num átimo

E de repente, num átimo, ou fora da doença e da dor eu penso: gostaria de envelhecer num abraço de amor, numa risada companheira, num brejeiro olhar, num adormecer pacífico, no meio do teu gramado, dos meus livros, da tua comida, da minha falta de jeito, ao som da tua voz! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

o inesperado é sempre uma ameaça

A ferida da alma não fecha;  começa de repente a manifestar – se de novo, lentamente a princípio, depois invasoramente até empolgar a alma inteira; quando supomos que tudo já está cicatrizado e esquecido, lá vem o contragolpe fatal.” (p.59)

“Quando Constance subiu ao seu quarto, fez o que havia muito não fazia: despiu -se diante do espelho grande, não saberia dizer o que a levava a isso, entretanto mudou a posição da lâmpada para que a luz batesse em cheio sobre sua carne. E pensou no que sempre pensara: na coisa delicada que é um corpo humano em estado de nudez… na fragilidade, na indefensabilidade do corpo nu: qualquer coisa inacabada, incompleta! Outrora gabavam -lhe as linhas esbeltas; hoje a considerariam fora de moda, mulher demais […] (p.82)

“O senso físico da injustiça torna-se algo perigoso quando se rebela.” (p.85)

Citações de DAVID HEBERT LAWRENCE in O Amante de Lady Chatterley

 

Sabbine e Iberê

espiando eu

homem inventado

“Ora, o que era eu, senão um homem inventado?” (p. 108)

Lenta e confusa ordem nesta desordem completa. Empoeirado, fora do meu gosto e do lugar! …, e estou distraída. Resolvo do imediato ao instante, depois esqueço. Será reinventar?  Luigi Pirandello no livro MATTIA PASCAL nos dá a chance, ou narra a possibilidade, de como seria anular tudo e recomeçar com identidade nova, claro, a plena idade! Faz reflexões e escreve: “Esse sentimento penoso da precaridade ainda me dominava e não me deixava amar a cama em que ia dormir e os vários objetos que tinha ao meu redor. ” Por mais anônimo e novo e ou perfeito ambiente que  eu me esconda, estou visível a mim mesma, e aos meus estranhamentos. E o que pode ser novo, ideal e completo fica em suspenso. “Cada objeto, em nós, costuma transformar -se consoante as imagens que evoca e agrupa, por assim dizer, em torno de si. Certamente, de um objeto podemos gostar também em si mesmo,, pela diversidade das sensações agradáveis que suscita em nós numa sensação harmoniosa; mas, [é o autor diz o que sinto] com bem maior frequência, o prazer que um objeto nos proporciona não se encontra no objeto em si mesmo. A fantasia o embeleza, cingindo – o e quase que iluminando – o de imagens queridas. E à nossa percepção, ele não mais se apresenta tal como é, mas como que animado pelas imagens que suscita em nós ou  que os nossos hábitos lhe associam. No objeto, em suma, amamos o que nele pomos de nós mesmos, o acordo, a harmonia que estabelecemos entre ele e nós, a alma que ele adquire somente para nós e que é constituída de nossas lembranças. Ora, como podia acontecer tudo isso, para mim, num quarto de hotel? (p.116)  Volume 38 da coleção Os Imortais da Literatura Universal da Abril Cultural

Penso na casa, espelho meu, nas roupas e o tudo que sou / escolhi: espelho meu. Magia e fantasia ao caminhar, falar, ser. Magia de ser quem sou? Qualquer objeto, de barro, porcelana, prata ou cristal importa pelo peso da vida de quem o possui? O bom decorado, antes de mobiliar uma casa para um cliente, precisa descobrir/ conhecer hábitos e histórias de quem vai morar neste cenário.  Trabalhar o pessoal e o íntimo. Assim o bom estilista, não pode ser apenas o bom corte a boa costura, o bordado certo, há que saber descobrir e adivinhar a personalidade, o detalhe de quem veste o traje. Os GRANDES estudam e sabem desta psicologia dos/nos clientes potenciais. Parece fútil, mas é da natureza. O urso procura a caverna, o pássaro o ninho, a fantasia as florestas. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres já não tão escaldante.

Revendo -m, assim, de improviso morreria do susto a viúva Pascatore? Qual! Ela? Pois sim! Faria é morrer a mim, novamente, dois dias depois. Minha sorte – precisava capacitar -me disso -, minha sorte consistia, justamente, em ter me livrado da mulher, da sogra, das dívidas, das humilhantes aflições de minha primeira vida. Agora estava inteiramente livre. Não me era suficiente? O fato é que eu tinha ainda uma vida toda à minha frene. Por enquanto… quem sabe quantos outros estavam sós como eu!” (p.117)

adoro estante e cartonado da aquarela do stockinger

Como Pascatore inventei um homem para amar. Trouxe para a minha vida, agora/hoje, a fantasia do menino-homem que, um dia, não sei dizer com exatidão, imaginou uma Beth pessoa a caminhar pela praia de Torres, …e,  não viu o  envelhecer. Eu me escondi atrás/ou dentro desta imaginação imaginada, e isso me rejuvenesce, e dá prazer. Não vou dizer obrigada. Paixão  /amor / namoro amante são graciosos, de graça! Tanto quanto fortuitos.  Este reencontro com Pirandello me salva. Beth Mattos

vida oficina, oficina da vida

“A recordação toma pé sobre recordações, que por sua vez buscam incansavelmente outras recordações. E assim ela se assemelha à cebola, que a cada pele retirada expõe coisas que há tempo foram esquecidas, alcançando até mesmo os dentes de leite da infância mais precoce, mas então o fio da faca a leva a um outro objetivo: cortada pele após a pele, ela tange lágrimas que turvam o olhar. ” (p.241) Günter Grass

Vou até Porto Alegre, volto no fim do dia e me deixo ficar duas horas na rodoviária. Vejo pessoas chegarem e saírem apressadas. E por um momento, reconheço na minha fantasia os olhos castanhos, também eles ansiosos. Recuo. Que um dia o telefone toque e desmanche equívocos. Ou…, apenas terei a voz serena e o tempo de explicação pequena e diminuta. “Tu insistes, Beth, em fantasia. Nunca irei a Torres. ” Eu digo três palavras, desligo o telefone. Idade, envelhecido tempo. Energia esfarrapada se fecha. E circunspecto, enterro a menina que insiste. Um beijo, eu respondo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Porto Alegre, eu não saberia mesmo o que dizer. Catástrofe!

A CAIXA

encontrei…

Encontrei A Caixa. Memórias, Nas Peles da cebola avança na obra completa, mas este, tem sabor de flores de limão.

Aqui está A caixa – Histórias da Câmara Escura, – com desenhos feitos também por Günter Grass. Pulsante  texto. Abre comportas: menino, adolescente, homem. O volume tem 222 páginas.

“Era uma vez um pai que, por ter envelhecido, chamou seus filhos e filhas –quatro, cinco, seis, oito ao todo – até que estes, depois de hesitar por um bom tempo, acabaram atendendo a seu desejo. Eis que agora eles estão sentados em torno de uma mesa e logo começam a conversar: cada um consigo mesmo, todos em confusão, embora seguindo o plano do pai e de acordo com suas palavras, mas de modo obstinadamente e egoísta e, apesar de todo o amor, sem a menor intenção de poupá –lo.” Günter Grass – A Caixa

vontade amolecida

Repasso com pressa a vida esburacando a memória que se agarra na escorregadia seleção do possível. Esquece, nas lacunas, o fel, o veneno. Tenho raiva, até rancor, até vergonha de vontade amolecida, vergada. Por que não fui incisiva, objetiva e eu mesma? Sempre a fantasia carnavalesca da superação caridosa e florida. Sinto falta de casa. Tanta vontade de voltar! Até o Rio de Janeiro idealizo ensolarado e majestoso. Búzios inconsequente, francês lúdico, Petrópolis, agora, nas curvas de Paty do Alferes que, em absoluto, faço parte, eu me envolvo sem direitos. Pulo carnaval e perco a voz. Em Porto Alegre o bairro Petrópolis se alarga com barrancos vermelhos. Jacarandás, todos no meu quintal, e os cães me cercam. Correrias esquecem joelhos escalavrados. As bonecas desejadas saem das vitrines e se metem no meu armário. O quarto dividido com a tia, fica todo meu. Os livros são lidos. E Torres não mais apenas verão. Balsas viram pontes. Cabritos e cavalos, bailes e dança. Praia prazeres. Jogos. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019- Torres

“15 de fevereiro –

Rompi finalmente o silêncio. Levou empo… Achas que te traí demorando-me a ler? Ah, precisas de ter um pouco de paciência! Hei de fazer progressos. Prometo tornar-me melhor, fazer tudo, tudo o que queríamos fazer. Meu amor, juro-te que não faltarei à minha promessa.” (p.77) Katherine Mansfield DIÁRIO – 1916

 

Buzius 1

Buzius 2EU ÓTIMA NUBLADA fevereiro

Coragem encabulada. Tempo jovem atropelado pelo hoje. Exibir e mostrar fragiliza, apequena. Hoje estou assim, exibida! Perdoa! Deveria apenas escrever, e as fotos seriam esquecidas porque se mostram sem voz, sem propósito, apenas vaidade,exposição jovem e tola. Somos esta soma. Beth Mattos, eu tentando texto, mas imagem.

Comentários:

Walmor Santos
10 de fevereiro às 12:56
Adorei. Somos hoje o melhor e o pior do que fomos. Agora, escolher qual parte ficar é de cada um. Parabéns por seres hoje e nos mostrar que devemos ser iguais a ti, cada vez mais plenos. Por isso, nossa conversa quando te visitei, ficou comigo mexendo com anseios guardados. Obrigado, amiga Elizabeth Menna Barreto Mattos

beijo fantasiado

Limpar, arrumar, lavar, ordenar para o próximo fazer: o mecanismo. Dores nas costas, o peso do corpo esquecidos.  A vaidade grita aflita: se acomoda aqui e ali. Converso com ela. Recuo. Reorganizo. Não posso ser o tal passado-passado nem o remoto nem o de ontem. Tenho que levantar este hoje-agora, tempo para enfiar/dirigir ao bom caminho. Engasgo nas leituras, nas conversas vagarosas, confidenciais. Não estou entendendo muito bem o porquê de dias lentos, pesados. O calor? Todos os verões sufocam, e os invernos levam o frio para se colar nos meus ossos. Antes eu não vestia casacos, eu corria no sol de meio dia.

Reencontros doloridos deste envelhecer: alegria, sonho bobo, fantasia de recomeço, figurinha colada no álbum errado. Eu sou o equívoco. Casada com meia dúzia de palavras, impressões, todas erradas. Sou apenas eu, a mesma solidão. Desencontrada, de conversa trancada. Esta estória de beijo perdido, achado, ou desejado não existe. Dois casamentos torcidos? Amores amados e findos. Já te expliquei/disse que não nasci presa, nasci livre. Nas histórias rupturas, ausências, carências e gozo, alegrias. Educação religiosa minuciosa. Igrejas e mosteiros, retiros silenciosos, fantasiosos. Caridade bordada. Alienação. Livros piedosos. Identificações perigosas. Dificuldade evidente com a verdade. Cruzada vagarosa, não termina. Ah! Que vontade tenho de sentar mansa no estofado perfumado (detesto o cheiro do sol grudado nos tecidos) com lavanda. Nas mãos o gosto da missão cumprida, realizada. Sem fazer/ ou correr atrás. Ah! Se o silencio fosse veloz! Vozes murmurassem: não te apresses. Vida para viver, boas novelas,  filmes no cinema, caminhar pelas praças, olhar vitrines, vestir a moda. Cabelos curtos, pintar os olhos envolvida no bom perfume. Cruzar as pernas com elegância estudada. Usar saias coloridas, vestidos bem talhados. E a janela? Aberta para o gramado e o canteiro farto de margaridas e roseiras perfumadas. Jasmineiro trançado nas grades daquela cerca. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

otima! com a mala

mais do que lágrimas

Dor, dor e tristeza! Chuva fortíssima. O mar  grita. E se rompem estruturas. Morros descem desesperados. É o soluço do Rio de Janeiro! Incondicional amor. Filhos cariocas: meus vinte, meus trinta anos. Eu toda presa em Botafogo! O mais lindo hotel do mundo, o Sheraton, com sua praia particular! Petrópolis. Serra. Lagoa, Ipanema, Leblon, Jacarepaguá, Flamengo. Volto sempre, voltarei, e voltarei. O essencial, carioca. Como posso abandonar tudo?! Considero! Como se o mar…,  ah! O mar. Cheiro, luz! Amo o Rio de Janeiro, e/mas, eu me debruço em Belo Horizonte. Ganhei um punhado de terra mineira. Outro mar, outro tempo. Dividida. Que não aconteça nada pior nesta chuva torrencial! Sou brasileira. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 de Torres.

envergonhada

Dançar. Embalar o corpo. Alegria a transbordar. Onda, mar. Redesenho sensações. Intensas. Nome, cheiro e vontade se misturam. Danço no volume possível as canções: atordoada juventude.  A FUGITIVA de Marcel Proust aparece exibida, nas páginas uma carta perdida cheia de voltas, certeira. Sou eu. Voltas, fugas, amor de te amar! Caminho e, depois, recuo. Posso definir? Somos passagem? Aperta o nó. Estranhamento ou loucura? Certo bom perfeito adolescer… -, no envelhecer, no perdido ou no achado, brindar! Nada fácil o amor: a pessoa ama o amor do outro no amor do que nomina amor. Sem medida: ciúme e amor feito onda que leva/carrega ao fundo, e me despedaça na areia. Sem roupa, envergonhada, estupefata. Sou perdoado pelo recuo, avanço, surpreendo, desespero no amor desta saudade. A surpresa me surpreende. Elizabeth M.B. Mattos

E, talvez, uma das causas de nossas perpétuas decepções amorosas esteja nesses perpétuos desvios que fazem com que, à espera de ser ideal a quem amamos, cada encontro nos traga uma pessoa de carne e osso que já contém tão pouco de nosso sonho. […] E, todavia, ‘amor’, ‘ser amado’, suas cartas, são talvez, em resumo, traduções – por mais insatisfatório que seja passar de uma para outra – da mesma realidade, pois esta carta só nos parece insuficiente quando a lemos, mas nos faz suar frio enquanto não chega, e basta para acalmar a nossa angústia, quando não para saciar, com seus sinaizinhos negros, o nosso desejo, que percebe só existir ali, apesar de tudo, a equivalência de uma palavra, um sorriso, de um beijo, e não essas própria coisas. De resto, cada vez que relia essa carta, achava – a diferente. Lembrando o quanto ela me fora enganosa, palavras encantadoras ali me feriam, e só agora o percebia. E dessa última leitura, a lembrança presunçosa que eu guardava desaparecia quando a lia outra vez. Assim todas as coisas se mantêm distintamente, conforme as ilumine a aurora, ou a chama da lareira, ou o abajur violeta da tempestade, ou o inumerável cristal embaciado do aguaceiro. ” (p.51) Marcel Proust Albertina Desaparecida a versão de A Fugitiva alterada pelo próprio Proust – inédita até 1986

pode ser diferente

Guerra evidente. Leitura: o sentido pode ser outro. Compreender é teórico, escrever um vício como citar e sublinhar. Conversar, monólogo. Enquanto ouço o som pausado da tua voz escuto o piano, a tua queixa, sinto a respiração do tempo. Construo a resposta, um templo, o nosso. Sem palavra, nem livros, nem escritos, tu e eu nos braços um do outro. Escondidos, expostos. Caio no precipício. Um presente? Uma oferenda? Que seja o possível, não o excesso. Olhar…  Olhe. Não sei se o dinheiro faz a diferença, o poder, tenho certeza. Onde quem tem poder? Nós dois temos. Filhos fazem malas, netos caminham, irmãos se aquietam, tios desaparecem, sobrinhos se estranham, família se renova. Energia desaparece. Não deveria/ poderia ficar velha antes de te encontrar, nem tu. Estamos/sejamos/podemos.

Este calor anuncia um gélido e longo inverno. Quero ir ao teu encontro, então o silêncio. Também em Torres faz calor. Faz bastante calor. Tempo de esquecer, insignificante. Tudo agora, este/neste minuto de aspirar, lavar, secar, resolver, abrir a geladeira e beber água, passar o café, pegar a maçã, comer uma fatia de mamão, escolher as uvas. Ter saudade de pai e de mãe. Energia de recomeçar, reorganizar, dizer e olhar. Depois exaustão. Nada do que se pode fazer ou dizer importa.  Fico a desejar desfazer – me de todos os excessos. Dois pratos, três copos, dois jogos de lençóis, três travesseiros. Dez livros. Duas toalhas de banho, um rádio, oitenta memórias, dois vestidos, duas gavetas, uma coberta de penas, uma janela, dois degraus, um cálice de vinho, uma saudade, nenhuma lembrança, nenhum excesso, um abraço. Odeio somas, subtrações necessárias. Divisões. Multiplicações? Um sorriso. Poucas palavras.   E N S A I A N D O / indo e voltando rasurando. Encontro pedaços aqui e ali. Urgência esperta de agarrar/pegar/ possuir. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

Eu foto de fevereiro de 2019

chão batido

Claudio e Valentina pintando 2019

…, sigo. Eu te procuro. Ansiosa e zelosa. Na rodoviária peço café, água e espero. Encontro sem lugar nem hora marcada.  Atrasados. Adiantados. Olho para os lados. O acaso. Quero dizer o que não te disse ontem. Quero te ver e te encontrar mais uma vez… Que importa tempo, anos, passado. Somos hoje. Nem o que falta, muito menos, abundância. Somos o mato e o mar. Rota/rumo. Supero o corcoveado da estrada de chão batido. Vives como vivo, no desejo. No teu bolso, na camisa puída, no teu orgulho, eu estou. Acompanho os jogos, lês todos os livros. Estás em mim. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres