“Quero mais
Depois de entediá-la com minhas divagações filosóficas, era necessário um tempo de descanso. Aí encontro seu belo texto no Amoras e compreendo tantas coisas. Difícil conciliar a mente com o olhar. São como paralelas que não se perdem nem se encontram. Transitas entre o olhar e o coração, enquanto minha mente tenta controlar os dois.
Talvez no desespero da síntese me perca na busca da ilusão do sentido. Aí vou eu novamente por esses tortuosos caminhos. Estivéssemos perto, poderias me dar umas sacudidas se o desprezo não anulasse sua ira santa. Enquanto isso, perco a possibilidade de vivenciar um dia nublado com sua beleza e sua tristeza e acabo pensando como a solidão povoada não serve nem mesmo para produzir desencontros.” G.L.
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Henry de Montherlant
“Ou nous sommes ce que nous sommes, ou nous sommes ce que nous avons voulu être.”
“Ou somos o que somos, ou somos o que quisermos ser” -, ou quisemos ser, ou melhor, isso não quer dizer nada, ou sou eu que estou desanimada? Ser eu, ou ser o que desejo ser? Para chegar ao ponto preciso me conhecer. Será que a questão fundamental é descobrir quem sou? Será que posso viver e morrer sem saber? Ou represento, indefinidamente, o que desejaria ser? Tempos complicados! Na rede, no palco, visível, atrás de aplauso abraço ou carinho, ou palavra. Tão difícil!
“Les hommes respectent trop la mort, pour le peu qu’ils respectent la vie.”
“Os homens respeitam demais a morte pelo pouco que respeitam a vida. ” Confesso: sou apaixonada, tomada/possuída pelo desejo de vida. E não entendo nada de morte, ou não quero entender. Tenho consciência que pode ser amanhã. Não tem data certa, mas prazo, limite. Estando na vida sou eterna hoje. E o que diz Montherlant oscila, mas ADVERTE.
“Le bouddhisme dit que la vertu qui a conscience d’ elle-même n’ est plus vertu. Je dis que la vertu qui n’a pas conscience d’elle-même est une vertu imparfaite, comme est imparfait tout ce qui manque de lucidité.”
“O budismo diz que a virtude consciente deixa de ser virtude. Eu digo que a virtude que não é consciente dela-mesma como virtude, é imperfeita. Como é imperfeito tudo que não tem lucidez. ” Eu me inclino. Penso: a lucidez é o molde para ser eu mesma, mas o excesso transborda e mistura tudo. Num repente a percepção é maior e o cotidiano, respirar é menor. Fico abafada na consciência, assumo mais do que posso carregar. Penhascos altos demais, escarpas perigosas, mar aberto, nenhuma prudência. Então,então…, sem palavras.
Henry de Montherlant Va jouer evec cette poussière CARNETS 1958-1964 – todas as citações.
Leituras se misturam abusivas dentro de mim, tenho necessidade premente/urgente de abrir novo livro/ velho livro. Sair de um texto entrar noutro como se fosse passeio, viagem entre leituras. Espiar outro mundo, sentir outra coisa, ver/enxergar caminhar noutro gramado. O U T R O! Eu que não viajo, de repente, entendo o prazer, para mim desmedido das pessoas a conferir novos lugares. Ter experiências visuais, emotivas, sensitivas ao chegar noutro país. Provar pedacinhos de lugares desconhecidos. Descobrir o OUTRO. Acho que sou igual, apenas, troco de livro. E quando termino a leitura eu me sinto preenchida, mas subitamente esvaziada também. Voltei para casa. E nem sempre a casa é o lugar que quero estar / voltar. Quero esvoaçar, revisitar… Estranhos sentimentos! Eu me sinto abandonada quando termino o livro. O sentimento de abandono é trágico. Só o abraço resolve. Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2019
desbordadamente
“Teria profundamente sentido que a inspiração do marido vinha de um âmago amargo, perdido em dúvidas, solitário, presa de sentimentos angustiantes […].” (p.151)

“Amava-me desbordadamente, sem medida.” (p. 175) F.C. de Garcia O Ritual dos Pastores
Sentimento se cristaliza. Parágrafo tenho nas mãos, toco e apalpo,estupefata. Coloco sobre a mesa ao meu lado, não posso carregar sozinha. E.M.B.Mattos
pobre alfaiate
“Você esqueceu que não passa do filho de um pobre alfaiante? Por que você quer casar com uma princesa? Você acha que o sultão dará sua filha em casamento a um príncipe da sua condição? Você não conhece o ditado ‘ não há homem mais tolo do que aquele que não conhece seu lugar?’Você sabe que o meu maior desejo é ver você casado um dia e me alegrar com a sua felicidade”(p.55) Recontado por Thierry Aprile Nos Passsos de Aladim
O mais importa, o maior empecilho, a dificuldade externa ao sentimento se coloca como absoluta e decisivo: não podemos nos amar. Ser ou não feliz, um detalhe. O defeito está num ou noutro, a nos dois juntos? O outro. O decisivo na vontade estável. Estas convenções que a vida impõe se desfazem de estado em estado, de pretensão em pretensão. Ou as barreiras são humanas, ou os muros intransponíveis.
“Minha avó era ao mesmo tempo enérgica e sensível, heroica e doce, carinhosa e autoritária. Sabia era desdobrar-se, vestir seus sentimentos de mulher ou envergar suas emoções masculinas de acordo com as circunstâncias, como conviesse.”(p.150) F.C. de Garcia O Ritual dos Pastores
Leio lenta e demorada. Volto e eu me inquieto. Não era assim. No momento paraliso e entro/mergulho/tomo nas mãos o tema, vasculho, assumo e tomo como pessoal. Difícil. Talvez vício de quem se entrega desdobra o sentimento/ o tema/ e vive o livro: posse. Tudo que no livro acontece, acontece dentro de mim. Reluto. A coragem do escritor me faz questionar a minha covardia, espicaço. E se eu não conseguir terminar… Misturo leituras e fico exausta. Beth Mattos – fevereiro de 2019

Quero amor, fuga: tua voz, tua incerteza, quero o que já me pertence em ti. E sabes por que? És meu. Quando me devolveste o passado numa narrativa tão tua, te entregaste. Hás de me dar a resposta logo, logo. E seremos tu e eu no passado/ no agora que não vivemos, mas desejamos.
chuva de janeiro
Céus!
Céus! A chuva secou no ar! O calor faz tatuagem! Uma Beth atrapalhada, Francisco.
sol gritando
Amiga: cá estou numa labuta doméstica esquisita porque inquieta, tu na tua laboriosa atividade incansável. Eu te sinto assim, heroica e constante. Mais o tempo passa/corre mais lenta, e com mais calor… Ah! Calor único absoluto enlouquecido. No entanto, alguém, mais lúcido, diz que não é assim, apenas outro verão, o mesmo calor, um mês de janeiro esticado e fervente, apenas janeiro, o primeiro mês de 2019.
Tão bom foi te encontrar! Chocolates cogumelos beleza espaço, luz. Tua casa oferece o melhor. Ah! O gosto daquele vinho! A delícia da noite avançando… E o aconchego da irmã! Gostoso afável, caloroso. Sou eu que abro os braços festiva, sou eu que me derramo! Porto Alegre risonha neste janeiro.
Se te conto detalhes vou logo dizendo que os hidráulicos não vieram, que o desespero se acalmou em paciência. E os livros, a leitura acontece no bom ritmo, esperançosa, ela também, laboriosa. Se alguém quer me visitar estremeço, tudo está no outro lugar, não no correto, no bom lugar. A casa parece barco à deriva. Perdido. E como gosto da limpeza, da ordem, do colorido certo, das pilhas impecáveis, da música constante, das vozes ordenadas! Ufa! Aonde? Eu me desespero pouquinho, se o desespero pode ser assim diminuto meio ao terremoto. E me consolo: tudo voltará a ser como antes. E como é verde o verde, o azul, azul! Amigo perto, sorriso chegando, e vozes se intercalando amistosas. Arregaço as mangas, abro sorriso, e vou caminhar antes que o sol grite mais alto. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro, último dia – 2019, ainda em Torres, não Portugal.

“[…] esse esforço é chamado também de amor. Depois disso, buraco, transtornos na imagem. Nada que pudesse ter o ressaibo de uma nova conquista ou pudesse ser apontado a fim de virar aventura. […] mas não houve mais montes de feno. Não tive lucros lendo a mão de alguém. Nada a não ser intranquilidade sem destino, à qual nenhum domicílio formal e regular queria parecer atraente.” (p.192) Günter Grass Nas Peles da Cebola – Memórias
Citações: Rousseau
“A fonte de nossas paixões”, – escreve Rousseau – ” a origem e o princípio de todas elas, a única que nasce com o homem e jamais o deixa, enquanto ele viver, é o amor de si mesmo: paixão primitiva, inata, anterior a todas as outras, e da qual todas as outras não são, em certo sentido, mais do que modificações. E nesse sentido, se quisermos, todas são naturais. Mas a maior parte das suas modificações procedem de causas exteriores, sem as quais nunca se verificariam; e essas modificações, longe de nos serem vantajosas, são prejudiciais; elas modificam o alvo primeiro e contrariam seu princípio: é então que o homem se afasta da natureza e se põe em contradição com ele.” (p.152) J. Herculano Pires in Rousseau e o Emílio – Livros que ABALARAM o MUNDO
leitura desdobra o tempo
O livro desdobra “Retalhos de recordação, arranjados ora assim, ora assado, se juntam deixando lacunas. Eu desenho o perfil de uma pessoa que sobreviveu casualmente, não, vejo uma folha manchada, mas de resto em branco, e a folha, que sou eu, poderia ser ou gostaria de ser o esboço impreciso de minha existência posterior“. (p.181) Günter Grass Nas peles da cebola Memórias
Sufoco enquanto leio, não apenas do calor, mas da memória. Dói, ou melhor, escapa asfixiada. Não quero jogar pedras nem maldizer a interferência maléfica de mãe, alienação paterna, e a vida despreparada. Tantas vezes usei o confessionário para jogar a raiva, despejar injustiça e ser perdoada. Calada. Este livro de Günter Grass na beleza honesta da palavra pesa e ilumina com holofote o amor dos desamores. Que medo sinto da verdade! Como confessar no fim do caminho que amei de amor apenas ele e nossa inocência, nossa luz própria? Não é tarde para mencionar, nem contrapor aos arremedos mascarados que redefiniram minha vida no Rio Grande do Sul. Ainda lembro quando nos conhecemos num almoço de domingo na casa dos Franciosi. Era verão, férias, eu estava de passagem em Porto Alegre. O livro me trouxe a história toda, as injustiças, o despedaçado da dependência. A minha fraqueza, fragilidade e despreparo. Eu que fui sempre/ e sou empurrada, manipulada. Não tive coragem de ser apenas eu! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019
A releitura dos Cadernos Memória, novas anotações e desabafos tímidos. Será que consigo contar? Detalhar, e voltar no tempo? Tenho costurado pequenas histórias na fantasia/narrativa da lembrança do outro, agarrada no que pode ser bonito, mas nada é mais ou maior do que o amor. E a vida nem é bonita ou perfeita. Quiça a verdade seja.

“Além disso, imagens desenhadas pelo desejo se insinuam – o homem jovem, sério, meditativo, em busca de sentido entre os escombros -, e são jogadas fora, hesitantemente.” (p.181)
Caminho pelo livro e risco, sublinho, interrompo e penso. Redesenho a memória. E vou colhendo frases, costurando:
“ Não-sei-mais-o-quê poderia ser encontrado em palavras cochichadas em um monte de feno.” É a juventude da primeira experiência sexual.
“Primeiro, para o treinamento em GroB-Boschpol, depois direto ao front e, mais tarde, conforme ele havia escrito, apenas para construir pontes nas montanhas… (p.189)
Construir pontes nas montanhas, apenas para… A cada experiência interior pontos de reticências abnegados, nunca falei nele porque o amor amado, o único entre tantas narrativas e fatos anunciados. Lúcida, inteira esta memória, intocável.
“E fui eu, então, que cochichei isso e aquilo no monte de feno.”
Nunca pode ser a boa palavra, mesmo sendo fluída, ou rígida. Assim mesmo a memória detalhada daquele apartamento vazio, ou quase. Lembro do quarto, das árvores da rua, da cozinha aparelhada, completa, moderna anunciando o depois. E nós sentados no corredor, encostados na parede comendo maçãs e confabulando, saciados.
sobrevivente
Passados tantos anos a palavra sobrevivente não descreve, confirma. Da guerra da vida, uma batalha depois de outra. Soterrada, ou no meio da lama, o espanto. Abro um velho Caderno de Memória -1983, 28 de setembro, Dia da Fundação de Santa Cruz do Sul. “Acordei com foguetes, e festa anunciada pelo rádio, sonolenta. Tinha dormido pouco, já 5 horas da manhã. Ontem fui buscar o telegrama da POSSE, saiu a nomeação para o Concurso do Estado, assinei o ponto na E.E Colégio Estado de Góias. Vou começar a trabalhar no Rio Grande do Sul.” Continuo a ler… Aos solavancos a vida. Elizabeth Menna Barreto Mattos – 2019 em Torres. Não, não quero transcrever a memória, tenho escrito no Amoras apenas a fantasia do amor, do colorido, mas leio tudo em branco a preto. Talvez a experiência tenha sido mesmo devastadora. Descrever o que acontece a nossa volta é bem mais fácil do que descrever o soterramento de experiências emocionais. Abrindo este caderno dou-me conta que autobiografias são reescritas nas lacunas. Quem diz a verdade?

