constituem (que fazem parte) do universo caseiro.” (p.17) Ernesto Sabato Heterodoxia

Estou no delírio. Sempre quis ser como minha mãe por dentro: forte, corajosa, intensa, apaixonada. Na vida, os sentires confessados confidentes, eu a julgava: não deveria ter feito isso, ou aquilo. Olhar-pensamento crítico de filha. No entanto, eu me despedaço, como ela a cada desencontro. No entanto, sou pacífica e conciliadora esverdeada como meu pai. Não o belicoso e o generoso viver da minha mãe. Volto a rotina (que me salva), e sigo em frente. A rotina que condena, como afirmou minha amiga Simone: sair desta rotina impulsiona, sacode. E…

Aferrada estou nas lembranças, e nos objetos: o que guardei traz pai, mãe na saudade. Pedaço de mãe, outro de pai, da tia Joana. Da minha avó Rita. Depois,  colecionei a vida dos outros… Entro devagar na alma alheia, esqueço a minha. Hoje adapto o tamanho das coisas: demoro no livro, no retrato, no vidro de perfume, no lenço com renda (alguém ainda usa?), no lenço de segurar o vento…  Eu me desfaço, ou coloco em caixas. Nas gavetas, prateleiras. Também na memória enquanto te espero em dias apressados.  Penso: gosto de ser, gosto da vida, gosto da filha, do filho. Do neto e da neta, da sobrinha, da irmã… Eu mesma me gosto. Tudo singular, mais bonito. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Torres

livros da mãe