sai correndo o dia…

2002 com LAURO

Saindo apressado: já se foi, e nem cheguei. Agitada neste fazer sem terminar, narrativo. Gosto. Eu assim mesmo…, espero. Escrevo, às pressas, no pensamento: sem lápis, sem teclar, sem caderno, nas beiradas da memória. Encontro amigos, aqueles que ficam a sorrir, não desaparecem não se apagam, comigo, assim como o Lauro, estão… Amorosos. E me espiam, apoiam. E não me deixam parar, então, escrevo. Estou com eles. Contigo. Eu te espero. Estás chegando. Tão bom! E espio o Xico: já faz tudo tanto tempo! Iberê, Stockinger Glauco Rodrigues, Scliar, Carmélio Cruz. E nesta memória com Lauro, com Célia Ribeiro (minha chefe, a vontade de escrever, artes plásticas, Flávio Tavares, ainda no jornal a Hora. Antes das demissões! Quanta história nesta minha memória quase estória…

shopping

A contar… Quando  dO Jornal Feminino com a Célia Ribeiro, Lauro Shirmer,  no jornal das vinte e duas, âncora. Dono do horário, lembro, ou seria das vinte horas? Uma noite participei, a televisão convidada vez que outras os novatos (exercício). Eles, Lauro e Célia, mimavam. Eu tão jovem! Visibilidade, juventude, liberdade e vontade! Boa experiência!  E eu citando em pleno programa Exupèry, cheia de opinião! O Pequeno Príncipe não tem idade… Depois: G.Bernard Shaw, Aventuras de uma Negrinha que Procurava Deus: 

Meu conselho é que você faço todo trabalho que lhe surgir pela frente, o melhor que puder e enquanto puder, e assim torne úteis e honrados os dias que lhe resta viver antes do fim inevitável, quando já não haverá nem conselho nem trabalho, nem fazer, nem conhecer, nem ser:

– Haverá um futuro quando eu estiver morta – disse a rapariga. – Mesmo que não esteja mais aqui, posso conhecê -lo?

 – Você conhece o passado? Se o passado, que realmente aconteceu, está além do seu conhecimento, como pode querer conhecer o futuro, que ainda não aconteceu?” (p.27) tradução de Moacir Werneck de Castro – Editora Globo  1949

Sim. Tudo remoto. Antigo. Verdadeiro nestas primeiras e apaixonadas, misturadas e misturas leituras. Ávidas. Pendurada nas estantes, limpo os livros, não resisto: leio um, abro o outro, e penso na moça, na sonhadora menina que eu fui/ era/ sou. Os encontros, as novas experiências de hoje e eu comigo. Lauro Shirmer e Célia Ribeiro! Tanto tempo!

Todos amarrados neste livro, neste texto. Uma memória dentro da outra. Eu nunca deveria ter abandonado o jornalismo nem a televisão, nem meus sonhos. Deveria ter voado com eles na minha pandorga. Sem lamentar: na memória dele a lembrança… “velhos tempos“! Quando me presentou este livro eu escrevia as memórias do Xico, e já gerenciava a Garagem de Arte / eles me prestigiaram na galeria . Jornalismo na Revista do Globo,  Jornal Feminino na televisão, tudo foi antes.  Enfileirados nas estantes, empilhados: livros velhos, e os novos. Memória escorregando, e eu enfiada em 2002. Quero agora. Que chegues logo! Elizabeth M.B.Mattos abril de 2019 – Torres, ancorada a te sorrir!

2002 com LAURO

abril, mês de surpresas

Limpar e lavar e ordenar, preparar o grande dia! O amanhã.  A cada peça uma volta no tempo, quebrei uma xícara preciosa, depois esqueci. Volto a pensar em histórias perdidas. Quebrei uma xícara,  lasquei um prato. Um copo está  faltando. Não.  Está  ali… universo  aos pedaços. E a memória grudada naquele vidro de perfume… Por que guardei esta flor? Não lembro mais. Bom que existem retratos. Tinta aquarela barro escultor e pintor – escritor e arte e beleza! Recortes: música e silêncio e voz. Estás  do outro lado.  Não.  Estás  aqui! Que dia tão lindo! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Torres

louçaaaaaa

as mesmas ladainhas que se explicam

A vida mudou aos 48 anos. Eu estava em profunda depressão: minha segunda tentativa de ter uma vida  definitiva…, tranquila, para sempre…um casa com todas as implicações que pode trazer, terminavam. Não tinha mais cachorro, nem casa, nem jardim, nem árvores. minha filha não tinha mais pai. Não foi viuvez, mas abandono, o homem que eu pensava /imaginava/ apontava com caráter/ certezas/ sonhos, enfim, dignidade… demonstrava de todas as formas, com todas as palavras que eu havia cometido outro grande engano.

amorosidade

Pseudônimo

1.

Não lembro bem como nos encontramos: os textos deram as mãos. Vontade de ser livre, pessoa, idade, mutação. Lembro de ter sido alegre acaso. A rede nos segurou. Prendeu ao mesmo tempo. Estamos amarrados um ao outro mesmo quando não nos falamos. Alguma coisa mágica nossas mãos, e guardo o olhar. Eu te penso todos os dias A.

Perto do meio dia: tinhas que sair, buscar um neto, ou filho, posso errar. A história veio devagar com descasos; retomadas. Conversa longa, outra apressada. No tempo, guardada. Tratamos de rir. Faz dois anos, ou três: enorme este um, dois e três. Sempre. Torres se atravessa. Eu distraída. Tu menino. Inverto. Escondo. Volteio no prazer de lembrar… Lágrima seca. Tentamos, tu e eu, agarrar a juventude, liberdade. Atrapalhada, escondida memória, a minha. Brejeira, tímida, alegre, a tua.

2.

Atrás de um pseudônimo, escreves. Eu exibida logo a me mostrar. Brincadeira nova de voltar, reconhecer, agarrar e perguntar. Imaginar. Já eu a curiosar…  Quero saber. Encabulados ou medrosos. Amarrados. Risadas e sorrisos escritos. Expectativa. Talvez seja sempre assim quando masculino e feminino se encontram: livres e compromissados. Sou dos saudosos anos sessenta, sessenta. Ser jovem, céus! Dificuldade de explicar como éramos jovens naquele tempo. Esbarrar um no outro não era, necessariamente, se comprometer. Ou era? Eu queria ser moderna. Entender amigos e amigas. Afetos. E permanecer abrigada nas certezas. Entendo a gurizada: relações abertas, comprometidas sem ser, remexidas e prazerosas. Eles se mostram como são, sem medo. Ou ao contrário, ousam, assumem. Se o medo chegar, recuam, mas o desencontro, o fato, já virou passado e ponto. Depois. Mais tarde, outro dia já é futuro. Recuei antes sempre antes, e deste jeito canhestro, esquisito estacionei no tempo de segurar a palavra. E o vento levou… quantas alusões, paixões apaixonadas, trabalho, recomeçar. As mãos mudaram, os dedos não são os mesmos, apenas no sono do sonho voltamos. A pensar, reencontrar o amigo, o amante de amor, o passado, a ideia de ser outra vez aquela que fui. De certa forma, seria / ou é rejuvenescer no outro. O completo, a certeza fica incerta olho no olho. Eu, não sei como eu sou. Eles avançam, e recuam e se sabem, os jovens de 2019. Não nos imaginamos com oitenta anos, nem com noventa porque somos os mesmos de antes, jovens. Vontade de te ver. Teremos que fazer acontecer. Eu te espero, meu amigo. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Torres

Pseudônimo

1.

Não lembro bem como nos encontramos: os textos deram as mãos. Vontade de ser livre, pessoa, idade, mutação. Lembro de ter sido alegre acaso. A rede nos segurou. Prendeu ao mesmo tempo. Estamos amarrados um ao outro mesmo quando não nos falamos. Alguma coisa mágica nossas mãos, e guardo o olhar. Eu te penso todos os dias A.

Perto do meio dia: tinhas que sair, buscar um neto, ou filho, posso errar. A história veio devagar com descasos; retomadas. Conversa longa, outra apressada. No tempo, guardada. Tratamos de rir. Faz dois anos, ou três: enorme este um, dois e três. Sempre. Torres se atravessa. Eu distraída. Tu menino. Inverto. Escondo. Volteio no prazer de lembrar… Lágrima seca. Tentamos, tu e eu, agarrar a juventude, liberdade. Atrapalhada, escondida memória, a minha. Brejeira, tímida, alegre, a tua.

2.

Atrás de um pseudônimo, escreves. Eu exibida logo a me mostrar. Brincadeira nova de voltar, reconhecer, agarrar e perguntar. Imaginar. Já eu a curiosar…  Quero saber. Encabulados ou medrosos. Amarrados. Risadas e sorrisos escritos. Expectativa. Talvez seja sempre assim quando masculino e feminino se encontram: livres e compromissados. Sou dos saudosos anos sessenta, sessenta. Ser jovem, céus! Dificuldade de explicar como éramos jovens naquele tempo. Esbarrar um no outro não era, necessariamente, se comprometer. Ou era? Eu queria ser moderna. Entender amigos e amigas. Afetos. E permanecer abrigada nas certezas. Entendo a gurizada: relações abertas, comprometidas sem ser, remexidas e prazerosas. Eles se mostram como são, sem medo. Ou ao contrário, ousam, assumem. Se o medo chegar, recuam, mas o desencontro, o fato, já virou passado e ponto. Depois. Mais tarde, outro dia já é futuro. Recuei antes sempre antes, e deste jeito canhestro, esquisito estacionei no tempo de segurar a palavra. E o vento levou… quantas alusões, paixões apaixonadas, trabalho, recomeçar. As mãos mudaram, os dedos não são os mesmos, apenas no sono do sonho voltamos. A pensar, reencontrar o amigo, o amante de amor, o passado, a ideia de ser outra vez aquela que fui. De certa forma, seria / ou é rejuvenescer no outro. O completo, a certeza fica incerta olho no olho. Eu, não sei como eu sou. Eles avançam, e recuam e se sabem, os jovens de 2019. Não nos imaginamos com oitenta anos, nem com noventa porque somos os mesmos de antes, jovens. Vontade de te ver. Teremos que fazer acontecer. Eu te espero, meu amigo. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Torres

tempo perdido: vigiar

Quanto tempo perdido! Este eu agarro: tarde, tão tarde! Corajosa: começo a leitura. Não sei se consigo, se vou vencer, e me superar. Eu cito para instigar, fazer cócegas. Viajar!

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava (céus! já aqui estremeço, eu penso, acho?!) Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixo vivo no moquém:quem mói no asp’ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular ideia. (que maravilha isso,  não resisto, interrompo, e digo! repito! Como não antes?) O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra a cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso esclarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela  já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar…” (p.32-33) Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas

Claro! …os grifos são meus, ou já são nossos de tão falado/dito/ comentado o texto, (vou revisar se copiei certo,), mas nunca lido. Eu vou por esta vereda e por este sertão! Cheia de coragem! Que o diabo não me tente, e eu não abandone a leitura para ficar a esfregar vidros, polir móveis, enfileirar livros e vigiar bicicletas… Que eu consiga! Corajosa hoje, amanhã não sei, mas vou sinalizando…

Que atrasada estou!Eu vou…Elizabeth M.B.Mattos- abril de 2019 – Torres. Vigiando a bicicleta. Li e reli: não transcrever errado. Prosa única.

adoro estante e cartonado da aquarela do stockinger

 

sinto receio, não desisto

A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que o nosso coração almeja são longas. Mas esta estrada meu olho mental podia ver num mapa, profissionalmente, com todas as suas complicações e dificuldades, mas, ainda assim, bastante simples de certa forma. Ou se é um marujo, ou não se é. E eu não tinha dúvidas de que era um deles.” (p.58-59) Joseph Conrad

A Linha de Sombra

Mesmo quem nunca abriu um livro. Abra este. Leitura tem cheiro, forma, gosto. Posso sentir. Faço analogias, e…

O impulso: ou se é, ou não se é. Como seria melhor/maior/completo se… Parece pouco desejar, apenas desejar. Temos que ser dois, estranho/engraçado/ irônico porque sempre somos apenas um eu. Há que haver toque e beijo. A tal amorosidade para sermos dois. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Era abril quando saí da Garagem de Arte – simples assim:  ‘Não precisamos mais…’. A ruptura arranha. Despedidas! Claro!

…e a vida segue. Eu te encontrei. Elizabeth M.B. Mattos – abril – 2019

cuidado

“... O canto de Ulisses. Quem sabe como e por que veio-me à memória, mas não temos tempo para escolher, esta hora já não é mais uma hora. Se Jean é inteligente vai compreender. Vai: hoje  sinto-me capaz disso. Quem é Dante? Que é a Divina Comédia? Que sensação estranha, nova, a gente experimenta ao tentar esclarecer, em poucas palavras o que é a Divina Comédia. Como está organizado o Inferno. O que é o ‘contrapeso’, que liga a pena à culpa. Virgílio é a razão. Beatriz a Teologia. Jean ouve atento. Eu começo, lento, cuidadoso:

‘Lo maggior corno della fiamma antica

Cominciò a crollarsi mormorando,

Pur come quella cui vento affatica.

Indi, la cima in qua e in là menando,

Come fosse la lingua che parlasse,

Mise fuori la voce edisse: Quando…”

Eis que a ponta maior da chama antiga/começou a mover-se, crepitando,/ tal a que um vento ríspido castiga./ E de um e de outro lado se agitando/ um som soprava, como que saído/ de seu calor, e que dizia: ‘Quando… (p.114)

Abre os ouvidos e a mente, eu preciso que compreendas:

Considerate la vostra semenza:

Fatti non foste a viver come bruti,

ma per seguir virtude e conoscenza.’

(Relembrai vossa origem, vossa essência;/vós não fostes criados para bichos,/ e sim para o valor e a experiência) 

É como se eu também ouvisse isso pela primeira vez: como um toque de alvorada, como a voz de Deus. Por um momento, esqueci quem sou e onde estou. Pikolo pede para eu repetir estes versos. Como ele é bom: compreendeu que está me ajudando. Ou talvez seja algo mais: talvez (apesar da tradução pobre e do comentário banal e apressado) tenha recebido a mensagem, percebido que se refere a ele também, refere-se a todos os homens que sofrem e, especialmente, a nós: a nós dois, nós que ousamos discutir sobre estas coisas, enquanto levamos nos ombros as alças do rancho.” (p.116)

É a experiência de passar/dizer/explicar/ comentar um saber: a leitura de um livro de poucas páginas que leio devagar, a pensar, a voltar na leitura. Tempo urgente de caminhada penosa, porque a vida não espera o momento certo. E sempre estamos a caminho, no meio do caminho… Será certo quando estiver junto/contigo a te falar. A leitura faz transposições mágicas. Não estou num Campo de Concentração, não sou italiana,  também não compreendo alemão, como Jean posso ler em francês, como Levi há sempre, para mim, e para ti, urgência de nos olharmos porque nos reencontramos apartados um do outro. Não foi há 30 anos atrás, foi neste hoje que nos sacode. E dizer o que sinto, ou o que nunca serei, ou sublinhar todo um agora, com a pressa, a urgência da vida. Quando eu converso, ou te pressinto, eu respiro. E.M.B.Mattos  – abril de 2019 – venta em Torres porque o verão se despede.

Seguro Pikolo, é absolutamente necessário e urgente que escute, que compreenda o que significa esse come altrui piacque, antes que seja tarde demais: amanhã, ou ele ou eu poderemos estar mortos ou não nos rever nunca mais, devo falar – lhe o que era a Idade Média, esse anacronismo tão humano e necessário e no entanto inesperado, e algo mais, algo grandioso que acabo de ver, agora mesmo, na intuição de um instante,  talvez o porquê do nosso destino, do nosso estar aqui, hoje…”(p.117) Primo Levi É ISTO UM HOMEM – Tradução de Luigi DEL RE – Editora  Rocco  Rio de Janeiro – 1988

Ouso repetir que o livro conta a vida, seguro todos o nosso momento premente e importante. Sacode o coração. O hoje e o agora importam. Então eu te chamo. Talvez eu não tenha nada para dizer, talvez tu também fiques constrangido, apertado no instante de ser tu e eu, no entanto, a vida, como um trator nos largou neste

A G O R A.

Estupefatos, porque vivos. E aqui tem sol, vento, água e tempo. Não importa mais a poeira, a reconstrução, a beleza e a ordem que persigo. Tratarei do possível. Trarei flores para nos distrair da desordem. E seremos amigos. Isso é muito bom. Embora blindados somos.  Ulisses volta para Penélope que o esperou uma vida inteira. Mas não se deixa ficar, a inquietude o carrega. A vida se transformou nesta agitação ansiosa.Beth Mattos

 

 

voltei para ti

Estranho o peso deste vazio. Volto a te pensar. Eu confesso: comecei a te esquecer, doeu. Esqueci. De repente voltaste azul. E eu vi teus olhos castanhos, brejeiros. Saudade de uma coisa boa que tu me devolveste junto com tua memória. Eu acreditei. Elizabeth M.B.Mattos – abril de 2019

2018-07-10 14.36.57.jpg foto do PEDRO num passeio EU

identidade

Identidade e posse.

O vaso de cristal está no  centro da mesa: coloco  pratos coloridos, copos transparentes e talheres de prata. Guardanapos com monograma. Para a mesa redonda seis cadeiras. Todas diferentes. O sol entra pela fresta da veneziana, e o cheiro de grama molhada invade a sala. Qualquer objeto aquece aumenta o sentimento.  Eu me sinto poderosa, iluminada, embora meu vestido seja preto, e os brincos pequenos. Espero.

Imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento – pois quem perde tudo, muitas vezes perde a si mesmo; transformando -se em algo tão miserável, que facilmente se decidira sobre sua vida e sua morte, sem qualquer sentimento de afinidade humana, na melhor das hipóteses considerando puros critérios de conveniência. Ficará claro, então, o duplo significado da expressão ‘Campo de extermínio’, bem como o que desejo expressar quando digo: chegar no fundo.” (p.25) Primo Levi  É isto um homem

Não posso deixar de pensar: identidade nos gestos, na casa, na voz, sou eu a me descrever. O que me impede de ser mais eu? Tua ausência. Sem vida social, escorrego menos. Quase não choro. De natureza alegre, careço de pessoas. Então, não sou. Os objetos me definem, e não possuir isso ou aquilo, também. Sou uma tola se penso nestes pequenos sentimentos. Levi menciona nos dá uma dimensão maior da vida. Um dia depois do outro. O desejo de viver…

“Steinlauf, porém, passa-me uma descompustura. Terminou de se lavar […]. Justamente porque o Campo é uma grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais; até num lugar como este, pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso depoimento;e, para viver, é essencial esforçar – nos por salvar ao menos a estrutura, a forma da civilização. Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar por defendê -la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento.” (p.39) 

A leitura dá uma dimensão louca da vida. Acorda! Insana é a guerra, e a tortura quebra um homem, a disputa. No entanto sabemos: ” A convicção de que a vida tem um objetivo e está enraizada em cada fibra do homem; é uma característica da substância humana. Os homens livres dão a esse objetivo vários nomes, e muitos pensam e discutem quanto à natureza. Para nós, a questão é muito simples. Hoje, e aqui, o nosso objetivo é aguentarmos até a primavera.” (p.71)

Palavras libertam… Enquanto escrevo acordo, desperto. Também adormeço. Se espero o impossível, elimino o impossível, o mal, a dor. No papel a experiência fica plana, dividida. A memória irreal se transforma em experiência: uma química. Pedro Levi nasceu em Turim, em 1919, e formou- se pela Faculdade de Química. Este livro o liberta de terríveis experiências em Auschwitz. Estranho como a leitura faz uma caminhada. As experiências se misturam. De repente, eu penso, o homem/ o ser humano é o mesmo sempre…, como posso ser cruel? Haverá forma de negar, de reconhecer o mal? Insano quando gritamos, e deixamos de ser! Ele conta:

Hoje é um dia bom. Olhamos ao redor, como cegos que recuperam a visão, e nos entreolhamos. Nunca nos víramos no Sol! Alguém sorri. Se não fosse pela fome…

Porque assim é a natureza humana: as penas padecidas simultaneamente não se somam em nossa sensibilidade; ocultam-se, as menores atrás das maiores, conforme uma lei de prioridades bem definida. Isso é providencial, e nos permite viver no Campo. E é esse o motivo pelo qual ouve-se dizer, amiúde, na vida livre, que o homem é incontentável. (73-74)

Entrega o sentimento bem explicado. Esta leitura se atravessou, assim eu me surpreendo lendo dois textos. Estou presa… Elizabeth M.B. Mattos –  31 de março de 2019 – Torres